{"id":30570,"date":"2008-03-10T11:44:50","date_gmt":"2008-03-10T11:44:50","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/10\/catequese-do-cardeal-patriarca-no-5-o-domingo-da-quaresma\/"},"modified":"2008-03-10T11:44:50","modified_gmt":"2008-03-10T11:44:50","slug":"catequese-do-cardeal-patriarca-no-5-o-domingo-da-quaresma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/catequese-do-cardeal-patriarca-no-5-o-domingo-da-quaresma\/","title":{"rendered":"Catequese do Cardeal-Patriarca no 5.\u00ba Domingo da Quaresma"},"content":{"rendered":"<p><i>A Palavra rezada<\/i> <!--more--> <b> Introdu\u00e7\u00e3o<\/b> 1. Toda a escuta sincera da Palavra integra-se na atitude orante, \u00e9 o ponto de partida da experi\u00eancia da ora\u00e7\u00e3o. \u201cA ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o exerc\u00edcio do desejo\u201d, afirma Bento XVI, citando Santo Agostinho[1]. E o P. Voillaume afirma: \u201cO sentimento de insatisfa\u00e7\u00e3o faz parte da ora\u00e7\u00e3o: \u00e9 a prova de um desejo n\u00e3o satisfeito que s\u00f3 pode crescer com amor. A ora\u00e7\u00e3o, em vez de matar essa sede, f\u00e1-la cada vez maior\u201d[2]. O desejo de escutar o Senhor e de entrar na sua intimidade \u00e9 o dinamismo da ora\u00e7\u00e3o e est\u00e1 presente quando, lendo a Sagrada Escritura, n\u00e3o se pretende apenas aprender, mas se deseja ardentemente escutar o Deus vivo. Quem escuta ou l\u00ea a Escritura com f\u00e9, \u00e9 movido por este desejo de escutar a Palavra viva de Deus, deixando-se arrastar para a conviv\u00eancia \u00edntima com Ele.  A Palavra lida ou escutada assim prepara o cora\u00e7\u00e3o para ouvir o Senhor, dilata o cora\u00e7\u00e3o tornando-o mais capaz de escutar. O Santo Padre na sua Enc\u00edclica sobre a Esperan\u00e7a afirma: \u201cO ser humano foi criado para uma realidade grande, ou seja, para o pr\u00f3prio Deus, para ser preenchido por Ele. Mas o seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 demasiado estreito para a grande realidade que lhe est\u00e1 destinada. Tem de ser dilatado. Assim procede Deus: diferindo a sua promessa, faz aumentar o desejo; e com o desejo, dilata a alma, tornando-a mais apta a receber os seus dons\u201d[3].  Se o desejo \u00e9 o sentimento que nos leva a procurar a Palavra viva de Deus, a palavra inspirada da Escritura, \u00e0 medida que penetra em n\u00f3s, realiza esse dilatar da alma. A Palavra da Escritura deve ser ouvida e relida, preparando o cora\u00e7\u00e3o para escutar o Deus vivo.  <b>Como escutar a Escritura<\/b>  2. Um dos motivos pelos quais a escuta ou leitura da Sagrada Escritura \u00e9 ineficaz na vida dos crist\u00e3os e da Igreja, n\u00e3o produzindo o efeito de p\u00f4r em contacto com a Palavra viva, \u00e9 o ser escutada de maneira imperfeita. O esp\u00edrito n\u00e3o se preparou para essa escuta; em assembleia, a leitura \u00e9 tantas vezes imperfeita, n\u00e3o h\u00e1 o sil\u00eancio interior para acolher a Palavra do Senhor. E esse primeiro momento da Palavra bem escutada \u00e9 importante para que ela nos conduza ao cora\u00e7\u00e3o de Deus. Cito-vos, a este prop\u00f3sito, um texto dos Padres da Igreja: \u201cV\u00f3s que percorreis os jardins da Escritura n\u00e3o tendes que o fazer depressa ou com neglig\u00eancia. Cavai cada palavra para dela tirar o Esp\u00edrito. Imitai a abelha laboriosa que de cada flor recebe o seu mel\u201d[4].  