{"id":30297,"date":"2008-02-26T15:02:19","date_gmt":"2008-02-26T15:02:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/26\/criacao-e-evolucao-a-importancia-de-um-tema\/"},"modified":"2008-02-26T15:02:19","modified_gmt":"2008-02-26T15:02:19","slug":"criacao-e-evolucao-a-importancia-de-um-tema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/criacao-e-evolucao-a-importancia-de-um-tema\/","title":{"rendered":"Cria\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o: a import\u00e2ncia de um tema"},"content":{"rendered":"<p>Dedicada ao tema da Cria\u00e7\u00e3o e Evolu\u00e7\u00e3o, decorreu na Universidade Cat\u00f3lica entre 18 a 21 de Fevereiro a tradicional Semana de Estudos Teol\u00f3gicos. Algum tempo antes, havia sido publicada pela Universidade Cat\u00f3lica Editora a tradu\u00e7\u00e3o portuguesa do livro Cria\u00e7\u00e3o e Evolu\u00e7\u00e3o. Uma jornada com o Papa Bento XVI em Castel Gandolfo, cujo original alem\u00e3o fora da responsabilidade do \u201cC\u00edrculo de disc\u00edpulos de Joseph Ratzinger\u201d (os que fizeram com ele o doutoramento ou a \u201chabilita\u00e7\u00e3o\u201d p\u00f3s-doutoral) e reproduzia as interven\u00e7\u00f5es e os debates que ocuparam os dias de estudo que decorreram em Setembro de 2006. Pretendia-se obter uma maior clareza sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a teoria cient\u00edfica da evolu\u00e7\u00e3o e a f\u00e9 crist\u00e3 na cria\u00e7\u00e3o, uma discuss\u00e3o que tinha sido intensificada ap\u00f3s um artigo do Cardeal Sch\u00f6nborn no New York Times de 7 de Julho de 2005.  Para entender do que verdadeiramente se trata, \u00e9 necess\u00e1rio remontar aos antecedentes desta situa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 no sec. XIX. Quando, em 1859, Charles Darwin publicou a Origem das Esp\u00e9cies dava-se uma altera\u00e7\u00e3o profunda na representa\u00e7\u00e3o do mundo pr\u00f3pria do seu tempo. De uma concep\u00e7\u00e3o fixista das esp\u00e9cies animais, passava-se a conceber uma sua origem evolutiva atrav\u00e9s de um processo em que muta\u00e7\u00f5es casuais s\u00e3o seleccionadas por darem mais garantias de sobreviv\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o. A teoria de Darwin recebeu uma nova solidez com os estudos do monge agostinho Gregor Mendel sobre as leis da hereditariedade. S\u00f3 mais tarde a biologia molecular haveria de encontrar no gene e sua fun\u00e7\u00e3o replicativa o elo que faltava para explicar como as muta\u00e7\u00f5es s\u00e3o transmitidas.  Mas logo desde o in\u00edcio, a recep\u00e7\u00e3o crist\u00e3 dessa nova teoria foi diversificada, desde aqueles que temiam que a f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o ficasse em perigo at\u00e9 aos que na teoria da evolu\u00e7\u00e3o encontraram mais motivos para admirarem a sabedoria criadora de Deus. J\u00e1 em 1950 o Papa Pio XII na sua enc\u00edclica Humani generis reconhecia \u00e0s ci\u00eancias experimentais a compet\u00eancia de realizarem investiga\u00e7\u00e3o no seu campo espec\u00edfico, em que se situa o dom\u00ednio do corpo humano. A legitimidade da teoria da evolu\u00e7\u00e3o foi admitida pelo Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica (n\u00bas 283-286) e reconhecida como um facto pelo Papa Jo\u00e3o Paulo II. Tudo se complicara, no entanto, quando nos Estados Unidos da Am\u00e9rica surgiu, em meios protestantes fundamentalistas, o chamado criacionismo com a pretens\u00e3o de fazer uma leitura literalista do relato do G\u00e9nesis. Mais recentemente, surgiu uma nova proposta afirmando a exist\u00eancia de um intelligent design no universo e no mundo da vida, que remeteria para a necessidade de um autor inteligente na sua origem \u2013  o qual n\u00e3o poderia ser outro sen\u00e3o Deus.  Para dialogar com todas as posi\u00e7\u00f5es em presen\u00e7a \u2013 o evolucionismo, o criacionismo e o intelligent design \u2013 \u00e9 necess\u00e1rio o discernimento. Com efeito, h\u00e1 sempre o perigo de, ao lan\u00e7armos fora a \u00e1gua em que demos banho ao beb\u00e9, lan\u00e7armos tamb\u00e9m fora a pr\u00f3pria crian\u00e7a. E para esse discernimento \u00e9 preciso termos em conta v\u00e1rios aspectos.  