{"id":307557,"date":"2023-12-17T09:31:51","date_gmt":"2023-12-17T09:31:51","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=307557"},"modified":"2023-12-15T13:19:33","modified_gmt":"2023-12-15T13:19:33","slug":"sociedade-pobreza-em-portugal-e-um-fenomeno-estrutural-presidente-da-uniao-das-misericordias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sociedade-pobreza-em-portugal-e-um-fenomeno-estrutural-presidente-da-uniao-das-misericordias\/","title":{"rendered":"Sociedade: \u00abPobreza em Portugal \u00e9 um fen\u00f3meno estrutural\u00bb &#8211; Presidente da Uni\u00e3o das Miseric\u00f3rdias"},"content":{"rendered":"<p><em>Manuel Lemos, reeleito para a presid\u00eancia da UMP para o quadri\u00e9nio 2024\/2027, \u00e9 o convidado desta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_194112\" aria-describedby=\"caption-attachment-194112\" style=\"width: 840px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-194112 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base.jpg\" alt=\"\" width=\"840\" height=\"471\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base.jpg 840w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base-400x224.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base-768x431.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base-480x269.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-194112\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Foi eleito para um sexto mandato, tendo pela primeira vez em 20 anos, um concorrente. Foi desse ponto de vista uma elei\u00e7\u00e3o diferente porque produziu mais debate? H\u00e1 ideias do seu advers\u00e1rio que admite adotar nos pr\u00f3ximos anos?<\/em><\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es do meu advers\u00e1rio situavam-se sobretudo num \u00fanico plano, que era o plano da sustentabilidade e da minha eventual agressividade para com os governos para aumentar essa sustentabilidade. s\u00e3o modos diferentes de entender esta fun\u00e7\u00e3o. Eu considero que sou resiliente que sou competente porque tenho uma equipa muito grande que me d\u00e1 os dados corretos e eu trabalho nisso. A quest\u00e3o da agressividade\u2026.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vai mant\u00ea-la?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 aquela que eu tenho sempre e que eu acho que tem de se manter dentro de n\u00f3s. N\u00f3s n\u00e3o somos um sindicato. Isso n\u00e3o quer dizer que os sindicatos sejam agressivos. N\u00f3s temos uma natureza, e uma identidade pr\u00f3pria e, portanto, quem estiver aqui nas fun\u00e7\u00f5es que eu tenho; tem que\u00a0sempre ter isso em primeiro lugar.\u00a0E a nossa marca \u00e9 pela defesa intransigente dos valores, pela defini\u00e7\u00e3o de linhas vermelhas. E depois por um di\u00e1logo construtivo, num Estado que \u00e9 pobre e em que o setor social n\u00e3o \u00e9 muito bem tratado, de facto. E depois n\u00e3o podemos esquecer que a \u00faltima palavra compete sempre ao Estado e, no caso concreto, aos governos e nomeadamente nestes \u00faltimos anos, a um governo de maioria absoluta.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00f3s j\u00e1 iremos a essa quest\u00e3o da mudan\u00e7a de governo, mas antes quero perguntar-lhe se ao olhar para estes anos que se passaram se a pandemia foi o momento mais complicado do \u00faltimo mandato. E se agora com o cen\u00e1rio social que se vive, se projeta uma crise mais Aguda?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s tivemos uma sucess\u00e3o de casos dif\u00edceis. N\u00f3s tivemos a Troika e a Troika foi um momento muito complicado porque houve muito poucas atualiza\u00e7\u00f5es durante esse per\u00edodo impostas pela Troika. E a\u00ed o setor social come\u00e7ou a entrar em perda naquilo que era o desfasamento entre o custo real das respostas sociais e aquilo que o Estado estava disposto a pagar.