{"id":303630,"date":"2023-11-12T09:30:40","date_gmt":"2023-11-12T09:30:40","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=303630"},"modified":"2023-11-10T14:57:01","modified_gmt":"2023-11-10T14:57:01","slug":"igreja-sociedade-as-criancas-sao-as-mais-desprotegidas-mas-tem-muita-forca-goreti-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-sociedade-as-criancas-sao-as-mais-desprotegidas-mas-tem-muita-forca-goreti-real\/","title":{"rendered":"Igreja\/Sociedade: \u00abAs crian\u00e7as s\u00e3o as mais desprotegidas, mas t\u00eam muita for\u00e7a\u00bb &#8211; Goreti Real"},"content":{"rendered":"<p><em>O encontro de mais de 7 mil crian\u00e7as de todo o mundo com o Papa Francisco foi um dos momentos tocantes da \u00faltima semana. Entre essas crian\u00e7as esteve um membro portugu\u00eas do Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crian\u00e7as (MAAC). Goreti Real, nova coordenadora nacional deste movimento, \u00e9 a convidada da entrevista semanal conjunta Ecclesia\/Renascen\u00e7a<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_303616\" aria-describedby=\"caption-attachment-303616\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/22.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-303616 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/22.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/22.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/22-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/22-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/22-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/22-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/22-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-303616\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Beatriz Pereira\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<em>Que import\u00e2ncia teve um jovem do Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crian\u00e7as (MAAC) ter representado Portugal no encontro das crian\u00e7as com o Papa, dia 6 de novembro, no Vaticano? E como \u00e9 que acompanharam este momento?<\/em><\/p>\n<p>Foi um convite muito r\u00e1pido, mas oportuno, e foi o \u00fanico portugu\u00eas a participar. O MAAC faz parte do Movimento Internacional do Apostolado de Crian\u00e7as (MIDADE), o an\u00fancio foi feito no dia 1, e as coisas tiveram de ser muito r\u00e1pidas. Costumamos fazer estas coisas por elei\u00e7\u00e3o entre os delegados, entre as crian\u00e7as, mas h\u00e1 oportunidades que pedem uma decis\u00e3o r\u00e1pida, e t\u00eam de se aproveitar. O facto de termos uma m\u00e3e acompanhante foi facilitador. S\u00f3 podiam ir crian\u00e7as at\u00e9 aos 12 anos, e o Tom\u00e1s preenchia este requisito. Foi uma surpresa para ele &#8211; &#8216;porqu\u00ea eu?&#8217; -, mas foi inesquec\u00edvel, e uma oportunidade para a opini\u00e3o das crian\u00e7as contar. Houve oportunidade de fazer perguntas ao Papa, isso \u00e9 extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No encontro estiveram crian\u00e7as de pa\u00edses em guerra &#8211; crian\u00e7as da Palestina, da Ucr\u00e2nia e da S\u00edria -, e houve perguntas que foram muito pertinentes sobre a guerra: &#8216;porque \u00e9 que ningu\u00e9m defende as crian\u00e7as?&#8217;, ou &#8216;como \u00e9 que se faz a paz?&#8217;. H\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que as crian\u00e7as est\u00e3o hoje mais desprotegidas nos conflitos?<\/em><\/p>\n<p>As crian\u00e7as s\u00e3o as mais desprotegidas, mas t\u00eam muita for\u00e7a.\u00a0Como diz o Papa, se se desse oportunidade aos sonhos da crian\u00e7a, o mundo estaria muito melhor.\u00a0Percebemos isso quando as ouvimos, elas expressam opini\u00f5es, sentimentos e, sobretudo, a realidade que vivem.\u00a0Pena \u00e9 que os adultos n\u00e3o as ou\u00e7am, porque elas t\u00eam uma for\u00e7a de vontade muito grande.