{"id":30402,"date":"2008-03-03T12:27:24","date_gmt":"2008-03-03T12:27:24","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/03\/reitor-da-universidade-catolica-defendeu-fim-dos-alargamentos-da-uniao-europeia\/"},"modified":"2008-03-03T12:27:24","modified_gmt":"2008-03-03T12:27:24","slug":"reitor-da-universidade-catolica-defendeu-fim-dos-alargamentos-da-uniao-europeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/reitor-da-universidade-catolica-defendeu-fim-dos-alargamentos-da-uniao-europeia\/","title":{"rendered":"Reitor da Universidade Cat\u00f3lica defendeu fim dos alargamentos da Uni\u00e3o Europeia"},"content":{"rendered":"<p>Manuel Braga da Cruz esteve na Universidade do Algarve (UALG), na \u00faltima Ter\u00e7a-feira, a convite da Capelania daquela academia para falar sobre \u201cO Futuro da Europa\u201d. O reitor da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa (UCP) come\u00e7ou por classificar como uma \u201cobriga\u00e7\u00e3o quase c\u00edvica\u201d abordar aquele tema numa altura em que entende estar a pr\u00f3pria Europa a atravessar uma \u201ccrise profunda de projecto\u201d. O conferencista, que falou no Audit\u00f3rio Azul do Campus de Gambelas para uma assembleia de cerca de 50 pessoas, lembrou que \u201co fim da guerra fria, com a queda do muro de Berlim, veio alterar significativamente as condi\u00e7\u00f5es originais do projecto de integra\u00e7\u00e3o europeia\u201d. \u201cO desaparecimento dos blocos e a democratiza\u00e7\u00e3o das ditaduras dos pa\u00edses do centro e do Leste europeu, vieram permitir os \u00faltimos alargamentos que se registaram, ou seja a uni\u00e3o das duas almas da Europa, como gostava de sublinhar o Papa Jo\u00e3o Paulo II\u201d, elucidou. Braga da Cruz considerou que \u201cfalta uma alma e um novo \u00e2nimo \u00e0 Europa\u201d e salientou que \u201cvai-se sublinhando crescentemente a necessidade de relan\u00e7ar o projecto de uma Europa unida\u201d. \u201c\u00c9 uma ideia de Europa que faz falta, uma ideia cultural e pol\u00edtica e n\u00e3o meramente econ\u00f3mica, sobretudo depois das transforma\u00e7\u00f5es que alteraram o quadro herdado da segunda guerra mundial\u201d, defendeu, acrescentando que \u201co destino estrat\u00e9gico da Uni\u00e3o Europeia precisa hoje ser repensado e reformulado\u201d, \u201cporque o mundo e a Europa mudaram\u201d. \u201cA divis\u00e3o da Europa em duas \u00e1reas de influ\u00eancia, que a enfraqueceu ao longo de d\u00e9cadas, deu lugar, nos dias de hoje, a horizontes de unifica\u00e7\u00e3o que podem e devem permitir uma maior afirma\u00e7\u00e3o da Europa no plano mundial\u201d, complementou. Braga da Cruz justificou que \u201cos grandes objectivos de desenvolvimento e de paz que presidiram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da Comunidade Econ\u00f3mica Europeia deve ser reorientados e reformulados\u201d. \u201cA Europa reunificada pode e deve hoje voltar-se mais para o mundo com os dois \u00abolhos\u00bb que tem a Ocidente e a Oriente. Essa ideia de Europa pede, em primeiro lugar, uma clarifica\u00e7\u00e3o da sua identidade cultural\u201d, sustentou o orador. Tendo em conta os recentes alargamentos da Uni\u00e3o Europeia, Braga da Cruz considerou ser necess\u00e1rio resolver os problemas da coes\u00e3o e governan\u00e7a. \u201cNunca foi t\u00e3o importante saber quem somos e o que queremos, pela simples raz\u00e3o que, ao passarmos a sermos muitos mais, ao aumentarmos a nossa diversidade, precisamos de refor\u00e7ar a nossa solidariedade identit\u00e1ria, procurando as ra\u00edzes e raz\u00f5es da nossa comunidade de povos\u201d, concretizou.  