<\/p>\n<p>Depois, a pandemia levou-nos as tesourarias, porque fizemos a\u00ed um esfor\u00e7o brutal. E quando julg\u00e1vamos que \u00edamos entrar numa normalidade, o que \u00e9 que nos aconteceu? Fomos confrontados com uma guerra que trouxe consigo duas coisas. Primeiro, uma infla\u00e7\u00e3o nunca vista nos \u00faltimos 30 anos. E tamb\u00e9m aqueles que estavam e que tinham em curso investimentos, ou que estavam a pensar em fazer investimentos confrontaram-se com as taxas de juros alt\u00edssimas. Portanto, isto tudo somado, deu de facto uma mudan\u00e7a brutal no que era a nossa postura no terreno em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s respostas, porque n\u00f3s continuamos a responder. Eu em todo o caso, gostava de dizer uma coisa que penso que \u00e9 muito importante.\u00a0Quando n\u00f3s vemos fechar milhares de empresas, quando n\u00f3s vemos muita gente com grandes dificuldades, n\u00f3s conseguimos que em Portugal n\u00e3o fechasse uma \u00fanica miseric\u00f3rdia. Mesmo a mais pequenina, das mais pequeninas, com dificuldades grav\u00edssimas, manteve-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E h\u00e1 o risco de alguma poder vir a fechar?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 vou, mas antes deixe-me dizer-lhe que, apesar das dificuldades, neste per\u00edodo, abriram miseric\u00f3rdias. Isto \u00e9, h\u00e1 aqui um movimento que tem muito a ver com a marca miseric\u00f3rdia. A marca miseric\u00f3rdia est\u00e1 muito forte. Mas, sim &#8211; para responder \u00e0 sua pergunta &#8211; ningu\u00e9m aguenta eternamente uma degrada\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, e por isso as miseric\u00f3rdias e o setor todo passam dificuldades.\u00a0E repare: como as negocia\u00e7\u00f5es s\u00e3o iguais para todas as entidades representativas do sector social, como \u00e9 que fica uma pequena IPSS ou um Centro Paroquial perante uma miseric\u00f3rdia? Apesar de tudo a situa\u00e7\u00e3o deles \u00e9 muito mais complexa. N\u00f3s o que queremos e \u00e9 nisso que estamos a trabalhar \u00e9 inverter essa situa\u00e7\u00e3o. E como? Cumprindo o pacto de solidariedade.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 por isso que a sustentabilidade vai continuar a ser, ent\u00e3o o seu cavalo de batalha, digamos assim? A forma como nos \u00faltimos tempos o Estado passou a olhar para o setor \u00e9 um bom sinal?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu tenho, se quiser, alguns cavalos de batalha. O primeiro \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o da identidade e da autonomia. N\u00f3s n\u00e3o chegamos aqui por acaso, atravessamos os s\u00e9culos, n\u00e3o havia Estado. \u00c9 isto que os portugueses conhecem, \u00e9 isto que os portugueses querem. Depois, antes da sustentabilidade, n\u00f3s temos de ter previsibilidade. E temos de ter, tamb\u00e9m, uma situa\u00e7\u00e3o de sabermos aquilo com que vamos contar no terreno, para que as respostas possam ser duradouras. E s\u00f3 isso \u00e9 que nos conduz \u00e0 sustentabilidade.\u00a0 Estes quatro fatores, todos juntos \u00e9 que s\u00e3o o ADN da nossa atividade.<\/p>\n<p>Eu acho que h\u00e1 duas maneiras de olhar para o setor social. H\u00e1 uma maneira europeia, digamos, com sucessivas recomenda\u00e7\u00f5es e at\u00e9 diretivas do Conselho Europeu, que dizem, apostem l\u00e1, Estados-membros no setor social. Depois h\u00e1 uma maneira portuguesa, que olha para o setor social com palavras muito simp\u00e1ticas, muito af\u00e1veis, muito gentis, mas que depois, na altura de olhar para o setor social, no sentido de ele ter os meios para cumprir a sua decis\u00e3o,\u00a0o desvaloriza sempre. \u00c9 preciso ser muito resiliente, \u00e9 preciso ser muito resiliente, muito teimoso, muito competente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o que \u00e9 preciso melhorar ao n\u00edvel dos acordos de coopera\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 preciso caminhar em dire\u00e7\u00e3o aos 50%.