{"id":307907,"date":"2023-12-23T09:00:52","date_gmt":"2023-12-23T09:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=307907"},"modified":"2023-12-18T17:33:27","modified_gmt":"2023-12-18T17:33:27","slug":"vamos-a-belem-ver-o-que-aconteceu-lc-2-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/vamos-a-belem-ver-o-que-aconteceu-lc-2-15\/","title":{"rendered":"Vamos a Bel\u00e9m ver o que aconteceu (Lc 2, 15)"},"content":{"rendered":"<p><em>Ir. Maria Jos\u00e9 Oliveira, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-307911 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/ir-maria-jose-oliveira-347x260.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/ir-maria-jose-oliveira-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/ir-maria-jose-oliveira-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/ir-maria-jose-oliveira.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/>H\u00e1 precisamente 800 anos, S. Francisco de Assis teve a feliz ideia de reinventar o Pres\u00e9pio. A convite do Papa Francisco, no documento \u201cAdmir\u00e1vel Sinal\u201d, publicado em 2019 \u00aba mente leva-nos a Greccio, no Vale de Rieti; aqui se deteve S\u00e3o Francisco, provavelmente quando vinha de Roma onde recebera, do Papa Hon\u00f3rio III, a aprova\u00e7\u00e3o da sua Regra em 29 de novembro de 1223. Aquelas grutas, depois da sua viagem \u00e0 Terra Santa, faziam-lhe lembrar de modo particular a paisagem de Bel\u00e9m [\u2026]. Em Greccio, naquela ocasi\u00e3o, n\u00e3o havia figuras; o Pres\u00e9pio foi formado e vivido pelos que estavam presentes. Assim nasce a nossa tradi\u00e7\u00e3o [\u2026]. Com a simplicidade daquele sinal, S\u00e3o Francisco realizou uma grande obra de evangeliza\u00e7\u00e3o. O seu ensinamento penetrou no cora\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os, permanecendo at\u00e9 aos nossos dias como uma forma genu\u00edna de repropor, com simplicidade, a beleza da nossa f\u00e9\u00bb (AS, 1-2).<\/p>\n<p>Na descri\u00e7\u00e3o que deste acontecimento nos d\u00e1 Tom\u00e1s de Celano, seu primeiro bi\u00f3grafo, vem assim expressa a inten\u00e7\u00e3o do Santo: \u00ab\u00c9 meu desejo celebrar a mem\u00f3ria do Menino que nasceu em Bel\u00e9m <strong>de modo a poder contemplar com os meus pr\u00f3prios olhos<\/strong> o desconforto que ent\u00e3o padeceu e o modo como foi reclinado no feno da manjedoura, entre o boi e o jumento\u00bb (1Cel 84). Paremos na express\u00e3o: \u201c<strong>de modo a poder contemplar com os meus pr\u00f3prios olhos\u201d. <\/strong><\/p>\n<p>D\u00e1 ideia que S. Francisco construiu um pres\u00e9pio de forma l\u00fadica, como se faz uma atividade com crian\u00e7as. O despertar para a vida leva-as a querer ver, a querer experimentar, a tentar perceber como foi. O pres\u00e9pio \u00e9 elemento de contempla\u00e7\u00e3o, leitura, encontro sens\u00edvel com o Evangelho. Fazer o pres\u00e9pio com olhos de f\u00e9 torna-se ora\u00e7\u00e3o, ponte de comunh\u00e3o com Aquele que \u00e9 o centro do pres\u00e9pio, Jesus.<\/p>\n<p>A contempla\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito ligada ao olhar. Mas de que olhar se trata? A vis\u00e3o n\u00e3o se esgota nos olhos. Este bem precioso n\u00e3o se compra apenas nas \u00f3ticas e a sua falta nem sempre se diagnostica junto dos oftalmologistas.<\/p>\n<p>A f\u00e9 \u00e9 aliada da vis\u00e3o. \u201cVer para crer\u201d, \u00e9 express\u00e3o que referimos \u00e0 incredulidade do Ap\u00f3stolo Tom\u00e9 quando n\u00e3o acredita no ressuscitado apenas pela descri\u00e7\u00e3o dos companheiros. O papa Francisco d\u00e1-nos a invers\u00e3o desta receita: ver porque cremos, pois \u00abquem acredita, v\u00ea; v\u00ea com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada\u00bb (LF, 1). Esta palavra na Enc\u00edclica Lumen Fidei, que Francisco completou do seu predecessor o Papa Bento XVI, ajuda-nos a perceber qu\u00e3o importante \u00e9 tratar da vis\u00e3o da f\u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso lavar frequentemente os olhos nas fontes da inoc\u00eancia. Inoc\u00eancia \u00e9 palavra muito desprezada pela sua conota\u00e7\u00e3o \u00e0 ignor\u00e2ncia, \u00e0 timidez e \u00e0 ingenuidade. Mas n\u00e3o! O ant\u00f3nimo de inoc\u00eancia n\u00e3o \u00e9 a esperteza, mas a rudeza e a mal\u00edcia. A inoc\u00eancia purifica o nosso olhar para ver com os olhos de Deus a alegria das suas obras e deixar ecoar delas o espanto e a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as.<\/p>\n<p>H\u00e1 os vision\u00e1rios, cujos olhos s\u00e3o c\u00e1lices do futuro.\u00a0 Homens tremendamente realistas que o saboreiam j\u00e1 nos sinais e nos sonhos que levam adiante de si, num \u00edmpeto transformador. E convencem o futuro a ficar para peregrinar.