{"id":30362,"date":"2008-02-29T16:24:53","date_gmt":"2008-02-29T16:24:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/29\/conferencia-quaresmal-de-d-manuel-clemente\/"},"modified":"2008-02-29T16:24:53","modified_gmt":"2008-02-29T16:24:53","slug":"conferencia-quaresmal-de-d-manuel-clemente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conferencia-quaresmal-de-d-manuel-clemente\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancia quaresmal de D. Manuel Clemente"},"content":{"rendered":"<p>Esperar, para viver diversamente (CF. Spe Salvi, N\u00ba 2) <!--more--> Se h\u00e1 virtude que qualifique a Quaresma, \u00e9 particularmente a da esperan\u00e7a, ainda que saibamos que a viv\u00eancia aut\u00eantica duma virtude teologal implique de imediato as outras. Sucede assim em particular nesta Quaresma de 2008, \u00e0 luz recente da enc\u00edclica Spe Salvi, com que Bento XVI nos presenteou a 30 de Novembro passado, desenvolvendo uma passagem luminosa do Ap\u00f3stolo das Gentes: \u201c\u2018Spe Salvi facti sumus\u2019 \u2013 \u00e9 na esperan\u00e7a que fomos salvos: diz S\u00e3o Paulo aos Romanos e a n\u00f3s tamb\u00e9m (Rm 8, 24). A \u2018reden\u00e7\u00e3o\u2019, a salva\u00e7\u00e3o, segundo a f\u00e9 crist\u00e3, n\u00e3o \u00e9 um simples dado de facto. A reden\u00e7\u00e3o \u00e9-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperan\u00e7a, uma esperan\u00e7a fidedigna, gra\u00e7as \u00e0 qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for t\u00e3o grande que justifique a canseira do caminho\u201d (Spe Salvi, n\u00ba 1). Caminho, canseira, meta garantida\u2026 De facto, n\u00e3o pod\u00edamos encontrar sugest\u00e3o mais fecunda para a Quaresma de todos e cada um. Aceitemo-la ent\u00e3o. E fa\u00e7amo-lo agora na conflu\u00eancia de tr\u00eas fontes, existenciais no seu todo: a teologia de sempre, confrontada com a not\u00edcia recente e animada pela poesia. At\u00e9 porque, como j\u00e1 sucedeu com a enc\u00edclica Deus caritas est, o magist\u00e9rio de Bento XVI tem encontrado no mundo intelectual e liter\u00e1rio uma aceita\u00e7\u00e3o particularmente calorosa.   Tomemos um exemplo nacional e de primeira plana: \u201cSempre me espantou \u2013 e sempre admirei \u2013 a esperan\u00e7a de homens que n\u00e3o acreditam em qualquer vida para al\u00e9m desta, num futuro para\u00edso terreno, seja o da sociedade sem classes, seja o do progresso ilimitado. Se eu for s\u00f3 poeira ou cinza nesse futuro distante, como poderei saber se a minha esperan\u00e7a se alcan\u00e7ou? A minha \u00faltima vis\u00e3o do mundo \u00e9 uma vis\u00e3o de \u00f3dio e desespero, de raivas e de vingan\u00e7as. Como consolar-me com um futuro que n\u00e3o conhecerei?\u201d. A quest\u00e3o a\u00ed ficava, como fica. Mas o autor encontra a resposta de Bento XVI na sua enc\u00edclica: \u201cQual \u00e9 a verdadeira esperan\u00e7a? Essa, a tal que \u2018espanta o pr\u00f3prio Deus\u2019, vem da con-solatio, a consola\u00e7\u00e3o do amor solid\u00e1rio de Deus. Para exprimir essa solidariedade, Bento XVI, nesta assombrada e assombrosa enc\u00edclica, cita, de S\u00e3o Bernardo, a frase que o pr\u00f3prio Papa adjectiva como \u2018maravilhosa\u2019. Impassibilis est Deus, sed non incompassibilis\u2019 (\u2018Deus \u00e9 O que n\u00e3o pode padecer, mas se pode compadecer\u2019)\u201d (Jo\u00e3o B\u00e9nard da Costa \u2013 Em esperan\u00e7a salvos fomos. P\u00fablico 2, 16 de Dezembro de 2007, p. 11).       