{"id":304430,"date":"2023-11-19T09:30:29","date_gmt":"2023-11-19T09:30:29","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=304430"},"modified":"2023-11-17T16:36:32","modified_gmt":"2023-11-17T16:36:32","slug":"igreja-portugal-temos-de-olhar-para-as-pessoas-para-os-problemas-que-elas-tem-isaurindo-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-portugal-temos-de-olhar-para-as-pessoas-para-os-problemas-que-elas-tem-isaurindo-oliveira\/","title":{"rendered":"Igreja\/Portugal: \u00abTemos de olhar para as pessoas, para os problemas que elas t\u00eam\u00bb &#8211; Isaurindo Oliveira"},"content":{"rendered":"<p><em>O Dia Mundial dos Pobres \u00e9 assinalado pela C\u00e1ritas Portuguesa com uma marcha p\u00fablica organizada em conjunto com a C\u00e1ritas de Beja. A caminhada junta representantes da rede nacional C\u00e1ritas e vai ligar o largo de Santa Maria ao largo de S\u00e3o Jo\u00e3o em Beja. Isaurindo Oliveira, residente da C\u00e1ritas de Beja, \u00e9 o convidado da entrevista conjunta Ecclesia\/Renascen\u00e7a<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_304393\" aria-describedby=\"caption-attachment-304393\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/400439305_727381076084655_328453682916576202_n.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-304393 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/400439305_727381076084655_328453682916576202_n.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/400439305_727381076084655_328453682916576202_n.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/400439305_727381076084655_328453682916576202_n-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/400439305_727381076084655_328453682916576202_n-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/400439305_727381076084655_328453682916576202_n-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/400439305_727381076084655_328453682916576202_n-1536x864.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-304393\" class=\"wp-caption-text\">Foto: C\u00e1ritas de Beja<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (R\u00e1dio Renascen\u00e7a) Oct\u00e1vio Carmo (Ag\u00eancia Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Assinal\u00e1mos a data num momento de crise pol\u00edtica em Portugal. \u00c9 mais um motivo de preocupa\u00e7\u00e3o para os pobres e para quem combate o fen\u00f3meno?<\/em><\/p>\n<p>Sim, claro. Ali\u00e1s, isso \u00e9 algo que n\u00f3s vamos constatando aqui em Beja, principalmente nestes \u00faltimos dois anos, com a chegada de migrantes e os migrantes de j\u00e1 h\u00e1 mais anos. Temos o aparecimento de muitas pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo que v\u00e3o preocupando a comunidade, preocupando a C\u00e1ritas, porque a sua vulnerabilidade \u00e9 extremamente elevada, nomeadamente ao n\u00edvel da habita\u00e7\u00e3o, ao n\u00edvel dos contratos de trabalho. Tudo isto tem repercuss\u00f5es ao n\u00edvel dos sem-abrigo e, portanto, h\u00e1 que criar aqui algumas din\u00e2micas. Levar a que a pr\u00f3pria comunidade, como eu costumo dizer, n\u00e3o assobie para o lado, considerando que isto \u00e9 um problema dos outros, \u00e9 um problema dos munic\u00edpios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E esse \u00e9 um fen\u00f3meno que continua a aumentar, o dos sem-abrigo, na regi\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p>Aqui em Beja, sim. \u00c9 um problema que est\u00e1 num crescendo muit\u00edssimo grande, principalmente porque temos muitos migrantes, e os migrantes est\u00e3o sujeitos a toda a esp\u00e9cie de vulnerabilidades. Os contratos muitas das vezes cessam, n\u00e3o h\u00e1 pagamentos. Por outro lado, os poucos rendimentos que v\u00e3o acolhendo, uma parte significativa \u00e9 enviada para os seus pa\u00edses de origem, e, portanto, eles ficam, como a gente costuma dizer, descal\u00e7os face h\u00e1 mais pequenina contrariedade. N\u00e3o havendo dinheiro, n\u00e3o h\u00e1 pagamento do alojamento, se n\u00e3o h\u00e1 pagamento do alojamento v\u00e3o parar \u00e0 rua. E, portanto, isto tem vindo em crescendo, coisa que, h\u00e1 dois, tr\u00eas anos, n\u00e3o se dava muito por isso. Por outro lado, verificamos tamb\u00e9m que, mesmo entre os nativos, os portugueses, esse n\u00famero tem vindo a aumentar. Com problemas de sa\u00fade mental, com problemas de alcoolismo, com problemas de consumos, de drogas, portanto, tudo isto \u00e9 algo que a cidade de Beja n\u00e3o estava habituada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E essa situa\u00e7\u00e3o pode ser agravada tamb\u00e9m pela crise da habita\u00e7\u00e3o de que falava?