\u00a0Espero que esse seja o futuro, ouvir o pensamento da crian\u00e7a e do adolescente, as suas preocupa\u00e7\u00f5es, ansiedades, a realidade me que vivem. O mundo seria necessariamente melhor e mais justo, porque elas s\u00e3o muito sens\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A imagem do sofrimento das crian\u00e7as costumava ser uma esp\u00e9cie de trav\u00e3o \u00e9tico para a viol\u00eancia e, sobretudo, costumava mobilizar muito a comunidade Internacional, mas a pr\u00f3pria UNICEF diz que o impacto da guerra nas crian\u00e7as \u00e9 &#8220;um dos lados mais invis\u00edveis do conflito&#8221;, apesar dos apelos do Papa Francisco, do secret\u00e1rio-geral da ONU, Ant\u00f3nio Guterres. Como \u00e9 que o MAAC acompanha estas quest\u00f5es? \u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o maior hoje?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande. Auscultamos sempre as crian\u00e7as nas suas preocupa\u00e7\u00f5es. Somos um movimento sinodal, que escuta, que ouve. Na \u00faltima assembleia (junho) as preocupa\u00e7\u00f5es que levaram foi a paz, os medos &#8211; o medo dos conflitos, o medo do racismo. Mas ao mesmo tempo levaram a esperan\u00e7a num mundo melhor, que pode ser transformado por pequenas coisas e pequenas a\u00e7\u00f5es, que as crian\u00e7as no seu meio v\u00e3o fazendo. Quando damos espa\u00e7o para as ouvir &#8211; faz parte dos princ\u00edpios do MAAC a partilha da vida das crian\u00e7as -, isso surge.\u00a0 N\u00e3o \u00e9 uma an\u00e1lise imediata que as crian\u00e7as conseguem fazer, mas desenvolvemos a\u00e7\u00f5es. Por exemplo, quando foi a guerra da S\u00edria &#8211; em que t\u00ednhamos l\u00e1 tamb\u00e9m o movimento cong\u00e9nere &#8211; houve uma mensagem de esperan\u00e7a para as crian\u00e7as de l\u00e1.<\/p>\n<p>Em todas estas preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9 refletido o que \u00e9 que o movimento pode fazer, ou que \u00e9 que as crian\u00e7as podem fazer.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Falando do movimento, o que \u00e9, como e quando surgiu? \u00c9 constitu\u00eddo por crian\u00e7as e adolescentes?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9, exatamente, e em que n\u00e3o somos animadores, somos acompanhantes.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Habitualmente s\u00e3o os pais?<\/em><\/p>\n<p>Nem sempre. De vez em quando. Por acaso fui m\u00e3e acompanhante tamb\u00e9m. Temos alguns pais, mas s\u00e3o sobretudo jovens ou adultos que acompanham o movimento. Levamos as crian\u00e7as a fazer pequenas a\u00e7\u00f5es, pequenas transforma\u00e7\u00f5es, pequenas coisas.\u00a0\u00c9 urgente fazer a educa\u00e7\u00e3o para a paz, e n\u00f3s fazemo-la. N\u00e3o podemos ser intermedi\u00e1rios na media\u00e7\u00e3o de conflitos, mas podemos educar para a paz.<\/p>\n<p>Estou a lembrar-me de uma das pequenas a\u00e7\u00f5es que fizemos,\u00a0h\u00e1 uns anos, com um grupo: colocamos uma caixa, ao p\u00e9 da igreja, e convid\u00e1mos todas as crian\u00e7as a depositarem l\u00e1 os brinquedos que tinham em casa que fossem s\u00edmbolos de guerra: os jogos violentos, as pistolas. Isto s\u00e3o pequenos nadas, mas s\u00e3o pequenos e grandes contributos para construir a paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a paz que \u00e9 necess\u00e1ria n\u00e3o s\u00f3 em contexto de guerra, vai-se construindo\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, os pequenos conflitos entre eles. Porque\u00a0as grandes guerras come\u00e7am sempre no cora\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m.\u00a0Sempre que conseguirmos que o cora\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a seja tocado, elas expressam isso com muita naturalidade nos pr\u00f3prios desenhos.