Oi\u00e7amos antes de mais a teologia. A do Papa Ratzinger, te\u00f3logo e pastor, na presente enc\u00edclica. O n\u00famero 2 da Spe Salvi traz-nos refer\u00eancias fundamentais sobre o que seja a esperan\u00e7a, exactamente enquanto virtude, actividade em n\u00f3s da gra\u00e7a divina. Sendo Deus, absolutamente, rela\u00e7\u00e3o e actividade, assim ser\u00e3o aqueles que a sua gra\u00e7a anima. Esperan\u00e7a \u00e9 virtude teologal. Uma das tr\u00eas que \u2013 com a f\u00e9 e a caridade \u2013 \u201cfundamentam, animam e caracterizam o agir moral do crist\u00e3o. S\u00e3o infundidas por Deus na alma dos fi\u00e9is para os tornar capazes de proceder como filhos seus e assim merecerem a vida eterna. S\u00e3o o penhor da presen\u00e7a e da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo nas faculdades do ser humano\u201d (Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, n\u00ba 1813). Bem precisamos dela, para que a nossa meta seja maior ainda do que a nossa vida, alargando-a sempre mais \u00e0 dimens\u00e3o da divina. Assim ocasionou Cristo, inaugurando um Reino que, j\u00e1 estando no meio de n\u00f3s, n\u00e3o se limita em nenhum lugar. Assim nos impele o Esp\u00edrito, que, procedendo do Pai e do Filho, nos leva aqu\u00e9m e al\u00e9m de qualquer momento, realiza\u00e7\u00e3o ou fracasso. Sim, \u201ca esperan\u00e7a \u00e9 a virtude teologal pela qual desejamos o Reino dos c\u00e9us e a vida eterna como nossa felicidade, pondo toda a nossa confian\u00e7a nas promessas de Cristo e apoiando-nos, n\u00e3o nas nossas for\u00e7as, mas no socorro da gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo\u201d (Catecismo, n\u00ba 1817). Como virtude teologal, a esperan\u00e7a leva por diante o \u201cdi\u00e1logo\u201d entre Deus e cada um de n\u00f3s, o \u00fanico em que ganhamos tudo, porque n\u00e3o perdemos nada de leg\u00edtimo e aut\u00eantico, tal a grandeza do interlocutor divino. Mais ainda, devolve a Deus o melhor que Ele mesmo colocou em n\u00f3s, como semente e desejo de realiza\u00e7\u00e3o plena. Rectifica, impulsiona e garante o que sem Deus se perderia decerto: \u201cA virtude da esperan\u00e7a corresponde ao desejo de felicidade que Deus colocou no cora\u00e7\u00e3o de todo o homem; assume as esperan\u00e7as que inspiram as actividades dos homens, purifica-as e ordena-as para o Reino dos c\u00e9us; protege contra o des\u00e2nimo; sustenta no abatimento; dilata o cora\u00e7\u00e3o na expectativa da bem-aventuran\u00e7a eterna. O \u00e2nimo que a esperan\u00e7a d\u00e1 preserva do ego\u00edsmo e conduz \u00e0 felicidade da caridade\u201d (Catecismo, n\u00ba 1818).  Bento XVI lembra-nos bem como, de raiz, o cristianismo abriu e realizou uma esperan\u00e7a nova e consistente, imposs\u00edvel no paganismo. Neste, o irrealismo de divindades m\u00faltiplas ou a inevit\u00e1vel concorr\u00eancia entre elas, n\u00e3o induzia qualquer realiza\u00e7\u00e3o cabal do desejo humano; mais facilmente redundava em desilus\u00e3o e cepticismo. Comentando uma passagem da Carta aos Ef\u00e9sios, escreve-nos o Papa: \u201cQu\u00e3o determinante se revelasse para a consci\u00eancia dos primeiros crist\u00e3os o facto de terem recebido o dom de uma esperan\u00e7a fidedigna, manifesta-se tamb\u00e9m nos textos onde se compara a exist\u00eancia crist\u00e3 com a vida anterior \u00e0 f\u00e9 ou com a situa\u00e7\u00e3o dos adeptos de outras religi\u00f5es. Paulo lembra aos Ef\u00e9sios que, antes do seu encontro com Cristo, estavam \u2018sem esperan\u00e7a e sem Deus no mundo\u2019 (Ef 2, 12). Naturalmente, ele