<\/em><\/p>\n<p>A habita\u00e7\u00e3o \u00e9 o principal problema, porque a generalidade destas pessoas n\u00e3o tem teto,<\/p>\n<p>n\u00e3o tem casa, porque n\u00e3o h\u00e1 habita\u00e7\u00e3o. At\u00e9 para as pessoas que n\u00e3o t\u00eam estes problemas relacionados com as condi\u00e7\u00f5es do sem-abrigo, mas que t\u00eam ordenados baixos \u00e9 dif\u00edcil obter casa. N\u00e3o h\u00e1 casas para arrendar, e, portanto, aquilo que n\u00f3s assistimos aqui \u00e9 que, como eu costumo dizer, qualquer pardieiro, qualquer casa, qualquer buraco que tenha um teto pode servir para alojar estas pessoas.<\/p>\n<p>Portanto, s\u00e3o pessoas que vivem em condi\u00e7\u00f5es insalubres, sem o m\u00ednimo de condi\u00e7\u00f5es,<\/p>\n<p>sem higiene, e isto tudo vai conduzir a outros problemas.<\/p>\n<p>Por enquanto, os problemas de seguran\u00e7a ainda s\u00e3o pontuais. Mas temos os problemas de sa\u00fade p\u00fablica que penso que n\u00e3o est\u00e3o a ser devidamente reconhecidos, e, portanto, tudo isto est\u00e1 a crescer, at\u00e9 porque o n\u00famero de migrantes, ou seja, a m\u00e3o de obra necess\u00e1ria para esta regi\u00e3o relacionada com a agricultura, relacionada com o Alqueva, ainda n\u00e3o atingiu o seu pico.\u00a0 Portanto, isto significa que o n\u00famero de migrantes continua a crescer, e, portanto, todos estes problemas s\u00e3o crescentes. Isso pode vir a criar problemas de seguran\u00e7a, problemas de toda a ordem numa cidade que \u00e9 pequenina, que \u00e9 pacata. Mas, refor\u00e7o, mas, por enquanto, isso n\u00e3o se verifica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Neste contexto deixe-me perguntar-lhe se acompanham os alertas recentes da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa sobre os riscos de uma deriva populista, e se este discurso mais populista e demagogo pode afetar quem trabalha no terreno, particularmente junto destas popula\u00e7\u00f5es mais carenciadas? <\/em><\/p>\n<p>Sim, n\u00f3s verificamos isso todos os dias, pelo menos na TV. Em algumas situa\u00e7\u00f5es que se veem, n\u00f3s encontramos sempre, esses fen\u00f3menos. Ainda h\u00e1 dias algu\u00e9m na televis\u00e3o comentava que teria sido roubada num parque de estacionamento por um refugiado, um migrante. E depois surgiu logo um rol de queixas. E \u00e9 relativamente f\u00e1cil entrar pelo caminho do populismo e da demagogia.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, essa \u00e9 a raz\u00e3o por que n\u00f3s aqui na C\u00e1ritas em Beja tentamos junto dos parceiros a\u00e7\u00f5es de sensibiliza\u00e7\u00e3o. E esta marcha que est\u00e1 englobada no lan\u00e7amento da campanha dos 10 milh\u00f5es de estrelas, aquilo que n\u00f3s tentamos aqui fazer \u00e9 alertar toda a comunidade que isto n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 de alguns. Isto \u00e9 um problema que diz respeito a todos; todos t\u00eam de participar neste trabalho, porque tudo aquilo que, neste caso a Caritas, mas quem diz a Caritas diz outras institui\u00e7\u00f5es que estejam no terreno, tudo aquilo que n\u00f3s possamos fazer para minimizar os problemas que n\u00e3o v\u00e3o aparecendo \u00e9 menos uma preocupa\u00e7\u00e3o para a comunidade. E, portanto, estes problemas s\u00e3o de todos e todos t\u00eam de trabalhar. \u00c9 evidente que \u00e9 mais f\u00e1cil assobiar para o lado.