{"id":30268,"date":"2008-02-26T10:35:14","date_gmt":"2008-02-26T10:35:14","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/26\/que-esperar-do-trabalho-dos-leigos\/"},"modified":"2008-02-26T10:35:14","modified_gmt":"2008-02-26T10:35:14","slug":"que-esperar-do-trabalho-dos-leigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/que-esperar-do-trabalho-dos-leigos\/","title":{"rendered":"Que esperar do trabalho dos leigos?"},"content":{"rendered":"<p>Urge n\u00e3o prender os leigos ao altar, porque o seu campo de ac\u00e7\u00e3o \u00e9 o da vida, defende D. Ant\u00f3nio Marcelino <!--more--> Os leigos foram durante s\u00e9culos, esquecidos, se n\u00e3o mesmo ou menosprezados, na sua dignidade e condi\u00e7\u00e3o eclesial. J\u00e1 antes do Conc\u00edlio houve profetas a gritar, com palavras e obras, que era necess\u00e1rio acordar para esta situa\u00e7\u00e3o e dar-lhe resposta positiva e sem demora. A Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica e as iniciativas que a precederam, a reflex\u00e3o teol\u00f3gica de gente com nome e m\u00e9rito, algumas interven\u00e7\u00f5es dos Papas, movimentos espont\u00e2neos surgidos em algumas Igrejas Particulares por essa Europa fora, a for\u00e7a de crist\u00e3os teimosos e acordados que acabaram por arrombar portas que tardavam em abrir-se, alguns bispos, padres e leigos a trabalhar com grupos comprometidos, que n\u00e3o se resignavam e assim foram apagando a pobreza da defini\u00e7\u00e3o e da realidade laical, marcas de uma noite longa de empobrecimento. A n\u00edvel alargado e, por parte de gente mais respons\u00e1vel, dos leigos pouco mais se dizia, al\u00e9m de que n\u00e3o eram nem cl\u00e9rigos, nem religiosos. Indicaram-se para eles, quase s\u00f3 em roda p\u00e9 eclesi\u00e1stico, algumas formas associativas que lhes poderiam propiciar algum conforto e ajuda espiritual, associa\u00e7\u00f5es normalmente afectas a ordens e congrega\u00e7\u00f5es religiosas.  O estilo de s\u00e9culos que vigorou na Igreja tinha uma forte marca clerical e n\u00e3o contava, por isso mesmo, com a colabora\u00e7\u00e3o dos leigos. Nem se sabia o que pedir-lhes ou o que dar-lhes a fazer, dada a sua pouca forma\u00e7\u00e3o e, tamb\u00e9m, porque a sua pr\u00e1tica religiosa se processava, na maioria dos casos, na fidelidade rotineira a tradi\u00e7\u00f5es. Quem sa\u00eda deste esquema era considerado como pessoa rara. Assisti na minha juventude sacerdotal \u00e0 desconfian\u00e7a de padres zelosos ao apreciar, com manifestas reservas, um grupo de leigas que chegavam \u00e0 diocese pela m\u00e3o do seu bispo, e \u00e0s quais era necess\u00e1rio estar-se atento, porque elas rezavam salmos e liam o Padre Congar\u2026  O Vaticano II, ao recuperar o sentido do Povo de Deus, varreu, em teoria, o campo da desconfian\u00e7a e da menoridade laical. Mas a carga clerical do tempo pareceu ter entendido e considerado, prevalentemente, os leigos como colaboradores dos padres. Logo estes os apanharam para servi\u00e7os do culto, recomendados pela reforma lit\u00fargica, e para outras tarefas do g\u00e9nero, processadas \u00e0 volta do templo ou dentro do mesmo. N\u00e3o foram muitos os que logo os ajudarem a compreender e a viver a sua voca\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os no mundo, chamados a levar \u00e0s realidades terrestres &#8211; fam\u00edlia, profiss\u00e3o, vida associativa e social &#8211; as energias e a luz da mensagem evang\u00e9lica.  As coisas v\u00e3o mudando, por vezes ainda devagar, se as confrontarmos com a velocidade do tempo e das mudan\u00e7as culturais, geradores de novos crit\u00e9rios e valores a marcar a vida e mentalidade das pessoas e da sociedade. Os documentos conciliares, o novo C\u00f3digo do Direito Can\u00f3nico com o elenco dos direitos e deveres dos leigos, os s\u00ednodos, as interven\u00e7\u00f5es e os discursos dos papas por esse mundo fora, as cartas pastorais dos bispos, as publica\u00e7\u00f5es de toda a ordem, abrem caminhos novos para quem sentir vontade de os andar. Multiplicaram-se os novos movimentos laicais, ganhando plena cidadania na Igreja, e deles j\u00e1 disse que foram um \u201dnovo Pentecostes\u201d. Abriram-se cursos de forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, uns mais acess\u00edveis que outros. Tardam, por\u00e9m, movimentos laicais de actua\u00e7\u00e3o nos meios de vida e outros de fronteira social e cultural, onde a vida \u00e9 mais interpelativa e a reflex\u00e3o mais acutilante e consequente. O que se pode esperar do trabalho dos leigos tem, como pressuposto, o reconhecimento da sua voca\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00e3o, da autonomia que lhes \u00e9 pr\u00f3pria, dos meios que se lhes proporcionam para a sua forma\u00e7\u00e3o, da sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade que os integra e apoia. Sem um laicado crist\u00e3o preparado para participar e intervir responsavelmente, a Igreja est\u00e1 empobrecida em ordem \u00e0 sua miss\u00e3o no mundo. Torna-se pouco significante e ter\u00e1 sempre dificuldade em se inserir positivamente na sociedade humana.  Urge, por isso, o reconhecimento dos carismas pr\u00f3prios de cada um e a sua integra\u00e7\u00e3o na vida da comunidade, bem como uma ac\u00e7\u00e3o organizada nos diversos campos do apostolado. Urge a implementa\u00e7\u00e3o, onde n\u00e3o existem ainda e o seu reconhecimento sem rebu\u00e7os, onde j\u00e1 existem, de conselhos pastorais, diocesanos e paroquiais, constitu\u00eddos por gente capaz, interiormente livre para ver, opinar, programar e avaliar as ac\u00e7\u00f5es. Urge, tamb\u00e9m, n\u00e3o prender os leigos ao altar, porque o seu campo de ac\u00e7\u00e3o \u00e9 o da vida e das realidades temporais, pois a\u00ed se processam as suas responsabilidades familiares, profissionais e sociais. Deste modo, torna-se necess\u00e1rio, ou pelo menos \u00fatil, reflectir com os leigos os novos dinamismos sociais e a sua influ\u00eancia, a realidade social e cultural emergente, os campos a descoberto e o modo de estar neles evangelicamente, com sentido dialogante, aberto e cooperante.  A hora \u00e9 tanto mais dos leigos, quanto mais for da Igreja a assumir-se como Povo de Deus.  <i>Ant\u00f3nio Marcelino, Bispo em\u00e9rito de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Urge n\u00e3o prender os leigos ao altar, porque o seu campo de ac\u00e7\u00e3o \u00e9 o da vida, defende D. 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