{"id":30265,"date":"2008-02-25T18:54:28","date_gmt":"2008-02-25T18:54:28","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/25\/leitura-dos-sinais-dos-tempos-um-olhar-cristao-sobre-a-historia\/"},"modified":"2008-02-25T18:54:28","modified_gmt":"2008-02-25T18:54:28","slug":"leitura-dos-sinais-dos-tempos-um-olhar-cristao-sobre-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/leitura-dos-sinais-dos-tempos-um-olhar-cristao-sobre-a-historia\/","title":{"rendered":"<i>Leitura dos sinais dos tempos, um olhar crist\u00e3o sobre a Hist\u00f3ria<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. Jos\u00e9 Policarpo no 25\u00ba anivers\u00e1rio do CEPCEP <!--more--> 1. Ler os sinais dos tempos n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de moda. \u00c9 um desafio permanente aos disc\u00edpulos de Cristo, que deve gerar uma cont\u00ednua aten\u00e7\u00e3o ao sentido profundo da hist\u00f3ria, lida e interpretada a partir da f\u00e9, express\u00e3o do carisma prof\u00e9tico da Igreja, novo Povo de Deus. A possibilidade desta leitura assenta em alguns pressupostos. Antes de mais, a unidade de toda a humanidade, a \u00fanica fam\u00edlia humana, criada por Deus com amor, destinada \u00e0 bem-aventuran\u00e7a. Neste tempo de globaliza\u00e7\u00e3o, esta unidade de toda a fam\u00edlia humana \u00e9 um elemento central da muta\u00e7\u00e3o cultural. Come\u00e7a a tomar-se consci\u00eancia de um patrim\u00f3nio universal comum a todos os homens, que pode tornar-se fundamento \u00e9tico, decisivo para a constru\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo, da harmonia e da paz. Um segundo pressuposto \u00e9 a universalidade da reden\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo. Ele oferece a Sua vida por todos os homens, de todos os tempos e lugares. Na Sua Cruz, abra\u00e7a toda a humanidade desde o in\u00edcio at\u00e9 \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o da plenitude escatol\u00f3gica. O que distingue os disc\u00edpulos de Cristo \u00e9 que, na sua f\u00e9, eles tomaram consci\u00eancia dessa plenitude unificadora de Jesus Cristo, devem anunci\u00e1-la, p\u00f4r em pr\u00e1tica, no amor, a antecipa\u00e7\u00e3o desse reino definitivo: \u00e9 por isso que eles podem discernir sinais desse Reino a acontecer, no seio do pr\u00f3prio drama humano. Realizar este dinamismo salv\u00edfico e unificador de Jesus Cristo \u00e9 obra do Esp\u00edrito, a for\u00e7a do amor transformador. Em termos de f\u00e9, o Esp\u00edrito Santo \u00e9 o principal motor da hist\u00f3ria, e o seu campo de ac\u00e7\u00e3o \u00e9 a humanidade, \u00e9 a hist\u00f3ria humana como um todo. Se ela n\u00e3o merece, teologicamente, o t\u00edtulo de \u201chist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o\u201d enquanto encadear de acontecimentos e dinamismos sagrados, explicitamente salv\u00edficos, ela \u00e9, no entanto, a hist\u00f3ria onde acontece a Salva\u00e7\u00e3o. Esta concretiza\u00e7\u00e3o do carisma prof\u00e9tico da Igreja sup\u00f5e, mais do que qualquer outra, que a Igreja faz parte da humanidade, tem uma comunh\u00e3o de situa\u00e7\u00e3o e de destino com todos os homens, aos quais foi enviada com a mensagem da esperan\u00e7a. \u00c9 ali\u00e1s no quadro da realiza\u00e7\u00e3o da sua miss\u00e3o de enviada ao mundo, que o Conc\u00edlio Vaticano II diz que a Igreja tem o dever de ler os sinais dos tempos. Recordemos este texto, embora ele seja t\u00e3o conhecido que quase o sabemos de cor: \u201cpara levar a bom termo esta etapa (de enviada), a