{"id":30547,"date":"2008-03-07T17:13:18","date_gmt":"2008-03-07T17:13:18","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/07\/conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto\/"},"modified":"2008-03-07T17:13:18","modified_gmt":"2008-03-07T17:13:18","slug":"conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancia Quaresmal do Bispo do Porto"},"content":{"rendered":"<p>Esperar, para abra\u00e7ar  a totalidade (cf. Spe Salvi, n.\u00ba 12) <!--more--> Neste nosso segundo encontro quaresmal, sobre a virtude da esperan\u00e7a \u00e0 luz da enc\u00edclica Spe Salvi, proponho-me comentar algumas afirma\u00e7\u00f5es do Papa Bento XVI, sumamente sugestivas e oportunas para a vida de todos n\u00f3s.  Quero dizer que a esperan\u00e7a liberta e potencia infinitamente cada momento da vida, fazendo-nos tom\u00e1-lo como ocasi\u00e3o e est\u00edmulo para a actualidade definitiva, quando tudo for plenamente vivido, realizando o futuro \u2013 e dispensando-o assim &#8211; num eterno presente. Quer o Papa dizer que isso suceder\u00e1 apenas quando os encontros que v\u00e3o dando express\u00e3o \u00e0 nossa hist\u00f3ria coincidirem todos no encontro que a resumir\u00e1, finalmente. Como canta expressivamente um dos hinos da Liturgia das Horas: \u201cPassa o tempo, corre a vida, \/ Hora a hora o dia foge; \/ Mas a f\u00e9 nos anuncia \/ Que vem perto o grande encontro\u201d. Realmente, as coisas n\u00e3o s\u00e3o assim t\u00e3o f\u00e1ceis\u2026 Porque o mais corrente e padecente \u00e9 vivermos divididos entre o anseio de plenitude e o desconhecimento do seu contorno mais preciso. Bento XVI ter\u00e1 no n\u00famero 12 da enc\u00edclica um dos seus momentos mais conseguidos, precisamente ao descrever tal contradi\u00e7\u00e3o, por demais sentida: \u201cDe certo modo, desejamos a pr\u00f3pria vida, a vida verdadeira, que depois n\u00e3o seja tocada sequer pela morte; mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o conhecemos aquilo para que nos sentimos impelidos\u201d (Spe Salvi, n\u00ba 12). &#8211; Como resolver tal dissens\u00e3o \u00edntima? Antes de mais, aceitando seguir esse desejo profundo, mesmo sem lhe divisar o fim. E isto porque tal desejo tem um nome certo, que \u00e9 exactamente o da esperan\u00e7a, \u00fanica garantia da plenitude cabal. Continua o Papa, muito certeiramente: \u201cEsta \u2018coisa\u2019 desconhecida \u00e9 a verdadeira \u2018esperan\u00e7a\u2019 que nos impele e o facto de nos ser desconhecida \u00e9, ao mesmo tempo, a causa de todas as ansiedades como tamb\u00e9m de todos os \u00edmpetos positivos ou destruidores para o mundo aut\u00eantico e o ser humano verdadeiro\u201d (Ibidem). Digamos assim: pode ser indefinido o objecto da esperan\u00e7a, mas essa mesma indefini\u00e7\u00e3o \u00e9 que lhe garante um futuro certo. Qualquer meta mais curta e divisada, n\u00e3o nos tiraria donde estamos, por fora ou por dentro de n\u00f3s mesmos. \u00c9 exactamente por ser \u00edmpeto que nos leva longe, como aquela verdade, s\u00f3 entrevista mas de grande exig\u00eancia pessoal, que cantava o futuro Cardeal Newman num hino que a Liturgia das Horas felizmente inclui tamb\u00e9m: \u201cLuz terna, suave, no meio da noite, \/ Leva-me mais longe\u2026 \/ N\u00e3o tenho aqui morada permanente: \/ Leva-me mais longe\u2026\u201d.  