O reitor da UCP alertou para as vantagens da afirma\u00e7\u00e3o mundial da Europa. \u201cSe queremos ser uma comunidade de destino, com um des\u00edgnio estrat\u00e9gico mundial, precisamos de uma forte identidade colectiva que, n\u00e3o sendo incompat\u00edvel com as identidades nacionais e locais, seja por\u00e9m capaz de nos unir acima delas e de nos representar em termos mundiais\u201d. Braga da Cruz voltou a sublinhar a import\u00e2ncia da identidade cultural. \u201cQuando falamos da Europa, falamos sobretudo de cultura. E \u00e9 na cultura que temos de encontrar resposta para a pergunta da identidade\u201d, afirmou, referindo-se simultaneamente \u00e0 cultura econ\u00f3mica e pol\u00edtica. \u201cA dimens\u00e3o cultural de fraternidade humana e de humanismo solid\u00e1rio \u00e9 tanto mais importante quanto sabemos que a Europa, apesar da nitidez de algumas das fronteiras f\u00edsicas, n\u00e3o tem identidade geogr\u00e1fica\u201d, disse. O conferencista explicou que \u201co que confere singularidade \u00e0 Europa \u00e9 a cultura comum dos seus povos\u201d, heran\u00e7a cultural que defendeu ser preciso reconhecer e reafirmar. \u201cA Europa tem um c\u00f3digo gen\u00e9tico que n\u00e3o pode apagar nem esquecer sob perigo de perder a pr\u00f3pria identidade\u201d, advertiu, lembrando que \u201ca identidade cultural europeia forjou-se historicamente no confronto com outras identidades de quem recebeu mesmo influencias, mas com as quais nunca se diluiu\u201d. A prop\u00f3sito, alertou que \u201ca condi\u00e7\u00e3o de sucesso para um di\u00e1logo de civiliza\u00e7\u00f5es e de culturas n\u00e3o est\u00e1 no apagamento das diferen\u00e7as, mas na constru\u00e7\u00e3o de elementos de comunidade que assentam na consci\u00eancia da diversidade e da singularidade de cada unidade\u201d. Para al\u00e9m da cultura grega e romana, Braga da Cruz recordou que \u201co terceiro e n\u00e3o menor contributo para a forma\u00e7\u00e3o da cultura europeia deu-o o Cristianismo com a afirma\u00e7\u00e3o da pessoa, cuja dignidade e fraternidade mergulha na filia\u00e7\u00e3o divina\u201d. \u201cA Europa assumiu assim, desde os prim\u00f3rdios, mas particularmente nos fins da cristandade medieval e no dealbar da \u00e9poca moderna, uma configura\u00e7\u00e3o cultural crist\u00e3 e foi assim que se projectou pelo mundo na fase da expans\u00e3o mar\u00edtima das pot\u00eancias ocidentais\u201d, lembrando as palavras do Papa Jo\u00e3o Paulo II quando disse que \u201co Cristianismo foi na Europa um factor prim\u00e1rio da unidade entre povos e culturas e de promo\u00e7\u00e3o integral do homem e dos seus direitos\u201d, valores at\u00e9 reconhecidos na modernidade europeia quando os fundadores da Comunidade Econ\u00f3mica Europeia escolheram para s\u00edmbolo da Europa unida as 12 estrelas do resplendor mariano que ainda hoje est\u00e3o na sua bandeira. \u201cRecentemente, com a elabora\u00e7\u00e3o do projecto do Tratado Constitucional, algumas for\u00e7as puseram em causa este legado cultural, pretendendo exclui-lo a pretexto da laicidade pol\u00edtica\u201d, lamentou Braga da Cruz. Considerando a Europa como um \u201cconceito cultural de conforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\u201d com fronteiras culturais e n\u00e3o tanto f\u00edsicas, o conferencista defendeu que \u201cos crit\u00e9rios que dever\u00e3o balizar a perten\u00e7a \u00e0 casa europeia e clarificar as suas vizinhan\u00e7as, com as quais importa estabelecer rela\u00e7\u00f5es especiais de parceria pr\u00f3xima, ter\u00e3o de ser culturais e civilizacionais\u201d. O reitor da UCP defendeu ent\u00e3o que \u201ca Europa n\u00e3o pode alargar-se indefinidamente sob risco de dilui\u00e7\u00e3o interna e de comprometer a sua miss\u00e3o externa; sob perigo de perda de identidade e at\u00e9 de perda de governabilidade\u201d. \u201cSaber onde pode e deve parar o alargamento para promover rela\u00e7\u00f5es de vizinhan\u00e7a pr\u00f3xima \u00e9 tarefa urgente que pede identifica\u00e7\u00e3o cultural e civilizacional\u201d, destacou, advogando que \u201ca