Igreja tem o dever cont\u00ednuo de perscrutar os sinais dos tempos e de os interpretar \u00e0 luz do Evangelho, de modo a poder responder, de maneira adaptada a cada gera\u00e7\u00e3o, \u00e0s quest\u00f5es eternas dos homens sobre o sentido da vida presente e futura e das suas rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas\u201d . Trata-se de discernir: n\u00e3o se trata de uma verifica\u00e7\u00e3o f\u00e1cil; \u00e9 intui\u00e7\u00e3o, pressentimento, a que s\u00f3 a Palavra de Deus e a f\u00e9 podem dar forma. Lembramo-nos da figura de alguns profetas do Antigo Testamento, sempre \u00e0 espreita para captar o sentido profundo dos acontecimentos. Ler os sinais dos tempos \u00e9 ousar a esperan\u00e7a.  Sinais do Reino 2. Estamos a falar de sinais do Reino de Deus, de realidades que nos dizem que \u201co Reino j\u00e1 est\u00e1 no meio de n\u00f3s\u201d, nos sugerem os seus dinamismos em ac\u00e7\u00e3o, nos indicam as aberturas que as realidades humanas oferecem ao an\u00fancio expl\u00edcito desse Reino. Por isso, o texto conciliar acrescenta: \u201c\u00e9 importante conhecer e compreender este mundo em que vivemos, as suas expectativas, as suas aspira\u00e7\u00f5es, o seu car\u00e1cter tantas vezes dram\u00e1tico\u201d . O desafio a compreender os sinais do Reino de Deus j\u00e1 presente, \u00e9 o sentido da express\u00e3o no Evangelho de S\u00e3o Mateus. Os fariseus, para tentarem Jesus, pedem-lhe um sinal do C\u00e9u. Jesus responde-lhes: \u201cAo p\u00f4r-do-sol dizeis: vai fazer bom tempo porque o C\u00e9u est\u00e1 vermelho. E de manh\u00e3: hoje vai chover, porque o C\u00e9u est\u00e1 vermelho escuro. Olhando o C\u00e9u, sabeis prever o tempo, mas n\u00e3o sois capazes de interpretar os sinais dos tempos\u201d (Mt. 16,2-3). O que Cristo lhes censura \u00e9 o n\u00e3o serem capazes de ver n\u2019Ele um sinal de que o Reino j\u00e1 est\u00e1 presente no meio de n\u00f3s . Discernir sinais do Reino no drama da hist\u00f3ria, \u00e9 identificar as realidades que s\u00e3o verdadeiramente uma presen\u00e7a do Reino de Deus na sociedade, em pessoas e institui\u00e7\u00f5es, e que s\u00e3o o fruto da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo. Um ju\u00edzo sobre a sociedade de cada tempo hist\u00f3rico, e o nosso \u00e9 o presente, se n\u00e3o inclui estas realidades positivas, verdadeiros fundamentos da esperan\u00e7a, \u00e9 inevitavelmente incompleto e pessimista. E estes sinais positivos existem na Igreja e fora dela, na generosidade abnegada, na persist\u00eancia em procurar a justi\u00e7a e construir a paz. \u00c9 uma for\u00e7a silenciosa que sust\u00e9m a humanidade, talvez evitando, s\u00f3 Deus sabe, que ela so\u00e7obre na auto-destrui\u00e7\u00e3o. Esta leitura das realidades que na humanidade de cada tempo s\u00e3o sinais do Reino a acontecer, \u00e9 um dos fundamentos da nossa esperan\u00e7a.  Discernir as sementes do Reino 3. Esta leitura dos sinais pode incidir tamb\u00e9m sobre grandes dinamismos da hist\u00f3ria, que s\u00e3o sementes do Reino de Deus, anunciando, se se confirmarem, a realiza\u00e7\u00e3o de um mundo mais justo e fraterno. S\u00e3o aberturas culturais, tomadas de consci\u00eancia colectiva, capazes de marcar o ritmo da hist\u00f3ria num certo sentido. O P. Congar, comentando dia a dia o Conc\u00edlio, referindo-se a esta aten\u00e7\u00e3o aos sinais, diz que \u00e9 o mundo a bater \u00e0 porta da Igreja, pedindo-lhe que lhe abra o Evangelho na p\u00e1gina que ele pode compreender, para se compreender profundamente a si