O ingl\u00eas Newman, em vias de se converter a um catolicismo \u201cromano\u201d com que n\u00e3o simpatizava, sentia entretanto que para a\u00ed mesmo o levava uma luz ainda bruxuleante, mas indubitavelmente segura. Rendia-se a ela, mesmo temendo o futuro que afinal ansiava, em absoluta verdade. E insistia: \u201cQue importa se \u00e9 t\u00e3o longe, para mim, \/ A praia onde tenho de chegar, \/ Se sobre mim levar constantemente \/ Poisada a clara luz do teu olhar? \/ [\u2026] Se Tu me d\u00e1s a m\u00e3o, n\u00e3o terei medo, \/ Meus passos ser\u00e3o firmes no andar. \/ Luz terna, suave, leva-me mais longe; \/ Basta-me um passo para a Ti chegar\u201d.    Assim nos leva a esperan\u00e7a. E, mais do que nesse trecho de Newman, que ainda se circunscrevia na vida pr\u00f3xima e terrena, a tens\u00e3o anelante que nos transporta levar-nos-\u00e1 \u00e0 vida eterna e celeste. N\u00e3o de modo alienante, mas transbordante. Assim sendo, mantenhamo-nos na tens\u00e3o. \u2013 Um anelo que nos transporta onde, se n\u00e3o divisamos meta nem rosto? Aqui trabalhar\u00e1 a imagina\u00e7\u00e3o, certamente. Mas n\u00e3o a deixemos despistar-se em rumos sem sentido. Como se nos pus\u00e9ssemos a pensar no al\u00e9m com categorias de aqu\u00e9m, com a frustra\u00e7\u00e3o \u00f3bvia de prolongar o que j\u00e1 n\u00e3o basta.  \u2013 Em que pensamos, por exemplo, sob o nome de eternidade? O Papa desenvolve: \u201cCom efeito, \u2018eterno\u2019 suscita em n\u00f3s a ideia do intermin\u00e1vel, e isto nos amedronta; \u2018vida\u2019 faz-nos pensar na exist\u00eancia por n\u00f3s conhecida, que amamos e n\u00e3o queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfa\u00e7\u00f5es, de tal maneira que, se por um lado a desejamos, por outro n\u00e3o a queremos\u201d (Spe Salvi, n\u00ba 12). &#8211; Se n\u00e3o \u00e9 esse o caminho, por onde deveremos ent\u00e3o prosseguir, na imagina\u00e7\u00e3o t\u00e3o prec\u00e1ria como indispens\u00e1vel do objecto da esperan\u00e7a que n\u00e3o p\u00e1ra?      O dilema \u00e9 \u00e1rduo, porque n\u00e3o podemos obvi\u00e1-lo. Por um lado, n\u00e3o podemos deixar de esperar; por outro, \u00e9-nos dif\u00edcil imaginar o qu\u00ea\u2026 A n\u00e3o ser que n\u00e3o se trate de \u201co qu\u00ea\u201d mas de \u201cquem\u201d. E que deste \u201cquem\u201d j\u00e1 tenhamos apercebido o rosto.  Sabemos certamente \u2013 e certeiramente! &#8211; o que o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica nos lembra: \u201cEste mist\u00e9rio de comunh\u00e3o bem-aventurada com Deus e com todos os que est\u00e3o em Cristo ultrapassa toda a compreens\u00e3o e toda a representa\u00e7\u00e3o\u201d (n\u00ba 1027). Ou ainda: \u201cEm virtude da sua transcend\u00eancia, Deus n\u00e3o pode ser visto tal como \u00e9, sen\u00e3o quando Ele pr\u00f3prio abrir o seu mist\u00e9rio \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o imediata do homem e lhe der capacidade para O contemplar\u201d (n\u00ba 1028). Mas, acreditamos, antes de mais e acima de tudo, que, em Cristo, Deus se tornou presente para sempre \u00e0s nossa vidas, preenchendo o aqu\u00e9m e o al\u00e9m delas: \u201cNa gl\u00f3ria do c\u00e9u, os bem-aventurados [\u2026] j\u00e1 reinam com Cristo. Com Ele \u2018reinar\u00e3o pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos\u2019 (Ap 22, 5)\u201d (n\u00ba 1029).   