{"id":30696,"date":"2008-03-14T14:53:46","date_gmt":"2008-03-14T14:53:46","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/14\/conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto-2\/"},"modified":"2008-03-14T14:53:46","modified_gmt":"2008-03-14T14:53:46","slug":"conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto-2\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancia quaresmal do Bispo do Porto"},"content":{"rendered":"<p>Orar, para aprender a esperar (cf. Spe Salvi, N.\u00ba 32) <!--more--> A nossa terceira e \u00faltima confer\u00eancia desta Quaresma, inspirada tamb\u00e9m na enc\u00edclica Spe Salvi, traz-nos as considera\u00e7\u00f5es de Bento XVI sobre \u201ca ora\u00e7\u00e3o como escola da esperan\u00e7a\u201d. Incluem-se na \u00faltima parte do seu texto, que referem os \u201clugares\u201d de aprendizagem e de exerc\u00edcio da esperan\u00e7a.  Como tudo quanto de Deus vem e a Deus leva, a esperan\u00e7a, tendo-O como fito, requer da nossa parte apropria\u00e7\u00e3o agradecida e exerc\u00edcio correspondente. Exerc\u00edcio que inclui purifica\u00e7\u00e3o, tanto das motiva\u00e7\u00f5es como dos anseios. H\u00e1 ent\u00e3o lugares e ocasi\u00f5es para aprender e exercitar a esperan\u00e7a, que o Papa resume em tr\u00eas: a ora\u00e7\u00e3o, primeiro; a ac\u00e7\u00e3o, a ac\u00e7\u00e3o sofrida, depois; o ju\u00edzo, o ju\u00edzo divino e purificador, finalmente.  Sobre a ora\u00e7\u00e3o, diz a enc\u00edclica, entre outras coisas igualmente importantes, no n\u00ba 32: \u201cO primeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperan\u00e7a \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o. Quando j\u00e1 ningu\u00e9m mais me escuta, Deus ainda me ouve\u201d. O Papa lembra a experi\u00eancia, ainda recente, do cardeal vietnamita Nguyen Van Thuan &#8211; treze anos preso, nove anos dos quais em isolamento, por causa da sua f\u00e9 -, para asseverar que \u201ca escuta de Deus, o poder falar-lhe, tornou-se para ele uma for\u00e7a crescente de esperan\u00e7a\u201d. Realmente assim foi, para ele e para todos os que ganh\u00e1mos depois, com o seu testemunho e o seu est\u00edmulo. A esperan\u00e7a manifesta-se e cresce em cada um de n\u00f3s, quando tudo o mais se desvanece como apoio ou desaparece como \u00e1libi. \u00c9 essa a experi\u00eancia t\u00e3o libertadora e convincente dos m\u00e1rtires de todos os tempos, cruentos ou incruentos.  Mas, de seguida, Bento XVI lembra um testemunho antigo, muito do seu gosto e refer\u00eancia, o do grande pastor e doutor de Hipona; agora, sobre a purifica\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a e do desejo, sobre a purifica\u00e7\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o, quando aut\u00eantica: \u201c[Santo Agostinho] define a ora\u00e7\u00e3o como um exerc\u00edcio do desejo. O ser humano foi criado para uma realidade grande, ou seja, para o pr\u00f3prio Deus, para ser preenchido por Ele. Mas o seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 demasiado estreito para a grande realidade que lhe est\u00e1 destinada. Tem de ser dilatado. \u2018Assim procede Deus: diferindo a sua promessa, faz aumentar o desejo; e, com o desejo, dilata a alma, tornando-a mais apta a receber os seus dons\u2019\u201d (Ibidem, n\u00ba 33). Porque de purifica\u00e7\u00e3o se trata, at\u00e9 ficarmos sem mistura: \u201cO modo correcto de rezar \u00e9 um processo de purifica\u00e7\u00e3o interior que nos torna aptos para Deus e, precisamente desta forma, aptos tamb\u00e9m para os homens. Na ora\u00e7\u00e3o, o ser humano deve aprender o que verdadeiramente pode pedir a Deus, o que \u00e9 digno de Deus. Deve aprender que n\u00e3o pode rezar contra o outro\u201d (Ibidem). Nesse definitivo est\u00e1dio, f\u00e9 e esperan\u00e7a redundam necessariamente em caridade, crit\u00e9rio primeiro e \u00faltimo. Como o vamos sabendo, numa \u201cQuaresma\u201d que n\u00e3o terminar\u00e1 certamente na pr\u00f3xima celebra\u00e7\u00e3o pascal.  