mesmo. Fen\u00f3menos hist\u00f3rico-culturais como uma nova consci\u00eancia de paz, um sentido novo da solidariedade e da dignidade humana, a dignidade da mulher, a universalidade do fen\u00f3meno religioso num mundo onde o racionalismo ateizante cantava vit\u00f3ria, podem ser algumas dessas realidades-sinais. Neste aspecto, reveste-se de import\u00e2ncia decisiva a presen\u00e7a empenhada dos crist\u00e3os na edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa. Agindo como for\u00e7a crist\u00e3 do amor, eles est\u00e3o no terreno, ajudando essas sementes do Reino a crescer e a transformar-se em reais presen\u00e7as do Reino. No mundo eles s\u00e3o iluminados pela f\u00e9, e esta leva a que o empenho na luta pelo progresso da humanidade seja concretiza\u00e7\u00e3o do mandamento evang\u00e9lico do amor; desse compromisso crente brota a luz do discernimento dos caminhos da sociedade. Esta leitura das realidades-sinais \u00e9 objectiva, enfrenta a inevit\u00e1vel ambiguidade da hist\u00f3ria, n\u00e3o esconde as realidades negativas que s\u00e3o \u201ccontra-sinais\u201d do Reino, mas podem ajudar a definir os contornos dos verdadeiros sinais. Tamb\u00e9m eles entram numa leitura da hist\u00f3ria, conduzida pela luz que irradia de Jesus Cristo. Esta presen\u00e7a dos crist\u00e3os no mundo, profundamente comprometidos com o progresso da humanidade, \u00e9 essencial para esta leitura crist\u00e3 da hist\u00f3ria. Escutemos ainda um outro texto do Conc\u00edlio: \u201cMovido pela f\u00e9, sabendo-se conduzido pelo Esp\u00edrito do Senhor que enche o Universo, o Povo de Deus esfor\u00e7a-se por discernir nos acontecimentos, nas exig\u00eancias e anseios do nosso tempo, nos quais participa com os outros homens, quais s\u00e3o os verdadeiros sinais da presen\u00e7a ou do des\u00edgnio de Deus. A f\u00e9, com efeito, ilumina todas as coisas com uma luz nova e faz-nos conhecer a vontade divina sobre a voca\u00e7\u00e3o integral do homem, orientando, assim, o esp\u00edrito para solu\u00e7\u00f5es plenamente humanas\u201d .  Ousar procurar sinais na Hist\u00f3ria dos \u00faltimos 25 anos 4. At\u00e9 aqui limitei-me a definir os crit\u00e9rios teol\u00f3gico-pastorais da leitura dos sinais dos tempos. Ali\u00e1s a maior parte dos textos que conhe\u00e7o limitam-se a definir esse enquadramento te\u00f3rico. Ousar descobrir na realidade do mundo sinais pode n\u00e3o ser objecto de discurso sistem\u00e1tico, mas t\u00e3o s\u00f3 intui\u00e7\u00e3o pastoral. Encontramos exemplos dessa leitura concreta em textos de Jo\u00e3o Paulo II, por exemplo. Estamos a celebrar os 25 anos do CEP-CEP, Centro de Estudos que tra\u00e7ou como objectivo e metodologia uma particular aten\u00e7\u00e3o ao evoluir das culturas dos povos de express\u00e3o portuguesa. Mas tantas vezes, na busca desse objectivo, alargou o horizonte cultural de an\u00e1lise para um universo cultural mais vasto, porque no nosso tempo, sobretudo no \u00e2mbito da cultura e da muta\u00e7\u00e3o cultural, \u00e9 dif\u00edcil confinar-se a um universo cultural restrito. A evolu\u00e7\u00e3o cultural \u00e9, certamente, o quadro prop\u00edcio ao discernimento de sinais, porque a cultura marca o futuro da humanidade em termos de busca de sentido, inspira os universos \u00e9ticos e oferece \u00e0 f\u00e9 o seu enquadramento humano. O div\u00f3rcio entre o universo da cultura e a f\u00e9 \u00e9 redutor para a cultura e dram\u00e1tico para o futuro da f\u00e9 e a sua capacidade de iluminar a hist\u00f3ria.  