Este saborear o texto \u00e9 etapa decisiva para escutar, atrav\u00e9s dele, o Senhor. Quando se l\u00ea pessoalmente, esse momento \u00e9 mais f\u00e1cil, se se est\u00e1 devorado pelo desejo de escutar o Senhor. Quando se escuta em assembleia \u00e9 mais exigente, sugere uma pedagogia para conduzir a comunidade a essa escuta, de que os momentos de sil\u00eancio, a admoni\u00e7\u00e3o esclarecedora e motivadora, o c\u00e2ntico com un\u00e7\u00e3o, e, sobretudo, a boa proclama\u00e7\u00e3o da Palavra, devem fazer parte.  Referindo-se \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, lugar pr\u00f3prio para a escuta da Palavra em comunidade, o Conc\u00edlio Vaticano II ensina: \u201cpara obter a sua efic\u00e1cia plena \u00e9 necess\u00e1rio que os fi\u00e9is acedam \u00e0 Liturgia com as disposi\u00e7\u00f5es de uma alma recta, que harmonizem a sua alma com a sua voz, que cooperem com a gra\u00e7a do alto, para n\u00e3o receberem esta em v\u00e3o\u201d[5]. Esta predisposi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u00e9 j\u00e1 express\u00e3o do desejo de escutar o Senhor.     <b>A Palavra torna-se ora\u00e7\u00e3o<\/b>  3. Quando a Palavra que se escutou ou se leu se torna viva e toca o cora\u00e7\u00e3o, se torna Palavra de Deus viva para n\u00f3s, ela torna-se ora\u00e7\u00e3o, experi\u00eancia de comunh\u00e3o, e a ora\u00e7\u00e3o torna-se esperan\u00e7a. Quando Deus nos fala renova-se totalmente o sentido da nossa vida. Bento XVI refere-se, assim, a esse momento surpreendente da escuta da Palavra do Deus vivo: \u201cPrimeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperan\u00e7a \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o. Quando j\u00e1 ningu\u00e9m me escuta, Deus ainda me ouve. Quando j\u00e1 n\u00e3o posso falar com ningu\u00e9m, nem invocar mais ningu\u00e9m, posso sempre falar com Deus. Se n\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m que me possa ajudar \u2013 por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar \u2013 Ele pode ajudar-me. Se me encontro confinado numa extrema solid\u00e3o\u2026 o orante jamais est\u00e1 totalmente s\u00f3\u201d[6].  Neste chegar \u00e0 ora\u00e7\u00e3o enquanto conv\u00edvio \u00edntimo com o Senhor, atrav\u00e9s da Sua Palavra, a Escritura, palavra humana inspirada, funciona como um sacramento: a sua leitura ou escuta conduz-nos \u00e0 intimidade, sugere-nos o que devemos responder a Deus que nos dirigiu a Sua Palavra. O que lemos ou proclamamos alarga e conduz o nosso cora\u00e7\u00e3o. Ou\u00e7amos Bento XVI no seu livro \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d: \u201cBento, na sua Regra, cunhou a f\u00f3rmula \u00abmens nostra concordet voci nostrae \u2013 o nosso esp\u00edrito concorde com a nossa voz\u00bb (19,7). Normalmente o pensamento precede a palavra, procura e forma a palavra; mas, na ora\u00e7\u00e3o dos Salmos, na ora\u00e7\u00e3o lit\u00fargica em geral, passa-se o contr\u00e1rio: a palavra, a voz precede-nos, e o nosso esp\u00edrito deve adequar-se a esta voz. De facto n\u00f3s, homens, sozinhos, n\u00e3o sabemos \u00abo que devemos pedir em nossas ora\u00e7\u00f5es\u00bb (Rom. 8,26); encontramo-nos demasiado longe de Deus: demasiado misterioso e grande \u00e9 Ele para n\u00f3s. Por isso Deus veio em nossa ajuda: Ele mesmo nos sugere as palavras de ora\u00e7\u00e3o vindas d\u2019Ele, concede-nos caminhar para Ele, conhec\u00ea-l\u2019O pouco a pouco atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o com os irm\u00e3os que nos deu, e aproximarmo-nos d\u2019Ele\u201d[7].  