<\/p>\n<p>Um dos lemas que n\u00f3s temos num projeto com os sem-abrigo, precisamente,\u00a0\u00e9 uma frase que at\u00e9 se assemelha \u00e0quela que o Papa Francisco apresenta na sua mensagem do Dia Mundial dos Pobres, e que n\u00f3s apresentamos aqui dizendo: \u00abestou t\u00e3o perto que n\u00e3o me v\u00eas\u00bb, ou seja, a gente passa pelas pessoas e n\u00e3o as v\u00ea, n\u00e3o lhes liga. N\u00f3s temos de\u00a0fazer este tipo de trabalho para tentar assim, de alguma maneira, minimizar estes populismos que n\u00e3o levam a nada, bem antes pelo contr\u00e1rio; s\u00f3 v\u00e3o criar mais problemas. N\u00f3s estamos a pensar aqui nos migrantes, estamos a pensar nesta m\u00e3o de obra, ela \u00e9 extremamente necess\u00e1ria. Sem ela a agricultura n\u00e3o pode sobreviver, portanto, se estas pessoas nos fazem falta aqui, elas t\u00eam que ser tratadas tal e qual como os nativos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Recentemente foi apresentada uma estrat\u00e9gia de combate \u00e0 pobreza. N\u00e3o est\u00e1 muito direcionada para os grandes centros, esquecendo de alguma forma, os pobres que tamb\u00e9m se encontram no interior? At\u00e9 porque at\u00e9 ao momento tem retratado uma realidade que \u00e9 comum aos grandes centros&#8230;.<\/em><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 comum, mas depois ela tem menos aten\u00e7\u00e3o do que tem os grandes centros. Ali\u00e1s, se reparar, e os senhores que s\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, veem que estes problemas s\u00e3o sempre apresentados em termos de Lisboa, em termos de Porto, em termos dos grandes centros urbanos. Nestas comunidades mais pequenas, normalmente n\u00f3s nunca falamos. S\u00f3 se fala, como eu costumo dizer \u00e0s vezes at\u00e9 aos vossos colegas que\u00a0aqui aparecem de vez em quando, at\u00e9 lhes tenho perguntado, mas t\u00eam estado distra\u00eddos&#8230; aconteceu Odemira, depois aconteceu aqui Beja, mas depois tudo desaparece e parece que tudo ficou resolvido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E fen\u00f3menos como o de Odemira podem voltar a acontecer? <\/em><\/p>\n<p>Est\u00e3o a acontecer a toda a hora. O problema do Odemira n\u00e3o foi resolvido, foi atamancado, assim como os problemas aqui de Beja s\u00e3o atamancados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Atamancado quer dizer, j\u00e1 agora?<\/p>\n<p>Desculpe l\u00e1 o atamancado. N\u00f3s utilizamos os termos alentejanos e esquecemos de contextualizar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Encontra-se uma esp\u00e9cie de solu\u00e7\u00e3o dissimulada, \u00e9 isso? <\/em><\/p>\n<p>Encontra-se uma solu\u00e7\u00e3o dissimulada, uma solu\u00e7\u00e3o aparente, porque estes problemas s\u00e3o de muito dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o. S\u00f3 os demagogos \u00e9 que podem dizer que fizeram isto, e fizeram aquilo e que resolveram o problema. O problema da habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o se resolve facilmente. \u00c9 um problema que demora muit\u00edssimo tempo. Todos estes problemas, por exemplo, destas, vamos dizer, m\u00e1fias que lidam com estas pessoas, isto \u00e9 inato.<\/p>\n<p>Ou seja, sempre que h\u00e1 uma possibilidade de neg\u00f3cio, seja l\u00edcito ou seja ele il\u00edcito, ele est\u00e1 logo bem patente. Prendem-se meia d\u00fazia de pessoas porque estiveram inseridas num tr\u00e1fico qualquer, mas quando essa meia d\u00fazia de pessoas sai, aparece logo o dobro porque isto faz parte\u2026 Portanto, s\u00e3o problemas muito complicados e de muito dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o. Isto significa o qu\u00ea? Ou toda a comunidade e todas as associa\u00e7\u00f5es e todo o Estado e os diversos organismos, trabalham em comum, ou se cada um puxa e olha para o seu umbigo e tenta ser mais importante que o outro, as solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o se encontram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_304392\" aria-describedby=\"caption-attachment-304392\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/392813967_715716677251095_1938251716234478541_n.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-304392\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/392813967_715716677251095_1938251716234478541_n-347x260.