{"id":30741,"date":"2008-03-17T10:30:53","date_gmt":"2008-03-17T10:30:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/17\/homilia-do-arcebispo-de-braga-no-dia-de-ramos\/"},"modified":"2008-03-17T10:30:53","modified_gmt":"2008-03-17T10:30:53","slug":"homilia-do-arcebispo-de-braga-no-dia-de-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-arcebispo-de-braga-no-dia-de-ramos\/","title":{"rendered":"Homilia do Arcebispo de Braga no Dia de Ramos"},"content":{"rendered":"<p>Acolhendo o dom de Deus, dar alento \u00e0 juventude <!--more--> 1 \u2013 Entrada triunfante n\u00e3o \u00e9 um equ\u00edvoco   A celebra\u00e7\u00e3o do Domingo de Ramos \u00e9, sem d\u00favida, a celebra\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, como dom para a Humanidade. E porque se trata dessa revela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podia ser sen\u00e3o paradoxal. De facto, come\u00e7amos a liturgia com manifesta\u00e7\u00f5es de gl\u00f3ria, com a apresenta\u00e7\u00e3o de Jesus como Rei \u2013 um rei especial, \u00e9 verdade, mas de qualquer modo como presen\u00e7a da gl\u00f3ria de Deus. E depois transitamos para a paix\u00e3o, como se o epis\u00f3dio da entrada triunfante em Jerusal\u00e9m fosse um equ\u00edvoco e, em realidade, o projecto salv\u00edfico de Deus tivesse fracassado.  Mas \u00e9 precisamente nesse paradoxo que se nos revela o dom de Deus \u2013 ou Deus como dom supremo. \u00c9 que a gl\u00f3ria de Deus, isto \u00e9, a sua verdade, est\u00e1 precisamente na sua paix\u00e3o. Como poderemos n\u00f3s compreender tamanho desconcerto?  \u00c9 que a verdade de Deus \u00e9 precisamente o seu dar-se, dar-se totalmente at\u00e9 \u00e0 doa\u00e7\u00e3o da sua vida. Por isso, \u00e9 nessa manifesta\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do amor que se encontra a sua gl\u00f3ria.  Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre a glorifica\u00e7\u00e3o de Deus e a sua paix\u00e3o. Ali\u00e1s, a sua gl\u00f3ria assenta na sua paix\u00e3o, como nos expressa o conhecido hino da carta aos Filipenses \u201cN\u00e3o se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilam-se a si mesmos, assumindo a condi\u00e7\u00e3o de servos&#8230;\u201d (Fil 2, 6-11). A obedi\u00eancia at\u00e9 \u00e1 morte \u2013 como manifesta\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do amor \u2013 \u00e9 que permite a glorifica\u00e7\u00e3o. E esta n\u00e3o \u00e9 outra coisa que a gl\u00f3ria do amor, isto \u00e9, a salva\u00e7\u00e3o introduzida pela doa\u00e7\u00e3o da vida.  Isso n\u00e3o significa que essa entrega n\u00e3o seja dram\u00e1tica. O drama chega a atingir o extremo radical do pr\u00f3prio sentimento de abandono por Deus. O recurso ao salmista, que clama ao seu Deus e o questiona a respeito desta dor imensa, \u00e9 sinal de que a doa\u00e7\u00e3o da vida, como sinal de amor, n\u00e3o dispensa da agonia ou da luta com o pr\u00f3prio sentido da exist\u00eancia, presente no absurdo do sofrimento in\u00fatil e inocente. S\u00f3 a passagem por esse percurso escandaloso e a capacidade de, tal como Job, acolher Deus mesmo no limite do sentido, \u00e9 que permite a manifesta\u00e7\u00e3o da verdadeira gl\u00f3ria de Deus. Qualquer triunfalismo f\u00e1cil \u00e9 caminho de perdi\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a capacidade de dar a vida pelo outro \u00e9 que \u00e9 raiz do verdadeiro dom.  2 \u2013 Acolhimento do dom de Deus  A entrada em Jerusal\u00e9m pode ser compreendida como celebra\u00e7\u00e3o de acolhimento do Dom de Deus, presente em Jesus. Acolhimento esse que a\u00ed acontece como aclama\u00e7\u00e3o\/adora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas no sentido de j\u00fabilo, mas sobretudo no sentido de reconhecimento de que s\u00f3 Deus \u00e9 Deus e que s\u00f3 Jesus \u00e9 a Sua presen\u00e7a, o Seu dom entre n\u00f3s e para n\u00f3s.  