Este efeito sacramental da Palavra faz com que a nossa ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja, apenas, a compreens\u00e3o humana da Escritura, mas um dom do Esp\u00edrito de Deus, que reza em n\u00f3s e suscita no nosso cora\u00e7\u00e3o a resposta \u00e0 Palavra viva do Senhor. \u00c9 essa a vis\u00e3o de Paulo acerca da ora\u00e7\u00e3o do crist\u00e3o: \u201cDo mesmo modo o Esp\u00edrito, vem em aux\u00edlio da nossa fraqueza, pois n\u00f3s n\u00e3o sabemos o que pedir para rezar como conv\u00e9m. Mas o pr\u00f3prio Esp\u00edrito intercede por n\u00f3s com gemidos inef\u00e1veis e aquele que sonda os cora\u00e7\u00f5es sabe qual \u00e9 o desejo do Esp\u00edrito e que a sua intercess\u00e3o pelos santos corresponde aos desejos de Deus\u201d (Rom. 8,26-27). A Palavra humana da Escritura torna-se, mais uma vez, instrumento do Esp\u00edrito, levando-nos a rezar como Deus gosta. Como diz o Santo Padre, \u201co modo correcto de rezar \u00e9 um processo de purifica\u00e7\u00e3o interior que nos torna aptos para Deus e, precisamente desta forma, aptos tamb\u00e9m para os homens. Na ora\u00e7\u00e3o o ser humano deve aprender o que verdadeiramente pode pedir a Deus, o que \u00e9 digno de Deus\u201d[8].     <b>Ora\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria<\/b>  4. Como j\u00e1 afirm\u00e1mos v\u00e1rias vezes, nas catequeses anteriores, a Sagrada Escritura \u00e9 a Palavra que Deus dirige ao Seu Povo. Quando ela se torna ora\u00e7\u00e3o, \u00e9 a Igreja que reza, mesmo no orante individual. A ora\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da Sagrada Escritura leva o crist\u00e3o, que reza, a sentir-se, em tudo o que \u00e9, membro da Igreja, Povo do Senhor. Escutemos, mais uma vez, a \u00faltima Enc\u00edclica do Santo Padre: \u201cPara que a ora\u00e7\u00e3o desenvolva esta for\u00e7a purificadora deve, por um lado, ser muito pessoal, um confronto do meu eu com Deus, com o Deus vivo; mas, por outro, deve ser incessantemente guiada e iluminada pelas grandes ora\u00e7\u00f5es da Igreja e dos santos, pela ora\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, na qual o Senhor nos ensina continuamente a rezar de modo justo (\u2026). Na ora\u00e7\u00e3o deve haver sempre um entrela\u00e7amento de ora\u00e7\u00e3o p\u00fablica e ora\u00e7\u00e3o pessoal. Assim podemos falar a Deus, assim Deus nos fala. Deste modo, realizam-se em n\u00f3s as purifica\u00e7\u00f5es, mediante as quais nos tornamos capazes de Deus e id\u00f3neos ao servi\u00e7o dos outros. Assim, tornamo-nos capazes da grande esperan\u00e7a e ministros da esperan\u00e7a para os outros: a esperan\u00e7a em sentido crist\u00e3o \u00e9 sempre esperan\u00e7a tamb\u00e9m para os outros\u201d[9].  No seu livro \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d Bento XVI descreve, de maneira muito bela, esta interpenetra\u00e7\u00e3o do pessoal e do comunit\u00e1rio na ora\u00e7\u00e3o a partir da Palavra de Deus: \u201cA ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser uma exibi\u00e7\u00e3o diante dos homens; exige aquela discri\u00e7\u00e3o que \u00e9 essencial numa rela\u00e7\u00e3o de amor. Deus dirige-Se a cada indiv\u00edduo, chamando-o com um nome pr\u00f3prio que ningu\u00e9m mais conhece, diz-nos a Escritura (Ap. 2,17). O amor de Deus por cada indiv\u00edduo \u00e9 totalmente pessoal e cont\u00e9m em si este mist\u00e9rio da unicidade que n\u00e3o pode ser divulgada diante dos homens.  