O rosto de Cristo \u00e9 um rosto total, onde, de certo modo, cabem at\u00e9 todos os rostos. Um encontro final, que inclui todos os encontros e consiga mesmo superar os desencontros havidos.  Ora, diz-nos o Papa, \u00e9 dessa totalidade que se trata, como \u00fanico alimento consistente duma indispens\u00e1vel esperan\u00e7a. Oi\u00e7amo-lo: \u201cA \u00fanica possibilidade que temos \u00e9 procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar que a eternidade n\u00e3o seja uma sucess\u00e3o cont\u00ednua de dias do calend\u00e1rio, mas algo parecido com o instante repleto de satisfa\u00e7\u00e3o, onde a totalidade nos abra\u00e7a e n\u00f3s abra\u00e7amos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo \u2013 o antes e o depois \u2013 j\u00e1 n\u00e3o existe\u201d (Spe Salvi, n\u00ba 12). Um pouco on\u00edrico at\u00e9 aqui, poderia parecer-nos. Realmente n\u00e3o, porque tudo se realiza no encontro com Algu\u00e9m que nos procurou h\u00e1 dois mil anos e nos receber\u00e1 sempre, conforme a promessa que deixou. A promessa que assegura a esperan\u00e7a e a alegria: \u201cPodemos somente procurar pensar que este instante \u00e9 a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastid\u00e3o do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de Jo\u00e3o: \u2018Eu hei-de ver-vos de novo; e o vosso cora\u00e7\u00e3o alegrar-se-\u00e1 e ningu\u00e9m vos poder\u00e1 tirar a vossa alegria\u2019 (16, 22). Devemos olhar neste sentido, se quisermos entender o que visa a esperan\u00e7a crist\u00e3, o que esperamos da f\u00e9, do nosso estar com Cristo\u201d (Ibidem). E a enc\u00edclica alude, muito a prop\u00f3sito, ao n\u00ba 1025 do Catecismo: \u201cViver no C\u00e9u \u00e9 \u2018estar com Cristo\u2019. Os eleitos vivem \u2018n\u2019Ele\u2019; mas n\u2019Ele conservam, ou melhor, encontram a sua verdadeira identidade, o seu nome pr\u00f3prio\u201d. \u201cConservam, ou melhor, encontram a sua verdadeira identidade\u201d: \u00d3ptima defini\u00e7\u00e3o daquilo que espera a quem espera. A eternidade n\u00e3o \u00e9 muito tempo, mas tempo completo e total, que j\u00e1 n\u00e3o precisa de desdobramento; e essa totalidade n\u00e3o nos dilui, antes nos realiza inteiramente como pessoas, isto \u00e9, em rela\u00e7\u00e3o perfeita com Aquele que a potencia infinitamente, por ser \u201cDeus connosco\u201d, em qualquer circunst\u00e2ncia actual. No fim estaremos n\u00f3s e Ele: e n\u2019Ele temos acesso ao Pai no Esp\u00edrito; e n\u2019 Ele reencontramos tudo, realizando a esperan\u00e7a.  Uma quest\u00e3o de totalidade, uma quest\u00e3o de actualidade: uma quest\u00e3o de sabedoria, que as une \u00e0s duas. Sabedoria significa um saber saboreado, existencial e n\u00e3o meramente pensado. S\u00f3 amadurece com o tempo, que a\u00ed encontra a sua raz\u00e3o de ser, como cad\u00eancia do entendimento das coisas, na respectiva raz\u00e3o de serem, de sermos com elas, de sermos com Ele, definitivamente. Mas isto que digo e ser\u00e1 f\u00e1cil de dizer, parece mais, hoje em dia, f\u00e1cil de esquecer. Se s\u00f3 com tempo as coisas