{"id":30387,"date":"2008-03-02T18:30:13","date_gmt":"2008-03-02T18:30:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/03\/02\/catequese-do-cardeal-patriarca-no-4-o-domingo-da-quaresma\/"},"modified":"2008-03-02T18:30:13","modified_gmt":"2008-03-02T18:30:13","slug":"catequese-do-cardeal-patriarca-no-4-o-domingo-da-quaresma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/catequese-do-cardeal-patriarca-no-4-o-domingo-da-quaresma\/","title":{"rendered":"Catequese do Cardeal-Patriarca no 4.\u00ba Domingo da Quaresma"},"content":{"rendered":"<p><i>A Escritura e a Igreja<\/i> <!--more--> 1. A Escritura, conjunto de livros considerados pela Igreja como inspirados, isto \u00e9, express\u00e3o em linguagem humana da Palavra eterna de Deus, sob ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, \u00e9 parte importante, embora n\u00e3o exclusiva, da Palavra de Deus dirigida aos homens e escutada pela Igreja. N\u00e3o \u00e9 express\u00e3o \u00fanica dessa Palavra eterna, porque Deus pode continuar a revelar-Se pessoalmente ao cora\u00e7\u00e3o dos crentes; a Tradi\u00e7\u00e3o viva da f\u00e9 da Igreja, tamb\u00e9m ela conduzida pelo Esp\u00edrito, \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus, como o \u00e9 o Magist\u00e9rio da Igreja, enviada por Deus a anunciar a Palavra e tamb\u00e9m ela conduzida pelo Esp\u00edrito. Entre estas v\u00e1rias express\u00f5es da Palavra eterna n\u00e3o pode haver contradi\u00e7\u00f5es, pois todas elas s\u00e3o express\u00e3o viva e actual em cada tempo, de Jesus Cristo, a Palavra encarnada. Sob todas estas formas, Deus revela-Se ao Seu Povo. O Povo de Deus, com quem Ele fez Alian\u00e7a, \u00e9 o verdadeiro interlocutor de Deus para O escutar e acolher a Sua Palavra. A Igreja, Povo do Senhor, \u00e9 o crit\u00e9rio decisivo da verdade que Deus comunica ao homem, ela \u00e9 infal\u00edvel nesse processo de escuta da Palavra. Ou\u00e7amos, a este prop\u00f3sito, o Conc\u00edlio Vaticano II: \u201cO conjunto dos fi\u00e9is, tendo a un\u00e7\u00e3o que vem do Esp\u00edrito Santo, n\u00e3o pode enganar-se na f\u00e9; este dom particular do conjunto dos fi\u00e9is, manifesta-se atrav\u00e9s do sentido sobrenatural da f\u00e9, que \u00e9 aquele de todo o Povo de Deus, quando, desde os Bispos aos \u00faltimos dos fi\u00e9is leigos, presta \u00e0s verdades que dizem respeito \u00e0 f\u00e9 e aos costumes um consentimento universal\u201d (1). \u00c9, pois, importante considerar, de forma clara, a rela\u00e7\u00e3o da Igreja com a Escritura e desta com outras express\u00f5es da Palavra de Deus. Uma equa\u00e7\u00e3o desajustada da rela\u00e7\u00e3o da Igreja com a Escritura, teve consequ\u00eancias graves na compreens\u00e3o da pr\u00f3pria Igreja, enquanto experi\u00eancia comunit\u00e1ria de f\u00e9 de um povo crente. Foi o caso da chamada \u201creforma protestante\u201d que, com o seu princ\u00edpio da \u201csola scriptura \u2013 sola fides\u201d, relativizou o necess\u00e1rio enquadramento eclesial da Escritura e comprometeu a realidade mesma da \u201cF\u00e9 da Igreja\u201d, que prevalece sobre a f\u00e9 individual de cada um.  O Povo de Deus \u00e9 o verdadeiro autor da Escritura 2. Deus quando Se revela, fala ao Seu Povo. Deus revela-Se aos profetas como maneira de se dirigir ao Seu Povo. O profeta a quem Deus se revelou \u00e9 sempre enviado a comunicar ao Povo, com as suas palavras humanas, tudo e s\u00f3 o que Deus lhe revelou. Esse \u00e9, ali\u00e1s, o crit\u00e9rio para distinguir os verdadeiros dos falsos profetas. Estes \u00faltimos n\u00e3o foram enviados e comunicam apenas a sua palavra humana e n\u00e3o a Palavra de Deus. Os profetas s\u00e3o o que de mais vivo e aut\u00eantico existe no Povo de Deus. Eles s\u00e3o fi\u00e9is \u00e0 Alian\u00e7a, s\u00e3o profundamente crentes, tomaram a s\u00e9rio na sua vida a Palavra de Deus comunicada a Abra\u00e3o, Isaac e Jacob, que se tornou tradi\u00e7\u00e3o viva e