\u00a0Quando se celebrou o primeiro pacto de coopera\u00e7\u00e3o para a solidariedade, h\u00e1 27 anos, o ent\u00e3o primeiro-ministro de Portugal, o engenheiro Ant\u00f3nio Guterres, disse que o Estado devia pagar nas respostas da coopera\u00e7\u00e3o,\u00a0isto \u00e9, aquelas que est\u00e3o nos acordos, no m\u00ednimo 50% e desejavelmente 60%. Mas isso n\u00e3o estava no pacto. Isso disse ele no seu discurso. N\u00e3o estava l\u00e1 valor nenhum. Os anos passaram e em 2022, quando se celebraram os 25 anos do pacto para a coopera\u00e7\u00e3o; o setor social em intera\u00e7\u00e3o com o governo, considerou essencial que l\u00e1 ficasse a quest\u00e3o de no m\u00ednimo os 50%.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E estamos a caminhar para a\u00ed? <\/em><\/p>\n<p>E ent\u00e3o at\u00e9 pusemos equitativo. Porque, por exemplo, nas crian\u00e7as em risco, e nos deficientes tem de ser claramente muito acima dos 50%. Portanto, onde \u00e9 que estamos? Se formos para a grande resposta t\u00edpica da coopera\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o os lares, antes dos atuais aumentos, em 2022 est\u00e1vamos em 38%. Ainda n\u00e3o metemos as contas em 2023, mas em 2022 est\u00e1vamos em 38%, sem contar com os investimentos.<\/p>\n<p>Se metermos investimentos regride para 34%.\u00a0 Mas se olharmos para as contas que est\u00e3o na plataforma onde o setor social\u00a0p\u00f5e as suas contas por for\u00e7a da lei, isso d\u00e1 de explora\u00e7\u00e3o um valor de 38%. Isto \u00e9, estamos a 12% do alvo.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ainda h\u00e1 pouco falava da rela\u00e7\u00e3o que foi feita com o governo de maioria absoluta. E tenho de lhe perguntar se receia que os resultados das pr\u00f3ximas legislativas alterem o relacionamento do Estado com o setor social?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Eu quando falei do resultado da maioria absoluta, era at\u00e9 do lado negativo. \u00c9 dif\u00edcil negociar com o governo\u00a0de maioria absoluta que n\u00e3o tem, em teoria, que pactuar com ningu\u00e9m. Era isto que eu queria dizer.\u00a0Agora, apesar de noutras coisas, quando o governo quer, \u00e9 mais f\u00e1cil. Se \u00e9 de maioria absoluta, e se o Governo quer, ent\u00e3o avan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a esse n\u00edvel receia que um futuro governo tenha um relacionamento diferente? <\/em><\/p>\n<p>Eu diria que o que mais me preocupa \u00e9 a instabilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A tal imprevisibilidade de que falava h\u00e1 pouco?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim. Porque colocam-se diversas quest\u00f5es:\u00a0 O que \u00e9 que vamos fazer? Como vamos fazer? Com quem \u00e9 que vamos negociar? Daqui a quanto tempo? Se houver um surto de infla\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um governo que, a meio do caminho, consegue ter capacidade, de dizer, vamos aqui refor\u00e7ar o setor social?\u00a0\u00a0Ou mesmo: Haver\u00e1 governo? Isto \u00e9, quanto tempo vai levar a formar governo depois do dia 10 de mar\u00e7o? E esse governo passar\u00e1\u00a0na Assembleia da Rep\u00fablica?<\/p>\n<p>O meu risco \u00e9 de n\u00e3o ter interlocutor. Porque se tiver interlocutor, e porque os dois grandes partidos &#8211; PSD e o PS &#8211; os dois t\u00eam preocupa\u00e7\u00f5es sociais, os dois olham de maneira de diferente, mas ambos querem cumprir a Constitui\u00e7\u00e3o nessa mat\u00e9ria.\u00a0O problema \u00e9 ter interlocutor. Com quem \u00e9 que nos vamos sentar \u00e0 mesa depois de 10 de mar\u00e7o?<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Em particular o caminho feito pelos partidos de marca populista e o seu crescimento, isso \u00e9 responsabilidade de quem? <\/em><\/p>\n<p>Do setor social \u00e9 que n\u00e3o \u00e9, porque o setor social \u00e9 inclusivo, o setor social ajuda as pessoas e, portanto, se quiser dessa equa\u00e7\u00e3o, n\u00f3s estamos fora. Eu acho que h\u00e1 v\u00e1rios fatores, e at\u00e9 vou come\u00e7ar pelo que eu considero mais evidente, que toda a gente vive no dia-a-dia, que s\u00e3o as consequ\u00eancias da pandemia. As pessoas ficaram muito mais irritadas, apitam muito mais na rua, est\u00e3o muito mais zangadas, s\u00e3o muito mais agressivas umas com as outras, e os partidos populistas captam isso com grande facilidade. \u00c0 esquerda e \u00e0 direita.