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/392813967_715716677251095_1938251716234478541_n-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/392813967_715716677251095_1938251716234478541_n-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/392813967_715716677251095_1938251716234478541_n.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-304392\" class=\"wp-caption-text\">Foto: C\u00e1ritas de Beja<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Encontra essa jun\u00e7\u00e3o de sinergias para enfrentar essa situa\u00e7\u00e3o? Ou, por exemplo, por parte das autoridades, h\u00e1 falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o destes fen\u00f3menos, como de Odemira, para que eles n\u00e3o voltem a acontecer?<\/em><\/p>\n<p>Os problemas da fiscaliza\u00e7\u00e3o t\u00eam a ver depois com o n\u00famero de pessoas que podem estar inseridas dentro disto. Todas estas organiza\u00e7\u00f5es andam anos-luz \u00e0 frente das fiscaliza\u00e7\u00f5es. \u00c9 extraordinariamente dif\u00edcil. Ou, de facto, h\u00e1 esta liga\u00e7\u00e3o entre os diversos organismos, ou continuamos a falhar.\u00a0 N\u00f3s, aqui, ao n\u00edvel de Beja e n\u00e3o estou a falar em termos de Diocese, porque a Diocese \u00e9, de facto, muit\u00edssimo grande, e a atividade da Caritas, infelizmente, n\u00e3o consegue estender a todo o territ\u00f3rio; mas nestes territ\u00f3rios aqui, mais \u00e0 volta de Beja, nestes conselhos aqui \u00e0 volta de Beja, tem-se vindo a fazer um trabalho. A Caritas come\u00e7a a ser um parceiro que \u00e9 considerado importante pelo seu trabalho, e por aquilo que vai mostrando. E tem havido aqui uma liga\u00e7\u00e3o relativamente forte com meia d\u00fazia de munic\u00edpios, com as juntas de freguesia, com o tecido empresarial. Agora \u00e9 um trabalho que \u00e9 lento, e depois \u00e9 um trabalho que \u00e9 feito por pessoas que<\/p>\n<p>n\u00e3o t\u00eam experi\u00eancia, que \u00e9 o caso da Caritas.\u00a0A Caritas tem uma dire\u00e7\u00e3o que \u00e9 volunt\u00e1ria. As dire\u00e7\u00f5es n\u00e3o\u00a0t\u00eam forma\u00e7\u00e3o para este tipo de coisas, portanto, trabalham com base na boa vontade, com base na liga\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s temos ouvido com insist\u00eancia as institui\u00e7\u00f5es a queixar-se da redu\u00e7\u00e3o de apoios, para poderem continuar a ajudar, e o que eu pergunto \u00e9 se, at\u00e9 do ponto de vista da Caritas, tem sido poss\u00edvel reunir recursos log\u00edsticos, financeiros, humanos, que s\u00e3o precisos para esta resposta, ou se est\u00e1 a viver um momento asfixiante, como o pa\u00eds tamb\u00e9m vive?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 tudo muito complicado, porque n\u00f3s n\u00e3o temos fontes de rendimento, os \u00fanicos rendimentos que temos s\u00e3o os provenientes das campanhas, nomeadamente esta da campanha dos 10 milh\u00f5es de estrelas, que vai agora ser lan\u00e7ada esta tarde aqui em Beja, e s\u00e3o o pedit\u00f3rio nacional. Isto tudo d\u00e1, n\u00fameros redondos, 15 mil euros por ano. 15 mil euro n\u00e3o d\u00e1 para pagar um funcion\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos cerca de 65 funcion\u00e1rios, dos quais cerca de 25 s\u00e3o licenciados.\u00a0isto significa que, para n\u00f3s podermos fazer um pouco este trabalho, n\u00f3s temos de ir \u00e0 procura de projetos. Uma parte significativa destes projetos s\u00e3o financiados pela Seguran\u00e7a Social, pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, porque temos coisas com o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, pela CCDR. E depois tamb\u00e9m temos projetos apoiados por Funda\u00e7\u00f5es, nomeadamente a Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian e Funda\u00e7\u00e3o La Caixa.