lhes preparou o cora\u00e7\u00e3o para escutar o que, em cada momento da hist\u00f3ria, Deus tem a dizer ao Seu Povo. O Papa Bento XVI afirma, de modo claro, que o Povo de Deus \u00e9 o verdadeiro autor da Escritura: \u201cOs diversos livros da Sagrada Escritura \u2013 tal como esta no seu conjunto \u2013 n\u00e3o s\u00e3o simples literatura. A Escritura cresce no e a partir do sujeito vivo que \u00e9 o Povo de Deus em caminho, e vive nele. Poder-se-ia dizer que os livros da Escritura remetem para tr\u00eas sujeitos que interagem uns com os outros. Primeiro, h\u00e1 o autor individual ou o grupo de autores, a quem devemos um livro da Escritura. No entanto estes autores n\u00e3o s\u00e3o escritores aut\u00f3nomos no sentido moderno do termo, mas pertencem ao sujeito comum \u00abpovo de Deus\u00bb: a partir dele falam e a ele se dirigem, de tal modo que o povo \u00e9 o verdadeiro e mais profundo \u00abautor\u00bb das Escrituras. Mais: este povo n\u00e3o se v\u00ea auto-suficiente, mas sabe que \u00e9 conduzido e interpelado pelo pr\u00f3prio Deus, que no fundo fala atrav\u00e9s dos homens e da sua humanidade. A rela\u00e7\u00e3o com o sujeito \u00abpovo de Deus\u00bb \u00e9 vital para a Escritura. Por um lado, este livro \u2013 a Escritura \u2013 \u00e9 o crit\u00e9rio que vem de Deus e a for\u00e7a que indica a estrada ao povo, mas, por outro, a Escritura vive s\u00f3 neste povo, que na Escritura se transcende a si mesmo e assim \u2013 na profundeza definitiva em virtude da Palavra feita carne \u2013 se torna precisamente povo de Deus. O povo de Deus \u2013 a Igreja \u2013 \u00e9 o sujeito vivo da Escritura; nele as palavras da B\u00edblia s\u00e3o uma presen\u00e7a permanente. Naturalmente, por\u00e9m, requer-se que este povo se receba a si mesmo de Deus, em \u00faltima inst\u00e2ncia de Cristo encarnado, e por Ele se deixe regular, conduzir e guiar\u201d (2). O Santo Padre afirma que a rela\u00e7\u00e3o com o sujeito \u201cPovo de Deus\u201d \u00e9 vital para a Escritura. Sem essa rela\u00e7\u00e3o os livros da B\u00edblia seriam apenas literatura religiosa, sem a actualidade viva de um di\u00e1logo de Deus com o Seu Povo. Mas eu acrescentaria que tamb\u00e9m \u00e9 decisivo para a Igreja essa rela\u00e7\u00e3o com a Escritura, express\u00e3o perene da Palavra, que \u00e9 expressa e escutada no seio de um povo crente. Quando a escritura \u00e9 lida e interpretada com crit\u00e9rios hist\u00f3ricos e anal\u00edticos, ou privilegiando a leitura subjectiva, \u00e9 a Igreja que \u00e9 ferida na sua identidade profunda de um povo que tem uma f\u00e9 comum, que \u00e9 conduzido pela mesma Palavra. Explicitaremos, a seguir, algumas concretiza\u00e7\u00f5es desta rela\u00e7\u00e3o da Escritura com a Igreja, Povo de Deus, seu verdadeiro autor.  A identifica\u00e7\u00e3o dos livros inspirados 3. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, ao lado dos livros que hoje integram a Sagrada Escritura, surgiram outros textos. S\u00e3o particularmente numerosos os do Novo Testamento, sobretudo Evangelhos e Actos dos Ap\u00f3stolos. Os quatro evangelistas que conhecemos n\u00e3o satisfaziam a curiosidade dos fi\u00e9is acerca da vida de Jesus e de Nossa Senhora, sobretudo no per\u00edodo mais longo da Sua vida, o per\u00edodo discreto em Nazar\u00e9 at\u00e9 ao in\u00edcio da vida p\u00fablica. D\u00e1-se o mesmo com os v\u00e1rios Actos dos Ap\u00f3stolos que narravam factos pormenorizados da vida dos Ap\u00f3stolos na Igreja nascente. O que dizem n\u00e3o \u00e9, necessariamente, falso; servem-se de tradi\u00e7\u00f5es, j\u00e1 transformadas pela lenda, e alimentam a curiosidade piedosa dos fi\u00e9is. Estes escritos, em paralelo com os textos inspirados, geravam uma certa confus\u00e3o. S\u00f3 a Igreja podia fazer o discernimento entre estes textos e os verdadeiramente inspirados e que, por isso, comunicam a verdadeira Palavra de Deus. Os outros s\u00e3o livros religiosos, que