{"id":30739,"date":"2008-03-17T10:21:05","date_gmt":"2008-03-17T10:21:05","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/17\/homilia-do-bispo-do-porto-no-domingo-de-ramos\/"},"modified":"2008-03-17T10:21:05","modified_gmt":"2008-03-17T10:21:05","slug":"homilia-do-bispo-do-porto-no-domingo-de-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-porto-no-domingo-de-ramos\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Porto no Domingo de Ramos"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7amos, irm\u00e3os e irm\u00e3s, a Semana Santa de 2008. Muito melhor dizendo, deixamos que o Esp\u00edrito nos santifique nela, dos Ramos \u00e0 P\u00e1scoa. E que nos santifique unindo-nos mais, na contempla\u00e7\u00e3o e na vida, aos sentimentos de Cristo Jesus, o Santo de Deus. Assim dito, poderia parecer-nos demasiado formal e distante; mais para estudo do que para vida. Mas, olhando isto mesmo que fazemos agora, revelar-se-\u00e1 decerto muito existencial e concreto, na assembleia que integramos e na verdade que j\u00e1 somos. &#8211; Pois, o que sucede connosco, com cada um de n\u00f3s aqui presentes, nesta catedral, em Domingo de Ramos? Sucede o que a outros olhos seria completamente inveros\u00edmil, sen\u00e3o absurdo. Sucede que um conjunto diversificado de pessoas aqui vieram, tomaram ramos e aclamaram algu\u00e9m, dizendo \u201cHossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!\u201d. E que assim entraram no templo, para ouvir um antigo relato de h\u00e1 vinte s\u00e9culos, falando de um homem que foi preso e julgado, condenado e morto\u2026 E sucede mais, muito mais; a saber, que os aqui presentes se integram num enorme n\u00famero que, por esse mundo al\u00e9m, fizeram ou far\u00e3o o mesmo, na diversidade das l\u00ednguas e na unanimidade dos cora\u00e7\u00f5es!   E sucede isto mesmo num mundo vertiginoso, em que os acontecimentos j\u00e1 n\u00e3o podem ser marcantes, porque se diluem rapidamente na precipita\u00e7\u00e3o dos seguintes: morre hoje um homem \u2013 ou muitos mais que fossem \u2013 por acidente, doen\u00e7a ou crime; injusti\u00e7a-se algu\u00e9m ou um pa\u00eds inteiro\u2026 Ainda haver\u00e1 gente, no dia a seguir, para a cerim\u00f3nia f\u00fanebre; menos gente, passado um m\u00eas; menos, muito menos, passado um ano, para algum sufr\u00e1gio ou romagem. Se ganhou significado, pode at\u00e9 comemorar-se, mas j\u00e1 mais pelo significado do que pelo protagonista.  Bem sabemos que \u00e9 assim; e que numa sociedade ultrapassada pela rapidez e desmemoriada pela insignific\u00e2ncia, j\u00e1 \u00e9 muito dif\u00edcil perpetuar-se um acontecimento fundador, tr\u00e1gico ou glorioso que seja.  Melhor sabemos, por\u00e9m, o que \u00e9 mais imediato e experimentado, ou seja, que estamos realmente aqui, vindos de mais perto ou de mais longe, sejamos mais velhos ou mais novos, estejamos mais contentes ou mais tristes, por n\u00f3s ou por outros. Estamos aqui, revivendo um acontecimento bimilenar, e n\u00e3o apenas \u201ccomo se estiv\u00e9ssemos l\u00e1\u201d, porque, na verdade, \u00e9 o acontecimento que est\u00e1 c\u00e1: \u201cEle est\u00e1 no meio de n\u00f3s!\u201d. &#8211; Como procurar milagres, se o pr\u00f3prio milagre j\u00e1 nos encontrou? Em toda a vida da Igreja, em cada celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, experimentamos a presen\u00e7a real de Cristo, que nos transforma, a n\u00f3s que o recebemos, em seu \u201ccorpo\u201d no mundo. Por isso acabamos t\u00e3o id\u00eanticos a Ele e uns aos outros, sem que isso signifique apagamento da variedade, antes potencia\u00e7\u00e3o dela, na reverbera\u00e7\u00e3o da mesma luz. &#8211; Que luz? Esta mesma que, para n\u00f3s, resplandece na cruz. E n\u00e3o numa cruz meramente \u201csimb\u00f3lica\u201d, no sentido fraco do termo. Da cruz verdadeira e absolutamente real de Cristo Jesus. Absolutamente real, porque ali foi erguida e bem vista, naquele dia do G\u00f3lgota. Absolutamente real, porque assim a indicava