\u00a0Ou seja, tentamos diversificar ao m\u00e1ximo estas fontes de rendimento, mas, como se sabe, depois as despesas s\u00e3o certinhas, todos os meses, e a recupera\u00e7\u00e3o ou o financiamento destas verbas necess\u00e1rias, muitas das vezes surgem atrasadas. Depois, por exemplo, h\u00e1 projetos que n\u00e3o t\u00eam continua\u00e7\u00e3o, nomeadamente este projeto que temos com as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, termina no dia 30 de novembro. Por agora n\u00e3o recebemos aviso de que o projeto vai continuar, e isto significa que toda a equipa que n\u00f3s temos a trabalhar nele vai para o desemprego.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o problema persiste e agrava-se, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim, de facto o problema persiste. Ent\u00e3o, quer isto dizer que esta equipa que agora come\u00e7ou a dar os primeiros passos n\u00e3o vai ter continuidade? Vamos perder todo este conhecimento adquirido? A liga\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre as equipas e os utentes que s\u00e3o liga\u00e7\u00f5es muito prec\u00e1rias, porque ganhar a confian\u00e7a das pessoas que est\u00e3o na rua \u00e9 extraordinariamente complicado, n\u00f3s perdemos isto tudo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o deixe-me perguntar-lhe se n\u00e3o h\u00e1 perspetiva de renova\u00e7\u00e3o do projeto e da Equipa?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Em princ\u00edpio h\u00e1. N\u00f3s sabemos que as candidaturas v\u00e3o abrir, mas desde abrir at\u00e9 haver dinheiro, vamos dizer, temos aqui, h\u00e1 4, 5, 6 meses, e a Caritas n\u00e3o tem possibilidade, n\u00e3o tem capacidade para aguentar uma equipa de 6 pessoas que custa, no m\u00ednimo, 1.500 euros por m\u00eas cada uma. Feitas as contas s\u00e3o \u00e0 volta de 50 mil euros em meio ano. A C\u00e1ritas n\u00e3o tem hip\u00f3tese de pagar e aguenta. E, portanto, por mais que a gente tente mostrar \u00e0s entidades, e fazer press\u00e3o, mostrar o trabalho que \u00e9 feito, e as necessidades que h\u00e1, depois esbarra aqui com estes problemas. N\u00f3s estamos aqui, por exemplo, neste caso, a tentar ver com a autarquia, se a gente consegue arranjar aqui uma possibilidade de solu\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria, porque sen\u00e3o isto perde-se tudo. E \u00e9 diferente ter continuidade, ou ter de voltar ao in\u00edcio. As mais valias que poderia haver do ganho de compet\u00eancias que foi feito com o passado, n\u00f3s podemos estar na imin\u00eancia de as perder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 preciso melhorar ao n\u00edvel burocr\u00e1tico, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9. \u00c9 preciso que quem est\u00e1 nos lugares de decis\u00e3o tenha consci\u00eancia, porque isto,<\/p>\n<p>como dizia o meu av\u00f4, j\u00e1 h\u00e1 muitos anos, o papel aguenta tudo. Ou seja, isto no papel tudo funciona sempre relativamente bem, mas depois na pr\u00e1tica h\u00e1 todos estes entraves, todas estas coisas, que as institui\u00e7\u00f5es como a C\u00e1ritas e como a maioria das IPPS depois n\u00e3o t\u00eam capacidade para aguentar isto, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial dos Pobres, uma cria\u00e7\u00e3o do Papa Francisco, pode ajudar a sensibilizar as comunidades cat\u00f3licas para estas quest\u00f5es de que estivemos aqui a falar durante estes minutos?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 claro que sim. N\u00f3s pretendemos que n\u00e3o seja s\u00f3 a comunidade cat\u00f3lica. Ali\u00e1s, este encontro que n\u00f3s vamos fazer esta tarde em Beja no Dia Mundial dos Pobres, com a C\u00e1ritas Portuguesa para o lan\u00e7amento tamb\u00e9m da campanha dos 10 milh\u00f5es de estrelas inserida no Dia Mundial dos Pobres, tenta ser um encontro ecum\u00e9nico. Ou seja, n\u00f3s n\u00e3o vamos fazer isto s\u00f3 a pensar nos cat\u00f3licos. Todas estas pessoas que n\u00f3s temos, pobres, migrantes, sem-abrigo, s\u00e3o pessoas. Muitas delas n\u00e3o t\u00eam religi\u00e3o, ou mesmo as que t\u00eam religi\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o podemos olhar para este problema sob esse ponto de vista. Temos de olhar para as pessoas, para os problemas que elas t\u00eam. E, portanto, todas estas campanhas e todas as mensagens que o Papa Francisco nos vai transmitindo tem esse sentido, precisamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E acolher esta manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica em Beja, este ano, do Dia Mundial dos Pobres, e do lan\u00e7amento da campanha de Natal da C\u00e1ritas, \u00e9 importante? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9. Eu costumo dizer, eu sou uma pessoa relativamente informada, e quando vim para a C\u00e1ritas, eu n\u00e3o fazia a m\u00ednima ideia do que era a C\u00e1ritas. Sou cat\u00f3lico, mas eu n\u00e3o sabia minimamente o que era a C\u00e1ritas. Eu julgava que a C\u00e1ritas era uma institui\u00e7\u00e3o que,\u00a0enfim, daria uns alimentos, uma roupita e pouco mais.\u00a0E, ent\u00e3o, se eu estou minimamente informado e n\u00e3o sabia disto, acontece que a comunidade, e vamos dizer, para falar s\u00f3 na cidade de Beja, suponhamos, e nestes arredores, eu diria, para ser otimista, que se calhar 95% das pessoas n\u00e3o sabem o que \u00e9 a C\u00e1ritas. Conhecem a C\u00e1ritas, conhecem o seu nome, mas n\u00e3o sabem o que \u00e9 a C\u00e1ritas, n\u00e3o sabem o que \u00e9 que a C\u00e1ritas faz.\u00a0\u00a0Repare, a C\u00e1ritas tem um or\u00e7amento de quase 2 milh\u00f5es de euros, tem 60 e tal funcion\u00e1rios, tem um conjunto de val\u00eancias enorm\u00edssimas, e a C\u00e1ritas entre as suas grandes preocupa\u00e7\u00f5es est\u00e1 tentar ver quais s\u00e3o as car\u00eancias\u00a0no territ\u00f3rio e tentar arranjar financiamentos e projetos, que possam ir tentando minimizar essas situa\u00e7\u00f5es. Isso n\u00e3o \u00e9 conhecido. Come\u00e7a agora a ser conhecido, com todo este trabalho que tem vindo ultimamente a ser feito, mas ele n\u00e3o \u00e9 conhecido.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E esta \u00e9 uma forma de lhe dar a visibilidade que merece?<\/em><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma forma de dar a visibilidade e de fazer com que a comunidade sinta que estes problemas n\u00e3o s\u00e3o de algum, mas s\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na sua mensagem para este Dia Mundial, o Papa diz que \u00e9 f\u00e1cil cair na ret\u00f3rica,<\/em><\/p>\n<p><em>ficando pelas estat\u00edsticas e pelos n\u00fameros. \u00c9 importante lembrar, como pede o Papa Francisco, que os pobres s\u00e3o pessoas, t\u00eam rosto, uma hist\u00f3ria, cora\u00e7\u00e3o e alma? <\/em><\/p>\n<p>Ali\u00e1s, eu j\u00e1 transmiti isso ao longo desta nossa entrevista, quando lhe disse que o papel aguenta tudo, e o papel n\u00e3o tem problema, o papel n\u00e3o tem rosto.<\/p>\n<p>Mas n\u00f3s estamos aqui no campo, no terreno, n\u00f3s estamos sempre com a cara das pessoas \u00e0 nossa frente. Se vier aqui \u00e0 porta da C\u00e1ritas, est\u00e3o aqui sempre meia d\u00fazia de migrantes em perfeita rota\u00e7\u00e3o. N\u00f3s olhamos \u00e0 cara das pessoas. A gente vai para a quest\u00e3o dos sem-abrigo que est\u00e1 na porta ao lado e n\u00f3s vemos a cara das pessoas. A gente tem um centro local de alojamento de emerg\u00eancia, em que s\u00e3o pessoas que est\u00e3o mesmo em fim de linha, que ca\u00edram mesmo no fundo, e vemos a cara das pessoas. E olhando para a cara das pessoas, isto \u00e9 completamente diferente do que estar a trabalhar no Minist\u00e9rio ou algures num outro local.<\/p>\n<p>Portanto, esta mensagem \u00e9 extremamente importante e n\u00f3s n\u00e3o podemos assobiar para o lado. Temos de pensar nas pessoas, sejam elas migrantes, sejam elas nativos, sejam elas quem for.\u00a0 Este \u00e9 um trabalho de todos. E, portanto, a mensagem do Papa Francisco, como ele nos vem habituando, \u00e9 mais que importante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Dia Mundial dos Pobres \u00e9 assinalado pela C\u00e1ritas Portuguesa com uma marcha p\u00fablica organizada em conjunto com a C\u00e1ritas de Beja. A caminhada junta representantes da rede nacional C\u00e1ritas e vai ligar o largo de Santa Maria ao largo de S\u00e3o Jo\u00e3o em Beja. 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