alimentam a piedade, mas n\u00e3o t\u00eam a for\u00e7a sacramental da Palavra de Deus. Este discernimento f\u00ea-lo a Igreja ao longo dos s\u00e9culos e confirmou-se no Conc\u00edlio de Trento com a publica\u00e7\u00e3o da lista (c\u00e2none) dos livros que a Igreja, na sua longa experi\u00eancia de f\u00e9, considerou inspirados. Esses chamaram-se livros can\u00f3nicos, isto \u00e9, que pertencem ao tal c\u00e2none; os que ficaram de fora chamaram-lhes \u201cap\u00f3crifos\u201d. Foram v\u00e1rios os crit\u00e9rios deste discernimento, sendo o principal a recep\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, o modo como eram acolhidos nas comunidades crentes. Foram estas que, ao ritmo da f\u00e9, foram identificando os verdadeiros livros inspirados. \u00c9 significativo verificar que aqueles textos ap\u00f3crifos se mantiveram em grupos her\u00e9ticos que pulularam nos primeiros s\u00e9culos da Igreja. Mas s\u00f3 o Magist\u00e9rio da Igreja, na sua mais solene express\u00e3o que \u00e9 um Conc\u00edlio, podia assegurar ao Povo de Deus quais os livros verdadeiramente inspirados e que constituem a Sagrada Escritura. No nosso tempo, fruto da historiografia e do estudo dos pr\u00f3prios textos b\u00edblicos, h\u00e1 uma curiosidade acrescida por esses textos. Ainda recentemente um tal \u201cevangelho de Judas\u201d encheu p\u00e1ginas de jornais e programas de televis\u00e3o. H\u00e1 tend\u00eancia para os considerar em paralelo com os verdadeiros Evangelhos ou mesmo de se lhes contrapor. \u00c9 uma curiosidade justa se for apenas cultural. Mas continua a ser a Igreja que, na Liturgia e no Magist\u00e9rio, indica ao Povo de Deus quais s\u00e3o os livros que, porque inspirados, nos comunicam a Palavra de Deus.  A interpreta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica da Sagrada Escritura 4. Foi, em todos os tempos, um aspecto decisivo da escuta da Palavra de Deus, revelada nos textos b\u00edblicos. \u00c9, hoje, um problema real numa pastoral centrada na escuta do que Deus tem para nos dizer. \u00c9 hoje frequente que a teoria de um exegeta, uma an\u00e1lise hist\u00f3rico-cr\u00edtica dos acontecimentos referidos na B\u00edblia, sejam acolhidos pelos crist\u00e3os como decisivos na interpreta\u00e7\u00e3o da Escritura. Se acrescentarmos a isto a natural tend\u00eancia de ler um texto \u00e0 sua maneira, lendo nele, n\u00e3o apenas o que o seu autor quis transmitir, mas o que cada um acha que o texto diz, numa leitura subjectiva, tomamos consci\u00eancia de como uma interpreta\u00e7\u00e3o objectiva \u00e9 importante para acolher a verdadeira Palavra de Deus.  Em que consiste a interpreta\u00e7\u00e3o? Trata-se, simplesmente, de chegar \u00e0 mensagem transmitida, de perceber e acolher o que o autor sagrado nos quis dizer, sabendo que esses autores, inspirados pelo Esp\u00edrito Santo, nos transmitiram, por palavras humanas, o que Deus quer dizer ao Seu Povo. Como j\u00e1 afirm\u00e1mos, na Sagrada Escritura encontramos a primeira manifesta\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o. Na Sua condescend\u00eancia amorosa, Deus n\u00e3o hesitou em manifestar-nos a transcend\u00eancia do Seu amor atrav\u00e9s da linguagem humana. Como diz o Conc\u00edlio, \u201cas palavras de Deus, passando pelas l\u00ednguas humanas, tomaram a semelhan\u00e7a da linguagem dos homens, do mesmo modo que outrora o Verbo eterno do Pai, tendo revestido a enfermidade da nossa carne, tornou-se semelhante aos homens\u201d (3). E S\u00e3o Paulo resume maravilhosamente este mist\u00e9rio da condescend\u00eancia divina, por nosso amor: \u201cEle, que era de condi\u00e7\u00e3o divina, n\u00e3o guardou ciosamente a situa\u00e7\u00e3o que O igualava a Deus, mas humilhou-Se a Si Mesmo, tomando a situa\u00e7\u00e3o de escravo, tornando-Se semelhante aos homens\u201d (Fil. 2,6-7). Este facto de, na Escritura, o autor sagrado n\u00e3o comunicar o que ele quer dizer, mas