Nesse sentido, essa aclama\u00e7\u00e3o antecipa o acolhimento do dom que, na paix\u00e3o, nos \u00e9 oferecido. Porque o acolhimento de Jesus implica a aceita\u00e7\u00e3o de toda a Sua pessoa e do Deus que nele se nos d\u00e1. Como diz Bento XVI, na enc\u00edclica Deus Caritas Est, \u201cNo in\u00edcio do ser crist\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma decis\u00e3o \u00e9tica ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que d\u00e1 \u00e0 vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo\u201d (n\u00ba1). Por isso, o acolhimento do dom n\u00e3o \u00e9 em primeiro lugar a aceita\u00e7\u00e3o de um ideal \u2013 porventura entusiasticamente presente neste epis\u00f3dio jubiloso, em que as multid\u00f5es se deixam conduzir pelas mais diversas ideologias \u2013 mas a aceita\u00e7\u00e3o do modo de ser de uma pessoa real. E esse modo de ser manifesta-se plenamente na paix\u00e3o.  Assim, a aclama\u00e7\u00e3o do domingo de Ramos significa o acolhimento do dom de Deus como dom salv\u00edfico. Esse dom salv\u00edfico \u00e9 a capacidade de dar a vida. Assim, aquilo que Deus nos d\u00e1, em Jesus, sobretudo na sua paix\u00e3o, \u00e9 a possibilidade de darmos a nossa vida, por amor e de, dando-a, a recebermos. Por isso, o Jesus revelado na entrada triunfante e na paix\u00e3o \u00e9 aquele que inaugura uma nova rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida e \u00e0 morte; uma rela\u00e7\u00e3o que as encara na din\u00e2mica da doa\u00e7\u00e3o gratuita de si.  3 \u2013 Alento \u00e0 Juventude  Desta din\u00e2mica resulta o compromisso ou a tarefa do crist\u00e3o, daquele que acolhe Jesus como dom de Deus, aclamando-o e seguindo-o, at\u00e9 \u00e0 morte. Na aclama\u00e7\u00e3o dos Ramos podemos suspeitar o entusiasmo juvenil de quem se deixa encantar ou fascinar por uma pessoa que atrai para si, de modo especial, todos os que buscam sentido. \u00c9, por isso, o modelo do entusiasmo dos jovens de todos os tempos. \u00c9, por assim dizer, o efeito da manifesta\u00e7\u00e3o da beleza de Deus, que, ao ser contemplada, atrai para si, emotivamente, todos aqueles que por ela se deixam atingir.  Mas n\u00e3o podemos esquecer que os textos deste Domingo s\u00e3o textos da paix\u00e3o. Por isso, a beleza de Deus n\u00e3o \u00e9 uma beleza superficial, ilusoriamente constru\u00edda. \u00c9 a beleza do Seu amor. E essa implica precisamente paix\u00e3o.  Ao celebrarmos o Dia Mundial da Juventude, olho para as nossas fam\u00edlia e quero concentrar-me nos jovens. Houve um tempo em que falar em juventude era sin\u00f3nimo de alegria, felicidade, encanto de viver. Hoje parece que os crit\u00e9rios se alteraram e a aus\u00eancia de sentido perturba muitas vidas jovens. Ao lado de muitos comprometidos e felizes descortino um cen\u00e1rio \u2013 que me parece em ritmo crescente- de rostos tristes e exist\u00eancias problem\u00e1ticas.  Em Isa\u00edas ouv\u00edamos \u201co Senhor deu-me a gra\u00e7a de falar como disc\u00edpulo para que saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos\u201d (Is 50, 4). Quero, por isso, interpelar as comunidades e, dum modo particular os movimentos juvenis para que, como verdadeiros disc\u00edpulos, assumam um compromisso com os jovens para que, com atitudes e gestos, sejam motivos de verdadeiro alento. Pode parecer dif\u00edcil compreender muita coisa. Quando nos tornamos servos e aceitamos caminhar com os jovens para partilhar as suas perplexidades, encontramos a verdadeira raz\u00e3o do nosso ser crist\u00e3o, tornando-nos Cireneus que se identificam com as suas cruzes e entregam todas as energias para que aconte\u00e7a a