N\u00e3o h\u00e1 aqui qualquer contradi\u00e7\u00e3o de sentimentos, mas apuramento deles e convers\u00e3o cont\u00ednua. \u00c9 importante dizer e repetir, antes de mais a n\u00f3s pr\u00f3prios, que \u201cs\u00f3 Deus basta\u201d. A frase, t\u00e3o conhecida, \u00e9 de Santa Teresa de \u00c1vila, que preferiu chamar-se \u201cde Jesus\u201d. Mas isto mesmo significou para ela um longo e perfeito exerc\u00edcio de purifica\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a, ou esperan\u00e7a purificadora, como finalmente cantou: \u201cNada te perturbe \/ nada te espante, \/ tudo passa, \/ s\u00f3 Deus n\u00e3o muda. \/ A paci\u00eancia \/ tudo alcan\u00e7a. \/ Quem a Deus tem, \/ nada lhe falta. \/ S\u00f3 Deus basta\u201d (Santa Teresa de Jesus \u2013 Obras completas. Pa\u00e7o de Arcos: Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, 2000, p. 1088). Espontaneamente, n\u00e3o chegar\u00edamos aqui, antes ao enfraquecimento das convic\u00e7\u00f5es e \u00e0 varia\u00e7\u00e3o dos desejos. Assim vai, ali\u00e1s, algum sentimento contempor\u00e2neo, pois que o chamado p\u00f3s-modernismo recusa tanto os pontos de partida comuns como os objectivos definidos&#8230;  Vale-nos o Esp\u00edrito, vale-nos a ora\u00e7\u00e3o da Igreja que Ele mesmo suscita, aproximando-nos, persistentemente, dos desejos de Cristo e da vontade do Pai; trabalha-nos na esperan\u00e7a, como ensina o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica: \u201cO Esp\u00edrito Santo, que nos ensina a celebrar a liturgia na expectativa do regresso de Cristo, educa-nos para orar na esperan\u00e7a. E vice-versa, a ora\u00e7\u00e3o da Igreja e a prece pessoal nutrem em n\u00f3s a esperan\u00e7a\u201d (n\u00ba 2657).  Mesmo que tal demore e at\u00e9 por isso mesmo, j\u00e1 que n\u00e3o se aprende doutro modo, recorda o Catecismo, citando sucessivamente Ev\u00e1grio e Agostinho: \u201cEntremos no desejo do seu Esp\u00edrito [de Deus] e seremos atendidos: \u2018N\u00e3o te aflijas, se n\u00e3o recebes logo de Deus o que Lhe pedes: \u00e9 que Ele quer beneficiar-te ainda mais pela tua perseveran\u00e7a em permanecer com Ele na ora\u00e7\u00e3o\u2019. Ele quer \u2018que o nosso desejo se exercite na ora\u00e7\u00e3o dilatando-nos, de modo a termos capacidade para receber o que Ele prepara para nos dar\u2019\u201d (n\u00ba 2737). Em suma, a esperan\u00e7a alarga-nos, pela persist\u00eancia orante, \u00e0 sua pr\u00f3pria (des)medida.    As boas rela\u00e7\u00f5es alargam a alma e a vida, sabemo-lo bem. Diz o nosso povo, com saber de experi\u00eancia feito: \u201cDiz-me com quem andas e dir-te-ei quem \u00e9s\u201d. Tratando-se de Deus, p\u00f3lo infinito duma rela\u00e7\u00e3o absoluta, muito mais ainda, podendo dizer-se assim: \u201cDiz-me com Quem andas e dir-te-ei quem ser\u00e1s\u201d. Ou ainda: \u201cDiz-me com Quem andas e dir-te-ei quem ainda n\u00e3o \u00e9s\u201d, sendo este \u201cainda\u201d um modo de dizer a esperan\u00e7a.  