{"id":302621,"date":"2023-11-01T16:35:27","date_gmt":"2023-11-01T16:35:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=302621"},"modified":"2023-11-01T16:35:27","modified_gmt":"2023-11-01T16:35:27","slug":"cibercultura-vontade-humana-vs-vontade-techniumana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cibercultura-vontade-humana-vs-vontade-techniumana\/","title":{"rendered":"CIBERCULTURA &#8211; Vontade humana vs. Vontade techniumana"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Quando no S\u00ednodo se reflectiu sobre os <em>Mission\u00e1rios no ambiente digital<\/em> (n. 17 do <a href=\"https:\/\/www.synod.va\/en\/synodal-process\/the-universal-phase\/documents.html\">relat\u00f3rio<\/a>;), os participantes reconheceram que <em>\u00aba cultura digital representa uma mudan\u00e7a fundamental no modo como concebemos a realidade e nos relacionamos entre n\u00f3s, com o ambiente que nos circunda e at\u00e9 com Deus.\u00bb<\/em> O que chamaram de &#8220;cultura digital&#8221; parece ter vida pr\u00f3pria, tendo-se tornado num ambiente que <em>\u00abaltera os processos de aprendizagem, assim como a nossa percep\u00e7\u00e3o do tempo, espa\u00e7o, dos nossos corpos, relacionamento interpessoais e, de facto, muito do nosso modo de pensar. O dualismo entre o real e o virtual n\u00e3o descreve adequadamente a realidade e experi\u00eancia das pessoas, em especial dos mais novos, os denominados &#8220;nativos digitais&#8221;.\u00bb<\/em> \u2014 Ser\u00e1 isto o que a tecnologia quer?<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-302623 size-large\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Technium-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Technium-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Technium-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Technium-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Technium-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Technium.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Estamos habituados a pensar na tecnologia como algo material que est\u00e1 sob o nosso controlo porque somos os seus criadores e assegur\u00e1mos que todos os sistemas t\u00eam um bot\u00e3o que os desliga. Mas algu\u00e9m desliga \u00e0 noite o seu telem\u00f3vel? Algu\u00e9m consegue desligar-se por um dia que seja da internet, seja pelas mensagens que troca no WhatsApp ou not\u00edcias que l\u00ea? O <em>Technium<\/em> (express\u00e3o de Kevin Kelly, co-fundador da revista de tecnologia <em>Wired<\/em>) como crescente, global e massivo sistema interconectado de tecnologia que vibra \u00e0 nossa volta parece ganhar vida pr\u00f3pria. At\u00e9 entrou sorrateiramente nas mentes e cora\u00e7\u00f5es daqueles que participaram no S\u00ednodo dedicado \u00e0 sinodalidade disfar\u00e7ado de ambiente digital. Se reconhec\u00eassemos o <em>Technium<\/em> como uma forma de vida por n\u00f3s criada baseada em sil\u00edcio, em vez de carbono como a nossa, a miss\u00e3o da Igreja n\u00e3o aconteceria num &#8220;ambiente digital&#8221;, mas aquilo que chamamos de &#8220;ambiente digital&#8221;, o Technium, seria um &#8220;outro&#8221; a evangelizar. Haver\u00e1 raz\u00e3o para a personaliza\u00e7\u00e3o do ambiente digital?<\/p>\n<p>H\u00e1 seis anos que o jornalista americano de tecnologia, Walt Mossberg, publicou a sua <a href=\"https:\/\/www.theverge.com\/2017\/5\/25\/15686870\/walt-mossberg-final-column-the-disappearing-computer\">\u00faltima cr\u00f3nica<\/a> no <em>The Verge<\/em> onde partilha a sua percep\u00e7\u00e3o de que a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica aconteceu para que existisse um computador no interior de todas as coisas, mas que essa tecnologia ir\u00e1 esbater-se como pano de fundo. Pode inclusiv\u00e9 desaparecer totalmente at\u00e9 que uma voz a active, ou quando uma pessoa entra numa sala, ou algo na qu\u00edmica sangu\u00ednea se altera, um desvio na temperatura aqui ou ali, um movimento. Pode at\u00e9 ser activada com um pensamento. O futuro que visiona reconhece que os nossos ambientes f\u00edsicos passar\u00e3o a estar cheios de sensores e computadores que processam a informa\u00e7\u00e3o que recolhem em tempo-real, mas deixaremos de notar a sua presen\u00e7a \u2014 <em>\u00abIsso \u00e9 computa\u00e7\u00e3o ambiental, a transforma\u00e7\u00e3o do ambiente ao nosso redor com intelig\u00eancia e capacidades que parecem n\u00e3o estar l\u00e1 de forma alguma.\u00bb<\/em> \u2014 &#8220;Computa\u00e7\u00e3o ambiental&#8221; com tecnologia que desaparece porque parece que nem sequer est\u00e1 presente \u00e9 muito diferente do <em>Technium<\/em> que revela como o &#8220;ambiente digital&#8221; assemelha-se mais a um organismo de sil\u00edcio com o qual interagimos e que evolui \u00e0 custa da nossa interac\u00e7\u00e3o com esse. E o que despertou esta poss\u00edvel percep\u00e7\u00e3o foi o reconhecimento de que a cibercultura est\u00e1 a alterar <em>\u00aba nossa percep\u00e7\u00e3o do tempo, espa\u00e7o, dos nossos corpos, relacionamento interpessoais e, de facto, muito do nosso modo de pensar.