{"id":304420,"date":"2023-11-20T09:24:15","date_gmt":"2023-11-20T09:24:15","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=304420"},"modified":"2023-11-17T12:25:56","modified_gmt":"2023-11-17T12:25:56","slug":"purificar-o-purgatorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/purificar-o-purgatorio\/","title":{"rendered":"Purificar o Purgat\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<div><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/em><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Estamos em pleno m\u00eas de novembro. Nesta altura, vemos a natureza a despir-se da vitalidade e da beleza da primavera e da pujan\u00e7a do estio. Lembra-nos que, neste mundo, tudo muda e tem um fim, a vida \u00e9 caduca e transit\u00f3ria, decr\u00e9pita e passageira. Um dia todos vamos partir e vamos desenvencilhar-nos das vaidades, afetos, apegos e sonhos da nossa aventura terrena. E o que \u00e9 que devemos esperar? A Igreja ensina-nos os nov\u00edssimos do homem, as \u00faltimas realidades que vamos encontrar no fim ou depois desta vida: morte, ju\u00edzo, inferno, para\u00edso.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 morte, temos poucas d\u00favidas, ou nenhumas. Quanto ao ju\u00edzo diante de Deus, ser\u00e1 inevit\u00e1vel. A vida n\u00e3o poder\u00e1 deixar de ter uma justa avalia\u00e7\u00e3o e se confrontar com a sua grandeza ou mis\u00e9ria, pelo que se fez ou deixou de se fazer. Quanto ao resto, a ver vamos. Todo o crente espera entrar no c\u00e9u, o \u201clugar dos doces\u201d, como me dizia um colega mais velho, marcado pelos tempos de carestia e pela catequese dos tenros anos da vida. Dizia-lhe a catequista: \u201cQuem se portar bem e viver uma vida santa vai para o c\u00e9u, onde vai ter quantos doces quiser\u201d, doces que s\u00f3 viam uma ou duas vezes ao longo do ano. Uma imagem oportuna para incutir nas crian\u00e7as que no c\u00e9u faremos a mais bela experi\u00eancia de vida, em plena comunh\u00e3o com Deus, j\u00e1 que seremos semelhantes a Ele. Quanto ao inferno, a Igreja ensina-nos que \u00e9 uma \u201cpossibilidade\u201d. Mas n\u00e3o o inferno que exageradamente se andou para a\u00ed a ensinar e a pregar. Nas palavras do te\u00f3logo Joseph Moingt, \u201centrar na morte, mais nada.\u201d Ou seja, ficar para sempre reduzido a p\u00f3, mergulhar no mar do esquecimento, afastado de tudo e de todos, a perdi\u00e7\u00e3o eterna. O mesmo te\u00f3logo n\u00e3o deixa de questionar os exageros que se pregaram por a\u00ed sobre o inferno, em profunda contradi\u00e7\u00e3o com a mensagem evang\u00e9lica: \u201cPorque se h\u00e1-de pensar uma morte que se prolongaria por supl\u00edcios e chamas, e imaginar ainda por cima um Deus que se comprazeria em que os seus inimigos ardessem? Entram na morte definitiva, no n\u00e3o-ser. S\u00e3o \u00abriscados do livro da Vida\u00bb, como diz a Escritura.&#8221;<\/p>\n<p>Pelo meio, temos o purgat\u00f3rio, o momento da purifica\u00e7\u00e3o, a que se d\u00e1 mais aten\u00e7\u00e3o neste m\u00eas de novembro, denominado o \u00abm\u00eas das almas\u00bb. Um m\u00eas para todas as fam\u00edlias recordarem vivamente e fortalecerem a sua comunh\u00e3o com os seus familiares defuntos, pela ora\u00e7\u00e3o, e de os crist\u00e3os rezarem uns pelos outros e por todos os defuntos. Como vemos, duas ideias ou verdades est\u00e3o presentes e enformam todo o m\u00eas de novembro: a comunh\u00e3o dos santos e o purgat\u00f3rio. Pela profunda solidariedade que existe entre todos os membros da Igreja em Cristo, os nossos atos de piedade e ora\u00e7\u00e3o feitos com amor, de modo especial a Eucaristia, auxiliam a purifica\u00e7\u00e3o dos nossos irm\u00e3os que se encontram no momento do purgat\u00f3rio, para poderem aceder \u00e0 vis\u00e3o de Deus, entenda-se, para poderem mergulhar no imenso oceano do amor de Deus e comungar totalmente a vida de Deus pela eternidade, a plenitude da vida.<\/p>\n<p>Ainda me recordo de algumas prega\u00e7\u00f5es que escutei nos infantes e juvenis anos da vida, onde se procurava incutir medo e se fazia uma descri\u00e7\u00e3o terr\u00edvel e sanguin\u00e1ria da situa\u00e7\u00e3o das almas, qual rep\u00f3rter a quem foi dado ver os insond\u00e1veis mist\u00e9rios do outro mundo, e vou percebendo, como p\u00e1roco, que estas cren\u00e7as esp\u00farias e pavorosas ainda est\u00e3o muito enraizadas no pensamento de muitos crist\u00e3os. Ser\u00e1 oportuno, por isso, que se fa\u00e7a uma purifica\u00e7\u00e3o do purgat\u00f3rio. E \u00e9 bom que a Igreja se preste a renovar a sua doutrina e o seu discurso, acabando de vez com o Deus terr\u00edvel e vingativo que pregou e alimentou na sua doutrina, o Deus todo-poderoso que tem prazer em esmagar o ser humano ou em v\u00ea-lo sofrer. J\u00e1 o tem feito e \u00e9 bom que o continue