amadurecem, ainda mais no homem do que na natureza, ent\u00e3o o arco da exist\u00eancia humana h\u00e1-de ser dilatado, como felizmente a ci\u00eancia o vai permitindo. E dever\u00edamos estar muito felizes com isso, valorizando a idade avan\u00e7ada e mantendo-a bem integrada na conviv\u00eancia social, com muito ganho desta. Mas tal n\u00e3o sucede, ou n\u00e3o sucede suficientemente, numa sociedade como a nossa. Por v\u00e1rias \u201craz\u00f5es\u201d, sabemo-lo bem: porque pais, filhos e netos trabalham ou estudam fora, por vezes longe e geralmente separados uns dos outros, tornando dif\u00edcil a manuten\u00e7\u00e3o em casa dos ascendentes mais idosos, sobretudo se doentes e dependentes.      Porque as sugest\u00f5es de consumo encontram mais escoamento nos jovens do que nos idosos, o que tamb\u00e9m leva os primeiros a ver a vida num horizonte mais breve e desmotiva os segundos em rela\u00e7\u00e3o ao futuro que lhes sobra.  Porque a pr\u00f3pria pol\u00edtica tem dificuldade em ultrapassar o crescimento pelo desenvolvimento, ou seja, uma perspectiva\u00e7\u00e3o material das coisas por outra mais integral, em que contem sobretudo as pessoas e a realiza\u00e7\u00e3o das suas capacidades, com relevo para a sabedoria acumulada.  \u00c9 um facto que n\u00e3o se apreende a vida e o mundo aos vinte como aos quarenta, aos quarenta como aos sessenta e por a\u00ed adiante. E \u00e9 tamb\u00e9m um facto que, ganhando a sociedade com a juventude e a criatividade dos mais novos, n\u00e3o ganha menos com a experi\u00eancia acumulada e a opini\u00e3o provada dos mais velhos. Infelizmente, tardamos em ser consequentes neste important\u00edssimo ponto, organizando a sociedade \u2013 e at\u00e9 as nossas comunidades crentes? \u2013 de modo a que nenhuma gera\u00e7\u00e3o seja dispensada, nenhuma sabedoria desperdi\u00e7ada.  Existem iniciativas promissoras, das universidades seniores \u00e0s actividades sociais integrando crian\u00e7as, jovens e adultos de menos ou mais idade. Mas ainda h\u00e1 muito a pensar e a realizar, para que ganhemos todos com o que vida ensinou aos outros. Quando Jesus \u00e9 levado ao templo, por Maria e Jos\u00e9, culminando assim a antiga esperan\u00e7a de Israel, \u00e9 reconhecido e divisado por quem j\u00e1 o podia acolher assim. Precisamente Sime\u00e3o, a quem \u201ctinha sido revelado pelo Esp\u00edrito Santo que n\u00e3o morreria antes de ter visto o Messias do Senhor\u201d; e Ana, \u201cde idade muito avan\u00e7ada\u201d que \u201cn\u00e3o se afastava do templo, participando no culto noite e dias, com jejuns e ora\u00e7\u00f5es\u201d (cf. Lc 2, 25 ss).  \u2013 Significa isto que a idade \u00e9 lastro conveniente para se apurar a esperan\u00e7a e preparar a vis\u00e3o? E que ser\u00e3o por isso os anci\u00e3os quem melhor cantar\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o e dela falar\u00e1 a todos quantos esperam? A figura daquela esperan\u00e7a era certamente o Menino; o cora\u00e7\u00e3o que a acolhia era anci\u00e3o. Uma e outra coisa n\u00e3o est\u00e3o absolutamente dependentes da idade de cada um, mas est\u00e3o naturalmente relacionadas com uma depura\u00e7\u00e3o da vida e da esperan\u00e7a que, em geral, o tempo proporciona gradualmente. Creio poder afirmar