sabe que eles tinham seguido deuses, que tiveram uma religi\u00e3o, mas os seus deuses revelaram-se discut\u00edveis e, dos seus mitos contradit\u00f3rios, n\u00e3o emanava qualquer esperan\u00e7a\u201d (Spe Salvi, n\u00ba 2). Sim, Paulo lembrou-o aos Ef\u00e9sios e Bento XVI lembra-nos agora a n\u00f3s. Muito oportunamente o faz. Efectivamente, um dos maiores lapsos \u2013 para n\u00e3o dizermos injusti\u00e7a e ingratid\u00e3o \u2013 dalguma cultura contempor\u00e2nea \u00e9 esquecer o contributo libertador que o cristianismo trouxe h\u00e1 dois mil anos aos pag\u00e3os. E precisamente em termos de esperan\u00e7a. Desencantados estavam j\u00e1 os c\u00e9us, por excesso de deuses \u2013 por quantidade de n\u00famero e qualidade duvidosa de costumes -, ou por inexorabilidade m\u00e1gica de causas e consequ\u00eancias, sem lugar para a liberdade humana. C\u00e9u toldado e espesso, terra esgotada e triste. S\u00f3 a clara novidade da P\u00e1scoa de Cristo explicaria a tenacidade dos m\u00e1rtires e a sua paradoxal alegria. Do c\u00e9u \u00e0 terra, o caminho fora trilhado finalmente, escada de Jacob descida e subida, dispon\u00edvel agora, pela mesma senda. Tudo simplificado e oferecido. Tudo ganho na alma da esperan\u00e7a. Pela infinita liberdade de Deus, pela recriada liberdade do homem. Di-lo tamb\u00e9m o Papa, em palavras exactas e certeiras: \u201cAparece aqui tamb\u00e9m como elemento distintivo dos crist\u00e3os o facto destes terem um futuro: n\u00e3o \u00e9 que conhe\u00e7am em detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais que a sua vida n\u00e3o acaba no vazio. Somente quando o futuro \u00e9 certo como realidade positiva, \u00e9 que se torna viv\u00edvel tamb\u00e9m o presente\u201d (ibidem).  Confrontemo-nos agora com a actualidade, tal como nos chega pela experi\u00eancia de muitos e pela pr\u00f3pria comunica\u00e7\u00e3o social. Uma esperan\u00e7a que torne o presente digno e poss\u00edvel de ser vivido, dizia Bento XVI. Um presente que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil e conv\u00e9m agora precisar. \u00c9 bom diz\u00ea-lo, quando sentimos por perto eventuais des\u00e2nimos, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida pessoal, social e c\u00edvica. E sejamos comezinhos neste ponto, para sermos suficientemente verdadeiros.  No que \u00e0 nossa sociedade respeita, as \u00faltimas not\u00edcias s\u00e3o ainda graves e preocupantes. Ouvimo-las ou lemo-las h\u00e1 poucos dias: \u201cN\u00e3o \u00e9 um retrato abonat\u00f3rio para Portugal aquele que se encontra descrito num relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Europeia sobre pobreza infantil [\u2026]. Elaborado com base em dados de 2005 [\u2026], o relat\u00f3rio coloca Portugal n\u00e3o s\u00f3 entre os oito pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia com n\u00edveis mais elevados de pobreza entre as crian\u00e7as, como o confirma entre aqueles com mais probabilidades de se manterem nesta posi\u00e7\u00e3o. Em 2005, 24 por cento das crian\u00e7as (contra 19 de m\u00e9dia na EU) encontravam-se expostas, em Portugal, ao risco de pobreza\u201d (Clara Viana &#8211; Pobreza das crian\u00e7as portuguesas \u00e9 mais duradoura. P\u00fablico, 25 de Fevereiro de 2008, p. 2).  