A globaliza\u00e7\u00e3o 5. \u00c9, certamente, o fen\u00f3meno mais significativo nos \u00faltimos 25 anos, com implica\u00e7\u00f5es culturais, econ\u00f3micas e pol\u00edticas. Independentemente da an\u00e1lise das suas causas e manifesta\u00e7\u00f5es, ela est\u00e1 a contribuir para uma interdepend\u00eancia de todos em rela\u00e7\u00e3o a todos: ningu\u00e9m \u00e9 indiferente a ningu\u00e9m. A humanidade, talvez pela primeira vez na sua hist\u00f3ria, sente-se e descobre-se como uma \u201c\u00fanica fam\u00edlia humana\u201d, na express\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo II numa das Mensagens para o Dia Mundial da Paz. H\u00e1 hoje a consci\u00eancia acentuada de uma unidade ao n\u00edvel do planeta, quadro inevit\u00e1vel para os processos de desenvolvimento, para o di\u00e1logo inter-cultural, para a constru\u00e7\u00e3o da paz. Fen\u00f3menos de v\u00e1ria ordem, de natureza religiosa, \u00e9tnica e cultural, que durante mil\u00e9nios foram localizados e quase desconhecidos da fam\u00edlia humana, considerada como um todo, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o, nem podem ser, desconhecidos por ningu\u00e9m. Olharemos o fen\u00f3meno da globaliza\u00e7\u00e3o numa tr\u00edplice perspectiva: cultural, econ\u00f3mica, pol\u00edtica, todas elas importantes para que a humanidade progrida em qualidade, aproximando-se da ideia de Reino de Deus, isto \u00e9, o modelo de plenitude para que foi criada. A sua vertente cultural \u00e9, certamente, a mais abrangente. A globaliza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de poderosas e modernas tecnologias, n\u00e3o s\u00f3 contribui decisivamente para o fen\u00f3meno da globaliza\u00e7\u00e3o, mas tornou-se factor importante na pr\u00f3pria muta\u00e7\u00e3o cultural. Hoje temos o mundo ao nosso alcance, na variedade e complexidade da sua realidade, num teclado de computador. A internet trouxe a mais profunda altera\u00e7\u00e3o de linguagem e de atitude cultural jamais conhecida na hist\u00f3ria. E ainda \u00e9 cedo para analisar todas as consequ\u00eancias do fen\u00f3meno. N\u00f3s, a gera\u00e7\u00e3o dos adultos, que aprendeu a lidar com o computador como se aprende a lidar com um novo utens\u00edlio, n\u00e3o podemos avaliar as marcas, ao n\u00edvel da personalidade, que esse universo imprime nas crian\u00e7as e nos jovens. \u00c9 a defini\u00e7\u00e3o de ser humano que est\u00e1 a alterar-se. O que as ideologias n\u00e3o conseguiram, pode ser efeito das novas tecnologias: o surgir de um novo modelo de homem.  O alargamento, ao n\u00edvel global, das realidades religiosas e culturais da humanidade, tem efeitos imediatos e podem sugerir caminhos a seguir. Os efeitos imediatos podem concretizar-se na avalia\u00e7\u00e3o das novas realidades conhecidas, \u00e0 luz da experi\u00eancia concreta de cada pessoa e de cada comunidade. Esta primeira reac\u00e7\u00e3o pode ser exclusiva e n\u00e3o inclusiva e sup\u00f5e um ju\u00edzo de valor a partir de crit\u00e9rios fixados que n\u00e3o se abriram \u00e0 surpresa da novidade e da diferen\u00e7a. Se esses crit\u00e9rios fixados definem interesses, de pessoas e de na\u00e7\u00f5es, a primeira reac\u00e7\u00e3o \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o pode ser mais da ordem do conflito do que da converg\u00eancia e da busca de uma nova unidade. Abertura \u00e0 diferen\u00e7a, com conhecimento das riquezas dos outros e do que eles t\u00eam de pr\u00f3prio, constitui desafios inadi\u00e1veis de di\u00e1logo intercultural, inter-religioso, inter-civilizacional, em busca