{"id":304133,"date":"2023-11-15T12:10:05","date_gmt":"2023-11-15T12:10:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=304133"},"modified":"2023-11-15T12:10:05","modified_gmt":"2023-11-15T12:10:05","slug":"cibercultura-da-defesa-ao-acolhimento-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cibercultura-da-defesa-ao-acolhimento-da-vida\/","title":{"rendered":"CIBERCULTURA &#8211; Da Defesa ao Acolhimento da Vida"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>\u00abO futuro \u00e9 melhor do que qualquer passado.\u00bb<\/em> \u2014 uma frase do jesu\u00edta e paleont\u00f3logo franc\u00eas Teilhard de Chardin que traduz a ess\u00eancia da vis\u00e3o crist\u00e3 assente na esperan\u00e7a. Os discursos do Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude destinaram-se, essencialmente, aos jovens, mas nesses encontramos diversos tra\u00e7os de uma vis\u00e3o futura do valor da vida que mais do que defendida, deveria come\u00e7ar a ser mais <em>acolhida<\/em>. Nesse sentido, penso que se abre a possibilidade a uma transi\u00e7\u00e3o de palavras \u2014 da \u201cDefesa da Vida&#8221; ao \u201cAcolhimento da Vida&#8221; \u2014 porque muito do futuro da vida assenta, parece-me, mais no modo como comunicamos do que poder\u00edamos pensar, e a linguagem que usamos tornar-se-\u00e1 uma pe\u00e7a fundamental de ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure><figcaption>\n<figure id=\"attachment_304138\" aria-describedby=\"caption-attachment-304138\" style=\"width: 514px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/DALL\u00b7E-2023-11-14-17.39.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-304138\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/DALL\u00b7E-2023-11-14-17.39.jpg\" alt=\"\" width=\"514\" height=\"514\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/DALL\u00b7E-2023-11-14-17.39.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/DALL\u00b7E-2023-11-14-17.39-260x260.jpg 260w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/DALL\u00b7E-2023-11-14-17.39-150x150.jpg 150w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/DALL\u00b7E-2023-11-14-17.39-768x768.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/DALL\u00b7E-2023-11-14-17.39-300x300.jpg 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/DALL\u00b7E-2023-11-14-17.39-500x500.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 514px) 100vw, 514px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-304138\" class=\"wp-caption-text\">Imagem criada pelo DALL-E com prompt the Miguel Pan\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/figcaption>A 2 de Agosto, quando o Papa Francisco se encontra com as autoridades, sociedade civil e diplomatas, falou sobre<\/figure>\n<blockquote><p><em>\u00ab(&#8230;) a import\u00e2ncia de conceber as fronteiras, n\u00e3o como limites que separam, mas como zonas de contacto.\u00bb<\/em> (Encontro com as Autoridades, com a Sociedade Civil e com o Corpo Dplom\u00e1tico a 2 de Agosto)<\/p><\/blockquote>\n<p>A vida no seu in\u00edcio e no seu fim s\u00e3o &#8220;zonas de contacto&#8221; com a nossa finitude. O <em>acolhimento da vida<\/em> no in\u00edcio faz-se pela surpresa porque todo o \u00f3vulo fecundado cont\u00e9m em si uma imensa novidade. O <em>acolhimento da vida<\/em> no fim faz-se pelo sofrimento porque toda a pessoa cont\u00e9m em si uma narrativa \u00fanica que se entrela\u00e7a com a hist\u00f3ria do universo. Ambas as zonas de contacto com o tempo encontram-se numa condi\u00e7\u00e3o de m\u00e1xima incerteza.