\u00a0Os desenhos que fazem s\u00e3o de paz, de amor, de amizade. A que \u00e9 que uma crian\u00e7a d\u00e1 valor nesta idade? \u00c9 aos amigos, \u00e0 fraternidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este \u00e9 um movimento de crian\u00e7as e adolescentes dos 6 dos 6 aos 16 anos<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma idade estruturante na educa\u00e7\u00e3o para todos estes problemas e todas estas realidades. Eles\u00a0s\u00e3o pequenos atores, construtores de um mundo novo no meio onde vivem, atrav\u00e9s de pequenas coisas.\u00a0N\u00e3o somos um movimento de massas, \u00e9 evidente, mas toda a crian\u00e7a e todo o adolescente que passa pelo MAAC \u00e9 um adulto diferente.<\/p>\n<p>O MAAC \u00e9 um espa\u00e7o privilegiado de Deus, porque eles expressam a sua f\u00e9, descobrem Jesus de uma forma simples: numa ora\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, num encontro privilegiado num pequeno grupo. A crian\u00e7a tem mais espa\u00e7o a\u00ed, do que num grande grupo. E descobrem Jesus pelas a\u00e7\u00f5es que fazem, pequenas a\u00e7\u00f5es, dramatiza\u00e7\u00f5es das par\u00e1bolas, de uma frase do Evangelho. Isso fica marcado.\u00a0Quando se fala com um adulto que pertenceu ao MAAC os olhos brilham, &#8216;ai, no tempo do MAAC, o que n\u00f3s fizemos!&#8217;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 uma fase muito particular da vida, em que muitas coisas s\u00e3o mais simples\u2026<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o simples, e temos o privil\u00e9gio de dar espa\u00e7o ao brincar.\u00a0Porque \u00e9 que \u00e9 muito importante brincar? Porque o brincar tamb\u00e9m tem regras, tamb\u00e9m se respeita o outro, tamb\u00e9m se sabe esperar &#8211; esperar que o outro brinque, mas tamb\u00e9m aproveitar a minha oportunidade de brincar. Isto \u00e9 muito simples, mas \u00e9 muito importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Haver\u00e1 quem nunca tinha ouvido falar do MAAC, mas \u00e9 um movimento que j\u00e1 tem algumas d\u00e9cadas?<\/em><\/p>\n<p>O Movimento Apostolado de Adolescentes e Crian\u00e7as come\u00e7ou em 1977, depois houve contactos com o movimento internacional. Em 1982 criou j\u00e1 alguma autonomia no pa\u00eds, em 1984 foi primeira assembleia com as crian\u00e7as. O movimento come\u00e7ou na zona de Lisboa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E hoje est\u00e1 presente em muitas dioceses?<\/em><\/p>\n<p>Estamos em Coimbra, Aveiro, no Porto, em Santar\u00e9m e aqui em Lisboa, e estamos em contactos. Porque este movimento \u00e9 de muita doa\u00e7\u00e3o. Temos encontros semanais com crian\u00e7as, sempre acompanhadas com jovens e adultos. Eu estou com esperan\u00e7a de que estamos numa fase de metamorfose e que as coisas v\u00e3o surgir. Tenho esperan\u00e7a nesse sentido. Mas, n\u00e3o h\u00e1 muita disponibilidade de adultos e jovens que consigam acompanhar estes grupos.<\/p>\n<p>\u00c9 muito desafiante, al\u00e9m de ser exigente, mas o que \u00e9 preciso \u00e9 ter disponibilidade de cora\u00e7\u00e3o. Porque quando se pede a quem tem algum tempo, nunca tem tempo,\u00a0normalmente at\u00e9 \u00e9 quem est\u00e1 muito ocupado que disponibiliza o seu cora\u00e7\u00e3o para estar com as crian\u00e7as, saber ouvi-las, escut\u00e1-las, brincar com elas, e da\u00ed estabelece-se esta confian\u00e7a. E h\u00e1 momentos de muita felicidade e alegria, pelas a\u00e7\u00f5es e por aquilo em que eles nos ultrapassam. S\u00e3o surpreendentes! E digo isto muitas vezes:\u00a0o MAAC \u00e9 um campo privilegiado de Deus, e \u00e9 inacredit\u00e1vel quando vemos o Esp\u00edrito Santo a atuar nestas crian\u00e7as: vem por uma frase espont\u00e2nea, por um compromisso, por uma espontaneidade. Este mundo \u00e9 maravilhoso. E, sobretudo, gostar delas no sentido de &#8216;tu tens valor&#8217;, &#8216;a tua opini\u00e3o conta&#8217;, &#8216;a tua proposta \u00e9 aceite&#8217;.