recupera\u00e7\u00e3o do estatuto de vizinhan\u00e7a com tratamento diferencial poder\u00e1 ajudar a resolver os dif\u00edceis pedidos de ades\u00e3o de Marrocos, Israel, Turquia e Ucr\u00e2nia, j\u00e1 formulados ou em curso de o serem\u201d. \u201cA Europa \u00e9 um complexo variado de povos e de na\u00e7\u00f5es que ao longo dos s\u00e9culos se contrastaram e se opuseram, se guerrearam e disputaram por interesses antag\u00f3nicos e rivais. Querer apagar esta realidade e esta hist\u00f3ria ser\u00e1 inexoravelmente tr\u00e1gico e conduzir\u00e1 a um inevit\u00e1vel fracasso\u201d, alertou. Braga da Cruz defendeu ainda a necessidade de \u201crespeitar e preservar a diversidade \u00e9tnica, lingu\u00edstica e cultural como riqueza e vantagem da Europa\u201d, \u201cde equiparar em dignidade e paridade os diferentes estados e na\u00e7\u00f5es da Europa, sem hierarquiza\u00e7\u00f5es, nem depend\u00eancias imperialistas\u201d. O orador preveniu ainda para o perigo de \u201creduzir a Europa a uma mera confedera\u00e7\u00e3o intergovernamental, o que comprometeria a sua governabilidade e efic\u00e1cia decisional\u201d, assim como a um \u201cEstado supranacional, redutor da Europa a conjunto indiferenciado de cidad\u00e3os como se estes cidad\u00e3os n\u00e3o pertencessem por s\u00e9culos a realidades de enquadramento pol\u00edtico e cultural com configura\u00e7\u00f5es e interesses estrat\u00e9gicos pr\u00f3prios n\u00e3o apag\u00e1veis e at\u00e9 por vezes conflituantes\u201d. \u201cAs recentes decis\u00f5es de substituir as presid\u00eancias rotativas por uma presid\u00eancia fixa institucional; de reduzir a composi\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o, excluindo dela a representa\u00e7\u00e3o de alguns estados (necessariamente os mais pequenos) pode comprometer o futuro da Uni\u00e3o\u201d, considerou. Por outro lado, exemplificou com as \u201cexperi\u00eancias fracassadas de federaliza\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica e jugoslava, que tentaram for\u00e7ar a unifica\u00e7\u00e3o mediante o apagamento de diversidades profundamente estruturadas\u201d para justificar os cuidados a ter no processo europeu. \u201cN\u00e3o sendo a Europa uma na\u00e7\u00e3o, mas um conjunto delas. N\u00e3o tendo a veleidade de se constituir como um Estado, n\u00e3o deve ter outra representa\u00e7\u00e3o cimeira sen\u00e3o a das suas pr\u00f3prias na\u00e7\u00f5es, sem preju\u00edzo da satisfa\u00e7\u00e3o da necessidade de \u00f3rg\u00e3os de Governo comum, e para isso a figura de presidente da Comiss\u00e3o era bem que suficiente, n\u00e3o se vislumbrando as vantagens de uma dupla presid\u00eancia que corre o risco de ser conflituante\u201d, criticou. A terminar apelou a que se reconhe\u00e7a a \u201cid\u00eantica dignidade de todos os estados por igual, os maiores e os mais pequenos, sabendo aproveitar o contributo que todos podem dar ao des\u00edgnio estrat\u00e9gico europeu no mundo\u201d, sustentando que \u201ca representa\u00e7\u00e3o parlamentar europeia n\u00e3o deve afirmar-se \u00e0 custa das representa\u00e7\u00f5es parlamentares nacionais\u201d. Defendeu ainda que \u201ca Europa deve abrir-se ao di\u00e1logo com outras civiliza\u00e7\u00f5es\u201d, uma ac\u00e7\u00e3o que considerou \u201cvital para a constru\u00e7\u00e3o da paz e do futuro da humanidade\u201d. \u201cO mundo \u00e1rabe, a China e a \u00cdndia constituem mundos com quem a Europa tem deveres de coopera\u00e7\u00e3o para fomentar a compreens\u00e3o e respeito rec\u00edprocos e construir com eles um futuro diferente\u201d, concluiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Braga da Cruz esteve na Universidade do Algarve (UALG), na \u00faltima Ter\u00e7a-feira, a convite da Capelania daquela academia para falar sobre \u201cO Futuro da Europa\u201d. 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