<\/p>\n<p>E, depois, h\u00e1 alguns excessos pol\u00edticos, de um lado e do outro, que deixam as pessoas muito insatisfeitas. Eu vou dar um exemplo que n\u00e3o tem nada a ver com as Miseric\u00f3rdias. As pessoas n\u00e3o querem saber onde fica o aeroporto. As pessoas querem \u00e9 um aeroporto, acham que tem de haver uma decis\u00e3o sobre o aeroporto. As pessoas n\u00e3o querem saber do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade: As pessoas querem m\u00e9dicos e cuidados de sa\u00fade, quando n\u00e3o os t\u00eam, e depois as pessoas levam isto para discuss\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 muito f\u00e1cil hoje, sobretudo de uma maneira demag\u00f3gica, defender o branco e o seu contr\u00e1rio. \u00c9 fac\u00edlimo, \u00e9 uma quest\u00e3o de se p\u00f4r de um determinado ponto de vista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o a culpa \u00e9 dos pol\u00edticos que n\u00e3o sabem ou n\u00e3o conseguem descontextualizar todo esse tipo de discurso?<\/em><\/p>\n<p>\u00c0s vezes \u00e9 de comunica\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos, isso acredito que sim. Mais do que do que os pr\u00f3prios pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Eu tenho muito respeito pela atividade pol\u00edtica, mas mesmo muito. Acho que \u00e9 uma atividade muito nobre, mas, muitas vezes, a quest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m mudou. Dantes era preto e branco, hoje \u00e9 totalmente a cores, e voc\u00eas sabem isso muito melhor do que eu. E, portanto, voc\u00ea pode estar a ouvir num simples <em>zapping<\/em> coisas completamente contr\u00e1rias, e ambas fazem sentido. Este tamb\u00e9m tem raz\u00e3o, e este tamb\u00e9m tem raz\u00e3o. E depois \u00e9 dif\u00edcil tirar a bissetriz disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ap\u00f3s as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es vai ser necess\u00e1rio a reativa\u00e7\u00e3o das linhas de di\u00e1logo. H\u00e1 pouco manifestava alguma preocupa\u00e7\u00e3o relativamente ao facto de poder, nos pr\u00f3ximos tempos, n\u00e3o ter um interlocutor. Est\u00e1 confiante para esse processo, seja qual for o governo?<\/em><\/p>\n<p>Se houver governo, estou confiante. Porque, seja quem for, n\u00f3s l\u00e1 estaremos para conversar com ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas deixou a entender que o pa\u00eds torna um pouco ingovern\u00e1vel\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, pode demorar muito tempo a formar governo. Pode o governo que seja formado n\u00e3o passe na Assembleia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esse \u00e9 o cen\u00e1rio mais prov\u00e1vel?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei, n\u00e3o sou polit\u00f3logo. Mas isso pode acontecer, n\u00e3o \u00e9? E, como isso pode acontecer, \u00e9 evidente que quem desempenha as fun\u00e7\u00f5es que eu tenho, estamos preocupados. \u00c9 sinal de responsabilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s vamos voltar agora a falar um bocadinho sobre a miss\u00e3o que foi confiada at\u00e9 2027, \u00e9 j\u00e1 o sexto mandato. S\u00f3 para dar uma compara\u00e7\u00e3o para as pessoas que nos ouvem perceberem, j\u00e1 tem mais anos \u00e0 frente a Uni\u00e3o das Miseric\u00f3rdias, por exemplo, que o padre V\u00edtor Mel\u00edcias. Acredita que este ser\u00e1 o seu \u00faltimo mandato?<\/em><\/p>\n<p>Tenho a certeza absoluta. Eu tenho muitas outras coisas para fazer, gostava de fazer outras coisas. Percebo bem o dever da vida e achava que estava na altura de o apreciamento de uma outra lista, que n\u00e3o merecia o entusiasmo dos produtores. Ali\u00e1s, viu-se no resultado, tivemos mais do que o n\u00famero de votos.<\/p>\n<p>Portanto, que me entraram para o gabinete dentro: \u2018o senhor est\u00e1 \u00f3timo, est\u00e1 em boa forma f\u00edsica, est\u00e1 em boa forma mental, est\u00e1 bem-disposto, continua bem-disposto. Portanto, n\u00f3s precisamos de pessoas assim, por favor, fa\u00e7a outro mandato\u2019. Mas, em boa verdade, at\u00e9 considero excessivo, isso. Eu considero isso excessivo.