{"id":30490,"date":"2008-03-06T11:01:00","date_gmt":"2008-03-06T11:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/06\/sofrer-para-ser-feliz-e-uma-ideia-perversa\/"},"modified":"2008-03-06T11:01:00","modified_gmt":"2008-03-06T11:01:00","slug":"sofrer-para-ser-feliz-e-uma-ideia-perversa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sofrer-para-ser-feliz-e-uma-ideia-perversa\/","title":{"rendered":"Sofrer para ser feliz \u00e9 uma ideia perversa"},"content":{"rendered":"<p>Isabel Varanda em Barcelos <!--more--> \u00abA ideia, que muitos atribuem ao cristianismo, de que temos de sofrer neste mundo para sermos felizes no outro, \u00e9 perversa\u00bb. Assim come\u00e7ou por dizer a Doutora Isabel Varanda quando na quinta-feira passada proferia a primeira de duas confer\u00eancias quaresmais. E acrescentou: \u00abO ser humano \u00e9 um ser para a felicidade\u00bb.  Com estas palavras a professora da Universidade Cat\u00f3lica deu o tom a toda a confer\u00eancia que proferiu subordinada ao tema Doen\u00e7a e Sofrimento, apresentando-os como fazendo parte da condi\u00e7\u00e3o do ser humano, a exigirem o cuidado de uns pelos outros.  Perante uma assist\u00eancia de duas centenas e meia de pessoas, uma parte delas habituada a participar nas catequeses semanais de adultos que a Par\u00f3quia de Santa Maria Maior promove na cidade de Barcelos, a conferencista salientou a dignidade ontol\u00f3gica de todos os seres humanos e apontou v\u00e1rias atitudes de comportamentos pessoais e colectivos a promover para com os que s\u00e3o atingidos pela doen\u00e7a.  \u00c0 luz de uma sadia antropologia teol\u00f3gica, a vis\u00e3o do ser humano a partir da ideia de um Deus criador, cada ser humano \u00e9 criado por gra\u00e7a, na gra\u00e7a e para a gra\u00e7a. Originado no dom, podemos e devemos dizer a cada pessoa: \u00abpor maior que seja a tua dor, seja qual for a tua mis\u00e9ria, Deus ama-te\u00bb. Sim, este amor precede-te, n\u00e3o se quebra, antes refor\u00e7a- se na tua fragilidade.  Olhando para o exemplo contado na par\u00e1bola do bom samaritano, a conferencista convidou cada um a situar-se numa \u00ab\u00e9tica dos m\u00e1ximos\u00bb e n\u00e3o dos \u00abm\u00ednimos\u00bb pois que, naquela, o outro atinge um valor fundamental, tornando-se pr\u00f3ximo.  \u00abA fragilidade n\u00e3o \u00e9 humilha\u00e7\u00e3o \u00bb, frisou, comentando depois o Papa Bento XVI que afirma que \u00aba grandeza da humanidade v\u00ea-se na forma como trata os que sofrem\u00bb. Numa verdadeira hospitalidade \u2013 o evangelho de Jesus \u00e9 todo ele um apelo permanente \u00e0 hospitalidade, a deixar que o outro entre na nossa vida \u2013 \u00abo fr\u00e1gil, o doente, que n\u00e3o tem resist\u00eancias, tem o direito a que eu n\u00e3o me apodere dele\u00bb. Esta \u00abresist\u00eancia \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de posse\u00bb \u00e9 uma atitude que urge incentivar na sociedade. N\u00e3o sou propriet\u00e1rio de ningu\u00e9m, antes sou \u00abguardi\u00e3o\u00bb que cuida \u00e0 maneira do pastor. Nunca lobos que se apoderam dos outros como a sua presa. A inviol\u00e1vel dignidade ontol\u00f3gica de todo o ser humano n\u00e3o me permite remeter o outro ao estado de uma \u00abcoisa\u00bb que, nas minhas m\u00e3os, se sujeita ao que eu quero. Poder\u00edamos traduzir o mandamento b\u00edblico n\u00e3o matar\u00e1s por este outro, de igual significado mas formulado positivamente, cuidar\u00e1s da vida. De onde se pode inferir a voca\u00e7\u00e3o do ser humano como Cuidador (precisamos de uma cultura do cuidado). A este prop\u00f3sito, a conferencista evocou a express\u00e3o de Heidegger, que falava do ser humano como \u00abpastor do ser\u00bb para refor\u00e7ar a ideia de que nunca o ser humano se pode transformar em \u00ablobo\u00bb para outro ser humano. Esta cultura do cuidado n\u00e3o exclui ningu\u00e9m: nem a v\u00edtima na sua fragilidade, porventura atingida pela doen\u00e7a, nem o agressor que no seu agir se \u00abapoderou\u00bb do ser e se tornou \u00ablobo\u00bb em vez de \u00abpastor\u00bb. Porventura aqui se toca a excel\u00eancia do ser crist\u00e3o.  Olhando a pessoa atingida pela doen\u00e7a, tornar-se pr\u00f3ximo dela no \u00abcuidar do ser\u00bb significar\u00e1, ent\u00e3o, sofrer com (com + paix\u00e3o), \u00abatravessando\u00bb com ele o seu pr\u00f3prio drama e nunca, ao lado, contemplando-o na inevitabilidade do fracasso, como que \u00abapoderando-se\u00bb no ju\u00edzo que dele faz.  Se entendermos a sa\u00fade como a for\u00e7a para viver com a doen\u00e7a, estaremos na via do sentido do sofrer, ao qual n\u00e3o nos resignaremos, antes o combateremos, assumindo-o, enfrentando-o e n\u00e3o lhe passando ao lado. Foi precisamente a via que Jesus seguiu, este \u00abatravessar\u00bb o sofrimento vencendo-o.  Um dos desafios lan\u00e7ados pela conferencista, a terminar, bem pode resumir os conte\u00fados apresentados, seguidos com a m\u00e1xima aten\u00e7\u00e3o por toda assist\u00eancia: \u00abNo dia em que os crist\u00e3os compreenderem que n\u00e3o nascemos para sofrer, que n\u00e3o temos que nos resignar ao sofrimento, saber\u00e3o que consolar \u00e9 estar com a solid\u00e3o do outro, porventura no sil\u00eancio, mas presentes\u00bb.  Isabel Varanda voltar\u00e1 Barcelos na quinta-feira, dia 13, para a segunda confer\u00eancia em que falar\u00e1 de Morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabel Varanda em Barcelos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[120,127,91],"class_list":["post-30490","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-bento-xvi","tag-catequese","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30490","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30490"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30490\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30490"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30490"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30490"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}