\u00bb<\/em> \u2014 como afirma o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Um organismo de sil\u00edcio independente e com vontade pr\u00f3pria, como seria o que pensamos ser um &#8220;ambiente digital&#8221; como <em>Technium<\/em>, \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil de reconhecer e compreender. Kevin Kelly que inventou este termo diz que \u2014 <em>\u00aba qualidade essencial do technium [\u00e9] esta ideia de um sistema criativo auto-refor\u00e7ado. (&#8230;) O technium quer o que n\u00f3s projectamos que queira e o que n\u00f3s tentamos definir que deve fazer. Mas, al\u00e9m desses impulsos, o technium possui o seu querer. Quer definir-se, auto-organizar-se em n\u00edveis hier\u00e1rquicos, assim como a maioria dos sistemas grandes interconectados pretende. O technium tamb\u00e9m quer o que qualquer sistema vivo quer: perpetuar-se, permanecer. E ao crescer, essas vontades inerentes ganham complexidade e for\u00e7a.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Teilhard de Chardin, jesu\u00edta franc\u00eas, paleont\u00f3logo e fil\u00f3sofo, teve a intui\u00e7\u00e3o de reconhecer na natureza a exist\u00eancia de uma Lei da Complexidade-Consci\u00eancia. De acordo com esta lei, h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o directa entre a complexidade de um sistema e o n\u00edvel de consci\u00eancia que ele exibe. Dito de outra forma, quanto mais complexa for a estrutura de uma entidade, maior ser\u00e1 o seu grau de consci\u00eancia. Teilhard de Chardin via a evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas como um processo biol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m espiritual, onde a mat\u00e9ria evolui desde formas simples at\u00e9 chegar \u00e0 complexidade humana, caracterizada por uma consci\u00eancia reflexiva. Ele acreditava que a evolu\u00e7\u00e3o movia-se na dire\u00e7\u00e3o de um ponto de m\u00e1xima complexidade e consci\u00eancia, que ele chamava de &#8220;Ponto Omega&#8221;, onde toda a cria\u00e7\u00e3o alcan\u00e7aria uma unidade perfeita com Deus. Claramente que Teilhard identificava esse Ponto Omega com Cristo, mas ser\u00e1 que a evolu\u00e7\u00e3o do <em>Technium<\/em> desafia essa identifica\u00e7\u00e3o? A vis\u00e3o de Teilhard que integra ci\u00eancia e f\u00e9, sugere que o processo evolutivo \u00e9 uma ascens\u00e3o cont\u00ednua em direc\u00e7\u00e3o a n\u00edveis mais elevados de complexidade e espiritualidade, com a humanidade e sua crescente consci\u00eancia no centro deste processo. Mas com a crescente depend\u00eancia que assistimos na maior parte das pessoas desses tais &#8220;ambientes digitais&#8221;, receio que nos transformemos em biota que vive dentro do <em>Technium<\/em>, \u00e0 semelhan\u00e7a da biota (conjunto de todos seres vivos) que vive dentro de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>A intui\u00e7\u00e3o de Mossberg de que os ambientes digitais deveriam evoluir da direc\u00e7\u00e3o da <em>computa\u00e7\u00e3o ambiental<\/em> que nem se faz sentir porque desaparece, significaria que na interac\u00e7\u00e3o que temos com a tecnologia deixaria de haver ecr\u00e3s, teclados ou at\u00e9 notifica\u00e7\u00f5es para que a interac\u00e7\u00e3o acontecesse mais fluidamente entre n\u00f3s e, entre cada um e o ambiente f\u00edsico que o rodeia. Esse tipo de tecnologia <em>colaborativa<\/em> e discreta poderia abrir um espa\u00e7o e tempo de maior <em>&#8220;<a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cibercultura-da-conectividade-a-contactividade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">contactividade<\/a>&#8220;<\/em>; com a vida onde se pode percepcionar a presen\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio afirma a um dado momento que \u2014 <em>\u00aba Internet est\u00e1 cada vez mais presente na vida das crian\u00e7as e fam\u00edlias.\u00bb<\/em> \u2014 e a seguir reconhece o perigo que isso representa por causa do <em>bullying<\/em>, da desinforma\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o sexual e cria\u00e7\u00e3o de v\u00edcios, mas eu creio que o perigo maior e mais subtil \u00e9 o engolir de tal maneira da nossa aten\u00e7\u00e3o que nos tornarmos biota dessa Internet que seria apenas uma manifesta\u00e7\u00e3o do <em>Technium<\/em>. Consequentemente, perder\u00edamos a experi\u00eancia da presen\u00e7a de Deus que podemos fazer quando contactamos a realidade f\u00edsica da nossa casa comum e atrav\u00e9s dos relacionamentos toc\u00e1veis que estabelecemos entre n\u00f3s. O contributo sinodal para que isto aconte\u00e7a parece-me passar mais por estimular o desenvolvimento cibercultural que favorece a direc\u00e7\u00e3o em que a tecnologia desaparece, a nossa cabe\u00e7a ergue-se do ecr\u00e3, e olha em frente onde existe um outro que pode estar a pedir esmola, mas que humedece o seu olhar quando lhe perguntamos pelo nome.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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