o que Deus quer dizer ao Seu Povo e o enviou a proclamar, adensa a tarefa da interpreta\u00e7\u00e3o: ela \u00e9 movida pela f\u00e9, pelo desejo de captar o que Deus nos diz, atrav\u00e9s da Palavra humana do autor sagrado. Ou\u00e7amos de novo o Conc\u00edlio: \u201cUma vez que Deus, na Sagrada Escritura, falou atrav\u00e9s de homens e \u00e0 maneira humana, \u00e9 preciso que o int\u00e9rprete da Sagrada Escritura, para ver claramente o que o pr\u00f3prio Deus nos quis comunicar, procure, com aten\u00e7\u00e3o, o que os autores sagrados quiseram realmente dizer e o que Deus quis exprimir atrav\u00e9s das Suas palavras\u201d (4). O dinamismo que preside a toda a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 o desejo de escutar o Senhor, de perceber as suas aut\u00eanticas palavras. Quem n\u00e3o estiver devorado por este desejo de acolher a Palavra eterna de Deus, cai facilmente em simples interpreta\u00e7\u00f5es humanas da Escritura, mesmo revestidas do car\u00e1cter cient\u00edfico da exegese.  5. A roupagem humana da Palavra de Deus torna, por vezes, complexa a interpreta\u00e7\u00e3o do texto sagrado. O autor escreveu num tempo concreto e num determinado contexto hist\u00f3rico, inserido num quadro cultural determinado, usou uma l\u00edngua, o hebraico ou o grego, exprimiu-se num g\u00e9nero liter\u00e1rio pessoal, mas inserido na arte de comunicar pr\u00f3pria daquele tempo; a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o do texto escrito com tradi\u00e7\u00f5es orais em que se insere e a pr\u00f3pria transmiss\u00e3o do texto desde a sua composi\u00e7\u00e3o primeira at\u00e9 aos nossos dias, s\u00e3o elementos a exigirem uma interpreta\u00e7\u00e3o cuidada. O estudo cient\u00edfico destes dados \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 leg\u00edtimo, mas necess\u00e1rio. Contribuem para a interpreta\u00e7\u00e3o, mas as suas conclus\u00f5es n\u00e3o devem considerar-se a interpreta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica. Esta s\u00f3 a Igreja, Povo de Deus, a quem \u00e9 dirigida a Palavra do Senhor, a pode fazer. Se, como afirma Bento XVI, o Povo de Deus, conduzido pelo Esp\u00edrito \u00e9 o verdadeiro autor da Escritura, s\u00f3 ele pode ser o autor da sua aut\u00eantica leitura. Esta interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 express\u00e3o comunit\u00e1ria e n\u00e3o individual. O Esp\u00edrito Santo \u00e9 o elemento cont\u00ednuo que acompanha o texto sagrado, desde a sua inspira\u00e7\u00e3o ao autor sagrado, passando pela sua leitura cont\u00ednua, no quadro comunit\u00e1rio da f\u00e9, ao longo dos s\u00e9culos, at\u00e9 ao momento presente. \u00c9 por isso que a leitura dos textos b\u00edblicos, em cada momento concreto da hist\u00f3ria, n\u00e3o se limita ao texto escrito; o seu sentido \u00e9 percebido \u00e0 luz dessa Tradi\u00e7\u00e3o viva, e percebendo a analogia da f\u00e9, isto \u00e9, captando a unidade e a harmonia da f\u00e9 da Igreja, leva-nos a n\u00e3o optar por uma leitura que entre em contradi\u00e7\u00e3o com outros textos da Escritura e com a f\u00e9 da Igreja. O mesmo Esp\u00edrito Santo que inspirou o autor sagrado, \u00e9 o mesmo que acompanha a Igreja na recep\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus.  Nesta rela\u00e7\u00e3o da Igreja com a Palavra revelada, o mesmo Esp\u00edrito enriqueceu a Igreja e dinamismos e estruturas que lhe permitem nunca se afastar da Verdade. Deus que lhe quer falar, garante ao Seu povo que O possa ouvir sem confus\u00e3o. O ensinamento dos Ap\u00f3stolos e seus sucessores, o aut\u00eantico Magist\u00e9rio de uma Igreja que tem a garantia da verdade, \u00e9 o \u00faltimo crit\u00e9rio decisivo de uma interpreta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica. Ou\u00e7amos mais uma vez o ensinamento do Conc\u00edlio: \u201cO encargo de interpretar de modo aut\u00eantico a Palavra de Deus, escrita ou transmitida, foi