<\/p>\n<p>Agora, as institui\u00e7\u00f5es do setor social t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o, e essa \u00e9 a minha principal fun\u00e7\u00e3o neste mandato, \u00e9 de encontrar a equipa e o l\u00edder da equipa que me vai substituir. Quando isso acontecer, eu vou para casa com a satisfa\u00e7\u00e3o do dever cumprido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ao longo da sua vida p\u00fablica, integrou estruturas de luta contra a pobreza, por exemplo. A estrat\u00e9gia nacional definida este ano para combater o fen\u00f3meno, era a pe\u00e7a que faltava para o combate ao fen\u00f3meno, ou ficam aqu\u00e9m? <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o. Eu j\u00e1 tive ocasi\u00e3o de dizer isso. \u00c9 um esfor\u00e7o, mas eu acho que devia ter havido muito mais conversa e muito mais reflex\u00e3o. Reflex\u00e3o a todos os n\u00edveis sobre como combater a pobreza.<\/p>\n<p>O documento \u00e9 esfor\u00e7ado, tem aspetos positivos. L\u00e1 estamos, quem quiser pegar nos aspetos, quem quiser pegar nos aspetos negativos diz que aquilo n\u00e3o presta para nada, nem uma coisa nem outra. Acho que \u00e9 um documento esfor\u00e7ado, tem m\u00e9ritos, mas n\u00e3o envolve as pessoas e as institui\u00e7\u00f5es. Diz que vai envolver, mas \u00e9 completamente diferente de envolver. Diz que n\u00e3o sei o que \u00e9, mas n\u00e3o o fez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Deveria ter sido um trabalho pr\u00e9vio?<\/em><\/p>\n<p>Devia ser. Os irlandeses t\u00eam a prop\u00f3sito at\u00e9 da forma\u00e7\u00e3o, uma frase em ingl\u00eas que diz mais ou menos assim, vou tentar fazer uma tradu\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o brilhante como a frase em ingl\u00eas: \u2018Diz-me, eu vou esquecer, tenta ensinar-me e eu talvez me esque\u00e7a, envolve-me e eu nunca mais me esque\u00e7o\u2019. E \u00e9 isso que n\u00e3o aconteceu. E, portanto, apareceu muito como um documento pol\u00edtico e muito menos como um documento&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E est\u00e1 condenado ao fracasso?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 condenado ao fracasso, porque como digo, tem coisas muito boas. A pobreza em Portugal \u00e9 um fen\u00f3meno estrutural, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno conjuntural. N\u00f3s estamos a assistir, eu tenho at\u00e9 falado sobre isso, sobre alguns aspetos que nos preocupam muito, as pessoas com emprego que est\u00e3o na pobreza. E digamos, esse \u00e9 um fen\u00f3meno novo, ou melhor, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o novo assim, mas aparece como um fen\u00f3meno cada vez mais evidente. Os casais monoparentais, as mulheres com muitos filhos, tudo isso merece uma reflex\u00e3o muito grande. As zonas depauperadas, o interior portugu\u00eas. A minha fam\u00edlia tem uma casa ali para os lados de Amares, h\u00e1 dias vi pela primeira vez na minha vida, com esta idade, abri o port\u00e3o da quinta e estava uma manada de javalis \u00e0 porta. Isso tamb\u00e9m \u00e9 sintoma de alguma coisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu pergunto-lhe uma medida concreta deste governo, veremos como \u00e9 que ser\u00e1 no pr\u00f3ximo, mas o IVA zero, em bens essenciais, sabemos que vai acabar no in\u00edcio do pr\u00f3ximo ano, mas que a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica dos portugueses, em boa parte, n\u00e3o melhorou, na verdade. E apesar da infla\u00e7\u00e3o ter vindo a descer considera que seria necess\u00e1rio manter este cabaz?