Porque de rela\u00e7\u00e3o se trata, como definiu Teresa de Jesus, de modo igualmente lapidar, no Livro da vida, 8, 5: \u201cE outra coisa n\u00e3o \u00e9, a meu parecer, ora\u00e7\u00e3o mental, sen\u00e3o tratar de amizade \u2013 estando muitas vezes tratando a s\u00f3s \u2013 com quem sabemos que nos ama\u201d (Obras completas, p. 73). E, sendo rela\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 tamb\u00e9m legitimamente objectivada, desde que tal precis\u00e3o da lembran\u00e7a e da imagina\u00e7\u00e3o encontre a Deus como Ele mesmo quis ser encontrado, ou seja, na humanidade com que nos chegou em Cristo. Di-lo a mesma santa e doutora da Igreja, tamb\u00e9m no Livro da vida, 22, 9: \u201c\u00c9 grande coisa, enquanto vivemos e somos humanos, trazer a Deus humanado diante de n\u00f3s\u201d (Ibidem, p. 178).   Mas nem a\u00ed pararemos, pois, com Cristo, a ora\u00e7\u00e3o alonga-nos at\u00e9 ao Pai, al\u00e9m de qualquer imagina\u00e7\u00e3o, sempre exercitando a esperan\u00e7a. A\u00ed nos leva esta passagem de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, coevo de Teresa, na Subida do Monte Carmelo, 15, 1: \u201c\u00c9 preciso ter em conta o que pretendemos: que a alma se una a Deus pela mem\u00f3ria em esperan\u00e7a. Espera-se o que n\u00e3o se tem. Quanto menos coisas nela houver, mais capacidade e mais possibilidade existe para esperar o que se espera; por conseguinte, mais esperan\u00e7a se tem. Quanto mais a alma limpar a mem\u00f3ria das formas e recorda\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o Deus, tanto mais em Deus ter\u00e1 a mem\u00f3ria e mais vazia para esperar que Ele a preencha plenamente\u201d (Obras completas. Marco de Canaveses: Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, 2005, p. 334). Como nas bem-aventuran\u00e7as, s\u00e3o a fome e a sede a serem saciadas, n\u00e3o a fartura; o choro a ser consolado, n\u00e3o a r\u00e1pida alegria.  \u00c9 para todos n\u00f3s, tal doutrina. Mas na consagra\u00e7\u00e3o religiosa e mon\u00e1stica, encontra uma particular incarna\u00e7\u00e3o, transformada a terra em desejo do c\u00e9u, tamb\u00e9m est\u00edmulo para todos os crentes, pois a\u00ed nos coloca Cristo a meta universal. Ainda na tradi\u00e7\u00e3o carmelitana, encontrou em Santa Teresa do Menino Jesus formula\u00e7\u00f5es deste g\u00e9nero, po\u00e9tico no caso, com claro eco salm\u00f3dico: \u201cEstou ainda na terra estrangeira, \/ Mas pressentindo a felicidade eterna, \/ Oh! quereria deixar j\u00e1 a terra \/ E contemplar as maravilhas do C\u00e9u\u2026 \/ Quando sonho com as alegrias da outra vida \/ Do meu ex\u00edlio j\u00e1 n\u00e3o sinto o peso \/ Visto que em breve para a minha P\u00e1tria \/ Eu voarei pela primeira vez!&#8230;\u201d (Obras completas. Marco de Canaveses: Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, 1996, p. 770). E Isabel da Trindade, no seu \u00daltimo retiro, n\u00ba 33, deixa-nos um precioso contributo, evidenciando-nos a vida crist\u00e3 como caminho em Cristo, libertando-nos n\u2019Ele, em esperan\u00e7a realizadora e realizada: \u201cCaminhar em Jesus Cristo, parece-me que \u00e9 sair de si, perder-se de vista, abandonar-se para entrar mais profundamente n\u2019Ele e a cada minuto que passa, t\u00e3o profundamente que a\u00ed se fique enraizada [\u2026]. Quando a alma est\u00e1 fixa n\u2019Ele em tais profundidades, quando as suas ra\u00edzes assim se afundaram, a seiva divina expande-se nela em ondas, e tudo o que \u00e9 vida imperfeita, banal, natural \u00e9 destru\u00eddo; e ent\u00e3o, segundo a linguagem do Ap\u00f3stolo, \u2018o que \u00e9 mortal \u00e9 absorvido pela vida\u2019 [2 Cor 5, 4]. [\u2026] Por ser livre, liberta de si mesma e de tudo, [a alma] pode ent\u00e3o cantar com o salmista: \u2018Se um ex\u00e9rcito me cercar, n\u00e3o temerei; se um combate surgir, terei esperan\u00e7a contra tudo\u2019 [Sal 26]\u201d (Escritos espirituais. Oeiras: Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, 1989, p. 121-122).  