{"id":30349,"date":"2008-02-29T12:23:47","date_gmt":"2008-02-29T12:23:47","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/29\/irmaos-de-taize-gerem-escolas-para-os-pobres-no-bangladesh\/"},"modified":"2008-02-29T12:23:47","modified_gmt":"2008-02-29T12:23:47","slug":"irmaos-de-taize-gerem-escolas-para-os-pobres-no-bangladesh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/irmaos-de-taize-gerem-escolas-para-os-pobres-no-bangladesh\/","title":{"rendered":"Irm\u00e3os de Taiz\u00e9 gerem escolas para os pobres no Bangladesh"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos que irm\u00e3os de Taiz\u00e9 vivem no Bangladesh. Um deles descreve as pequenas escolas que criaram para crian\u00e7as muito pobres das fam\u00edlias mu\u00e7ulmanas, hindu e crist\u00e3s.  <b>Junto do Brahmaputra<\/b> Vivemos maioritariamente entre mu\u00e7ulmanos, com uma consider\u00e1vel minoria hindu e alguns crist\u00e3os. Quando viemos viver para Mymensingh, em 1987, como forma de construir elos de confian\u00e7a, come\u00e7\u00e1mos a criar pequenas escolas para os mais desfavorecidos.  Nessa altura, poucas crian\u00e7as das regi\u00f5es mais pobres frequentavam a escola. Estas zonas s\u00e3o densamente habitadas e depressa come\u00e7\u00e1mos a conhecer muita gente. Assim que as crian\u00e7as come\u00e7aram a ir para a escola, as mentalidades come\u00e7aram a mudar. Muitos puxadores de carros de duas pessoas e muitos trabalhadores hindus est\u00e3o orgulhosos por os seus filhos irem \u00e0 escola, apesar de serem muito pobres. E gostam de dizer que tamb\u00e9m eles conseguem escrever os seus nomes e ler pequenas frases. No in\u00edcio, demos aulas \u00e0 noite, para os pais. Contudo, acabou por tornar-se evidente onde \u00e9 que n\u00f3s \u00e9ramos mais precisos.  O Bangladesh \u00e9 um pa\u00eds onde se tem trabalhado muito para o desenvolvimento, ainda que \u00e0s vezes tal pare\u00e7a ca\u00f3tico. Na cidade de Mymensingh, existem escolas em quase todas as zonas. Por isso, organizamos apenas tr\u00eas escolas b\u00e1sicas (do jardim infantil \u00e0 2\u00aa classe), no intuito de motivar estas crian\u00e7as a continuarem os estudos numa escola pr\u00f3xima onde, de outra forma, n\u00e3o seriam facilmente admitidas. E continuamos com outras tr\u00eas escolas maiores, com cinco turmas. Ao todo, h\u00e1 mais de 1500 crian\u00e7as a estudarem nas nossas escolas.  Nestas escolas, os jovens professores mu\u00e7ulmanos, hindus e crist\u00e3os, aprendem a trabalhar em conjunto. Todos eles s\u00e3o estudantes que precisam de dinheiro para pagar a faculdade; ensinam durante tr\u00eas ou quatro anos, por vezes mais. Estes estudantes compreendem que, se querem receber ajuda, \u00e9 importante contribu\u00edrem com algo. Abdicam do seu tempo livre para ajudar a que estas escolas para as crian\u00e7as carenciadas possam continuar. E fazem-no t\u00e3o bem que t\u00eam recebido o reconhecimento dos professores mais velhos, que leccionam nos liceus pr\u00f3ximos, e que lhes v\u00eam pedir para enviarem os seus melhores alunos para l\u00e1, assim que se graduarem. Estes jovens, homens e mulheres, n\u00e3o descobrem apenas o prazer de realizarem um bom trabalho, juntos. Servir juntos os mais pobres alimenta o sentimento de pertencermos a uma s\u00f3 fam\u00edlia humana. Nos encontros mensais, para al\u00e9m de falarmos dos aspectos pr\u00e1ticos das escolas, tentamos encoraj\u00e1-los a terem uma atitude que demonstre preocupa\u00e7\u00e3o com a justi\u00e7a, a paz e o amor aos pobres, bem como o respeito pela religi\u00e3o e cultura de cada um. Este \u00e9 um aspecto essencial ao desenvolvimento, muitas vezes esquecido (e n\u00e3o s\u00f3 nos pa\u00edses pobres!)  <b>Binpara<\/b>  A nossa casa situa-se perto do rio Brahmaputra. Este rio, que nasce nos Himalaias, \u00e9 para os hindus um dos rios sagrados do subcontinente. As aldeias come\u00e7am do outro lado do rio, em rela\u00e7\u00e3o ao s\u00edtio onde estamos; com os seus campos de arroz, \u00e1rvores de bambu e pequenas casas feitas de bambu e finos telhados. As aldeias junto ao rio s\u00e3o inundadas todos os anos. As pessoas s\u00e3o pobres, trabalham na cidade de Mymensingh como coolies, a puxar os carros e como trabalhadores ao dia. Por vezes, as mulheres trabalham nas casas das fam\u00edlias da classe m\u00e9dia, fazendo a limpeza, cozinhando ou lavando a roupa. Os sal\u00e1rios s\u00e3o muito reduzidos: comida e cinco ou seis d\u00f3lares por m\u00eas.  A nossa primeira escola foi em Binpara, em 1988, uma zona hindu destas aldeias das terras baixas. Havia muito alcoolismo e querelas e alguns homens viciados no jogo. Constru\u00edmos uma pequena casa \u2013 como de costume, em bamboo e um telhado fino \u2013 numa \u00e1rea desocupada perto do rio. Com muita hesita\u00e7\u00e3o, as crian\u00e7as foram chegando. Todas as manh\u00e3s, os professores se deslocavam \u00e0s casas, encorajando os pais a deixarem ir as crian\u00e7as. Eles apareciam um dia e no outro ficavam em casa. Conseguimos manter o primeiro pequeno grupo at\u00e9 ao final do primeiro ano. As crian\u00e7as passavam para a segunda classe, a batalha havia terminado e n\u00f3s t\u00ednhamos ganho.  Aos poucos, a atitude dos pais mu\u00e7ulmanos que viviam ali perto foi mudando. Concordaram em vir at\u00e9 \u00e0 escola, a pequenos encontros, onde eram discutidos os problemas com o \u00e1lcool, o jogo e a viol\u00eancia dom\u00e9stica. Come\u00e7aram a poupar dinheiro com regularidade \u2013 algumas takas por semana \u2013 e deixavam o dinheiro connosco, pois sabiam que assim ficava seguro. As m\u00e3es vinham para aprender a bordar e a remendar as roupas dos seus filhos. Os pais come\u00e7aram a demonstrar interesse pelos seus filhos e vinham \u00e0 escola, que se tornou o centro da zona.  Ap\u00f3s alguns anos, a escola teve de ser transferida para outro local, por causa da amea\u00e7a de derrocada, dada a eros\u00e3o causada pelo rio. Hoje, esta parte da aldeia, pura e simplesmente j\u00e1 n\u00e3o existe. A nova escola tem cerca de 300 alunos, provenientes de uma grande \u00e1rea junto de Binpara: alguns s\u00e3o hindus, a maioria \u00e9 mu\u00e7ulmana e os professores s\u00e3o 14. Todos os anos, ap\u00f3s as cheias, reparamos a escola, acrescentamos salas e recentemente at\u00e9 uma casa, de uma escola pr\u00f3xima da cidade, que teve de ser fechada depois de o munic\u00edpio ter decidido proceder \u00e0 limpeza daquela zona que era um bairro pobre. Mas Binpara permaneceu uma escola de aldeia, feita de bambu e de chapas de zinco. As \u00e1rvores cresceram e os professores at\u00e9 j\u00e1 pensam em plantar um pequeno jardim. A mudan\u00e7a tem sido gradual e a escola tem-se adaptado ao ambiente.  