{"id":306574,"date":"2023-12-11T09:43:39","date_gmt":"2023-12-11T09:43:39","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=306574"},"modified":"2023-12-07T10:45:25","modified_gmt":"2023-12-07T10:45:25","slug":"um-abraco-feito-de-lagrimas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-abraco-feito-de-lagrimas\/","title":{"rendered":"Um abra\u00e7o feito de l\u00e1grimas"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>H\u00e1 l\u00e1grimas e l\u00e1grimas. Por elas j\u00e1 todos temos passado, mais leve ou mais profundamente. H\u00e1 l\u00e1grimas e l\u00e1grimas e de diferentes tipos. Todos o sabemos.<\/p>\n<p>H\u00e1 as l\u00e1grimas funcionais, de sempre, como as de hoje a esta hora, libertas constantemente para que a c\u00f3rnea se mantenha h\u00famida mantendo os olhos confort\u00e1veis para uma vis\u00e3o naturalmente saud\u00e1vel. Sempre necess\u00e1rias, nem damos por elas, mas, l\u00e1grimas dan\u00e7antes sem descanso, l\u00e1 est\u00e3o a dar sa\u00fade \u00e0 vis\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 as l\u00e1grimas reflexas, sempre muito desagrad\u00e1veis. S\u00e3o as que os olhos libertam espontaneamente quando atingidos por subst\u00e2ncias que os irritam, como argueiros, fumos, luzes excessivamente fortes, respingos de cebola ou outros vapores qu\u00edmicos existentes ocasionalmente na atmosfera. Necess\u00e1rias nestas situa\u00e7\u00f5es de inc\u00f3modos tempor\u00e1rios que sempre fazemos por evitar.<\/p>\n<p>H\u00e1 as l\u00e1grimas provocadas por situa\u00e7\u00f5es emocionais. \u00c9 nelas que vulgarmente pensamos. S\u00e3o as l\u00e1grimas ps\u00edquicas de resposta a situa\u00e7\u00f5es de profunda emo\u00e7\u00e3o. De ra\u00edzes profundas, elas s\u00e3o negativas como a tristeza, a raiva ou a dor, e positivas como a alegria, a felicidade ou o amor. S\u00e3o elas \u00ab<em>crit\u00e9rio da verdade do mundo dos sentimentos<\/em>\u00bb, nas palavras do fil\u00f3sofo romeno \u00c9mil Cioran (1911-1995). Situam-se aqui os abra\u00e7os feitos de l\u00e1grimas. Todos o sabemos.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos abra\u00e7os de l\u00e1grimas. De tristeza ou de alegria. Mas aquele foi de felicidade e alegria. E foi um abra\u00e7o especial. T\u00e3o especial que cheguei a ver nele uma esp\u00e9cie de manifesta\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica das l\u00e1grimas. Ou de uma comunh\u00e3o de humanos.<\/p>\n<p>Nos dias anteriores j\u00e1 tinha havido muitos abra\u00e7os e eu tinha visto uma ou outra l\u00e1grima a assomar a alguns olhos. E n\u00e3o faltaria raz\u00e3o para isso. Mas aquele espont\u00e2neo, repentino, apertado e demorado abra\u00e7o de l\u00e1grimas incontidas contagiou os meus olhos. E tamb\u00e9m eles reagiram com l\u00e1grimas espont\u00e2neas e solid\u00e1rias. Ser\u00e1 em raz\u00e3o de l\u00e1grimas assim que Nietzsche (1844-1900) p\u00f4de escrever: \u00ab<em>N\u00e3o sei fazer distin\u00e7\u00f5es entre l\u00e1grimas e m\u00fasica.<\/em>\u00bb Com ele me agrada dizer com este fil\u00f3sofo que naquele abra\u00e7o ficou sintetizada em minutos a m\u00fasica do mundo. At\u00e9 porque estavam ali as pautas musicais da escrita daquela l\u00edngua de seis tons: a l\u00edngua vietnamita.<\/p>\n<p>No dia 26 do passado m\u00eas de Novembro um grupo de duas d\u00fazias de vietnamitas &#8211; historiadores, artistas, professores, poetas, escritores, jornalistas &#8211; em coopera\u00e7\u00e3o com a C\u00e2mara, inaugurou um monumento ao P. Francisco de Pina SJ no jardim da biblioteca municipal da cidade da Guarda. Um monumento em bronze, barco \u00e0 vela de tr\u00eas metros de altura sob as ondas do mar, concebido, projectado e realizado no Vietname em sinal de reconhecimento para com aquele sacerdote jesu\u00edta que, ainda um jovem estudante de vinte e um anos, deixou a cidade natal h\u00e1 mais de quatrocentos anos para nunca mais aqui voltar. Mission\u00e1rio e linguista na Cochinchina de ent\u00e3o, regressou agora aos ombros de vietnamitas em festa, como, para a tumba, o levaram em l\u00e1grimas quando ali morreu, num naufr\u00e1gio, h\u00e1 quase quatro s\u00e9culos. Foi a 15 de Dezembro de 1625. E o fruto do seu trabalho ali ficou, naquela Cochinchina de outrora, para outros continuarem e desenvolverem. O continuarem nos fundamentos de uma Igreja vietnamita e na lingu\u00edstica, como a hist\u00f3ria o vem mostrando.<\/p>\n<p>E o reconhecimento l\u00e1 est\u00e1 escrito, naquele simb\u00f3lico monumento, em tr\u00eas l\u00ednguas &#8211; portugu\u00eas, ingl\u00eas e vietnamita &#8211; tal como o c\u00e9lebre trilingue <em>Dictionarium Annamiticum, Lusitanum et Latinum<\/em>, publicado em Roma em 1651e que tem ra\u00edzes no trabalho pioneiro do jesu\u00edta da Guarda. Assim se l\u00ea no monumento: \u00ab<em>Esta estela, trazida de Quang Nam, Vietname, \u00e9 s\u00edmbolo do nosso reconhecimento para com o Padre Francisco de Pina<\/em> (Guarda, 1586 \u2013 Hoi An, Vietname, 1625), <em>inventor pioneiro do<\/em> \u201c<em>Ch\u00fb Qu\u00f4c Ng\u00fb<\/em><em>\u201d<\/em> <em>(escrita vietnamita em alfabeto latino)<\/em>.