Com estes contributos da mais l\u00eddima espiritualidade crist\u00e3, retomemos a frase de Bento XVI, porventura melhor entendida e recebida, neste momento quaresmal: \u201cO cora\u00e7\u00e3o [humano] \u00e9 demasiado estreito para a grande realidade que lhe est\u00e1 destinada. Tem de ser dilatado\u201d. Dilata\u00e7\u00e3o, dila\u00e7\u00e3o: s\u00e3o tamb\u00e9m nomes da esperan\u00e7a, no seu exerc\u00edcio; da ora\u00e7\u00e3o, no seu caminho interior.  Voltemos agora \u00e0 actualidade de que, ali\u00e1s, n\u00e3o sa\u00edmos. Sobretudo quando ouvimos as considera\u00e7\u00f5es dos m\u00edsticos, pois que nos tocam sempre pela sua intensidade existencial e experiencial. Teresa de Jesus e Jo\u00e3o da Cruz, Teresa do Menino Jesus e Isabel da Trindade, Agostinho lembrado por Bento XVI, n\u00e3o nos falaram apenas dos seus movimentos de alma ou mo\u00e7\u00f5es espirituais, em sentido retirado e \u00edntimo.  Todos eles viveram o seu tempo, do s\u00e9culo IV-V ao XVI, ao XIX-XX. Tempos agitados na sociedade e na religi\u00e3o que lhes coube. Tempos que encontraram no cora\u00e7\u00e3o e na intelig\u00eancia de cada um deles uma repercuss\u00e3o particular, como sentimento e indaga\u00e7\u00e3o. Agostinho tornou-se assim a express\u00e3o mais subida e prof\u00e9tica do fim de um mundo e come\u00e7o de outro, quando o Imp\u00e9rio Romano ruiu com ele, no Ocidente. Teresa de Jesus e Jo\u00e3o da Cruz, reencontraram nos claustros que reformaram a unidade mais interior e alta que a Cristandade perdia exteriormente, naquele dilacerado tempo. Teresa do Menino Jesus viveu intensamente a crise intelectual e civilizacional dum mundo \u201csem Deus\u201d e abriu-nos, numa inf\u00e2ncia espiritual custosa e abandonada, a possibilidade que unicamente temos, do pres\u00e9pio \u00e0 cruz. Isabel da Trindade insistiu na vida trinit\u00e1ria, prefaciando o que hoje queremos reviver como dimens\u00e3o essencial da oferta crist\u00e3. Tudo concreto quando profundo, tudo vivido quando rezado. Tudo o que mais importa para o s\u00e9culo XXI. Que tamb\u00e9m \u201csufoca porque n\u00e3o adora\u201d, como j\u00e1 escreveu S\u00e3o Pedro Juli\u00e3o, h\u00e1 s\u00e9culo e meio. E escreveu-o nesta Europa, sua e nossa, onde as possibilidades econ\u00f3micas permitiriam quase tudo, se n\u00e3o nos despist\u00e1ssemos tanto, precisamente no que \u00e0s esperan\u00e7as respeita.  Saiu h\u00e1 pouco uma sondagem da Universidade Cat\u00f3lica, \u201ca pretexto do anivers\u00e1rio do [jornal] P\u00daBLICO, junto de duas gera\u00e7\u00f5es \u2013 a que tinha 18 anos em 1990 e hoje tem 35-37, a que tinha zero e agora tem 17-19 anos\u201d. A jornalista que comenta os dados recolhidos conclui que \u201cn\u00e3o existem diferen\u00e7as muito significativas entre elas ao n\u00edvel dos valores e atitudes sociais\u201d, mostrando-se os dois grupos \u201cmais tolerantes e liberais do que o resto da popula\u00e7\u00e3o\u201d (cf. Kathleen Gomes \u2013 Esperava um gap geracional?. P\u00fablico. P 2, 5 de Mar\u00e7o de 2008, p. 8).  