liberta\u00e7\u00e3o de pseudo valores e \u00eddolos que estrangulam a felicidade de viver. \u201cAo sa\u00edrem, encontraram um homem de Cirene, chamado Sim\u00e3o, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus&#8230;\u201d (Mt 27, 11-54). A Igreja apresenta a sua identidade se se sentir \u201crequisitada\u201d para assumir os dramas e traumas dos jovens. A partir desta atitude acredito que venham a reconhecer que \u201cEste era verdadeiramente Filho de Deus\u201d. N\u00e3o basta condenar os erros; urge carregar os problemas. Com a doa\u00e7\u00e3o acontecer\u00e1 a verdadeira liberta\u00e7\u00e3o.  Por outro lado, exorto os jovens que habitam este mundo feito dos mais diversificados fasc\u00ednios: n\u00e3o vos deixeis enganar por ofertas superficiais e demasiado passageiras, pois espreita-vos o sabor amargo da desilus\u00e3o; deixai-vos fascinar pelo dom de Deus, presente no rosto de Jesus e pelo compromisso s\u00e9rio, na paix\u00e3o de todos os dias, na capacidade de morrer para que haja vida neste mundo ensombrado pela morte. Aqui est\u00e1 a fonte da esperan\u00e7a crist\u00e3, a \u00fanica que nos salva. Os movimentos juvenis devem mostrar que \u00e9 poss\u00edvel estar nos tempos de hoje e ser disc\u00edpulo fiel. Mais do que ningu\u00e9m a juventude necessita de ver que \u00e9 poss\u00edvel. Quem lhe mostrar\u00e1 esta verdade? Creio ser tarefa da Igreja, o que quer dizer, de todo e qualquer baptizado. Se o fizermos, estamos a viver plenamente o presente e a construir o futuro da mesma Igreja; se n\u00e3o arriscarmos, comprometemos o futuro do cristianismo.  \u00c9 tempo de dar esperan\u00e7a e oferecer alento. Termino, por isso, com as palavras de Bento XVI, na sua \u00faltima Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica, Spe Salvi: \u201c&#8230;precisamos das esperan\u00e7as \u2013 menores ou maiores \u2013 que, dia ap\u00f3s dia, nos mant\u00eam a caminho. Mas, sem a grande esperan\u00e7a que deve superar tudo o resto, aquelas n\u00e3o bastam. Esta grande esperan\u00e7a s\u00f3 pode ser Deus, que abra\u00e7a o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, n\u00e3o podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado com um dom faz parte da esperan\u00e7a. Deus \u00e9 o fundamento da esperan\u00e7a \u2013 n\u00e3o um Deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou at\u00e9 ao fim: cada indiv\u00edduo e a humanidade no seu conjunto. O Seu reino n\u00e3o \u00e9 um al\u00e9m imagin\u00e1rio, colocado num futuro que nunca mais chega; o Seu reino est\u00e1 presente onde Ele \u00e9 amado e onde o Seu amor nos alcan\u00e7a. Somente o Seu amor nos d\u00e1 a possibilidade de perseverar com toda a sobriedade dia ap\u00f3s dia, sem perder o ardor da esperan\u00e7a, num mundo que, por sua natureza, \u00e9 imperfeito\u201d (n\u00ba 31).  Vamos viver esta Semana Santa reassumindo v\u00e1rios compromissos que o dom de Deus nos faz compreender.  S\u00e9 Catedral \u2013 Domingo de Ramos <i>\u2020 D. Jorge Ortiga, A. P.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acolhendo o dom de Deus, dar alento \u00e0 juventude<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,164,172,206,246,308],"class_list":["post-30741","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-dia-mundial-da-juventude","tag-diocese-de-braga","tag-familia","tag-liturgia","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30741","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30741"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30741\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30741"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30741"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30741"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}