Esta discri\u00e7\u00e3o essencial da ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o exclui a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria: o pr\u00f3prio Pai Nosso apresenta-se como uma ora\u00e7\u00e3o na primeira pessoa do plural, e somente entrando a fazer parte do \u00abn\u00f3s\u00bb dos filhos de Deus, \u00e9 que podemos ultrapassar as fronteiras deste mundo e elevar-nos at\u00e9 Deus. Mas este \u00abn\u00f3s\u00bb desperta a parte mais \u00edntima da minha pessoa; no acto de rezar, devem compenetrar-se sempre o aspecto exclusivamente pessoal e o aspecto comunit\u00e1rio, como havemos de ver mais em pormenor na explica\u00e7\u00e3o do Pai Nosso. Tal como na rela\u00e7\u00e3o entre homem e mulher h\u00e1 a esfera totalmente pessoal, que precisa dum espa\u00e7o protegido pela discri\u00e7\u00e3o, mas ao mesmo tempo a rela\u00e7\u00e3o a dois no matrim\u00f3nio e na fam\u00edlia, incluindo, por sua natureza, tamb\u00e9m uma responsabilidade p\u00fablica, o mesmo se verifica na rela\u00e7\u00e3o com Deus: o \u00abn\u00f3s\u00bb da comunidade orante e a dimens\u00e3o muito pessoal daquilo que s\u00f3 a Deus se pode comunicar compenetram-se reciprocamente\u201d[10].      <b>A ora\u00e7\u00e3o lit\u00fargica<\/b>  5. A Liturgia \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o da comunidade reunida para celebrar os mist\u00e9rios de Cristo, Palavra eterna de Deus. A comunh\u00e3o com Cristo \u00e9 a maneira mais intensa e profunda de escutar a Palavra viva de Deus. \u00c9 na Liturgia que a s\u00edntese entre ora\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria se realiza na sua forma mais expressiva, embora a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria deva estar presente mesmo quando o crist\u00e3o reza sozinho. Se o faz adorando a Santa Eucaristia, a sua ora\u00e7\u00e3o pessoal est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o directa com a grande ora\u00e7\u00e3o da comunidade, a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia.  Na Liturgia, de modo especial na celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o directa entre a Palavra escutada e Cristo, Palavra eterna de Deus, na comunh\u00e3o com Ele, na Sua P\u00e1scoa. N\u00e3o se pode considerar a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia em duas partes aut\u00f3nomas e separadas: celebra\u00e7\u00e3o da Palavra e celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia. Toda ela \u00e9 um encontro com a Palavra do Deus vivo, cuja escuta desabrocha numa intensidade de comunh\u00e3o. A Palavra escutada, de modo particular a Palavra de Jesus no Evangelho, leva-nos a identificar, na Eucaristia, o Verbo eterno de Deus, e a mergulharmos, com Ele, na comunh\u00e3o de vida e de amor. Nunca se escuta tanto a Palavra eterna de Deus como quando nos unimos a Ele, e por Ele, nos unimos intensamente \u00e0 Igreja, que oferece, com Ele, o sacrif\u00edcio de louvor. Se toda a escuta da Palavra de Deus nos conduz \u00e0 adora\u00e7\u00e3o e \u00e0 comunh\u00e3o com Ele, na Eucaristia esse efeito \u00e9 completo, pois a Palavra escutada leva-nos \u00e0 comunh\u00e3o com Cristo, unidos a Ele na oferta ao Pai do acto de amor que redimiu o mundo.  A rela\u00e7\u00e3o da escuta da Palavra e a comunh\u00e3o com Deus, em Jesus Cristo, \u00e9 t\u00e3o total, que podemos dizer que toda a leitura orante da Palavra da Escritura tem dimens\u00e3o eucar\u00edstica e clama pela Eucaristia, mesmo quando \u00e9 feita fora da celebra\u00e7\u00e3o.  A celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia \u00e9 o momento mais exigente da verdade da Igreja. Ela \u00e9 mais que um rito; antes de ser ac\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 ac\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Jesus Cristo, Palavra eterna de Deus, que comunica ao cora\u00e7\u00e3o da Igreja a Palavra que Deus tem hoje para lhe dizer. Mas para o acolher a Ele, Palavra viva, a Igreja precisa de come\u00e7ar por escutar a Escritura. O modo como se cuida a proclama\u00e7\u00e3o da Palavra na celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia, condiciona a pr\u00f3pria comunh\u00e3o eucar\u00edstica. E a pobreza das nossas celebra\u00e7\u00f5es come\u00e7am exactamente por a\u00ed, pela maneira como se proclama e acolhe a Palavra. O Conc\u00edlio Vaticano II ensinou: \u201cNa celebra\u00e7\u00e3o da Liturgia, a Sagrada Escritura tem grande import\u00e2ncia. \u00c9 dela que s\u00e3o tirados os textos que se l\u00eaem e a homilia explica, bem como os Salmos que se cantam; \u00e9 sob a sua inspira\u00e7\u00e3o e no seu \u00e9lan que as ora\u00e7\u00f5es, as s\u00faplicas e os hinos lit\u00fargicos foram surgindo; \u00e9 dela que as ac\u00e7\u00f5es e os s\u00edmbolos recebem o seu significado\u201d[11].     <b>A Palavra da Escritura e a ora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua<\/b>  6. A Palavra revelada \u00e9 a Palavra de Deus sempre presente, \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, que pode conduzir a Deus cada momento da nossa vida. Como diz Bento XVI, \u201cEsta Palavra n\u00e3o \u00e9 algo imposto ao homem de fora; ela \u00e9, na medida em que formos capazes de a receber, revela\u00e7\u00e3o da natureza do pr\u00f3prio Deus e assim explica\u00e7\u00e3o da verdade do nosso ser: \u00e9-nos desvendada a partitura da nossa exist\u00eancia, de modo a podermos l\u00ea-la e traduzi-la na vida. A vontade de Deus deriva do ser de Deus e, consequentemente, introduz-nos na verdade do nosso ser, liberta-nos da auto-destrui\u00e7\u00e3o pela mentira\u201d[12].  Penetrando no mais \u00edntimo de n\u00f3s mesmos, sobretudo se a sabemos de cor, a palavra garante uma uni\u00e3o cont\u00ednua da nossa vida com Deus, ajuda-nos a viver com Deus. Ou\u00e7amos, ainda, um bel\u00edssimo texto de \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d: \u201cO mais importante \u00e9 que \u2013 para al\u00e9m de tais situa\u00e7\u00f5es pontuais \u2013 a rela\u00e7\u00e3o com Deus esteja presente no \u00edntimo da nossa alma; para que isso aconte\u00e7a, \u00e9 preciso ter sempre avivada esta rela\u00e7\u00e3o e trazer-lhe continuamente os acontecimentos di\u00e1rios. Rezaremos tanto melhor quanto mais presente estiver, no \u00edntimo da nossa alma, a orienta\u00e7\u00e3o para Deus. Quanto mais a referida orienta\u00e7\u00e3o constituir a base de apoio de toda a nossa exist\u00eancia, tanto mais havemos de ser homens de paz; tanto mais seremos capazes de suportar a dor, de compreender os outros e de nos abrirmos a eles. A esta orienta\u00e7\u00e3o que impregna toda a nossa consci\u00eancia, a esta presen\u00e7a silenciosa de Deus na base do nosso pensar, meditar e ser, chamamos \u00abora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua\u00bb. E, no fundo, \u00e9 tamb\u00e9m isso que entendemos quando falamos de \u00abamor de Deus\u00bb; ao mesmo tempo \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o mais \u00edntima e a for\u00e7a motriz do amor ao pr\u00f3ximo\u201d[13].  O exerc\u00edcio da \u201cLectio Divina\u201d \u00e9 um bom m\u00e9todo para esta conviv\u00eancia cont\u00ednua com Deus atrav\u00e9s da Palavra da Escritura. Exerc\u00edcio pessoal que se abre \u00e0 dimens\u00e3o comunit\u00e1ria da ora\u00e7\u00e3o, nos leva a visitar continuamente o mesmo texto, at\u00e9 ele ser fonte de conviv\u00eancia amorosa com Deus. Descobrimos que a Palavra de Deus n\u00e3o \u00e9 fen\u00f3meno ocasional mas realidade cont\u00ednua que abra\u00e7a toda a nossa vida, vivida ao ritmo de Deus. Guido o cartuxo, autor medieval, exprime assim esta conviv\u00eancia com a Palavra: \u201cA leitura leva \u00e0 boca alimento s\u00f3lido, a medita\u00e7\u00e3o corta-o e mastiga-o, a ora\u00e7\u00e3o saboreia-o, a contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria do\u00e7ura que alegra e recria\u201d[14].  