Gradual tem sido tamb\u00e9m a modifica\u00e7\u00e3o das mentalidades. Agora, todos os pais contribuem um bocadinho para a escola. Entendem a import\u00e2ncia do ensino e apreciam a nossa vis\u00e3o das coisas. Nos \u00faltimos anos, tem proliferado no Bangladesh uma atitude mais fundamentalista perante a vida. Surgem escolas de estudo do Alcor\u00e3o em todo o lado. Nestas escolas, as oposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o bem definidas a o panorama \u00e9 estreito e exclusivo. N\u00f3s tentamos prosseguir da mesma forma que come\u00e7\u00e1mos, trabalhando em conjunto, com um grande respeito por cada um.  <b>A escola de Mohammed Abdul Aziz<\/b> Quando cheg\u00e1mos a Mymensingh, um senhor de idade avan\u00e7ada veio ajudar-nos a cortar madeira para cozinharmos. Cham\u00e1vamos-lhe \u00abtio\u00bb, \u00abtcha tcha\u00bb em Bengali. Foi o in\u00edcio de uma longa e profunda amizade.   Tcha tcha j\u00e1 tem uma certa idade e j\u00e1 anda um pouco curvado, contudo todas as semanas nos visita, desde a sua aldeia, Borovila, 5 quil\u00f3metros a norte da cidade. Vem a p\u00e9 e todas as vezes que vai embora diz: \u00abTodos os dias \u00e0 noite, nas minhas ora\u00e7\u00f5es (ramaz), pe\u00e7o por cada um de v\u00f3s.\u00bb \u00abDeus transmite-nos a mesma mensagem: Amai-vos uns aos outros, ajudai os pobres e vivai juntos em paz.\u00bb Em 1990, cri\u00e1mos uma escola na aldeia de tcha tcha. O seu verdadeiro nome \u00e9 Mohammed Abdul Aziz, nome que demos \u00e0 escola em sua honra. A zona \u00e9 pobre e ningu\u00e9m frequentava a escola. As pessoas, todos mu\u00e7ulmanos, eram supersticiosos, de mentalidade r\u00edgida e desconfiados dos crist\u00e3os. Os primeiros anos foram dif\u00edceis. Quando sa\u00eda de bicicleta para as visitas, as crian\u00e7as vinham atr\u00e1s de mim chamando-me \u00abcrist\u00e3o\u00bb, o que n\u00e3o era propriamente um elogio. Quando rebentou a Guerra do Golfo, as pessoas viraram-se para o \u00abtcha tcha\u00bb dizendo-lhe: \u00abEst\u00e1s com o povo do Bush. \u00c9s um traidor.\u00bb Mas tcha tcha manteve a sua amizade para connosco. Hoje a escola tem mais de 300 alunos.  A pedido do tcha tcha, mantemos sempre entre os professores pelo menos dois que sejam crist\u00e3os. Ele insiste na import\u00e2ncia de ter dois n\u00e3o Bengali, professores crist\u00e3os, entre o staff (estes professores s\u00e3o oriundos de um grupo \u00e9tnico minorit\u00e1rio, os Garos, quase todos crist\u00e3os). Nas cerim\u00f3nias de abertura e encerramento do ano lectivo, na distribui\u00e7\u00e3o de resultados e reuni\u00f5es dos seguran\u00e7as, o p\u00e1tio da escola enche-se de pais, entre eles, o \u00cdman, chefe religioso da mesquita local. As m\u00e3es tamb\u00e9m s\u00e3o convidadas e algumas v\u00eam, sentando-se mais atr\u00e1s ou ficando a ouvir a partir das salas de aula. Com o tempo, elas foram ganhando coragem e hoje j\u00e1 se sentam nos bancos, no exterior, numa fila \u00e0 direita dos seus maridos e irm\u00e3os.  <b>Jagaroni<\/b>  Desde que os Ingleses deixaram a \u00cdndia em 1947 e o subcontinente foi fraccionado que os hindus t\u00eam trocado o Bangladesh pela \u00cdndia. Sempre que na \u00cdndia h\u00e1 conflitos entre hindus e mu\u00e7ulmanos, as casas dos hindus do Bangladesh s\u00e3o atacadas, os seus bens saqueados e o \u00eaxodo continua. Aqueles que ficam ou s\u00e3o muito ricos ou muito pobres. Entre eles est\u00e3o os \u00abrejeitados\u00bb, as pessoas que varrem as ruas e limpam os sanit\u00e1rios. Mahatma Gandhi chamava-lhes \u00abharijans\u00bb, \u00abcrian\u00e7as de Deus\u00bb. Alguns membros de um grupo de harijans, que cuidam dos animais mortos e que enterram as pessoas, vivem perto de n\u00f3s. O local \u00e9 muito sujo e as pessoas est\u00e3o frequentemente alcoolizadas. \u00c9 grupo mais \u00abbaixo\u00bb da escala social.  Inici\u00e1mos l\u00e1 uma escola em 2002, numa pequena sala feita de bamboo, constru\u00edda num espa\u00e7o aberto, entre as cabanas. Inicialmente com um grupo de jovens, que limpavam o local. Quando a escola abriu apareceram 60 crian\u00e7as, mas depressa muitas desistiram. Como em todo o lado, de manh\u00e3 os professores tinham de ir procurar os mi\u00fados. Por vezes alguns pais, alcoolizados, vinham tirar os filhos da escola, como que a quererem resistir \u00e0 mudan\u00e7a no \u00fanico e pequeno universo que alguma vez conheceram. Apesar de tudo, a escola conta agora com 120 alunos e j\u00e1 teve dois grupos de graduados da 5\u00aa Classe. Muitos prosseguiram para o liceu, n\u00e3o obstante para muitos, especialmente para as raparigas, isso significar uma luta contra a tradi\u00e7\u00e3o e contra pais incompreensivos. Jagaroni fica na cidade, esta escola tem-se tornado aos poucos uma escola de alimenta\u00e7\u00e3o. A zona \u00e9 muito pequena e existem outras escolas nas proximidades.  <b>Bolashpur<\/b>  As pessoas de Bolashpur viviam perto de n\u00f3s, era uma \u00e1rea uma pouco suja e pobre perto do rio. At\u00e9 que h\u00e1 seis anos atr\u00e1s o governo decidiu que eles tinham de sair dali. A pol\u00edcia veio demolir as cabanas daqueles que ainda n\u00e3o tinham sa\u00eddo. Foi escolhido outro local, junto ao rio, nuns baixios que todos os anos s\u00e3o inundados na \u00e9poca das chuvas. Por vezes, e durante dois ou tr\u00eas meses, as pessoas tinham de \u00abacampar\u00bb em zonas mais altas, deixando as suas cabanas nas \u00e1guas de Brahmaputra. Mas o Governo, com a ajuda do ex\u00e9rcito, conseguiu subir as terras e construiu longas filas de cabanas. Esta \u00e9 agora uma zona bonita e limpa com uma comunidade muito activa. Quando eles abandonaram a margem do rio, n\u00f3s prometemos-lhes que ir\u00edamos construir uma escola. Esta \u00e9 j\u00e1 uma grande escola, com 350 crian\u00e7as e ter\u00e1 de ser alargada no futuro, uma vez que o governo planeia construir mais cabanas.  <b>Sete ao todo<\/b> Ao todo, existem agora, sete escolas e no pr\u00f3ximo ano haver\u00e1 mais. H\u00e1 muitos aspectos relacionados com estas escolas. Os pais t\u00eam uma vis\u00e3o das coisas, os professores outra e as crian\u00e7as outra. Para n\u00f3s, esta \u00e9 uma parte da peregrina\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a na terra, que tem muitas, muitas faces.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos que irm\u00e3os de Taiz\u00e9 vivem no Bangladesh. Um deles descreve as pequenas escolas que criaram para crian\u00e7as muito pobres das fam\u00edlias mu\u00e7ulmanas, hindu e crist\u00e3s. Junto do Brahmaputra Vivemos maioritariamente entre mu\u00e7ulmanos, com uma consider\u00e1vel minoria hindu e alguns crist\u00e3os. 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