{"id":30665,"date":"2008-03-13T13:21:49","date_gmt":"2008-03-13T13:21:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/13\/os-escritos-privados-da-santa-de-calcuta\/"},"modified":"2008-03-13T13:21:49","modified_gmt":"2008-03-13T13:21:49","slug":"os-escritos-privados-da-santa-de-calcuta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-escritos-privados-da-santa-de-calcuta\/","title":{"rendered":"Os escritos privados da \u00abSanta de Calcut\u00e1\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u00abMadre Teresa: Vem, s\u00ea a minha luz\u00bb <!--more--> No Livro do \u00caxodo h\u00e1 um passo enigm\u00e1tico, que deve, concerteza, o seu colorido ao universo n\u00f3mada. N\u00e3o se vislumbra o motivo da cena (a procura de explica\u00e7\u00e3o para a lei da circuncis\u00e3o?), mas numa hospedaria do caminho, Deus tamb\u00e9m lutou com Mois\u00e9s e \u00abprocurava faz\u00ea-lo morrer\u00bb (Ex 4,24-26: \u00abE aconteceu que, no caminho, num acampamento, o Senhor veio ao encontro dele e tentou mat\u00e1-lo\u00bb.). Este trecho inclassific\u00e1vel \u00e9 ainda mais perturbador se tivermos em conta o desenvolvimento da epopeia do \u00caxodo. Mois\u00e9s h\u00e1-de a\u00ed aparecer-nos como o amigo de Deus, aquele com quem Deus fala \u00abface a face, como um homem fala com o outro\u00bb (Ex 33,11). E, a pedido de Mois\u00e9s, Deus faz passar diante dele \u00abtoda a (Sua) beleza\u00bb, deixando-se ver \u00abpelas costas\u00bb (Ex 33, 18-23). Talvez aquele epis\u00f3dio incompreens\u00edvel, em que Deus repentinamente tenta matar o seu escolhido, pretenda lan\u00e7ar uma reserva sobre a vis\u00e3o de Deus, aludindo \u00e0 impossibilidade de controlar o divino. Deus n\u00e3o \u00e9 manipul\u00e1vel, nem prisioneiro de nenhum tipo de conhecimento ou de sabedoria. Deus \u00e9 Deus.  O discurso b\u00edblico sobre Deus emerge deste esc\u00e2ndalo. A Divindade \u00e9 irrepresent\u00e1vel, transcendente, envolta em mist\u00e9rio. Os deuses dos povos vizinhos, esses t\u00eam um corpo, s\u00e3o imagens, nomes que se recitam. O Deus da B\u00edblia deixa em sil\u00eancio o pensamento dos homens, transumante, impronunci\u00e1vel como a luz, ileg\u00edvel e desconhecido. As suas teofanias s\u00e3o acontecimentos desarmantes, porque Deus foge do declarado e do n\u00edtido e apresenta-se no impercept\u00edvel, naquilo que \u00e9 apenas sussurrado, apenas entrevisto. Ao furac\u00e3o, grande e impetuoso, ao terramoto ou \u00e0 convuls\u00e3o do fogo, Ele prefere \u00abo murm\u00fario de uma brisa suave\u00bb (1Re 19,12) para se dar a conhecer.   Em momentos determinantes da experi\u00eancia religiosa, o sussurro \u00e9 o de um corpo divino que se atravessa, obscuro e fulgurante, um corpo que se agarra ao nosso corpo, num combate nocturno, primitivo, por raz\u00f5es que trazemos gravadas no sangue, a mil bra\u00e7as de poderem ser contadas, raz\u00f5es que se tiram n\u00e3o com civilizadas disputas ret\u00f3ricas, mas num duelo, desprotegido, onde s\u00f3 vale o corpo. \u00abJacob tendo ficado s\u00f3, algu\u00e9m lutou com ele at\u00e9 ao romper da aurora. Vendo que n\u00e3o podia vencer Jacob, bateu-lhe na coxa, e a coxa de Jacob deslocou-se, quando lutava com ele.E disse-lhe: \u00abDeixa-me partir, porque j\u00e1 rompe a aurora.\u00bbJacob respondeu: \u00abN\u00e3o te deixarei partir enquanto n\u00e3o me aben\u00e7oares.\u00bb Perguntou-lhe ent\u00e3o: \u00abQual \u00e9 o teu nome?\u00bb Ao que ele respondeu: \u00abJacob.\u00bb E o outro continuou: \u00abO teu nome n\u00e3o ser\u00e1 mais Jacob, mas Israel; porque combateste contra Deus e contra os homens e conseguiste resistir.