<\/p>\n<p>Recordo-me que numa assembleia, uma das crian\u00e7as viu uma proposta sua ir a vota\u00e7\u00e3o &#8211; porque s\u00e3o eles que votam e discutem -, e disse &#8216;esta \u00e9 a minha proposta, que interessante!&#8217;, como quem diz &#8216;ah, afinal o que eu disse foi v\u00e1lido, foi ouvido&#8217;. E \u00e9 ouvido, pelos colegas e pelos acompanhantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_303617\" aria-describedby=\"caption-attachment-303617\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/23.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-303617\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/23-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/23-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/23-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/23-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/23-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/23-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/23.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-303617\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Beatriz Pereira\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Estamos num momento de crise pol\u00edtica, econ\u00f3mica. Um dos indicadores que tem preocupado muito, nos estudos, \u00e9 o da pobreza infantil e uma quase incapacidade de quebrar ciclos de pobreza. Pergunto se isto \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que o MAAC vai acompanhando?<\/em><\/p>\n<p>O Movimento privilegia essencialmente os mais desfavorecidos, as periferias, \u00e9 a\u00ed que o MAAC deve estar, \u00e9 um campo privilegiado.\u00a0Este estado de pobreza em que vivemos \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o, porque as crian\u00e7as s\u00e3o muito sens\u00edveis\u00a0e trazem para a mesa essa realidade. Agora, por exemplo, num encontro que vamos ter a n\u00edvel mundial, online, uma das situa\u00e7\u00f5es \u00e9 essa: as crian\u00e7as, relatam a preocupa\u00e7\u00e3o de os pais poderem perder a casa, que as coisas s\u00e3o muito caras, nunca conseguem ter aquilo que alguns colegas t\u00eam. Mas, o esp\u00edrito do movimento \u00e9 n\u00f3s, grupos, estarmos com este esp\u00edrito de quem escuta, de quem est\u00e1 preocupado com os pobres, de quem procura este lado solid\u00e1rio, de estar sempre com os mais desfavorecidos.<\/p>\n<p>Temos a\u00e7\u00f5es muito interessantes nestes bairros. Estivemos na Cova da Moura (Amadora), um grupo que neste momento n\u00e3o est\u00e1 a funcionar, estamos nestes bairros sociais, na Quinta\u00a0dos\u00a0Barros (freguesia de S\u00e3o Domingos de Benfica, Lisboa).\u00a0Quando esta situa\u00e7\u00e3o a afeta, mas\u00a0a crian\u00e7a percebe que h\u00e1 um movimento que a ouve e que est\u00e1 solid\u00e1rio com estes problemas, para a fazer ouvir, sobretudo nas inst\u00e2ncias superiores\u00a0&#8211; pode ser a Junta de Freguesia, alertar para uma situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 menos boa, pode ser a C\u00e2mara Municipal -, este atenuar das situa\u00e7\u00f5es de pobreza, falando nos seus pr\u00f3prios grupos, a crian\u00e7a j\u00e1 sente mais ouvida, digamos, protegida.<\/p>\n<p>O nosso papel \u00e9 ser porta-voz destas crian\u00e7as, crian\u00e7as sem voz. E o facto de dizer que falta m\u00e9dico ou que falta um transporte\u2026 n\u00f3s temos um livro que reporta alguma hist\u00f3ria de a\u00e7\u00f5es muito interessantes, do autocarro que n\u00e3o chegava aos lugares onde estamos, ou da falta de m\u00e9dico de fam\u00edlia. Isto s\u00e3o pequenas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Preocupa\u00e7\u00f5es concretas?