<\/p>\n<p>Quem ser\u00e1 este ser que h\u00e1-de nascer? O que ser\u00e1 da consci\u00eancia daquele que h\u00e1-de morrer? S\u00e3o quest\u00f5es que nos preocupam e ocupam no caminho que gostar\u00edamos de tra\u00e7ar para que a vida seja acolhida em toda e qualquer circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos, estas quest\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3 presentes nas ocasi\u00f5es geradas pelas grandes manifesta\u00e7\u00f5es, mas passam a estar cada vez mais presentes no quotidiano e na rotina atrav\u00e9s de uma vida que come\u00e7a a nascer, embora desincarnada, e n\u00e3o parece que esta &#8220;vida&#8221; venha alguma vez a morrer: a <em>vida digital.<\/em> No encontro com o jovens universit\u00e1rios, o Papa diz \u2014<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00abPreocupemo-nos antes quando estamos prontos a substituir a estrada a fazer por uma paragem em qualquer esta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o que nos d\u00ea a ilus\u00e3o do conforto; quando substitu\u00edmos os rostos pelos ecr\u00e3s, o real pelo virtual; quando, em vez das perguntas lacerantes, preferimos as respostas f\u00e1ceis que anestesiam.\u00bb<\/em> (Encontro com os jovens universit\u00e1rios a 3 de Agosto)<\/p><\/blockquote>\n<p>A imers\u00e3o da nossa aten\u00e7\u00e3o nas zonas de contacto digitais levam-nos a entrar num mar infinito de informa\u00e7\u00e3o onde, por vezes, consome-se mais do que se comunica. A desinforma\u00e7\u00e3o, a &#8220;verdadez&#8221; ou verdade a sentimento, tamb\u00e9m designada por p\u00f3s-verdade, e o incomensur\u00e1vel tempo cronol\u00f3gico que tantas pessoas passa em trocas ininterruptas de coment\u00e1rios pelas redes sociais, d\u00e3o-nos a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos a transmitir uma mensagem de esperan\u00e7a em prol do <em>acolhimento da vida<\/em> em toda e qualquer circunst\u00e2ncia. Mas se analisarem bem, essa mensagem n\u00e3o passa de mais uma no meio do mural infinito de tantas outras, mais os emojis das reac\u00e7\u00f5es. O que nos garante que a flu\u00eancia com que comunicamos a esperan\u00e7a, pot\u00eancia e valor de acolher a vida, transforme as consci\u00eancias? Honestamente. Nada. Pode haver um caso ou outro (o que \u00e9 bom), mas temo que o esfor\u00e7o investido na vida digital desvie a nossa aten\u00e7\u00e3o do esfor\u00e7o necess\u00e1rio para criar as condi\u00e7\u00f5es para aqueles que est\u00e3o ainda no ventre materno e aqueles que se preparam para entrar no ventre terreno.<\/p>\n<p>Cada vida gerada, e mesmo a vida que atravessa os seus \u00faltimos momentos, cont\u00e9m em si a possibilidade de sonhar. Mas o sonho co-existe com o medo. O medo da responsabilidade de uma nova vida. O medo do fim. Mas o Papa diz aos jovens universit\u00e1rios<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00abtende coragem de substituir os medos pelos sonhos (&#8230;) n\u00e3o sejais administradores de medos, mas empreendedores de sonhos!\u00bb<\/em> (Encontro com os jovens universit\u00e1rios a 3 de Agosto)<\/p><\/blockquote>\n<p>O medo \u00e9 um sentimento. O sonho \u00e9 uma fantasia da mente. A dor \u00e9 a realidade vivida no parto ou no \u00faltimo respiro. Para <em>acolher melhor a vida<\/em> no futuro penso que, como disse ainda o Papa Francisco aos jovens universit\u00e1rios,<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00abN\u00e3o podemos contentar-nos com simples medidas paliativas ou com t\u00edmidos e amb\u00edguos compromissos. (&#8230;) [Os] meios-termos s\u00e3o apenas um pequeno adiantamento do colapso. Trata-se, pelo contr\u00e1rio, de tomar a peito o que infelizmente continua a ser adiado, ou seja, a necessidade de redefinir o que chamamos de progresso e evolu\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>No meu trabalho de investiga\u00e7\u00e3o, um dos t\u00f3picos baseia-se na Teoria Construtal, formulada por Adrian Bejan, professor na Universidade de Duke nos EUA, que diz \u2014 <em>\u00abPara um sistema finito que flui persistir no tempo (viver), deve <strong>evoluir<\/strong> com <strong>liberdade<\/strong> tal que providencie um acesso cada vez maior e f\u00e1cil ao que flui.