que um dos maiores desperd\u00edcios desta sociedade de tantos consumos \u00e9 precisamente o da pouca valoriza\u00e7\u00e3o dos idosos. H\u00e1 felizmente muita iniciativa, particular e p\u00fablica, que lhes proporciona boas ou razo\u00e1veis condi\u00e7\u00f5es materiais de vida. Mas h\u00e1 muit\u00edssimo a fazer no sentido de valorizar e recolher tudo o que eles ainda podem dar; especialmente tudo o que s\u00f3 eles podem dar-nos, a partir da experi\u00eancia acumulada, a partir da sabedoria. E neste ponto h\u00e1 realmente muito a fazer, para estimular e acrescer o lugar e a contribui\u00e7\u00e3o dos idosos na sociedade, na fam\u00edlia e tamb\u00e9m nas inst\u00e2ncias p\u00fablicas e administrativas. Cito palavras oportunas dum conhecido psiquiatra em artigo recente: \u201cO aumento da esperan\u00e7a de vida imp\u00f5e um novo olhar sobre os problemas do envelhecimento\u201d. \u00c9 imperiosa a conclus\u00e3o, porque mais tempo de vida tem de significar tamb\u00e9m maior valoriza\u00e7\u00e3o social e cultural dela. Tanto mais que v\u00e1rios concidad\u00e3os nossos, em diversas \u00e1reas, da cultura \u00e0 interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica, \u201ccontinuam, depois dos 80, a consolidar a ideia de que existem cada vez mais pessoas, na agora chamada quarta idade, em condi\u00e7\u00f5es de serem cada vez mais \u00fateis e necess\u00e1rios\u201d. Continua, mais adiante, o mesmo autor: \u201cComo salienta Helena Marchand no seu livro sobre os problemas do envelhecimento, temos de considerar os mais velhos \u201cA Idade da Sabedoria\u201d. Sabem mesmo muitas coisas: t\u00eam uma importante experi\u00eancia de vida, podem ter motiva\u00e7\u00e3o para transmitir muitas coisas \u00e0s gera\u00e7\u00f5es mais novas e t\u00eam, quase sempre, um profundo conhecimento dos valores e das prioridades, o que torna o seu contributo indispens\u00e1vel na fam\u00edlia e na sociedade\u201d. E concretiza os bons efeitos que ter\u00e1 para o Pa\u00eds, para as fam\u00edlias, para a sociedade e para a cultura em geral, uma valoriza\u00e7\u00e3o maior e mais consequente dos idosos e do seu inestim\u00e1vel papel: \u201cEm Portugal, onde falta tanto uma vis\u00e3o reflectida do mundo, importa ouvir os mais velhos. [\u2026] Na fam\u00edlia, os av\u00f3s s\u00e3o cada vez mais importantes: herdeiros dos escombros dos div\u00f3rcios, crian\u00e7as e adolescentes encontram nos av\u00f3s a no\u00e7\u00e3o de continuidade intraps\u00edquica da fam\u00edlia, sinal essencial para a estrutura\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio futuro. [\u2026] Para mantermos os idosos em boa sa\u00fade mental, temos de come\u00e7ar por aceitar que eles podem ter menos instru\u00e7\u00e3o (a que n\u00e3o tiveram acesso, em muitos casos) mas muitas vezes t\u00eam mais cultura, pois conservam um conjunto de padr\u00f5es de comportamento, cren\u00e7as, conhecimentos e costumes que estruturam uma comunidade. Depois, temos de os estimular na participa\u00e7\u00e3o a todos os n\u00edveis, utilizando a sua capacidade reflexiva sobre os problemas\u201d. Terminando taxativamente: \u201cNo futuro, a evolu\u00e7\u00e3o das sociedades depender\u00e1 do modo como tratarmos as crian\u00e7as e os