daquele \u201cuniversal humano\u201d, patrim\u00f3nio espiritual da humanidade, base indispens\u00e1vel para a constru\u00e7\u00e3o da harmonia e da paz. H\u00e1 sinais positivos de uma tomada de consci\u00eancia desta dimens\u00e3o universal da cultura. Cito, a t\u00edtulo de exemplo, a consci\u00eancia universal da ci\u00eancia e da comunidade do saber, que leva a grandes converg\u00eancias internacionais de universidades, unidades de pesquisa e centros de saber. A \u201cuniversidade de bairro\u201d ter\u00e1 cada vez menos lugar no quadro da globaliza\u00e7\u00e3o da cultura.  6. Outro aspecto importante \u00e9 a vertente econ\u00f3mica da globaliza\u00e7\u00e3o, certamente a que mais assusta no imediato e mais cr\u00edticas negativas sugere. A economia tem a ver com modelos de desenvolvimento e estes t\u00eam de ter em conta, cada vez mais, a escala global. O confronto at\u00e1vico entre pobres e ricos, o combate \u00e0 mis\u00e9ria e \u00e0s doen\u00e7as end\u00e9micas, porque se tornaram vis\u00edveis num mundo global, j\u00e1 n\u00e3o podem ser ignorados ou relativizados. Se n\u00e3o forem tidos em conta pelo todo global, carregar\u00e3o amea\u00e7as de conflitos incalcul\u00e1veis. N\u00e3o apenas a ci\u00eancia econ\u00f3mica, mas a pr\u00e1tica da economia t\u00eam de enveredar corajosamente por caminhos adaptados a uma solu\u00e7\u00e3o global. O mercado global tem de ser concebido como caminho para a justi\u00e7a e para a promo\u00e7\u00e3o das camadas da popula\u00e7\u00e3o mundial menos capazes de aceder, na sua exist\u00eancia concreta, a n\u00edveis de dignidade. Cultura e economia acarretam, inevitavelmente, uma dimens\u00e3o pol\u00edtica. Esta, como arte de gerir os Povos e conduzi-los para o desenvolvimento e para a harmonia da paz, \u00e9 cada vez mais influenciada e condicionada pela dimens\u00e3o global. O cruzamento de culturas e a interdepend\u00eancia econ\u00f3mica exigem horizontes pol\u00edticos abertos \u00e0 globalidade, completando ou mesmo ultrapassando um conceito r\u00edgido da autonomia dos Estados. Come\u00e7a a sentir-se a necessidade de um \u201cgoverno mundial\u201d, n\u00e3o para reduzir o mundo a um s\u00f3 Estado, mas para construir eficazmente dinamismos de harmonia global, com poder para julgar e dirimir conflitos e injusti\u00e7as, e construir, com a colabora\u00e7\u00e3o de todos, a ordem e a paz. A evolu\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, na defini\u00e7\u00e3o jur\u00eddica das suas compet\u00eancias e no apetrechamento dos meios necess\u00e1rios para realizar eficazmente essas compet\u00eancias, tarda em realizar-se. Neste campo da pol\u00edtica h\u00e1 dados preocupantes, fruto da globaliza\u00e7\u00e3o, que merecem uma particular aten\u00e7\u00e3o: antes de mais a crise do Ocidente. Detecta-se facilmente nas actuais tens\u00f5es mundiais, uma atitude cr\u00edtica ao Ocidente. P\u00e1tria da racionalidade, dominou o mundo pela for\u00e7a da ci\u00eancia e da tecnologia, sujeitou \u00e0 sua concep\u00e7\u00e3o de progresso o resto do mundo, sobretudo pelo recurso aos bens naturais, alguns dos quais como a energia, s\u00e3o hoje vitais para a sua pr\u00f3pria subsist\u00eancia. Mas foi tamb\u00e9m a p\u00e1tria da liberdade, do culto da dignidade da pessoa humana, da democracia e do direito. Mas teima-se em n\u00e3o perceber que a crise do Ocidente \u00e9 uma crise de cultura e de modelos de vida e de desenvolvimento, que hoje s\u00f3 podem subsistir numa compreens\u00e3o global. N\u00e3o se trata de uma crise