<\/em><\/p>\n<p>Preocupa\u00e7\u00f5es concretas, sempre na realidade em que as crian\u00e7as vivem e sentem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa aten\u00e7\u00e3o aos problemas que existem foi o que vos levou a tra\u00e7ar o plano de a\u00e7\u00e3o para os pr\u00f3ximos tr\u00eas anos, que vai ser centrado na sa\u00fade mental?<\/em><\/p>\n<p>As crian\u00e7as levaram as suas preocupa\u00e7\u00f5es para vota\u00e7\u00e3o na assembleia, que decorreu em junho. Uma eram os medos, os conflitos e a paz; outra era a preocupa\u00e7\u00e3o pela sa\u00fade mental.\u00a0A pandemia deixou um rasto muito grande de problemas, sobretudo na adolesc\u00eancia. E n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o simples como isso.\u00a0Problemas de sa\u00fade mental, de depress\u00e3o, de crises de ansiedade, de suic\u00eddio. Imensos, imensos problemas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sentiram que a\u00ed tamb\u00e9m podem agir?<\/em><\/p>\n<p>Sim, eles votaram, e o que \u00e9 que podemos fazer: tivemos um campo de f\u00e9rias entre Santar\u00e9m e Lisboa, cuja tem\u00e1tica, por proposta deles, foi \u2018Aceita-me como sou\u2019. Foi muito interessante. Tivemos a ajuda de um soci\u00f3logo e uma psic\u00f3loga, que nos ajudou sobretudo a entender esta realidade e a como lidar com estas situa\u00e7\u00f5es. Agora, durante estes tr\u00eas anos, ser\u00e1 o nosso campo de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um programa definido, cada grupo traz a sua realidade e depois \u00e9 o nosso m\u00e9todo \u201cver, julgar e agir\u201d. Portanto,\u00a0as crian\u00e7as trazem para o grupo as suas preocupa\u00e7\u00f5es, a sua realidade, as suas viv\u00eancias. O segundo passo \u00e9 julgar, trazer para o grupo a mensagem de Jesus Cristo: uma par\u00e1bola, uma leitura. O que \u00e9 que Jesus faria se estivesse aqui no meio de n\u00f3s? O que \u00e9 que Ele faria nesta situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em cima da mesa? E depois isso surge o agir, o que \u00e9 que n\u00f3s podemos fazer? As crian\u00e7as n\u00e3o v\u00e3o para grandes a\u00e7\u00f5es, embora haja propostas em que a vontade \u00e9 mudar o mundo, mas vamos come\u00e7ar por n\u00f3s.\u00a0Primeiro, uma transforma\u00e7\u00e3o individual &#8211; o\u00a0que \u00e9 que tu, eu, cada um de n\u00f3s \u00e0 volta da mesa pode fazer como crian\u00e7a? E depois o grupo, o que \u00e9 que o grupo pode fazer? Qual \u00e9 a a\u00e7\u00e3o que pode desenvolver? E porque n\u00e3o a n\u00edvel nacional pode surgir uma a\u00e7\u00e3o. E\u00a0\u00e0s vezes estas pequenas a\u00e7\u00f5es tornam-se grandes, quando os adultos ouvem esta opini\u00e3o. Porque os adultos tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o insens\u00edveis a estes problemas das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sendo este um movimento juvenil, como \u00e9 que viveram a Jornada Mundial da Juventude deste ano? Estamos num momento especial da Igreja\u2026<\/em><\/p>\n<p>Foram mais os adolescentes que fizeram eco da Jornada. Uma das frases com que eles ficaram, do Papa, s\u00e3o os sonhos. O Papa apela muito aos sonhos dos adolescentes.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as n\u00e3o viveram tanto, porque h\u00e1 movimentos mais especializados, dos mais jovens, e foi especialmente para eles. Mas ficam ecos, testemunhos, ficam frases, ficam ideias. Particularmente, o Papa Francisco tem um m\u00e9todo muito interessante com as crian\u00e7as, que \u00e9 \u201cvamos l\u00e1 pensar, um minuto de sil\u00eancio para pensar\u201d.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Como seu viu, d<em>e resto, neste \u00faltimo encontro, no Vaticano.<\/em><\/p>\n<p>Foi fant\u00e1stico e \u00e9 esse o nosso m\u00e9todo: primeiro qual \u00e9 a tua opini\u00e3o? O que \u00e9 que tu achas? E as Jornadas da Juventude, espero n\u00e3o terminem aqui, ficar\u00e3o no tempo, ficar\u00e1 uma marca. \u00c9 isso que esperamos. Os adolescentes ir\u00e3o beneficiar daquilo que o Papa Francisco nos diz.