velhos\u201d(Daniel Sampaio \u2013 A 4\u00aa idade. P\u00fablica, 20 de Janeiro de 2008, p. 74). \u00c9 realmente assim, de facto; e deve passar a s\u00ea-lo de direito, quer pelo respeito e considera\u00e7\u00e3o que os idosos nos merecem, nesse novo quarteir\u00e3o da sua vida de horizonte centen\u00e1rio, al\u00e9m dos setenta e cinco anos, quer pelo apoio que merecem da sociedade e do Estado, e em pr\u00f3prio benef\u00edcio duma e doutro. E, quando se levanta um rumor aparentemente humanit\u00e1rio, no (sem)sentido de aceita\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, \u00e9 important\u00edssimo dizer que o caminho tem de ser absolutamente outro, ou seja, o do acompanhamento dos idosos, sobretudo na debilidade e na doen\u00e7a, com todos os subs\u00eddios da seguran\u00e7a e da medicina, integrando os cuidados paliativos, de tanta efic\u00e1cia actual.  N\u00f3s n\u00e3o podemos dispensar os idosos e os doentes, nem dispensar-nos deles. Para um crist\u00e3o, tal decorre imediatamente do comportamento de Cristo, que nunca se alheou das fronteiras dif\u00edceis da vida humana, pois que vinha precisamente salv\u00e1-las e transp\u00f4-las. Mas para todos n\u00f3s, seres humanos do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, essa tem de ser a ocasi\u00e3o mais certa para efectivarmos e garantirmos a nossa humanidade, nossa e dos outros. E todos ganharemos com isso: porque \u201ca felicidade est\u00e1 mais em dar do quem em receber\u201d, sendo esta frase de Jesus, recordada por Paulo a prop\u00f3sito do socorro aos mais fracos (Act 20, 35); porque n\u00e3o temeremos a velhice em n\u00f3s, quando a acompanhamos j\u00e1 nos outros; porque receberemos no trato dos idosos as li\u00e7\u00f5es mais comprovadas da exist\u00eancia humana.  A nossa sociedade vale e valer\u00e1 em grand\u00edssima parte o que dispensar positivamente aos seus anci\u00e3os e enfermos. Da parte destes, garantem-nos os que contactam mais habitualmente com eles, nenhum quer partir, se \u00e9 realmente acompanhado e estimado aqui; da nossa parte, encontraremos em tal conviv\u00eancia o sentido mais belo e mais seguro da nossa exist\u00eancia, seja em que fase for, seja em que situa\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a. Apuraremos a eternidade, em suma, mais qualitativa do que extensivamente, para retomarmos o trecho papal de que partimos. Treinaremos o encontro definitivo e total, nestes encontros inalien\u00e1veis de afora, com saud\u00e1veis e doentes, novos e velhos, porque em todos se alargar\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o e ganhar\u00e1 a vida. E n\u00e3o, nunca, doutro modo. Esclarecedoramente, o Papa Bento XVI lembrou h\u00e1 pouco que as \u201cpress\u00f5es eutan\u00e1sicas\u201d aumentam sobretudo \u201cquanto se insinua uma vis\u00e3o utilitarista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa\u201d. E ainda: \u201cNuma sociedade complexa, fortemente influenciada pelas din\u00e2micas da produtividade e pelas exig\u00eancias da economia, as pessoas fr\u00e1geis e as fam\u00edlias mais pobres arriscam-se, nos momentos de dificuldade econ\u00f3mica ou de doen\u00e7a, a serem esquecidas\u201d. Aproveitou o Papa para pedir mais apoio p\u00fablico para as fam\u00edlias