confiado s\u00f3 ao Magist\u00e9rio vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo. Contudo este Magist\u00e9rio n\u00e3o est\u00e1 acima da Palavra de Deus, mas ao seu servi\u00e7o, ensinando s\u00f3 o que foi transmitido, uma vez que, por mandato de Deus, com a assist\u00eancia do Esp\u00edrito Santo, escuta a Palavra com amor, guarda-a santamente, exp\u00f5e-na com fidelidade, e vai buscar a este \u00fanico dep\u00f3sito da f\u00e9 tudo o que prop\u00f5e para ser acreditado como Palavra de Deus\u201d (5). O facto de o Magist\u00e9rio ser a \u00faltima inst\u00e2ncia da interpreta\u00e7\u00e3o da Escritura, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de poder, mas de servi\u00e7o. Pastores do Povo do Senhor, sucessores dos Ap\u00f3stolos escolhidos e enviados por Jesus, os seus membros representam a aventura de uma comunidade de f\u00e9 atra\u00edda pelo rosto de Deus e ansiosa por ouvir a Sua Palavra. S\u00e3o os primeiros a escutar a Palavra, perscrutam-na ao mesmo tempo que escutam o povo crente, acreditam que s\u00e3o conduzidos pelo Esp\u00edrito, e sabem-se enviados por Cristo. Eles sabem que s\u00f3 a profunda identifica\u00e7\u00e3o com Cristo, de Quem s\u00e3o ministros, lhes permite prestar esse servi\u00e7o \u00e0 Igreja como int\u00e9rpretes aut\u00eanticos de toda a Palavra revelada. \u00c9 por isso que faz\u00ea-lo \u00e9 exig\u00eancia da sua fidelidade, a mesma que devem a Jesus Cristo Seu Senhor.  Ouvir a Palavra em Igreja 6. Por tudo quanto acabo de dizer, a escuta da Palavra de Deus deve fazer-se em Igreja, \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o de comunh\u00e3o e da obedi\u00eancia da f\u00e9, express\u00e3o da fidelidade do Povo de Deus. Para escutar assim a Palavra, \u00e9 preciso ter bem enraizada, na intelig\u00eancia e no cora\u00e7\u00e3o, a certeza de que a Igreja \u00e9 Mestra da f\u00e9, que pela Sua Palavra, o Esp\u00edrito Santo a conduz na senda da verdade e da comunh\u00e3o com Deus. Na leitura pessoal ou em grupo, na leitura de teorias exeg\u00e9tico-teol\u00f3gicos, numa \u00e9poca marcada pela valoriza\u00e7\u00e3o da busca individual da verdade, a tenta\u00e7\u00e3o de uma leitura pessoal e subjectiva da Escritura \u00e9 real, reduzindo o Magist\u00e9rio ao n\u00edvel da opini\u00e3o. Em todos os tempos, os crist\u00e3os nunca estiveram isentos desta tenta\u00e7\u00e3o. Ou\u00e7amos a Palavra em Igreja, escutemos humildemente o seu ensinamento, pois s\u00f3 ela garante que todos os crist\u00e3os escutem a Escritura da mesma maneira. Como nos sacramentos, ela garante sempre a ac\u00e7\u00e3o eficaz de Deus na interpreta\u00e7\u00e3o da Escritura, garante que a leiamos como Palavra do Senhor. Na pr\u00f3xima Catequese veremos que escutar a Palavra em Igreja, significa escut\u00e1-la em atitude orante, isto \u00e9, na busca de uma intimidade amorosa com Deus. S\u00e9 Patriarcal, 2 de Mar\u00e7o de 2008  <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i> NOTAS: (1) Lumen Gentium, n\u00ba 12 (2) Bento XVI, \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d, pp. 21-22 (3) Dei Verbum, n\u00ba 13 (4) Ibidem, n\u00ba 12 (5) Ibidem, n\u00ba 10  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Escritura e a Igreja<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,295,127,144,168,246,91,294],"class_list":["post-30387","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-biblia","tag-catequese","tag-concilio-vaticano-ii","tag-diocese-da-guarda","tag-liturgia","tag-quaresma","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30387","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30387"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30387\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30387"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30387"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30387"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}