o letreiro, como trono do \u201crei dos judeus\u201d. Absolutamente real, porque nos faz entender por fim a realidade das coisas, que \u00e9 unicamente a da caridade de Deus: como se realizou em Cristo, como se deve realizar em n\u00f3s. Realismo novo, este que s\u00f3 o Esp\u00edrito evidencia, de Cristo para n\u00f3s. Novo e nov\u00edssimo \u2013 quer dizer, final \u2013 porque n\u00e3o \u00e9 espont\u00e2neo nem meramente natural. Muito pelo contr\u00e1rio, alcan\u00e7a-se apenas por gra\u00e7a e convers\u00e3o, ou seja, por ac\u00e7\u00e3o divina, humanamente acolhida. Celebrar a Semana Santa, como a iniciamos agora, \u00e9 realismo novo, que s\u00f3 os crist\u00e3os sabem, n\u00e3o como privil\u00e9gio mas como encargo, para o testemunharem a todos.   Mostra-nos que o mundo tem um centro, a hist\u00f3ria humana consist\u00eancia, a vida e a morte um sentido. Mas tudo t\u00e3o novo, na verdade. T\u00e3o novo, que nos interpela sempre, a n\u00f3s mesmos, mais velhos ou mais novos, mas sempre herdeiros de muita \u201cvelhice\u201d do mundo.  Vale aqui recordar o epis\u00f3dio de Nicodemos, quando \u201cJesus lhe declarou: \u2018Em verdade, em verdade te digo: quem n\u00e3o nascer do Alto n\u00e3o pode ver o Reino de Deus\u2019. Perguntou-lhe Nicodemos: \u2018Como pode um homem nascer, sendo velho? [\u2026]\u2019. Jesus respondeu-lhe: \u2018Em verdade, em verdade te digo: quem n\u00e3o nascer da \u00e1gua e do Esp\u00edrito n\u00e3o pode entrar no Reino de Deus\u2019\u201d (Jo 3-5). Eis a raz\u00e3o de estarmos aqui: o Esp\u00edrito Santo iluminou-nos para a verdade das coisas, que est\u00e1 definitivamente na cruz de Cristo, trono do seu reino, onde reinar \u00e9 servir e at\u00e9 ao fim. Servi\u00e7o que significa dar a vida; e a que Cristo nos oferece na cruz, vindo do Pai, s\u00f3 pode ser eterna. Comparando-se com a serpente de bronze que Mois\u00e9s erguera no deserto -, para que, olhando-a, o povo recuperasse sa\u00fade e vida -, diz tamb\u00e9m Jesus, nesse epis\u00f3dio de Nicodemos: \u201cAssim como Mois\u00e9s ergueu a serpente no deserto, assim tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim de que todo o que cr\u00ea nele tenha a vida eterna\u201d (Jo 3, 14-15). &#8211; E n\u00f3s, irm\u00e3os e irm\u00e3s, n\u00f3s aqui reunidos a iniciar esta sant\u00edssima semana, sabemos estas coisas! Melhor dir\u00edamos que elas nos sabem a n\u00f3s, pois v\u00e3o tomando conta das nossas vidas, dando realismo crist\u00e3o aos sentimentos e \u00e0s atitudes, salvando-nos na caridade, implantando-nos num reino eterno e consistente. Nunca \u00e9 demais acentuar o contraste, evidenciado \u00e0 luz do Esp\u00edrito. N\u00e3o somos apenas n\u00f3s, os circunstantes, por estarmos aqui enquanto outros dormem ou se distraem, coisas ali\u00e1s compreens\u00edveis e correntes. \u00c9 uma multid\u00e3o, por esse mundo al\u00e9m, que percebe que a celebra\u00e7\u00e3o \u201cdos ramos\u201d \u00e9 muito mais do que um ornamento primaveril e auspicioso, de contentar e levar para casa. \u00c9 uma multid\u00e3o que, no realismo seguro da caridade crist\u00e3, j\u00e1 entoa o c\u00e2ntico final que lhe vai no cora\u00e7\u00e3o e acalenta a vida.  \u00c9 uma multid\u00e3o \u2013 a nossa! \u2013 que olhando a cruz da vida \u00e0 luz da de Cristo, sabe que, precisamente na entrega di\u00e1ria ao servi\u00e7o de Deus e do pr\u00f3ximo, fulgura j\u00e1 a \u00faltima luz da bem-aventuran\u00e7a. Por esta ordem, comezinha e celeste: a fidelidade di\u00e1ria, persistindo sempre; a cruz de Cristo, em que Ele, dando a vida, venceu a morte; a cruz de Cristo nas m\u00e3os do Pai e envolta em Esp\u00edrito irradiante. Como o trono rodeado de seres vivos e anci\u00e3os, que Jo\u00e3o entrevia assim: \u201cDepois olhei e vi no meio do trono [\u2026] um Cordeiro. Estava de p\u00e9, mas parecia ter sido imolado [\u2026]. E cantavam [-lhe] um c\u00e2ntico novo, dizendo: \u2018Tu \u00e9s digno de receber o livro e de abrir os selos; porque foste