Em primeiro lugar, sabermos distinguir os dom\u00ednios de conhecimento ou tipos de racionalidade em que cada problem\u00e1tica tem de ser considerada e discutida. Um \u00e9 o dom\u00ednio das ci\u00eancias positivas, em que tudo \u00e9 estabelecido na base da experi\u00eancia sens\u00edvel para verificar como as coisas acontecem; outro o da filosofia em que se apela a princ\u00edpios meta-f\u00edsicos (isto \u00e9, para al\u00e9m da experi\u00eancia emp\u00edrica) para responder \u00e0 quest\u00e3o dos porqu\u00eas da realidade; e, finalmente, outro o da teologia que se baseia na revela\u00e7\u00e3o pessoal de Deus ao longo da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, culminando em Jesus Cristo. Deste modo, se deixarmos \u00e0s ci\u00eancias experimentais a sua pr\u00f3pria compet\u00eancia, \u00e9 desapropriado procurar nos textos b\u00edblicos conhecimentos desta ordem que eles n\u00e3o pretenderam comunicar, at\u00e9 porque o g\u00e9nero liter\u00e1rio do G\u00e9nesis n\u00e3o \u00e9 o de uma exposi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria dessas ci\u00eancias, mas antes o de uma narrativa po\u00e9tica e simb\u00f3lica que como tal deve ser interpretada.  Para sublinhar este aspecto, tem sido recordado que era assim que os Padres, os Pais da Igreja entendiam a hermen\u00eautica b\u00edblica. Neste contexto \u00e9 muito citada uma passagem de St. Agostinho, referida precisamente ao G\u00e9nesis: \u201cEm mat\u00e9rias obscuras e que excedem tanto a nossa vis\u00e3o, encontramos nas Sagradas Escrituras passagens que podem ser interpretadas de maneiras muito diferentes sem prejudicar a f\u00e9 que acolhemos. Nesses casos, n\u00e3o devemos precipitar-nos a assumir firmemente uma posi\u00e7\u00e3o, correndo o risco de posteriores progressos na busca da verdade virem a min\u00e1-la, arrastando-nos na sua queda.\u201d Mas ao recusarmos, assim, o criacionismo, n\u00e3o quer isto dizer que rejeitemos a ideia filos\u00f3fico-teol\u00f3gica da cria\u00e7\u00e3o. E aqui importa recordar o que nos ensinou S. Tom\u00e1s de Aquino, ao distinguir a causalidade de Deus como causa primeira, e a causalidade de que Deus tamb\u00e9m dotou as criaturas \u00e0 maneira de causas segundas. S\u00f3 a primeira diz respeito ao Ser que det\u00e9m em si a sua raz\u00e3o de ser, as segundas pertencem aos seres contingentes, que s\u00e3o mas poderiam n\u00e3o ser. Querer garantir a cria\u00e7\u00e3o de Deus postulando, como fazem geralmente os defensores do intelligent design, uma interven\u00e7\u00e3o especial de Deus que julgam imprescind\u00edvel quando encontram uma complexidade considerada irredut\u00edvel \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 degradar Deus ao n\u00edvel da causalidade segunda, pr\u00f3pria das criaturas. Nesse caso estamos perante a concep\u00e7\u00e3o de Deus como \u201ctapa-buracos\u201d, tendo acontecido que complexidades, tidas a dada altura como irredut\u00edveis, acabaram por ser explicadas pelo processo da evolu\u00e7\u00e3o. Mas isto n\u00e3o quer dizer que aceitemos como suposta alternativa que toda a evolu\u00e7\u00e3o se faz ao acaso, at\u00e9 porque, como j\u00e1 tem sido observado, o acaso \u00e9 aduzido muitas vezes tamb\u00e9m com a fun\u00e7\u00e3o de \u201ctapa-buracos\u201d. Se as muta\u00e7\u00f5es surgem \u201cpor acaso\u201d, ou seja, de modo imprevis\u00edvel porque n\u00e3o necess\u00e1rio e com probabilidades m\u00ednimas, o mesmo n\u00e3o acontece com a selec\u00e7\u00e3o que tem como finalidade (e n\u00e3o vejo como evitar esta palavra) assegurar a melhor sobreviv\u00eancia e reprodutividade de determinado ser vivo. Faz-se, por vezes, a objec\u00e7\u00e3o de que se est\u00e1, assim, a usar um termo filos\u00f3fico que foge \u00e0 compet\u00eancia das ci\u00eancias experimentais. Mas, nesse caso, tamb\u00e9m foge \u00e0s ci\u00eancias naturais negar essa finalidade. E n\u00e3o ser\u00e1 l\u00edcito e necess\u00e1rio, do ponto de vista filos\u00f3fico e teol\u00f3gico, admitir uma tal finalidade na totalidade do processo da evolu\u00e7\u00e3o? Foi nesse \u00e2mbito que se quis pronunciar o Cardeal Sch\u00f6nborn no seu artigo no New York Times, sem ter evitado no entanto alguns equ\u00edvocos. No Pref\u00e1cio que ele pr\u00f3prio escreveu para o livro dedicado \u00e0 discuss\u00e3o de Castel