N\u00e3o detectaremos ent\u00e3o nenhuma fenda geracional nestes \u00faltimos 18 anos, no que respeita \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o dos valores (com a toler\u00e2ncia mais generalizada) e \u00e0 individualiza\u00e7\u00e3o (com menos refer\u00eancias institucionais). Mas poderemos constatar que \u201cn\u00e3o tem uma cara demasiado feliz a gera\u00e7\u00e3o dos 35-37 anos, quando faz rewind e pensa nas expectativas que tinha aos 18 anos em rela\u00e7\u00e3o ao que viria a ser a sua vida pessoal. O reality check \u00e9 amargo: quase metade dos inquiridos (45 por cento) diz que o seu percurso profissional est\u00e1 abaixo das expectativas que tinha na altura e apenas 15 por cento consideram que est\u00e1 acima; 43 por cento avaliam que em termos de qualidade de vida est\u00e1 abaixo das expectativas contra 20 por cento que consideram estar acima\u201d (Ibidem).      Dito doutro modo, quase metade dos nossos concidad\u00e3os que completam a sua quarta d\u00e9cada de vida sente como goradas as expectativas que tinha na juventude, quer profissionalmente, quer quanto \u00e0 qualidade de vida. E, sobretudo, s\u00e3o relativamente poucos os que entendem que as excederam. Outros resultados da sondagem fazem a jornalista comentar, por exemplo: \u201cA juventude \u00e9 optimista por natureza, mas esta n\u00e3o o ser\u00e1 excessivamente \u2013 e se em 1990 se tivesse feito as mesmas perguntas \u00e0 gera\u00e7\u00e3o que ent\u00e3o tinha 18 anos, o optimismo seria previsivelmente maior\u201d (Ibidem, p. 14).  N\u00e3o pretendo extrapolar os dados nem o assunto, que devem suscitar a aten\u00e7\u00e3o de todos, nas v\u00e1rias inst\u00e2ncias da sociedade e da pol\u00edtica. Mas, referindo-os \u00e0 medita\u00e7\u00e3o que agora vos proponho, n\u00e3o posso deixar de me interrogar sobre as expectativas que induz\u00edamos nos jovens de h\u00e1 duas d\u00e9cadas, como as induzimos aos de hoje\u2026 J\u00e1 ent\u00e3o a publicidade prometia tudo, materialmente falando, e com uma persuas\u00e3o tecnol\u00f3gica cada vez mais sofisticada. \u2013 O que era levada a apreciar e desejar a juventude do princ\u00edpio dos anos noventa, como a de hoje tamb\u00e9m? \u2013 Que padr\u00f5es de \u00eaxito lhe eram e s\u00e3o hoje apresentados e como se \u201caconselha\u201d a consegui-los? E, acima de tudo, como se educa o desejo e se alarga a aspira\u00e7\u00e3o dos mais novos? Reflect\u00edamos na anterior confer\u00eancia quaresmal sobre o papel imprescind\u00edvel dos mais velhos para uma vida s\u00f3cio-culutral mais consistente e s\u00e1bia. Pois bem: &#8211; N\u00e3o nos \u201censina\u201d a vida a comprovar valores e a apurar verdades, mormente em rela\u00e7\u00e3o ao mais existencial, universal e duradouro?! Em rela\u00e7\u00e3o ao que \u201cvale a pena\u201d, como dizemos numa locu\u00e7\u00e3o j\u00e1 conclusiva, pois o que vale importa pena, o \u00eaxito \u00e9 fruto da dedica\u00e7\u00e3o e do custo?! E entre agora cada um de n\u00f3s no campo f\u00e9rtil da sua pr\u00f3pria mem\u00f3ria e veja bem, sobretudo quando j\u00e1 passou o meio s\u00e9culo, o que resultou consigo e com os seus coet\u00e2neos, em termos de realiza\u00e7\u00e3o pessoal e inter-pessoal. Repare \u2013 como certamente reparar\u00e1 \u2013 na import\u00e2ncia que tiveram os exemplos e os est\u00edmulos positivos, o relacionamento familiar e inter-geracional, os ambientes saud\u00e1veis e prop\u00edcios. E, sobretudo, quando teve tal oportunidade e gra\u00e7a, a integra\u00e7\u00e3o eclesial que certamente lhe trouxe a pessoa viva e a mensagem fecunda de Jesus Cristo, compartilhadas em catequese e celebra\u00e7\u00e3o, amizades e caridade.  