\u00bb<\/em> \u2014 O que flui pela vida desde o nascer ao p\u00f4r-do-sol do nosso desenvolvimento celular corporal \u00e9 o amor. Quando amamos algu\u00e9m, n\u00e3o somos capazes de dar a nossa vida por essa pessoa? Quando somos amados por algu\u00e9m, n\u00e3o suportamos de modo completamente diferente a nossa dor? <em>Acolher a vida<\/em> em toda e qualquer circunst\u00e2ncia \u00e9 fazer fluir o amor.<\/p>\n<p>O sistema finito dos relacionamentos persiste no tempo na medida em que providenciamos um maior e mais f\u00e1cil acesso ao amor que flui entre as pessoas. Quebrar a vida celular com 24h ap\u00f3s fecunda\u00e7\u00e3o, ou quebrar a vida pautada por uma doen\u00e7a prolongada \u00e9 limitar a liberdade de avan\u00e7ar e dar passos, como traduz a etimologia da palavra &#8220;progresso&#8221;. Quando se afirma que abortar ou eutanasiar \u00e9 um passo em nome do progresso, vive-se numa verdade a sentimento (verdadez) e numa profunda aliena\u00e7\u00e3o desinformativa. Pois, o resultado da vida que emerge do fluir do amor \u00e9 um super-poder que cada ser humano pode desenvolver: o super-poder de estar sempre a aprender.<\/p>\n<p>O Papa Francisco convidou os jovens na JMJ a serem empreendedores de sonhos, mas parece-me que a humanidade evolui pelo potencial de sermos <em>apreendedores com as dores.<\/em> Explico.<\/p>\n<p>O grande desafio do futuro no <em>acolhimento da vida<\/em> \u00e9 a s\u00edntese entre a linguagem do amor e a linguagem da cruz, onde a dor reflecte o facto de sermos perfeitos em sermos imperfeitos. Podemos profanar ou santificar o sofrimento que experimentamos com as nossas dores. Mas Thomas Merton diz no seu livro &#8220;Nenhum homem \u00e9 uma ilha&#8221; que \u2014<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00abO santo n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que aceita o sofrimento porque gosta, e confessa essa prefer\u00eancia perante Deus e os homens para ganhar uma grande recompensa. \u00c9 algu\u00e9m que pode odiar o sofrimento tanto quanto qualquer outra pessoa, mas que ama tanto Cristo &#8211; que n\u00e3o v\u00ea &#8211; que permitir\u00e1 que o Seu amor seja provado por qualquer sofrimento. E f\u00e1-lo n\u00e3o por achar que \u00e9 uma conquista, mas porque a caridade de Cristo no seu cora\u00e7\u00e3o exige que seja feito.\u00bb<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Quem ama na dor, ainda que o fa\u00e7a imperfeitamente, converte a dor em momentos de aprendizagem do sentido profundo que t\u00eam as nossas limita\u00e7\u00f5es para a compreens\u00e3o da nossa exist\u00eancia. O mundo precisa de pessoas que testemunhem o seu percurso como &#8220;apreendedor com a dor&#8221; para progredirmos e evoluirmos no <em>acolhimento da vida.<\/em> Essas pessoas ser\u00e3o os comunicadores mais aptos que nos ajudar\u00e3o a sobreviver e evoluir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-304133","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/304133","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=304133"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/304133\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=304133"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=304133"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=304133"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}