de poderes, sejam eles pol\u00edticos, econ\u00f3micos ou militares, mas uma crise de sentido e da natureza transcendente do homem e da hist\u00f3ria. O Ocidente est\u00e1 a pagar um pre\u00e7o caro por este erro de perspectiva, com pol\u00edticas imediatistas de quem navega \u00e0 vista, sem perspectivas de profundidade e de longo prazo, o \u00fanico que se compadece com as exig\u00eancias da globaliza\u00e7\u00e3o.  7. Neste cen\u00e1rio, alterou-se o quadro da constru\u00e7\u00e3o e da manuten\u00e7\u00e3o da paz. Com a queda do Muro de Berlim, o mundo respirou fundo como se se tivesse abatido a \u00faltima grande amea\u00e7a \u00e0 paz. E verificou-se algo de paradoxal: o sistema de alinhamento em blocos evitou, durante d\u00e9cadas, conflitos locais e regionais significativos, pelo perigo que representavam para o eclodir de um conflito nuclear. O fim dos blocos deu azo a uma multiplicidade de conflitos, invi\u00e1veis no quadro anterior: conflitos \u00e9tnicos, religiosos, sentidos auton\u00f3micos, muito bem reprimidos pelo medo e pela for\u00e7a, novos equil\u00edbrios de interesses no quadro de um mundo global, com uma novidade na hist\u00f3ria recente: os Estados j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o sempre a entidade com que se deve dialogar para cessar os conflitos e repor a justi\u00e7a. O terrorismo \u00e9 disso apenas um exemplo. As estruturas militares e de defesa, em que se investiram somas astron\u00f3micas, muito maiores das que se investiram no desenvolvimento dos povos, n\u00e3o s\u00e3o aptas para resolver conflitos localizados: continuam a poder destruir o mundo, mas s\u00e3o incapazes de repor a paz nos pequenos conflitos. Novos blocos come\u00e7am a equacionar-se, que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam na ideologia pol\u00edtica o seu elemento aglutinador, mas interesses vitais de que depende o futuro da humanidade, como \u00e9 o caso das mat\u00e9rias-primas, sobretudo da energia. H\u00e1 j\u00e1 quem tema que um futuro conflito global seja motivado pela salvaguarda dos recursos energ\u00e9ticos. E neste quadro \u00e9 urgente encontrar e valorizar sinais de esperan\u00e7a, promissores de um futuro positivo para a humanidade.  Sinais dos tempos, interpela\u00e7\u00f5es \u00e0 Igreja 8. A f\u00e9 na universalidade da Reden\u00e7\u00e3o \u00e9 de import\u00e2ncia decisiva neste mundo globalizado. Acreditamos ou n\u00e3o que toda a fam\u00edlia humana foi redimida pela Cruz de Cristo que a envolveu no Seu abra\u00e7o de amor divino? Acreditamos ou n\u00e3o que o Esp\u00edrito, for\u00e7a de Deus, n\u00e3o abandonou a hist\u00f3ria? Acreditamos ou n\u00e3o que a salva\u00e7\u00e3o da humanidade n\u00e3o depende s\u00f3 do engenho humano? No quadro da globaliza\u00e7\u00e3o a Igreja \u00e9 chamada a renovar a consci\u00eancia da sua universalidade e a tirar da\u00ed as necess\u00e1rias ila\u00e7\u00f5es pastorais. O cristianismo foi a \u00fanica religi\u00e3o que se afirma constitutivamente na sua dimens\u00e3o universal: \u201cide por todo o mundo, anunciai o Evangelho a todos os Povos\u201d. E a efus\u00e3o do Esp\u00edrito, no Pentecostes, \u00e9 acolhida por uma multid\u00e3o de v\u00e1rios povos e l\u00ednguas. Esta universalidade brota da consci\u00eancia da universalidade da Salva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 motivada pela \u00e2nsia de dom\u00ednio ou de poder. O an\u00fancio desta universalidade salv\u00edfica que foi a for\u00e7a motriz da miss\u00e3o evangelizadora, deve ser a alma das