\u00bbJacob interrogou-o, dizendo: \u00abPe\u00e7o-te que me digas o teu nome.\u00bb \u00abPorque me perguntas o meu nome?\u00bb &#8211; respondeu ele. E ent\u00e3o aben\u00e7oou-o.Jacob chamou \u00e0quele lugar Penuel; \u00abporque vi um ser divino, face a face, e conservei a vida\u00bb &#8211; disse ele. Osol principiara a levantar-se, quando Jacob deixou Penuel, coxeando por causa da sua coxa\u00bb. No Livro do G\u00e9nesis, quase nada se descreve desse corpo divino que enfrenta o patriarca Jacob, at\u00e9 o romper da aurora (Gn 32,23-33). A narrativa sublinha, antes, o car\u00e1cter inesperado do acontecimento, a hesita\u00e7\u00e3o quanto ao vencedor decidida por golpe certeiro, o pedido que Jacob faz ao seu advers\u00e1rio para que o aben\u00e7oe. Mas a irrup\u00e7\u00e3o do divino \u00e9 t\u00e3o forte, \u00e9 de tal modo exposta, sem deixar nunca de ser obscura e impenetr\u00e1vel, que este texto se tornou referencial para a m\u00edstica crist\u00e3.    O C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, no seu sentido literal, narra o amor de uma mulher e de um homem. Desde o princ\u00edpio, e essa \u00e9 uma das justifica\u00e7\u00f5es para a sua inclus\u00e3o no estreito c\u00e2none b\u00edblico, abundaram leituras aleg\u00f3ricas e espirituais deste livro que identificaram esta rela\u00e7\u00e3o amante com a experi\u00eancia crente. Em nenhum outro lugar da B\u00edblia o corpo \u00e9 assim tomado como trama mesma do canto. Mas \u00e9 um corpo \u2013 corpo, \u00abadoecido pelo amor\u00bb, como algures se diz, um corpo poderoso e vencido, suplicante, um corpo solar e nocturno, um corpo que o amor perde. O amor est\u00e1 sempre a ser proposto e reproposto: nunca \u00e9 constru\u00e7\u00e3o terminada. H\u00e1 um ritmo incessante de movimentos, quase vertiginoso em alguns momentos. O amor faz dos enamorados n\u00f3madas, buscadores e mendigos. Todo o di\u00e1logo de amor \u00e9 uma conversa entre mendigos: n\u00e3o entre gente que sabe, mas entre quem n\u00e3o sabe; n\u00e3o entre gente que tem, mas entre quem nada ret\u00e9m. Por isso a maior declara\u00e7\u00e3o de amor n\u00e3o \u00e9 uma ordem, \u00e9 ainda um pedido: \u00abGrava-me como selo em teu cora\u00e7\u00e3o, como selo no teu bra\u00e7o, porque forte como a morte \u00e9 o amor\u00bb (Ct 8,6).   Este obscuro que s\u00f3 pelo obscuro est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do discurso teol\u00f3gico. De facto, h\u00e1 uma formula\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica positiva, que se aplica a descrever os atributos revelados de Deus, as suas incis\u00f5es na hist\u00f3ria. Esse conhecimento que tenta descrever as teofanias e caracteriz\u00e1-las de um modo intelig\u00edvel, \u00e9, por\u00e9m, designado, pela tradi\u00e7\u00e3o patr\u00edstica, como \u201csimb\u00f3lico\u201d e \u201capenas simb\u00f3lico\u201d, j\u00e1 que a realidade transcendente \u00e9  irredut\u00edvel a qualquer sistema de pensamento. Greg\u00f3rio de Nissa avisa que \u00abos conceitos criam \u00eddolos\u00bb quando os tomamos para enunciar Deus. Segundo ele, \u00abo mist\u00e9rio revela-se para l\u00e1 de qualquer conhecimento, para l\u00e1 mesmo de qualquer ignor\u00e2ncia, nas trevas mais que luminosas do sil\u00eancio\u00bb, aquelas que \u00abs\u00f3 a admira\u00e7\u00e3o  apreende\u00bb. \u00c9, assim, uma aproxima\u00e7\u00e3o pelas trevas, pela noite mais escura, aquela que a chamada teologia apof\u00e1tica ou negativa sugere.        