Tamb\u00e9m foram apresentadas causas, respeitantes \u00e0 fragilidade cultural da vida familiar: \u201cUma conclus\u00e3o: quanto menor a escolaridade dos pais, maior o risco de pobreza das crian\u00e7as [\u2026]: em Portugal, 68 por cento [\u2026] das crian\u00e7as vivem com pais que n\u00e3o conclu\u00edram os estudos secund\u00e1rios. Oitenta e oito por cento das crian\u00e7as portuguesas em risco de pobreza vivem em agregados com estas baixas qualifica\u00e7\u00f5es\u201d (ibidem). Causa tamb\u00e9m, ou condicionante, \u00e9 a (de)composi\u00e7\u00e3o do agregado familiar: \u201cCrescer em fam\u00edlias monoparentais ou em agregados com tr\u00eas ou mais crian\u00e7as s\u00e3o outros factores potenciadores de pobreza. Na uni\u00e3o Europeia, \u2018metade das crian\u00e7as pobres\u2019 vive nestes tipos de fam\u00edlia. A taxa de pobreza entre as que vivem s\u00f3 com um pai (em 90% dos casos \u00e9 a m\u00e3e) \u00e9 de 34 por cento. Entre as que pertencem a fam\u00edlias numerosas \u00e9 de 25 por cento\u201d (ibidem). Mas reparemos que este factor \u2013 fam\u00edlia numerosa \u2013 n\u00e3o \u00e9, por si s\u00f3, causador de pobreza. Bem pelo contr\u00e1rio, em zonas de maior desenvolvimento o facto de ter v\u00e1rios irm\u00e3os n\u00e3o empobrece de modo algum a crian\u00e7a: \u201ca Su\u00e9cia e a Alemanha s\u00e3o a excep\u00e7\u00e3o, ou seja, s\u00e3o dois pa\u00edses da EU em que o facto de uma crian\u00e7a viver numa fam\u00edlia numerosa n\u00e3o lhe aumenta o risco de pobreza\u201d (ibidem).  Ouvimos tamb\u00e9m a reac\u00e7\u00e3o governamental a estas not\u00edcias, que suaviza um tanto o seu impacto: \u201cum porta-voz do Minist\u00e9rio do Trabalho e da Seguran\u00e7a Social assegurou [\u2026] que o cen\u00e1rio retratado n\u00e3o corresponder\u00e1 \u2018certamente\u2019 \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de hoje, e provavelmente tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e0 de 2005. Os abonos foram refor\u00e7ados, criados os subs\u00eddios de maternidade, mas mais importante, adianta, o estudo n\u00e3o contabiliza algumas das principais medidas \u2018redutoras\u2019 da pobreza infantil. Por exemplo, n\u00e3o foram levados em conta os \u2018mil milh\u00f5es de euros que o Estado anualmente transfere para as IPSS\u2019 para subsidiar a frequ\u00eancia de pr\u00e9-escolar e prim\u00e1rio\u201d (ibidem). Mas suavizar n\u00e3o pode significar adormecer, em rela\u00e7\u00e3o a este e outros pontos cruciais, para sustentar a esperan\u00e7a e ganhar o futuro.  E, se o facto de tantas crian\u00e7as viverem com um s\u00f3 progenitor \u00e9 causa de pobreza futura, outras not\u00edcias recentes n\u00e3o podem deixar de nos preocupar, concretamente nalgumas zonas da nossa Diocese do Porto. Tamb\u00e9m as l\u00edamos h\u00e1 dias, agora sobre o mundo laboral: \u201cO abrandamento r\u00e1pido do sector da constru\u00e7\u00e3o civil em Espanha, para onde se deslocaram apenas nos \u00faltimos cinco anos 80 a 90 mil portugueses, a grande maioria provenientes da zona Norte do pa\u00eds, vai fazer com que perto de 30 mil trabalhadores portugueses abandonem o emprego nas obras espanholas nos pr\u00f3ximos dois anos, revelou [\u2026] o Sindicato dos Trabalhadores da Constru\u00e7\u00e3o Civil do Norte (STCCN). Com a quebra prevista no sector em Espanha, a grande maioria dos trabalhadores portugueses n\u00e3o vai regressar ao nosso pa\u00eds, e o movimento de migra\u00e7\u00e3o laboral para pa\u00edses mais distantes no Norte da Europa j\u00e1 come\u00e7ou. Inglaterra, Alemanha e Noruega s\u00e3o alguns dos novos destinos que est\u00e3o a acolher e aliciar os oper\u00e1rios nacionais da constru\u00e7\u00e3o civil com remunera\u00e7\u00f5es muito superiores aos 