que acompanham doentes, como j\u00e1 os v\u00e3o tendo em rela\u00e7\u00e3o aos nascimentos (cf. Ag\u00eancia Ecclesia, 26 de Fevereiro de 2008, p. 12). E um conceituado cientista da nossa cidade, O professor Daniel Serr\u00e3o, a cujos excelentes oitenta anos presto aqui a minha homenagem, acaba de afirmar, tamb\u00e9m sobre este ponto: \u201cN\u00e3o estamos autorizados a fazer aos outros o que n\u00e3o queremos que nos fa\u00e7am a n\u00f3s. N\u00e3o interessa discutir a eutan\u00e1sia, mas sim os cuidados paliativos [\u2026]. Porque as dores s\u00e3o trat\u00e1veis, a vida at\u00e9 \u00e0 morte pode ser digna e feliz\u201d (Jornal de Not\u00edcias, 1 de Mar\u00e7o de 2008, p. 19)  Gostaria de terminar esta confer\u00eancia como terminei a primeira, ou seja, dando ouvidos \u00e0 poesia. E isto porque, porventura mais do que qualquer prosa, a decanta\u00e7\u00e3o da palavra nos levar\u00e1 mais perto do que s\u00f3 se pode entreouvir, do essencial. A religi\u00e3o, sondando as coisas primeiras e nov\u00edssimas, \u00e9 parente pr\u00f3xima da poesia e da m\u00fasica. Nesta senda, conv\u00e9m retomar uma passagem, j\u00e1 atr\u00e1s citada, da segunda enc\u00edclica de Bento XVI: \u201cA \u00fanica possibilidade que temos \u00e9 procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar que a eternidade n\u00e3o seja uma sucess\u00e3o cont\u00ednua de dias do calend\u00e1rio, mas algo parecido com o instante repleto de satisfa\u00e7\u00e3o, onde a totalidade nos abra\u00e7a e n\u00f3s abra\u00e7amos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo \u2013 o antes e o depois \u2013 j\u00e1 n\u00e3o existe\u201d (Spe Salvi, n\u00ba 12). &#8211; Pois n\u00e3o \u00e9 disso mesmo que se trata, quando falamos das virtualidades da velhice? De ir saindo da temporalidade de que somos prisioneiros, de irmos abra\u00e7ando a totalidade? E como sab\u00ea-lo sem j\u00e1 ter sugado a seiva do tempo? E como chegar \u00e0 totalidade sem a ter apercebido nas coisas, entretanto? Fernando Echevarr\u00eda &#8211; poeta tamb\u00e9m da nossa cidade e primeiro agraciado com o pr\u00e9mio de cultura da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, em 2005 \u2013 tem-nos oferecido algumas medita\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas sobre a velhice que trago aqui com todo o reconhecimento e oportunidade. Escolho poucas, de entre as muitas que podiam ser. Como esta, sobre a transpar\u00eancia que o tempo d\u00e1 finalmente aos lugares, a serenidade que s\u00f3 se alcan\u00e7a para al\u00e9m da precipita\u00e7\u00e3o: \u201cIremos indo? Ou, sobretudo, estamos \/ a receber, na idade que nos vem, \/ profunda transpar\u00eancia de lugares? \/ E, al\u00e9m dela, at\u00e9 \/ intelig\u00eancia, solid\u00e3o? A an\u00e1lise \/ \u00e9 o que nos chega talvez \/ com \u00edmpeto mais lento. \/ E, mesmo, quase \/ com a abstrusa evid\u00eancia que \u00e9 de lei \/ quando o que se d\u00e1 vem dar-se \/ a irmos indo por um vagar que vem\u201d (Fernando Echevarr\u00eda \u2013 Obra inacabada. Edi\u00e7\u00f5es Afrontamento, 2006, p.730). \u201cA irmos indo por um vagar que vem\u2026\u201d. Salta-me \u00e0 mem\u00f3ria nesta circunst\u00e2ncia o \u00faltimo encontro que tive com o saudoso Cardeal D. Ant\u00f3nio Ribeiro, patriarca de Lisboa, h\u00e1 dez anos falecido. Estava muito doente j\u00e1 e resumiu-me aquele momento de dor e esperan\u00e7a com esta frase absoluta: \u201cEstou \u00e0 espera que Ele venha!