morto e, com teu sangue, resgataste para Deus homens de todas as tribos, l\u00ednguas, povos e na\u00e7\u00f5es; e fizestes deles um reino de sacerdotes para o nosso Deus; e reinar\u00e3o sobre a terra\u2019\u201d (Ap 6, 6 ss). Realismo crist\u00e3o, em Domingo de Ramos de 2008\u2026 &#8211; Quem poderia dizer sen\u00e3o o Esp\u00edrito, ao vidente do Apocalipse, naquele final do s\u00e9culo I, quando os crist\u00e3os eram t\u00e3o poucos e t\u00e3o perseguidos, quem poderia dizer sen\u00e3o o Esp\u00edrito, que o Cordeiro vencera e venceria nos seus, acabando por convencer o mundo inteiro?! Mas eles j\u00e1 sabiam, os crist\u00e3os da altura; e n\u00f3s tamb\u00e9m sabemos, os crist\u00e3os de agora. Por isso inauguramos a Semana Santa em torno da cruz e havemos de conclu\u00ed-la na luz fulgurante do Crucificado \u2013 Ressuscitado! Sabemos irm\u00e3os e irm\u00e3s; como o saberemos \u2013 saborearemos &#8211; ainda melhor, no decurso destes dias plenos e sant\u00edssimos, culminando no Tr\u00edduo Pascal. Mas com a consci\u00eancia advertida de que s\u00f3 a conformidade interior e pr\u00e1tica com os sentimentos de Cristo nos permitir\u00e1 entrever a sua gl\u00f3ria como nosso futuro. Aqui se cumpre finalmente a exorta\u00e7\u00e3o de Jesus aos primeiros disc\u00edpulos que o queriam conhecer: \u201cVinde e vereis!\u201d (Jo 1, 39). Ainda quando este convite signifique realmente ficar onde se est\u00e1, na fidelidade aos compromissos assumidos, em coer\u00eancia de f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade comprovadas.   No relato evang\u00e9lico que escut\u00e1mos, S\u00e3o Mateus rodeia a morte de Cristo de todos os sinais indicativos do fim de um mundo e come\u00e7o de outro. Ouvimo-lo: \u201cE Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou. Ent\u00e3o, o v\u00e9u do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os t\u00famulos, e muitos dos corpos dos santos que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do sepulcro, depois da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. Entretanto, o centuri\u00e3o e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram: \u2018Este era verdadeiramente Filho de Deus\u2019\u201d (Mt 27, 50-54). Isso sabemos n\u00f3s e nos traz aqui: Cristo \u00e9 o Filho de Deus, que na cruz e no Esp\u00edrito, nos oferece a comunh\u00e3o com o Pai, a filia\u00e7\u00e3o divina. No mesmo Esp\u00edrito, na mesma cruz, na vida de cada um e de cada dia, repleta da sua caridade e gra\u00e7a. Mas n\u00e3o ficamos aterrados como o centuri\u00e3o, porque conhecemos por experi\u00eancia feliz o que seja rasgar-se o v\u00e9u do templo, uma vez que Deus est\u00e1 patente na humanidade de Cristo; sabemos o que \u00e9 dissolver-se o mundo velho, quando o \u201chomem novo\u201d recria a terra e as estruturas dela, sociais e pol\u00edticas, culturais e c\u00edvicas; sabemos o que \u00e9 sair dos t\u00famulos do ego\u00edsmo, da opress\u00e3o e de todas as mortes. E sabemos tamb\u00e9m que as nossas cidades est\u00e3o \u00e1 espera de que muitos ressuscitados em Cristo \u2013 todos os baptizados o come\u00e7am a ser! &#8211; as preencham de vida nova, solid\u00e1ria e pacificadora.  Sabemos, confessamos e celebramos. No in\u00edcio desta Semana, maior do que o tempo todo, estamos aqui n\u00f3s todos, em torno da cruz do Senhor, plenos de realismo e de esperan\u00e7a. E voltamos a rezar a colecta desta Missa: \u201cFazei \u2013 \u00f3 Deus \u2013 que sigamos os ensinamentos da paix\u00e3o [de Cristo], para merecermos tomar parte na gl\u00f3ria da ressurrei\u00e7\u00e3o!\u201d.  <i>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7amos, irm\u00e3os e irm\u00e3s, a Semana Santa de 2008. Muito melhor dizendo, deixamos que o Esp\u00edrito nos santifique nela, dos Ramos \u00e0 P\u00e1scoa. E que nos santifique unindo-nos mais, na contempla\u00e7\u00e3o e na vida, aos sentimentos de Cristo Jesus, o Santo de Deus. 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