Sim, deixai-me insistir: \u2013 Quantos contempor\u00e2neos nossos, que connosco conviveram na inf\u00e2ncia e na juventude, persistiram na f\u00e9 e na pr\u00e1tica crist\u00e3s? &#8211; N\u00e3o foram precisamente os que ganharam aquela dilata\u00e7\u00e3o da alma que s\u00f3 a ora\u00e7\u00e3o proporciona, activando a esperan\u00e7a? Deixai-me ser ainda mais concreto e preciso: &#8211; Que lugar ocupa nas nossas catequeses e inicia\u00e7\u00f5es crist\u00e3s a aprendizagem da ora\u00e7\u00e3o, o est\u00edmulo adorante e contemplativo? Ou ent\u00e3o, e j\u00e1 fora do \u00e2mbito estritamente confessional: &#8211; Que educa\u00e7\u00e3o fazemos \u2013 p\u00fablica ou particular \u2013 que desenvolva nos mais novos as capacidades interiores de admira\u00e7\u00e3o e frui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, criativa e profunda?  Para isso, n\u00e3o esperemos muito dum mercado corriqueiro, que s\u00f3 queira lucro. Este preferir\u00e1 consumidores imediatos, frustrados a prazo. Como tudo o que \u00e9 pressionado a crescer artificialmente, para morrer mais depressa. Muito pelo contr\u00e1rio, s\u00f3 no caminho se chega, s\u00f3 na demora se mora, s\u00f3 na esperan\u00e7a se alcan\u00e7a. Depois da vig\u00edlia nocturna, s\u00f3 depois, pode fulgurar no c\u00e9u de todos e cada um a estrela matutina.  S\u00e3o essas, ali\u00e1s, as derradeiras palavras escritas, para preencherem agora toda a vida e pedagogia eclesiais: \u201c \u2018Eu [Jesus] sou a brilhante estrela da manh\u00e3.\u2019 O Esp\u00edrito e a Esposa dizem: \u2018Vem!\u2019. Diga tamb\u00e9m o que escuta: \u2018Vem!\u2019 [\u2026]  &#8211; \u00c1men! Vem Senhor Jesus!\u201d (Ap 22, 16 ss).   E, nestes termos, ser\u00e1 certamente uma prioridade pastoral educar os jovens e a todos os crentes numa esperan\u00e7a absoluta e purificada, que possa acolher uma resposta igualmente absoluta e plena. Nada nos basta sen\u00e3o O que nos cria para si. Aqui sim, poderemos falar de liberdade e paz.  Como nas confer\u00eancias anteriores, tenho todo o gosto de convocar agora um testemunho po\u00e9tico, que, por seu lado e maneira, nos confirme ainda. E vou busc\u00e1-lo a Sophia de Mello Breyner Andresen que, sempre t\u00e3o extasiada perante a clareza natural das coisas, pressentiu e soube que esse era ainda e s\u00f3 um princ\u00edpio. Um princ\u00edpio do que residia muito al\u00e9m. E esta como que tens\u00e3o atravessa todo o estro de Sophia, em sucessivo canto.   Compilados em 1944, por exemplo maior, s\u00e3o estes versos, de sede plena e esperan\u00e7a certa, que s\u00f3 podemos reproduzir no seu todo: \u201cUm dia quebrarei todas as pontes \/ Que ligam o meu ser vivo e total, \/ \u00c0 agita\u00e7\u00e3o do mundo do irreal, \/ E calma subirei at\u00e9 \u00e0s fontes. \/ Irei at\u00e9 \u00e0s fontes onde mora \/ A plenitude, o l\u00edmpido esplendor \/ Que me foi prometido em cada hora, \/ E na face incompleta do amor. \/ Irei beber a luz e o amanhecer, \/ Irei beber a voz dessa promessa \/ Que \u00e0s vezes como um voo me atravessa, \/ E nela cumprirei todo o meu ser\u201d (Antologia. Porto: Figueirinhas, 1985, p. 37).   