<\/em><\/p>\n<p>Eu diria que era melhor. Uma dessas gra\u00e7as que passam nos WhatsApps, a prop\u00f3sito do Black Friday, temos aqui uns pre\u00e7os excecionais, porque temos metade do dobro. Portanto, o IVA zero \u00e9 importante se controlarem os pre\u00e7os, se n\u00e3o se controlarem os pre\u00e7os, n\u00e3o sei, parece-me, que houve um esfor\u00e7o no sentido de controlar os pre\u00e7os. O que \u00e9 importante \u00e9 controlar os pre\u00e7os, porque \u00e9 evidente que a parte de uma subida compreens\u00edvel dos pre\u00e7os, nomeadamente dos cereais, etc., h\u00e1 \u00e0 mistura alguma especula\u00e7\u00e3o. Alguma especula\u00e7\u00e3o que \u00e9 fundamental que esteja contida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Do ponto de vista social, quais s\u00e3o as suas grandes preocupa\u00e7\u00f5es? A situa\u00e7\u00e3o dos idosos, o abandono, os internamentos sociais, o envelhecimento?<\/em><\/p>\n<p>O envelhecimento e a situa\u00e7\u00e3o dos idosos s\u00e3o preocupantes. \u00c9 muit\u00edssimo preocupante. E \u00e9 uma \u00e1rea onde n\u00f3s podemos ajudar muito, como podemos ajudar nas \u00e1reas&#8230; Um colega vosso perguntava-me o que \u00e9 que eu acho das vagas hospitalares. E eu disse que de repente deixei de ter press\u00e3o. Isto \u00e9, de alguma maneira, durante uns meses, era normal, nas conversas que tinha com os respons\u00e1veis p\u00fablicos, esta quest\u00e3o, e de repente ela desapareceu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas desapareceu porqu\u00ea? O fen\u00f3meno continua. Os internamentos sociais continuam.<\/em><\/p>\n<p>Mas repare, os internamentos sociais, n\u00f3s temos de olhar para eles: apareceram nos lares muitas pessoas doentes e chamaram-lhe internamento social. N\u00e3o \u00e9 internamento social. Por exemplo, uma pessoa partiu um bra\u00e7o, mas tem uma doen\u00e7a mental, a alta \u00e9 sobre o doente, ou \u00e9 sobre o bra\u00e7o que est\u00e1 partido, ou \u00e9 sobre a doen\u00e7a mental.<\/p>\n<p>Quer dizer, o homem como um todo, t\u00e3o caro \u00e0s Miseric\u00f3rdias, t\u00e3o caro \u00e0 R\u00e1dio Renascen\u00e7a, t\u00e3o caro \u00e0 ECCLESIA, est\u00e1 aqui posto aos bocados, como se pudessem cortar as pessoas \u00e0s fatias. Portanto, \u00e9 preciso, mais uma vez, eu sei que \u00e9 preciso andar depressa, porque as quest\u00f5es agudizam-se, mas resolve-se melhor o problema se perdermos mais meia hora a falar com quem sabe, do que a fazer uma coisa num gabinete e depois faz o desenho. O que \u00e9 que acontece? Muitas institui\u00e7\u00f5es que abriram as portas para acolher as vagas hospitalares, agora n\u00e3o querem mais. N\u00e3o querem mais porque apareceram l\u00e1 pessoas com outras patologias.<\/p>\n<p>As pessoas n\u00e3o eram vagas sociais, ou tamb\u00e9m eram altas sociais. Tamb\u00e9m eram altas sociais, mas continuavam a ser&#8230; N\u00f3s precisamos de uma rede de cuidados continuados.<\/p>\n<p>Exatamente, n\u00f3s precisamos mesmo de uma rede de cuidados continuados. E parece que vai ser uma portaria, mais 500 camas, mas precisas mais 10 mil camas. E pagas a pre\u00e7o, n\u00e3o \u00e9 por um senhor l\u00e1 no PRR dizer que as camas s\u00e3o a 42 mil euros, que as camas s\u00e3o a 42 mil euros. N\u00e3o s\u00e3o, s\u00e3o a 60 ou 70 mil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma rede de cuidados continuados ajudaria a melhorar a situa\u00e7\u00e3o dos internamentos sociais?<\/em><\/p>\n<p>Resolvia esses problemas todos. Resolvia esses problemas todos, quando digo todos, a maioria esmagadora, porque depois, as altas sociais, essas sim, podiam ir para os lares. Porque para a rede de cuidados continuados iriam as pessoas com outras comorbilidades, que continuam a existir nas pessoas que t\u00eam alta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Lemos, reeleito para a presid\u00eancia da UMP para o quadri\u00e9nio 2024\/2027, \u00e9 o convidado desta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":194112,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-307557","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/307557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=307557"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/307557\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/194112"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=307557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=307557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=307557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}