Como m\u00e9todo, a apof\u00e1se n\u00e3o toma a especula\u00e7\u00e3o: n\u00e3o comunica saberes, n\u00e3o elenca roteiros, n\u00e3o se repete. \u00abVai onde n\u00e3o possas\/ v\u00ea onde n\u00e3o v\u00eas:\/ escuta onde n\u00e3o ressoa\/ e assim estar\u00e1s onde Deus fala\u00bb, segreda o m\u00edstico Angelus Silesius. O \u00fanico caminho \u00e9 o da transforma\u00e7\u00e3o, esse estado de muta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, de despojamento progressivo, at\u00e9 que o orante reze j\u00e1 sem imagens, e o pensador pense a abandonar todo o pensado, e o bailarino dance sem um \u00fanico gesto ou apenas no gesto da sua imobilidade. Essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 descrita como um \u00abpermanecer escondido na sua pr\u00f3pria epifania\u00bb.    Ou\u2026 \u00ab\u00e9 isto que esconde tudo em mim\u00bb, como escreve Teresa de Calcut\u00e1.   Nesta que \u00e9, porventura, uma das mais ardentes autobiografias da alma de todo o s\u00e9culo XX, reencontramos, com grande esc\u00e2ndalo ou desconcerto de quem do cristianismo faz apenas uma abordagem sociol\u00f3gica e hist\u00f3rica, o essencial da m\u00edstica crist\u00e3.     \u00ab\u00c9 muito mais duro crer, que n\u00e3o crer\u00bb, escreveu a romancista Flannery O\u2019Connor, mas esta \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o impopular tanto para o agnosticismo pr\u00e1tico em que a cultura dominante mergulhou, como para um cristianismo domesticado por boas inten\u00e7\u00f5es e maneirismos, servido por uma est\u00e9tica viciosamente adocicada, que pretende dar respostas r\u00e1pidas \u00e0quilo que obviamente n\u00e3o tem resposta. Como n\u00e3o amar a aspereza, a depura\u00e7\u00e3o, a essencialidade desarmada, a exposi\u00e7\u00e3o, a mis\u00e9ria confessada desta assombrosa mulher que a Deus rezava \u00abN\u00e3o Te importes com o que eu sinto\u00bb, e que de Deus dizia: \u00abQuero amar a Deus por aquilo que Ele tira. Ele destruiu tudo em mim\u00bb?  \u00abH\u00e1 tanta contradi\u00e7\u00e3o dentro da minha alma. Um desejo t\u00e3o profundo de Deus, t\u00e3o profundo que se torna doloroso, um sofrimento permanente\u2026 E contudo n\u00e3o ser querida por Deus, repelida, vazia, sem f\u00e9, sem amor, sem zelo. As almas n\u00e3o atraem. O C\u00e9u nada significa, parece-me um lugar vazio. O pensamento do C\u00e9u nada significa para mim e contudo esta \u00e2nsia torturante de Deus\u2026\u00bb. \u00abSe alguma vez vier a ser Santa, serei com certeza uma santa da \u00abescurid\u00e3o\u00bb.     Aos Escritos Privados de Madre Teresa n\u00e3o interessa, portanto, reconhecer a insufici\u00eancia do dizer humano, mas afirmar a profundidade devastadora e indiz\u00edvel, o nomadismo infatig\u00e1vel, a F\u00e9 como afundamento numa realidade radicalmente outra. E \u00e9 da\u00ed que brota o intransigente, desconcertante, ardente oximoro, que \u00e9 a figura por excel\u00eancia da F\u00e9: a sede que dessedenta, a fome que sacia, o vazio que enche de plenitude, a escurid\u00e3o que brilha. Quem tem ouvidos para escutar oi\u00e7a. Quem tem cora\u00e7\u00e3o para ler, leia.   <i>Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a<\/i> Gr\u00e9mio Liter\u00e1rio, 10.03.2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u00abMadre Teresa: Vem, s\u00ea a minha luz\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[248],"class_list":["post-30665","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-madre-teresa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30665"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30665\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}