{"id":30629,"date":"2008-03-12T11:23:06","date_gmt":"2008-03-12T11:23:06","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/12\/entender-o-silencio-de-deus\/"},"modified":"2008-03-12T11:23:06","modified_gmt":"2008-03-12T11:23:06","slug":"entender-o-silencio-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entender-o-silencio-de-deus\/","title":{"rendered":"Entender o sil\u00eancio de Deus"},"content":{"rendered":"<p>Tomando os relatos da Paix\u00e3o, percebemos que estes mant\u00eam, entre si, linhas fundamentais de continuidade, mas sem abdicar de uma estrat\u00e9gia diferenciada, a ponto de ser reconhec\u00edvel a voz e o timbre de cada evangelista. Em Marcos, por exemplo, a cruz \u00e9 o momento da revela\u00e7\u00e3o do segredo messi\u00e2nico de Jesus, mantido ao longo de toda a narrativa. Contudo, o centuri\u00e3o romano que ali declara, \u00abeste homem era verdadeiramente filho de Deus\u00bb, em Lucas profere algo que diz o mesmo e outra coisa: \u00abeste homem era verdadeiramente justo\u00bb. Lucas escreve  tamb\u00e9m para crist\u00e3os vindos do paganismo, e aquele \u00abverdadeiramente justo\u00bb tem uma duplicidade que visa o seu heterog\u00e9neo audit\u00f3rio: Jesus \u00e9 tanto o inocente, vitimado pelos aparelhos religioso e pol\u00edtico, como o \u00abjusto sofredor\u00bb, essa figura atravessada por expl\u00edcitas refer\u00eancias messi\u00e2nicas.  Mas, em todos os relatos da Paix\u00e3o, as palavras culminantes s\u00e3o aquelas que aparecem na boca do pr\u00f3prio Jesus: \u00abPai, perdoa-lhes, porque n\u00e3o sabem o que fazem\u00bb; \u00abPai, nas tuas m\u00e3os entrego o meu esp\u00edrito\u00bb; \u00abTudo est\u00e1 consumado\u00bb; \u00abMeu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?\u00bb (ou \u00abMeu Deus, Meu Deus a que me abandonaste?\u00bb, como preferem algumas tradu\u00e7\u00f5es recentes). Claramente, o destinat\u00e1rio das palavras de Jesus n\u00e3o \u00e9 um confidente qualquer: \u00e9 o pr\u00f3prio Deus. E o modo como Jesus o evoca, chamando-o \u00abPai\u00bb e \u00abMeu Deus\u00bb, confere ao di\u00e1logo uma dens\u00edssima intimidade, tanto mais paradoxal quanto a cruz \u00e9 vista como maldi\u00e7\u00e3o e, a sua, uma morte reservada aos infi\u00e9is. Jesus afronta, assim, n\u00e3o apenas o sil\u00eancio dos homens, mas tamb\u00e9m o aparente e inexpugn\u00e1vel sil\u00eancio por parte de Deus. A cruz desconcerta como uma aporia intransigente. Somos chamados a contemplar o mist\u00e9rio de Deus e o do Homem  no mais devastador dos sil\u00eancios que o mundo conheceu. Mas desse, precisamente, partir\u00e1 o \u201cgrande levantamento\u201d, a \u201cradical insurrei\u00e7\u00e3o\u201d pascal.   J\u00e1 depois de proferidas todas as palavras, os evangelistas Marcos e Mateus  contam que Jesus soltou ainda um segundo grito. E que, nesse momento, o v\u00e9u do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo. Isto \u00e9, o sagrado perdeu a sua reserva e desloca-se agora para o profano mais escandaloso: na carne daquele inocente, no seu lancinante sil\u00eancio, reside agora a revela\u00e7\u00e3o de Deus.    <i>Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tomando os relatos da Paix\u00e3o, percebemos que estes mant\u00eam, entre si, linhas fundamentais de continuidade, mas sem abdicar de uma estrat\u00e9gia diferenciada, a ponto de ser reconhec\u00edvel a voz e o timbre de cada evangelista. 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