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso fazer com assiduidade uma terapia que liberte os nossos olhos da pel\u00edcula do \u201cj\u00e1 visto\u201d, porque esta bloqueia-nos o acesso ao mist\u00e9rio. A rotina pode encardir a alma e desgra\u00e7ar a capacidade de encontrar o valor das coisas mais simples.<\/p>\n<p>Frequentemente confunde-se o ver com o viajar, como se s\u00f3 o ato de bisbilhotar todos os cantos do mundo nos pudesse dar um curriculum de imagens. O meu pai, por brincadeira, dizia que era um \u201ctipo muito viajado\u201d pois \u201cj\u00e1 tinha ido ao estrangeiro\u201d, s\u00f3 porque tinha visitado uma povoa\u00e7\u00e3o espanhola logo ap\u00f3s a fronteira, que fica a uns 30 quil\u00f3metros da nossa aldeia. Mas com este tipo de rodagem era um homem que conseguia ver um mundo quando se punha a considerar um formigueiro e os caminhos que para l\u00e1 correm e de l\u00e1 saem.<\/p>\n<p>Muitas vezes olha-se demasiado para fora s\u00f3 porque \u00e9 assustador olhar para dentro de n\u00f3s pr\u00f3prios. Daniel Faria tem um verso que nos faz pensar que o olhar para dentro nos obriga a sair para fora: \u201cTrouxe tamb\u00e9m os instrumentos dos mineiros\/ Uma luz na cabe\u00e7a voltada para o pensamento\/ Um olhar profundo\/ O modo prisioneiro de virem livremente para fora.\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>A frase que intitula este texto, retirada do Evangelho segundo S. Lucas, \u00e9 atribu\u00edda aos pastores que, depois da apari\u00e7\u00e3o de um Anjo e do coro celestial, a proferem num misto de alegria e curiosidade. Os pastores s\u00e3o homens que vivem fora da cidade. Mas est\u00e3o expostos a horizontes infindos. O seu of\u00edcio \u00e9 guardar e vigiar. Estes dois verbos est\u00e3o dependentes da vis\u00e3o e sup\u00f5em uma vis\u00e3o apurada. Ao apuramento da vis\u00e3o chama-se repara\u00e7\u00e3o.\u00a0 \u00c9 muito dif\u00edcil ver bem em andamento. As imagens desfocam-se, sucedem-se e fogem. Temos de parar para ver.\u00a0 Mas para ver bem, precisamos de parar outra vez, ou seja reparar. Os olhos s\u00e3o a janela da alma e com eles podemos afinal consertar tantas realidades, dentro e fora de n\u00f3s! Eles t\u00eam uma linguagem subtil e uma capacidade infinda de apreender e de colorir o mundo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos pastores, o pres\u00e9pio est\u00e1 cheio de olhares cuja contempla\u00e7\u00e3o t\u00e3o bem nos far\u00e1. \u00c9 o olhar de Maria que \u201cguarda\u201d o seu Menino; \u00e9 o olhar de Jos\u00e9 que protege estes dois tesouros colocados sob o seu carinho e aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 o olhar dos pobres que buscam um abrigo. \u00c9 o olhar dos animais que representam esta cria\u00e7\u00e3o a gemer uma liberta\u00e7\u00e3o. \u00c9, enfim, o olhar dos magos que sabem ler nos fr\u00e1geis sinais das estrelas um texto de liberta\u00e7\u00e3o. Que distinguem as oportunidades e lobrigam os perigos. Olhar perspicaz e atento o destes homens que leem em Herodes os sinais da maldade e da pervers\u00e3o e n\u00e3o temem abordar o desconhecido de caminhos novos.<\/p>\n<p>Neste tempo de tantas distra\u00e7\u00f5es, de tantas guerras e inquieta\u00e7\u00f5es regressemos ao pres\u00e9pio e coloquemos o nosso olhar em cada figura. Em qualquer forma de apresenta\u00e7\u00e3o ele nunca ser\u00e1 uma pe\u00e7a ext\u00e1tica, mas um manancial de movimento e de dinamismo. Fa\u00e7amos o pres\u00e9pio em nossas casas, contemplemos o amor que regressa \u00e0s nossas vidas, deixemo-nos inundar pela sua luz e pela sua paz. O pres\u00e9pio pode ser terapia para um individualismo crescente, expressiva li\u00e7\u00e3o de catecismo para as nossas crian\u00e7as, an\u00fancio de Evangelho para as nossas visitas e convidados. Fazer o pres\u00e9pio pode ressuscitar em n\u00f3s a inf\u00e2ncia enterrada sob uma adultez viciada e envelhecida. O pres\u00e9pio \u00e9 janela para uma f\u00e9 que precisa sempre de crescer.<\/p>\n<p>E passemos da manjedoura ao altar. Continua assim o relato das Fontes Franciscanas: \u00ab\u00c9 celebrado o rito solene da Eucaristia sobre a manjedoura, e o sacerdote que a celebra sente uma consola\u00e7\u00e3o jamais experimentada. (1Cel 85)\u00bb. Em Greccio a manjedoura tornou-se altar!<\/p>\n<p>S. Francisco n\u00e3o colocou na manjedoura qualquer pe\u00e7a de ouro, de cer\u00e2mica, ou de qualquer material nobre em forma de Menino, mas \u00e9 o pr\u00f3prio Jesus na Eucaristia que sobre ela se reclina. \u00c9 o milagre que para n\u00f3s acontece em cada celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia. Fa\u00e7amos o pres\u00e9pio para ver Jesus! Adoremo-l\u2019O vivo e realmente presente na Eucaristia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ir. Maria Jos\u00e9 Oliveira, sfrjs<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> FARIA, Daniel. Poesia. Ass\u00edrio &amp; Alvim.2\u00aa Edi\u00e7\u00e3o. setembro de 2015. P. 183<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ir. 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