518 euros m\u00e9dios mensais que, por exemplo, aufere em Portugal um oper\u00e1rio qualificado de primeira categoria\u201d (Ant\u00f3nio Larguesa \u2013 Crise afasta portugueses. O Primeiro de Janeiro, 25 de Fevereiro de 2008, p. 2). Emigrantes cada vez para mais longe, emigrantes mal tratados aqui mais perto: \u201cDe acordo com o sindicato da constru\u00e7\u00e3o civil, dos cerca dos 90 mil trabalhadores portugueses que est\u00e3o ainda em Espanha, 45 por cento est\u00e3o numa \u2018situa\u00e7\u00e3o muito degradante\u2019, 35 por cento em \u2018situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria\u2019 e apenas 20 por cento t\u00eam uma \u2018situa\u00e7\u00e3o est\u00e1vel\u2019. A responsabilidade [\u2026] \u00e9 de \u2018pseudo-empresas\u2019 e \u2018engajadores\u2019, muitas vezes portugueses. Que contratam compatriotas para estaleiros sem condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e que os alojam em habita\u00e7\u00f5es sem os padr\u00f5es m\u00ednimos de higiene. Outro dos factores de precariedade denunciados pelo sindicato prende-se com a aus\u00eancia de descontos para a seguran\u00e7a social por parte dos empregadores do pa\u00eds vizinho, que deixa os trabalhadores desprotegidos em caso de acidente\u201d (ibidem). Retemos o coment\u00e1rio duma fonte oficial, que tamb\u00e9m n\u00e3o nos dispensa de solidariedade e aten\u00e7\u00e3o: \u201cO Instituto de Emprego e Forma\u00e7\u00e3o Profissional (IEFP) diz que Portugal atravessa uma \u2018fase de transforma\u00e7\u00e3o total\u2019 e de \u2018reestrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica dos sectores tradicionais\u2019, confirmando que \u2018a principal v\u00edtima \u00e9 a m\u00e3o-de-obra intensiva\u2019. [\u2026] Avelino Leite, delegado regional do Porto do IEFP, referiu que\u2019a baixa escolaridade dos trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil dificulta a sua reconvers\u00e3o para outros sectores de actividade\u2019. \u2018Continuamos a criar emprego, mas sobretudo para gente qualificada, e normalmente o que \u00e9 destru\u00eddo \u00e9 para gente menos qualificada\u2019, concluiu Avelino Leite\u201d (ibidem). S\u00e3o not\u00edcias desta semana, que oxal\u00e1 n\u00e3o sejam ainda do ano que vem. Mas este \u201coxal\u00e1\u201d, maneira mo\u00e7\u00e1rabe de dizer \u201cDeus queira\u201d, compromete-nos a todos, cidad\u00e3os e crentes, que vivemos em esperan\u00e7a e nela nos salvamos. Que sabemos que a vontade de Deus \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o e a salva\u00e7\u00e3o do homem, no mais concreto e absoluto da sua vida. Porque a esperan\u00e7a, lembra Bento XVI, activa-nos no bem: \u201cEm linguagem actual, dir-se-ia: a mensagem crist\u00e3 n\u00e3o era s\u00f3 \u2018informativa\u2019, mas \u2018performativa\u2019. Significa isto que o Evangelho n\u00e3o \u00e9 apenas uma comunica\u00e7\u00e3o de realidades que se podem saber, mas uma comunica\u00e7\u00e3o que gera factos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperan\u00e7a, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova\u201d (Spe Salvi, n\u00ba 2). Vive diversamente, sim, e nisso mesmo mostra ser disc\u00edpulo do Ressuscitado. Diante e por dentro de toda a problem\u00e1tica humana, da fam\u00edlia \u00e0 sociedade onde se integra, o crist\u00e3o s\u00f3 pode estar como Cristo, da Galileia a Jerusal\u00e9m: pr\u00f3ximo de fracos e doentes, pr\u00f3ximo de tristes e s\u00f3s, pr\u00f3ximo de esquecidos e injusti\u00e7ados, pr\u00f3ximo