{"id":307503,"date":"2023-12-16T09:32:11","date_gmt":"2023-12-16T09:32:11","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=307503"},"modified":"2023-12-15T10:33:58","modified_gmt":"2023-12-15T10:33:58","slug":"sentido-etico-dos-jogos-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sentido-etico-dos-jogos-sociais\/","title":{"rendered":"Sentido \u00e9tico dos jogos sociais"},"content":{"rendered":"<p>Jorge Teixeira da Cunha, Diocese do Porto<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_270870\" aria-describedby=\"caption-attachment-270870\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-270870\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/jorge-teixeira-da-cunha-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/jorge-teixeira-da-cunha-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/jorge-teixeira-da-cunha-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/jorge-teixeira-da-cunha-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/jorge-teixeira-da-cunha-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/jorge-teixeira-da-cunha-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/jorge-teixeira-da-cunha-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/jorge-teixeira-da-cunha-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/jorge-teixeira-da-cunha-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/jorge-teixeira-da-cunha.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-270870\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/LFS<\/figcaption><\/figure>\n<p>A cada passo se discutem as raz\u00f5es da popularidade dos jogos sociais no nosso pa\u00eds. A evid\u00eancia dessa popularidade \u00e9 intrigante. A vontade de jogar n\u00e3o \u00e9 de hoje. Pode-se comprovar que vem de longe esse gosto pelo jogo. Seja o jogo da lotaria, sejam as apostas desportivas relativas a jogos de futebol ou outras corridas, tudo serve para promover apostas e tentar a sorte. Onde aprenderam os portugueses o gosto pelo jogo? T\u00ea-lo-\u00e3o trazido das suas voltas pelo mundo? Ter\u00e1 sido desenvolvido ao longo do tempo, tendo em conta algum modo de ser que justifica esse comportamento. Reparemos que o jogo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 informal, mas \u00e9 tamb\u00e9m um sistema implantado e habilmente explorado por um organismo oficial, uma empresa p\u00fablica, que tem o monop\u00f3lio da actividade e at\u00e9 \u00e9 sucessora de uma conhecida institui\u00e7\u00e3o de caridade. O que leva os portugueses a gastar o que t\u00eam e, \u00e0s vezes, o que n\u00e3o t\u00eam, na esperan\u00e7a de um ganho, cuja promessa \u00e9 amplamente promovida por uma publicidade cuidada e massiva?<\/p>\n<p>O \u00edmpeto para o jogo \u00e9 um velho tema da literatura. A pessoa que se deixa cair no v\u00edcio do jogo est\u00e1 na base de muitas personagens de fic\u00e7\u00e3o. De um modo geral, o jogo \u00e9 um elemento desestruturante da personalidade, encaminhando o seu sujeito para desfechos tr\u00e1gicos ou, pelo menos, para o plano inclinado que leva nessa direc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Alguma vez, os estudiosos de \u00e9tica social se interessaram pela moralidade do jogo. Recolher uma pequena quantia de muitos apostadores e distribuir o produto acumulado por um ou por alguns deles tem uma remota ideia de gra\u00e7a e de justi\u00e7a. A ideia de gra\u00e7a pode ser vista na expectativa, um pouco apocal\u00edptica, de um bafejo inesperado da fortuna que alguma vez recompensa de maneira desmedida algu\u00e9m. Justi\u00e7a, no caso do jogo, \u00e9 uma remota alus\u00e3o a que cada um ter\u00e1 o que lhe \u00e9 devido, tendo em conta que todos ter\u00e3o a sua vez de ganhar. Mas a raridade das contempla\u00e7\u00f5es do jogo e a distens\u00e3o no tempo da vez da grande maioria dos jogadores torna quase completamente inoperante esta alus\u00e3o do jogo a uma ideia de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>O jogo, portanto, n\u00e3o tem uma justifica\u00e7\u00e3o \u00e9tica convincente e a sua moralidade \u00e9 duvidosa. Com \u00e9 poss\u00edvel ent\u00e3o que seja promovido, a n\u00edvel oficial, no nosso pa\u00eds um sistema de jogos sociais que levam alguns \u00e0 ru\u00edna, que distribuem ilus\u00f5es pela maioria dos que jogam, que induz \u00e0 depend\u00eancia doentia um grande n\u00famero? A ideia de centralizar os jogos num organismo oficial visa certamente evitar a explora\u00e7\u00e3o clandestina do jogo e destinar o produto financeiro do jogo para causas de manifesto interesse, como as obras sociais e a sustenta\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. De qualquer modo, este racioc\u00ednio \u00e9 muito resvaladi\u00e7o e n\u00e3o pode ser usado pela institui\u00e7\u00e3o estatal que se funda na justi\u00e7a e n\u00e3o pode sustentar-se na ideia de que de um mal pode resultar um bem. Por isso, n\u00e3o parece leg\u00edtimo que uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica jogue com a legitima\u00e7\u00e3o do jogo nem justifique o aumento da promo\u00e7\u00e3o do jogo com causas de utilidade para o bem comum.<\/p>\n<p>Mas a pergunta permanece: o que leva os portugueses, e outros povos, a apostar em jogos de sorte e azar com tanta depend\u00eancia? A nosso ver, essa tend\u00eancia cont\u00e9m em si uma \u00e2nsia e um protesto. Uma \u00e2nsia que mostra a nostalgia da justi\u00e7a, uma justi\u00e7a que tarda em triunfar, uma justi\u00e7a social que ser\u00e1 mesmo imposs\u00edvel de conseguir nesta vida. Jogar significa confiar num absoluto de substitui\u00e7\u00e3o, talvez num \u00eddolo. Por outro lado, h\u00e1 no jogo um protesto contra as condi\u00e7\u00f5es reais da vida, um protesto contra a pobreza, tanto merecida como imerecida, um grito de alma contra uma institui\u00e7\u00e3o estatal que n\u00e3o funciona, contra uma organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica madrasta e corrupta, e at\u00e9 um testemunho do jogador contra si pr\u00f3prio, enquanto incapaz de se empenhar com for\u00e7a em ganhar honestamente a sua vida.<\/p>\n<p>O jogo mostra mais o nosso pior do que o nosso melhor. Importa robustecer as energias do esp\u00edrito contra entropia do jogo e a trag\u00e9dia do vicio que leva em si. A verdadeira atitude religiosa pode dar um grande contributo para isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Teixeira da Cunha, Diocese do Porto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":270870,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-307503","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/307503","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=307503"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/307503\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/270870"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=307503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=307503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=307503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}