<\/p>\n<p>Louvo-o por esta iniciativa do encontro com as crian\u00e7as, foi um encontro fant\u00e1stico. Espero que seja o primeiro de muitos, pelas perguntas que eles fizeram, pelas perguntas que o Tom\u00e1s levava para fazer &#8211; se tivesse oportunidade, ia perguntar se o Papa acredita mesmo que um dia haver\u00e1 paz total. Portanto, s\u00e3o grandes quest\u00f5es, grandes desafios que \u00e0s vezes n\u00f3s, adultos, gostar\u00edamos de ter a capacidade de as fazer. Mas, vai ter eco nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Jornada Mundial da Juventude foi um momento muito festivo da vida da Igreja Cat\u00f3lica. O \u00faltimo ano, por\u00e9m, n\u00e3o foi s\u00f3 de festa. Tivemos o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Independente sobre casos de abuso sexual, muitos deles sobre menores. Pergunto se esta situa\u00e7\u00e3o, e a mudan\u00e7a promovida pelo Papa e pela Confer\u00eancia Episcopal na prote\u00e7\u00e3o de menores, especificamente, teve algum impacto no MAAC?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o diretamente, mais nos acompanhantes: formar os acompanhantes para esta quest\u00e3o, estarmos muito atentos a esta realidade. \u00c9 evidente que as crian\u00e7as se apercebem das not\u00edcias. N\u00e3o \u00e9 propriamente uma quest\u00e3o neste momento, at\u00e9 porque n\u00e3o somos um movimento de massas, mas \u00e9 uma quest\u00e3o permanente de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Perguntava se n\u00e3o gerou qualquer afastamento ou qualquer desconfian\u00e7a\u2026<\/em><\/p>\n<p>Alguns pais podem pensar nisso, sendo um movimento de crian\u00e7as, mas temos sempre uma rela\u00e7\u00e3o muito aberta e de muita proximidade. Portanto, h\u00e1 um pacto de confian\u00e7a. Agora,\u00a0n\u00e3o podemos descurar. \u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o fundamental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Acha que o movimento pode contribuir para a defini\u00e7\u00e3o de uma resposta, pela experi\u00eancia que tem?<\/em><\/p>\n<p>Pode.\u00a0O movimento pode contribuir nas quest\u00f5es que possam ser postas, sendo sempre refletidas com abertura. Penso que \u00e9 um problema que n\u00e3o podemos descurar, estando sempre muito atentos a cada realidade que se aproxima, porque nunca podemos dizer desta \u00e1gua n\u00e3o beberei, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No que observa, a Igreja tem sabido atuar?<\/em><\/p>\n<p>Tem sabido atuar e temos de o fazer sempre com muita transpar\u00eancia e muita humildade, nesta situa\u00e7\u00e3o. Saber ouvir e saber ver, de olhos atentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O encontro de mais de 7 mil crian\u00e7as de todo o mundo com o Papa Francisco foi um dos momentos tocantes da \u00faltima semana. Entre essas crian\u00e7as esteve um membro portugu\u00eas do Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crian\u00e7as (MAAC). Goreti Real, nova coordenadora nacional deste movimento, \u00e9 a convidada da entrevista semanal conjunta Ecclesia\/Renascen\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":303616,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[154],"class_list":["post-303630","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-crianca"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/303630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=303630"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/303630\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/303616"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=303630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=303630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=303630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}