\u201d. S\u00e3o assim os crentes, quando os anos, amadurecidos na f\u00e9, lhes ensinam &#8211; e nos ensinam por eles &#8211; o que definitivamente deve acontecer.    E com isto estamos a falar da liberdade. Da desmedida largueza porque o corpo ainda pulsa, sugado tempo a ansiar por mais, como me costuma repetir um amigo nonagen\u00e1rio: \u201cSabe a pouco\u2026\u201d. Da liberdade que Echevarr\u00eda tamb\u00e9m canta, mesmo quando n\u00e3o lhe diz o nome: \u201cEstamos perto de onde o tempo alarga \/ a sua para\u00e7\u00e3o. E suga o fundo \/ mais long\u00ednquo de idades, t\u00e3o arcaicas \/ que chegam s\u00f3 em escurid\u00e3o de tufo. \/ O \u00edmpeto invis\u00edvel da chegada \/ apenas incrementa o espa\u00e7o. O \u00faltimo \/ horizonte.  Que recrudesce. Gasta \/ o anterior. De cuja altura e uso \/ prescinde.  Para s\u00f3 se erguer mais alta \/ a para\u00e7\u00e3o. A ab\u00f3bada e o culto \/ da intelig\u00eancia a expandir a escala \/ da invisibilidade. At\u00e9 que o susto \/ nos fique perto. E, ao mesmo tempo, a alma \/ resuma o corpo \u00e0 lentid\u00e3o do pulso\u201d (Ibidem) Chamando-se ilumina\u00e7\u00e3o \u00e0 vida crist\u00e3, a velhice s\u00e1bia e serena \u00e9 a sua \u00faltima refrac\u00e7\u00e3o, qual direc\u00e7\u00e3o \u00faltima da luz no seu meio definitivo. \u2013 E quanto precisamos n\u00f3s desta \u00faltima orienta\u00e7\u00e3o de quem j\u00e1 a sabe! Como, de novo, no canto do poeta: \u201cCom os anos a luz vira a mais doce. Entrega \/ a transpar\u00eancia de sabedoria \/ aos passos graves. \u00c0 expans\u00e3o aberta \/ de outro fundo de luz que inunda a vista. \/ Ser-se feliz \u00e9 mais do que \u00e1trio. Leva \/ em si a lucidez de, a cada dia, \/ ir entrando por uma intelig\u00eancia \/ que se despede da melancolia. \/ Mas n\u00e3o do cunho desse pulso doce \/ que toma conta de mais luz ainda, \/ embora a brisa v\u00e1 trazendo a noite \/ \u00e0 refulgente inclina\u00e7\u00e3o do dia. \/ E \u00e0 da velhice que recruta e move \/ sua fronteira para l\u00e1 da linha\u201d (Ibidem, p. 838). &#8211; Fronteira para l\u00e1 da linha? Totalidade vivida num encontro, como escreveu o Papa? &#8211; Urg\u00eancia de reconhecer e ganhar social e culturalmente tudo quanto a velhice enxerga, s\u00f3 ela?!  Creio que nada disto \u00e9 for\u00e7ado, antes for\u00e7oso. Para profetizarmos por fim com Echevarr\u00eda: \u201cEntardec\u00edamos em Deus. No doce \/ apuro da sua d\u00e1diva. \/ Era um Outubro c\u00famplice, por onde \/ o l\u00facido licor vinha \u00e0s palavras \/ explicitar-se. E ao seu lume a p\u00f4r-se \/ no j\u00fabilo do esp\u00edrito e das \u00e1guas. \/ Decantava-se sermos o suporte \/ desse momento. Da do\u00e7ura amarga \/ que alt\u00edssima subia pela morte \/ e dava em vida. Que s\u00f3 Deus nos dava\u201d (Ibidem, p. 820-821).         <i>Manuel Clemente, S\u00e9 do Porto, 6 de Mar\u00e7o de 2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esperar, para abra\u00e7ar a totalidade (cf. 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