de mortos at\u00e9. Para que o Esp\u00edrito de Cristo abra sempre a vida onde ela se fechara, active sempre a esperan\u00e7a onde ela j\u00e1 desaparecera. Certamente que todo o cat\u00f3lico da Diocese do Porto querer\u00e1 estar na primeira linha de todo o bom combate pela feliz realiza\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3ximo. F\u00e1-lo-\u00e1 como cidad\u00e3o comum, precisamente onde estiver, partilhando com crentes e n\u00e3o crentes a mesma vontade positiva de melhoramento geral. Mas, transportado por uma esperan\u00e7a que tem na P\u00e1scoa a sua garantia, n\u00e3o desistir\u00e1 nunca nessa senda, n\u00e3o fechar\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o a nenhuma necessidade, n\u00e3o perder\u00e1 o alento perante nenhum obst\u00e1culo.  Temos ent\u00e3o Quaresma, neste ano da gra\u00e7a de 2008, \u00e0 luz da P\u00e1scoa que celebraremos em breve. Mas h\u00e1 de s\u00ea-lo na concretiza\u00e7\u00e3o e na pr\u00e1tica. S\u00f3 pode ser assim, porque nenhum de n\u00f3s tem tempo ou espa\u00e7o para se alienar de si e do mundo. O nosso Deus \u00e9 proximidade absoluta.   Animemo-nos por fim \u2013 que podia ser princ\u00edpio \u2013 com a alma dos poetas. Ganhemos com eles o lugar da esperan\u00e7a. Com Daniel Faria, nem precisamos de sair do nosso Porto. Mas com a condi\u00e7\u00e3o de nos retomarmos al\u00e9m de n\u00f3s, como ele se retomava fora de si, ou seja, no Deus em que recome\u00e7ava: \u201c\u2026 N\u00e3o fui a casa que a si mesma se abrigou \/ Nem a morada que nunca se acolheu \/ Mas o tempo a pedir que me deixasse \/ Naquilo que n\u00e3o fui vim encontrar-me \/ E sempre que te vi recomecei\u201d (Daniel Faria \u2013 Poesia. Vila Nova de Famalic\u00e3o: Quasi Edi\u00e7\u00f5es, 2003, p. 59). \u201cE sempre que te vi recomecei\u201d. Algo sabemos do que isto seja. Por isso estamos aqui nesta noite de Quaresma, nesta casa t\u00e3o vetusta e sempre nova. Para recome\u00e7armos com um alento novo de pura gra\u00e7a, puro dom e absolutamente al\u00e9m de qualquer merecimento nosso. Como o sabia tamb\u00e9m o poeta: \u201cSei bem que n\u00e3o mere\u00e7o um dia entrar no c\u00e9u \/ Mas nem por isso escrevo a minha casa sobra a terra\u201d (Ibidem, p. 62). Sim, irm\u00e3os e amigos, t\u00e3o gran\u00edtica e multi-secularmente fixa, esta casa levanta-se e levanta-nos com ela. N\u00e3o nos ausenta de nada nem de ningu\u00e9m, mas em tudo nos activa na esperan\u00e7a. O mesmo sentimento se torna caminhada, sempre caminhada, que se basta, quase prosaica e concreta, no sopro que recebe; quase absorvida e sempre transcendida nas ocasi\u00f5es: \u201cCaminho sem p\u00e9s e sem sonhos \/ S\u00f3 com a respira\u00e7\u00e3o e a cad\u00eancia \/ Da muda passagem dos sopros. \/ Caminho como um remo que afunda. \/ Os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes \/ Para que a eleva\u00e7\u00e3o e a profundidade se conjuguem. \/ Avan\u00e7o sem jugo e ando longe \/ De caminhar sobre as \u00e1guas do c\u00e9u\u201d (Ibidem, p. 84).  \u201cOs redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes \/ Para que a eleva\u00e7\u00e3o e a profundidade se conjuguem\u201d: &#8211; Ser\u00e1 poss\u00edvel dizer melhor, da esperan\u00e7a comprovada? Ou ainda, objectivando a esperan\u00e7a no encontro, abrindo inteiramente o tempo mais concreto: \u201cEsperar \u00e9 um modo de chegares \/ Um modo de te amar dentro do tempo\u201d (Ibidem, p. 85). No sempre b\u00edblico Daniel Faria ressoar\u00e1 aqui a exorta\u00e7\u00e3o neotestament\u00e1ria: \u201c\u2026 como deve ser santa a vossa vida e a vossa piedade, enquanto esperais e apressais a chegada do dia de Deus [\u2026]! N\u00f3s [\u2026] esperamos uns novos c\u00e9us e uma nova terra, onde habite a justi\u00e7a\u201d (2 Pe 3, 11-13). Porque o tempo das contradi\u00e7\u00f5es s\u00f3 se supera numa vis\u00e3o mais alta e penetrante, vizinha da esperan\u00e7a, esclarece o poeta, glosando Eclesiastes 12: \u201cAntes que a tua \u00fanica heran\u00e7a seja a lembran\u00e7a \/ Antes que o fio de prata se rompa e a roldana rebente no po\u00e7o \/ Antes de tudo isto \/ P\u00f5e uma escada e sobe ao cimo do que v\u00eas\u201d (Ibidem, p. 161).  Finalmente \u2013 se \u00e9 que estas coisas se finalizam, por enquanto -, poder\u00edamos dizer que as vicissitudes da vida n\u00e3o destroem a esperan\u00e7a, antes a apuram. Digamos que dos desencantos esparsos pode sobressair um encanto definitivo, que transporte e salve tudo quanto n\u00e3o encontrou resposta imediata e fora do seu lugar aut\u00eantico. Como respondeu Pedro ao pr\u00f3prio Cristo: \u201cA quem iremos n\u00f3s, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!\u201d (Jo 6, 68).  Fal\u00e1mos de apuramento da esperan\u00e7a. Isto em rela\u00e7\u00e3o ao mundo e a n\u00f3s pr\u00f3prios, os crist\u00e3os, esquecidos por vezes de Quem unicamente a legitima. Como lembra Bento XVI, h\u00e1 um percal\u00e7o moderno a corrigir, quer como redu\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a ao progresso civilizacional, quer como diminui\u00e7\u00e3o dela pelos pr\u00f3prios crentes, quando porventura esque\u00e7am a sua realiza\u00e7\u00e3o transcendente: \u201cEncontramo-nos assim novamente diante da quest\u00e3o: o que podemos esperar? \u00c9 necess\u00e1ria uma auto-cr\u00edtica da Idade Moderna feita em di\u00e1logo com o cristianismo e com a sua concep\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a. Neste di\u00e1logo, tamb\u00e9m os crist\u00e3os devem aprender de novo, no contexto dos seus conhecimentos e experi\u00eancias, em que consiste verdadeiramente a sua esperan\u00e7a, o que \u00e9 que temos para oferecer ao mundo e, ao contr\u00e1rio, o que \u00e9 que n\u00e3o podemos oferecer. \u00c9 preciso que, na autocr\u00edtica da Idade Moderna, conflua tamb\u00e9m uma autocr\u00edtica do cristianismo moderno, que deve aprender sempre de novo a compreender-se a si mesmo a partir das pr\u00f3prias ra\u00edzes\u201d (Spe Salvi, n\u00ba 22). E o Papa \u00e9 incisivo: \u201cDigamos isto de uma forma mais simples: o ser humano tem necessidade de Deus; de contr\u00e1rio, fica privado de esperan\u00e7a\u201d (ibidem, n\u00ba 23).       Mas \u00e9 de novo com Daniel Faria que se conclui este discurso. Porque \u00e9 da soma das aus\u00eancias \u2013 e at\u00e9 das inconsist\u00eancias &#8211; que mais ressaltar\u00e1 a presen\u00e7a, que mais se multiplicar\u00e1 a vida: \u201cMas tu existes. \/ Os dias somam ru\u00edna \u00e0 ru\u00edna \/ E o a vir multiplicar\u00e1 \/ A mis\u00e9ria. \/ Apodre\u00e7o n\u00e3o adubando a terra \/ E cada dia somado a cada hora \/ n\u00e3o completa o tempo. \/ Sei que existes e multiplicar\u00e1s \/ A tua falta. \/Somarei a tua aus\u00eancia \u00e0 minha escuta \/ E tu redobrar\u00e1s a minha vida.\u201d (Poesia, p. 182).  <i>Manuel Clemente S\u00e9 do Porto, 28 de Fevereiro de 2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esperar, para viver diversamente (CF. 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