A conviv\u00eancia com a Escritura leva-nos a conhecer o cora\u00e7\u00e3o de Deus, como diz S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno: \u201cAprende a conhecer o cora\u00e7\u00e3o de Deus nas palavras de Deus\u201d. E esse conv\u00edvio tem a frescura e a surpresa da rela\u00e7\u00e3o pessoal. N\u00e3o \u00e9 um esquema frio, que se repita em todas as circunst\u00e2ncias. Tem a criatividade de uma rela\u00e7\u00e3o \u00fanica. Uma m\u00edstica do nosso tempo, Madeleine Delbr\u00eal, inspirada nas dan\u00e7as b\u00edblicas, compara-a a uma dan\u00e7a de duas pessoas que se amam, entre o amado e a amada, a que ela chama a dan\u00e7a da obedi\u00eancia. Terminaremos esta Catequese com o seu poema.     \u201cSenhor, ensina-nos o lugar  que, no eterno romance  iniciado entre Ti e n\u00f3s,  ocupa o baile especial  da nossa exist\u00eancia.     Revela-nos a grande orquestra dos teus des\u00edgnios,  na qual Tu semeias notas estranhas,  na serenidade do que Tu queres.  Ensina-nos a vestir todos os dias  a nossa condi\u00e7\u00e3o humana  como um vestido de baile  que nos far\u00e1 amar por Ti  todos os seus pormenores, como j\u00f3ias  que n\u00e3o podem faltar.        Faz-nos viver a nossa vida,  n\u00e3o como um jogo de xadrez,  em que todos os movimentos s\u00e3o calculados,  n\u00e3o como uma partida em que tudo \u00e9 dif\u00edcil,  n\u00e3o como um teorema  que nos faz quebrar a cabe\u00e7a,  mas como uma festa sem fim  em que se renove o encontro contigo.     Como um baile,  como uma dan\u00e7a,  entre os bra\u00e7os da tua gra\u00e7a,  na m\u00fasica universal do amor\u201d[15].    S\u00e9 Patriarcal, 9 de Mar\u00e7o de 2008   <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i>        &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;   [1] Bento XVI, Spe Salvi, n\u00ba 33  [2] Citado em Arturo Somoza Ramos, Que \u00e9 a Lectio Divina, pg. 33  [3] Bento XVI, Spe Salvi, n\u00ba 33  [4] In A. Somoza Ramos, op. cit. Pg. 27  [5] Sacrosanctum Concilium, n\u00ba 11  [6] Bento XVI, Spe Salvi, n\u00ba 32  [7] Bento XVI, Jesus de Nazar\u00e9, pp. 176-177  [8] Bento XVI, Spe Salvi, n\u00ba 33  [9] Ibidem, n\u00ba 34  [10] Bento XVI, \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d, pp. 173-174  [11] S.C. n\u00ba 24  [12] Bento XVI, \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d, pg. 197  [13] Ibidem, p. 175  [14] In A. Somoza Ramos, op. cit. p. 13  [15] In. Carlo Maria MARTINI, \u201cTocarei para ti a harpa de dez cordas\u201d, pp. 126-127<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Palavra rezada<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,295,127,144,206,246,275,91],"class_list":["post-30570","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-biblia","tag-catequese","tag-concilio-vaticano-ii","tag-familia","tag-liturgia","tag-pascoa","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30570","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30570"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30570\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30570"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30570"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30570"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}