Gandolfo, cita palavras, datadas de 1986, do ent\u00e3o Cardeal Ratzinger: \u201cEmbora hoje j\u00e1 n\u00e3o constitua nenhuma dificuldade para a f\u00e9 aceitar que a hip\u00f3tese cient\u00edfico-natural da evolu\u00e7\u00e3o se possa calmamente desenrolar de acordo com os seus pr\u00f3prios m\u00e9todos, contudo, a pretens\u00e3o total do modelo explicativo filos\u00f3fico da \u201cevolu\u00e7\u00e3o\u201d apresenta, com tanta maior raz\u00e3o, uma radical pergunta \u00e0 f\u00e9 e \u00e0 teologia\u2026 A genu\u00edna plataforma de di\u00e1logo \u00e9 a do pensamento filos\u00f3fico: onde a ci\u00eancia se torna filosofia, \u00e9 a filosofia que a ela de deve contrapor.\u201d  A substitui\u00e7\u00e3o de uma representa\u00e7\u00e3o fixista do mundo por uma outra din\u00e2mica e evolutiva foi aceite, no que se refere \u00e0 sociedade, pelo Conc\u00edlio Vaticano II: \u201cO destino da comunidade humana torna-se um s\u00f3, e n\u00e3o j\u00e1 dividido entre hist\u00f3rias independentes. A humanidade passa, assim, de uma concep\u00e7\u00e3o predominantemente est\u00e1tica da ordem das coisas para uma outra, preferentemente din\u00e2mica e evolutiva; daqui nasce uma nova e imensa problem\u00e1tica, a qual est\u00e1 a exigir novas an\u00e1lises e novas s\u00ednteses.\u201d (GS 5) E \u00e9 poss\u00edvel \u00e0 consci\u00eancia crist\u00e3 fazer uma leitura iluminada pela f\u00e9 do mundo evolutivo. De uma certa maneira ela j\u00e1 foi realizada, no passado, por St. Ireneu. No caso de St. Agostinho, ele inspirou-se na filosofia de Plotino que considerava que toda a realidade provinha da suprema hip\u00f3stese, o Um, distanciando-se dela pela dispers\u00e3o, e a ela regressando por uma unifica\u00e7\u00e3o interiorizante. Assim, o bispo de Hipona considerava que toda a ordem da cria\u00e7\u00e3o pode ser vista segundo um primeiro momento de dispers\u00e3o que, pela ac\u00e7\u00e3o da verdade criadora, d\u00e1 lugar \u00e0 beleza das formas, e no caso do homem, se unifica pela sabedoria interiorizante, no amor da verdade e na verdade do amor. H\u00e1 certamente uma analogia entre esta concep\u00e7\u00e3o agostiniana e o modelo de interpreta\u00e7\u00e3o crist\u00e3 da evolu\u00e7\u00e3o empreendida pelo jesu\u00edta Teilhard de Chardin, segundo o qual toda a evolu\u00e7\u00e3o \u201cque sobe pelo improv\u00e1vel\u201d procede de Cristo Alfa e retorna ao Cristo Omega. No mesmo Pref\u00e1cio j\u00e1 referido, s\u00e3o citadas tamb\u00e9m longamente as palavras pronunciadas, em 1968, pelo ent\u00e3o professor de Tubinga Joseph Ratzinger numa emiss\u00e3o da R\u00e1dio do Sul da Alemanha, em que \u00e9 abordada a singularidade do homem em todo este processo da evolu\u00e7\u00e3o, decidindo-se nele a exig\u00eancia de sentido de todo o processo \u2013 n\u00e3o deixado ao absurdo de um total acaso, mas iluminado pela inteligibilidade que vem de Deus e que \u00e9 dado \u00e0 pessoa humana, e s\u00f3 \u00e0 pessoa humana, apreender: \u201cO primeiro Tu que \u2013 embora balbuciante \u2013 foi dito a Deus pela boca do homem, assinala o instante em que o esp\u00edrito surgiu no mundo. Atravessou-se aqui o Rubic\u00e3o da humaniza\u00e7\u00e3o. Com efeito, o que constitui o homem\u2026 \u00e9 a sua capacidade de ser imediatamente para Deus. Eis o que significa a doutrina da cria\u00e7\u00e3o particular do homem; nela reside o cerne da cria\u00e7\u00e3o em geral.\u201d Esta permanece uma quest\u00e3o central para o di\u00e1logo entre a f\u00e9 crist\u00e3 e a cultura e ci\u00eancia do nosso tempo. \u00c9 para este di\u00e1logo que t\u00eam concorrido as Semanas de  Estudos Teol\u00f3gicos. A de este ano, organizada pela 29\u00aa vez em Lisboa, contou para al\u00e9m dos intervenientes portugueses, na sua maior parte professores da Universidade Cat\u00f3lica, com a participa\u00e7\u00e3o de um reconhecido especialista franc\u00eas na \u00e1rea do di\u00e1logo entre f\u00e9 e ci\u00eancia, o dominicano Jacques Arnould.  <i>H. Noronha Galv\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dedicada ao tema da Cria\u00e7\u00e3o e Evolu\u00e7\u00e3o, decorreu na Universidade Cat\u00f3lica entre 18 a 21 de Fevereiro a tradicional Semana de Estudos Teol\u00f3gicos. 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