a fazer. A vis\u00e3o do purgat\u00f3rio que a velha praxis catequ\u00e9tica nos ensinava \u00e9 insustent\u00e1vel. Ali\u00e1s, a divis\u00e3o do destino final do homem em \u00abtr\u00eas andares\u00bb (c\u00e9u, purgat\u00f3rio e inferno) sempre gerou um mar de perplexidades e, inclusive, contribuiu para o anedot\u00e1rio coletivo. As pinturas que vemos em muitos dos nossos altares e alminhas das encruzilhadas n\u00e3o deixam de nos colocar muitas perguntas e suscitar muita confus\u00e3o. O purgat\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 um lugar de sofrimento f\u00edsico e n\u00e3o \u00e9 um lugar para castigar as almas, com tormentos e sev\u00edcias horr\u00edveis de toda a esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>O Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica afirma: \u00abO purgat\u00f3rio \u00e9 o estado dos que morrem na amizade de Deus, mas, embora seguros da sua salva\u00e7\u00e3o eterna, precisam ainda de purifica\u00e7\u00e3o para entrar na alegria de Deus\u00bb. Ap\u00f3s a morte, por for\u00e7a de uma humanidade ainda pobre ou inacabada, de algum pecado e imperfei\u00e7\u00e3o que levamos em n\u00f3s, Deus submete-nos a um momento de purifica\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 \u201climpar-nos\u201d do pecado, mas tamb\u00e9m capacitar-nos para O amarmos como Ele nos ama. Quando contemplarmos a grandeza e a beleza do amor de Deus e o quanto Ele nos ama e percebermos o quanto n\u00e3o correspondemos a esse amor na vida, por causa da mediocridade e mesquinhez do nosso amor, sentiremos uma grande \u201cdor\u201d no cora\u00e7\u00e3o. Pod\u00edamos ter sido muito melhores do que aquilo que fomos, e tudo por culpa nossa. O sofrimento ser\u00e1 pelo facto de n\u00e3o nos vermos em comunh\u00e3o total de vida e de amor com Deus e com os outros. Encontraremos l\u00e1 um fogo, mas um fogo que abrasa e salva, e n\u00e3o que queima para castigar ou fustigar.<\/p>\n<p>O Papa Bento XVI, na sua Enc\u00edclica \u00abSalvos pela Esperan\u00e7a\u00bb, descreve isto de forma magistral: \u00abAlguns te\u00f3logos recentes s\u00e3o de parecer que o fogo que simultaneamente queima e salva \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo, o Juiz e Salvador. O encontro com Ele \u00e9 o acto decisivo do Ju\u00edzo. Ante o seu olhar, funde-se toda a falsidade. \u00c9 o encontro com Ele que, queimando-nos, nos transforma e liberta para nos tornar verdadeiramente n\u00f3s mesmos. As coisas edificadas durante a vida podem ent\u00e3o revelar-se palha seca, pura fanfarronice e desmoronar-se. Por\u00e9m, na dor deste encontro, em que o impuro e o nocivo do nosso ser se tornam evidentes, est\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o. O seu olhar, o toque do seu cora\u00e7\u00e3o cura-nos atrav\u00e9s de uma transforma\u00e7\u00e3o certamente dolorosa \u00abcomo pelo fogo\u00bb. Contudo, \u00e9 uma dor feliz, em que o poder santo do seu amor nos penetra como chama, consentindo-nos no final sermos totalmente n\u00f3s mesmos e, por isso mesmo totalmente de Deus. Deste modo, torna-se evidente tamb\u00e9m a compenetra\u00e7\u00e3o entre justi\u00e7a e gra\u00e7a: o nosso modo de viver n\u00e3o \u00e9 irrelevante, mas a nossa sujeira n\u00e3o nos mancha para sempre, se ao menos continu\u00e1mos inclinados para Cristo, para a verdade e para o amor\u00bb.<\/p>\n<p>Quanto aos que p\u00f5em em causa a exist\u00eancia do momento do purgat\u00f3rio, no livro, Di\u00e1logos Sobre a F\u00e9, Joseph Ratzinger, sublinhando que o purgat\u00f3rio cedo foi objeto de f\u00e9 por parte dos crist\u00e3os, afirma: \u201cSe o purgat\u00f3rio n\u00e3o existisse, seria preciso invent\u00e1-lo, porque poucas coisas s\u00e3o t\u00e3o espont\u00e2neas, humanas e universalmente difundidas, em qualquer tempo, em todas as culturas, do que a ora\u00e7\u00e3o pelos pr\u00f3prios defuntos queridos. (\u2026) Orar pelos pr\u00f3prios mortos \u00e9 um movimento espont\u00e2neo demais para ser sufocado; e \u00e9 um testemunho bel\u00edssimo de solidariedade, de amor, de aux\u00edlio, que ultrapassa as barreiras da morte. Da minha recorda\u00e7\u00e3o ou do meu esquecimento depende um pouco a felicidade ou a infelicidade de quem me foi caro e passou agora para a outra margem, mas n\u00e3o deixa de ter necessidade do meu amor\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-304420","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/304420","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=304420"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/304420\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=304420"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=304420"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=304420"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}