comunidades crentes. Hoje h\u00e1 outras religi\u00f5es que lutam pela universalidade. Mas a da Igreja de Cristo est\u00e1 realizada: com maior ou menor express\u00e3o num\u00e9rica, est\u00e1 presente em todos os povos e culturas, \u00e9 uma realidade que abra\u00e7a o mundo. A valoriza\u00e7\u00e3o da universalidade sobre particularismos, de culturas, de povos, de doutrinas, de tradi\u00e7\u00f5es, tem de ser cada vez mais uma op\u00e7\u00e3o de fundo da maneira de a Igreja estar no mundo. Isso sup\u00f5e uma abertura das Igrejas particulares \u00e0 universalidade, exige que n\u00e3o se pare ou desista no esfor\u00e7o de aproxima\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica, sup\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o da unidade na pluralidade, arrasta-nos para a generosidade da partilha e para a paix\u00e3o da miss\u00e3o. Este n\u00e3o \u00e9, necessariamente, um caminho triunfal; assemelha-se mais \u00e0 caminhada para o Calv\u00e1rio, onde unidos \u00e0 Cruz de Cristo, abra\u00e7aremos o mundo. Por outro lado, na constru\u00e7\u00e3o desta universalidade do amor redentor, \u00e9 chamada a proclamar o Evangelho da esperan\u00e7a, iluminando as reais situa\u00e7\u00f5es da humanidade, na defesa da vida, da dignidade da pessoa humana, os caminhos da justi\u00e7a e da paz. A doutrina social da Igreja n\u00e3o \u00e9 um magist\u00e9rio de circunst\u00e2ncia, \u00e9 algo de estruturante e fundamental para que a humanidade trilhe caminhos de globalidade positiva.  8. Jo\u00e3o Paulo II, na sua primeira Enc\u00edclica, desafiou a Igreja a fazer, de modo radical, a op\u00e7\u00e3o pelo homem, pois s\u00f3 assim ela confirmaria a sua op\u00e7\u00e3o por Jesus Cristo. A Igreja tem de ter uma paix\u00e3o pela humanidade. Deve saber discernir, para os valorizar e levar \u00e0 plenitude, as dimens\u00f5es positivas deste nosso mundo contempor\u00e2neo, como a nova consci\u00eancia colectiva da dignidade da pessoa humana, a recusa da guerra e da viol\u00eancia como caminhos da justi\u00e7a e da paz, a descoberta da solidariedade como motor da justi\u00e7a, os abnegados exemplos de amor ao pr\u00f3ximo dados por pessoas e organiza\u00e7\u00f5es. Nesse campo, as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, designadas por n\u00e3o governamentais, tomam tantas vezes a dianteira sobre os Estados no socorro aos que sofrem. Toda a express\u00e3o de amor, venha de quem vier, \u00e9 realidade em que a Igreja se reconhece espontaneamente. Porque acredita que o Esp\u00edrito conduz a hist\u00f3ria, a Igreja deve ser a afirma\u00e7\u00e3o viva e generosa da prioridade do esp\u00edrito sobre a mat\u00e9ria, na certeza que s\u00f3 essa primazia do esp\u00edrito, que tamb\u00e9m se exprime na cultura, pode desconjurar as amea\u00e7as globais, de guerra nuclear, de destrui\u00e7\u00e3o do planeta, amea\u00e7ado por pol\u00edticas erradas e por ego\u00edsmos consumistas descontrolados. Se h\u00e1 \u201csinais dos tempos\u201d que a Igreja possa discernir, eles s\u00f3 podem ser sinais de esperan\u00e7a, a alegria de verificar que, embora oculto e sofrido, o Reino de Deus j\u00e1 est\u00e1 no meio de n\u00f3s, porque a semente lan\u00e7ada \u00e0 terra na Cruz de Cristo continua a germinar e a transformar, como fermento na massa. Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa Lisboa, 25 de Fevereiro de 2008  <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i>  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. 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