\u00bb<\/p>\n<p>Um barco \u00e0 vela feito de bronze, que todo ele todo \u00e9 s\u00edmbolo, ali est\u00e1 agora, na cidade da Guarda, a navegar num jardim relvado da montanha a anunciar que a vida das comunidades humanas tem novo sentido quando as culturas reciprocamente se abrem \u00e0 conviv\u00eancia dialogal, mesmo e apesar de naturais conflitos na descoberta rec\u00edproca.<\/p>\n<p>Foi na sala de leitura da Biblioteca Nacional da Ajuda que acompanhei aquele entusiasta vietnamita por Francisco de Pina. Jornalista e editor, depois da festa da Guarda n\u00e3o quis deixar Portugal sem abrir com as pr\u00f3prias m\u00e3os os emblem\u00e1ticos c\u00f3dices com aqueles f\u00f3lios falados pelos investigadores, mesmo que manuscritos em latim ou em portugu\u00eas, duas l\u00ednguas que lhe eram desconhecidas em absoluto. Tocar e ver era o bastante. Tocar, ver e fotografar cada p\u00e1gina, depois.<\/p>\n<p>Primeiro foi uma carta que, embora sem assinatura, a cr\u00edtica interna e externa atribui a Francisco de Pina. N\u00e3o sabendo portugu\u00eas, aquele interessado vietnamita leu o que sabia ler, o ano: 1623. Os olhos brilharam-lhe e, enquanto apontava para o alto, disse em franc\u00eas: \u00ab<em>Francisco de Pina, l\u00e1 de onde se encontra, est\u00e1 a ajudar-nos<\/em>.\u00bb E, fazendo a conta numa folha de papel, exclama com entusiasmo inusitado: \u00ab<em>400, 400 anos, quatro s\u00e9culos precisos que tem esta carta!<\/em>\u00bb E fotografou cada f\u00f3lio como quem fotografa o amor da sua vida.<\/p>\n<p>Depois mud\u00e1mos de registo e abrimos outro volume. Era ali que se encontrava o que mais desejava ver como tantas vezes me havia dito na Guarda, pessoalmente e por mensagens escritas. Era um documento em latim intitulado <em>Manuductio ad Linguam Tunkinensem<\/em>, uma esp\u00e9cie de gram\u00e1tica de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua que abre com seis pautas em clave de sol, representando os seis tons da l\u00edngua vietnamita, precisamente as pautas que se encontram reproduzidas no monumento da Guarda. Ao ver aquelas p\u00e1ginas, levanta-se repentinamente e, num sil\u00eancio de l\u00e1grimas, abra\u00e7a-me por longos momentos que foram minutos, sem d\u00favida. Foi ent\u00e3o que tamb\u00e9m eu n\u00e3o contive as l\u00e1grimas e chorei com ele. Depois daquele longo e apertado abra\u00e7o limp\u00e1mos os olhos. Foi ent\u00e3o que aquele agradecido vietnamita aponta para aquelas folhas bordadas a m\u00fasica e exclama entusiasticamente: \u00ab<em>\u00c9 a minha l\u00edngua, professor, e Francisco de Pina est\u00e1 aqui<\/em>.\u00bb Emudeci e s\u00f3 tive palavras para pedir desculpa a duas ou tr\u00eas pessoas que se encontravam naquela sala revestida de volumes encadernados cheios de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Aquele abra\u00e7o em que os bra\u00e7os do Oriente e do Ocidente se encontraram assim com as l\u00e1grimas foi uma esp\u00e9cie de abra\u00e7o sobre o mundo, com as suas l\u00ednguas e as suas gentes. Naquele abra\u00e7o mais se adensou o misterioso pa\u00eds das l\u00e1grimas humanas. Aquelas l\u00e1grimas n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 secre\u00e7\u00f5es, n\u00e3o. Elas trazem consigo uma metaf\u00edsica: metaf\u00edsica das l\u00e1grimas que \u00e9 uma metaf\u00edsica do ser humano em que se cruza o passado e o presente com o imanente e o transcendente. E as l\u00e1grimas est\u00e3o l\u00e1, nesse ponto fora do espa\u00e7o em que os bra\u00e7os da cruz se encontram.<\/p>\n<p>Foi isso que conclu\u00ed com aquele sentido abra\u00e7o: h\u00e1 uma metaf\u00edsica das l\u00e1grimas humanas. Elas s\u00e3o as palavras do cora\u00e7\u00e3o quando os l\u00e1bios emudecem.<\/p>\n<p>Um abra\u00e7o de l\u00e1grimas da alegria da paz de Natal com uma prece para que sequem as l\u00e1grimas da guerra.<\/p>\n<p><em>Guarda, 6 de Dezembro de 2023<\/em><br \/>\n<em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":271042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-306574","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/306574","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=306574"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/306574\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=306574"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=306574"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=306574"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}