Aqui est\u00e1 tudo, o que deve estar: o ser liberto do suceder, a \u00e1gua bebida na fonte, o esplendor somado de todas as horas, o amor finalmente completo, a promessa realizada e a vida alcan\u00e7ada. O poema que se chama \u201cAs fontes\u201d, poderia chamar-se \u201cA esperan\u00e7a\u201d.  Da mesma altura s\u00e3o outros, que, parecendo menos afirmativos da esperan\u00e7a, s\u00e3o afinal a sua legitima\u00e7\u00e3o perfeita. Negando consist\u00eancia divina a tudo quanto se costuma aparentar-lhe, afirma a radical alteridade de Deus, s\u00f3 transparecida no brilho nov\u00edssimo dalguns olhares. Dalguns olhares que, precisamente, acendem a esperan\u00e7a: \u201cA presen\u00e7a dos c\u00e9us n\u00e3o \u00e9 a Tua, \/ Embora o vento venha n\u00e3o sei donde. \/ Os oceanos n\u00e3o dizem que os criaste, \/ Nem deixas o Teu rasto nos caminhos. \/ S\u00f3 o olhar daqueles que escolheste \/ Nos d\u00e1 o Teu sinal entre os fantasmas\u201d (Ibidem, p. 46).   A esta luz apercebida, tudo o mais redunda fantasmag\u00f3rico. A esperan\u00e7a decanta-se, afinal.   Dois anos depois, Sophia publicava Coral. Onde encontramos versos de fogo, mesmo que de sugest\u00e3o marinha. Como estes, em que a esperan\u00e7a, urgindo viv\u00edssima, como que n\u00e3o tendo tempo j\u00e1 para algo de outro, se torna quase militante: \u201cChamo-Te porque tudo est\u00e1 ainda no princ\u00edpio \/ E suportar \u00e9 o tempo mais comprido. \/ Pe\u00e7o-Te que venhas e me d\u00eas a liberdade, \/ Que um s\u00f3 dos Teus olhares me purifique e acabe. \/ H\u00e1 muitas coisas que eu n\u00e3o quero ver. \/  Pe\u00e7o-Te que sejas o presente. \/ Pe\u00e7o-Te que inundes tudo. \/ E que o Teu reino antes do tempo venha \/ E se derrame sobre a Terra \/ Em primavera feroz precipitado\u201d (Ibidem, p. 100).  Mas Sophia aprendeu \u2013 e ensinou tamb\u00e9m \u2013 que tanta urg\u00eancia do dia tinha de atravessar a noite. A \u201cnoite\u201d de que todos falam, os \u201csalvos na esperan\u00e7a\u201d, todos os que caminham e navegam. Como esta que a nossa poetiza \u2013 t\u00e3o solar! \u2013 cantar\u00e1 anos depois: \u201cA noite abre os seus \u00e2ngulos de luz \/ E em todas as paredes te procuro \/ A noite ergue as suas esquinas azuis \/ E em todas as esquinas te procuro \/ A noite abre as suas pra\u00e7as solit\u00e1rias \/ E em todas as solid\u00f5es eu te procuro \/ Ao longo do rio a noite acende as suas luzes \/ Roxas verdes e azuis \/ Eu te procuro\u201d (Ibidem, p. 171).     Conclu\u00edmos ent\u00e3o, se o termo se aplica. Da doutrina da enc\u00edclica \u00e0 actualidade da vida, da vida vivida \u00e0 vida entrevista na esperan\u00e7a e na inspira\u00e7\u00e3o, percorremos um caminho quaresmal, que porventura nos \u201cfez sair\u201d para mais al\u00e9m, em \u00eaxodo, sempre em \u00eaxodo\u2026 E o motivo primeiro, de ordem experimental, \u00e9 o que j\u00e1 lemos em Bento XVI e devo retomar aqui, t\u00e3o essencial e oportuno se revela, t\u00e3o indutor de pr\u00e1ticas urgentes, na vida da Igreja e na oferta ao mundo: tudo se ganhar\u00e1 na esperan\u00e7a, tudo se dilatar\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o, tudo se exercitar\u00e1 na ora\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus.   Que o Esp\u00edrito divino, agente \u00fanico de tal dilata\u00e7\u00e3o, a tenha acrescido em n\u00f3s, ainda al\u00e9m das altas naves desta catedral! O mundo espera cora\u00e7\u00f5es imensos!  S\u00e9 do Porto, 13 de Mar\u00e7o de 2008  <i>Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Orar, para aprender a esperar (cf. 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