{"id":302608,"date":"2023-11-01T14:14:05","date_gmt":"2023-11-01T14:14:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=302608"},"modified":"2023-11-01T14:15:45","modified_gmt":"2023-11-01T14:15:45","slug":"eterna-saudade-ou-saudade-do-eterno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/eterna-saudade-ou-saudade-do-eterno\/","title":{"rendered":"Eterna saudade ou saudade do Eterno?"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Padre Jo\u00e3o Carlos Rodrigues<\/em><br \/>\n<em>Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/em><br \/>\n<em>Congrega\u00e7\u00e3o dos Padres Marianos da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-302609 alignleft\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Padre-Joao-Carlos-Rodrigues-366x260.jpg\" alt=\"\" width=\"366\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Padre-Joao-Carlos-Rodrigues-366x260.jpg 366w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Padre-Joao-Carlos-Rodrigues.jpg 527w\" sizes=\"(max-width: 366px) 100vw, 366px\" \/>Novembro \u00e9 um m\u00eas dedicado pela piedade crist\u00e3 \u00e0 visita aos cemit\u00e9rios e \u00e0 ora\u00e7\u00e3o pelos defuntos. \u00c9 particularmente neste m\u00eas que manifestamos a saudade que sentimos dos nossos familiares e amigos falecidos, colocando flores nas suas campas, acendendo velas em sua mem\u00f3ria, recordando os bons momentos que com eles passamos e rezando pelo seu eterno descanso. Ter saudade de um defunto \u00e9 sentir a sua presen\u00e7a na viv\u00eancia da aus\u00eancia da sua querida companhia. Por vezes, a saudade que temos dos nossos falecidos \u00e9 de tal maneira intensa que n\u00e3o sabemos como qualific\u00e1-la devidamente e dizemos que \u00e9 eterna. Por\u00e9m, em rigor, a famosa express\u00e3o \u201c<em>eterna saudade<\/em>\u201d n\u00e3o faz sentido nem para crentes nem para n\u00e3o-crentes. A experi\u00eancia da saudade pode parecer uma eternidade, at\u00e9 pode durar uma vida inteira, mas jamais pode ser sempiterna. A saudade pelos defuntos morre connosco: se tudo acabar com a morte, a saudade acaba no derradeiro momento de morrer; se a morte for uma passagem para a eternidade, a saudade extingue-se no momento do reencontro com os antepassados.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\">Todavia, parece-me que a express\u00e3o \u201c<em>eterna saudade<\/em>\u201d pretende mais exprimir o desejo de eternidade e a esperan\u00e7a na vida eterna do que a ansiedade ou o desespero perante a fatalidade da morte enquanto fim definitivo. Deste modo, a express\u00e3o \u201c<em>eterna saudade<\/em>\u201d \u00e9 um ilogismo que deveria traduzir-se propriamente como <em>saudade do Eterno<\/em>, ou seja, <em>desejo de Deus<\/em>. A saudade pelos defuntos n\u00e3o s\u00f3 nos transporta o passado para o presente, enquanto afetuosa recorda\u00e7\u00e3o do tempo que j\u00e1 foi, mas tamb\u00e9m nos projeta para o futuro, enquanto desejo de que os nossos antepassados estejam vivos na eternidade de Deus. Em hebraico, a palavra \u201c<em>eternidade<\/em>\u201d deriva do verbo <em>alam<\/em>, que significa \u201c<em>esconder<\/em>\u201d, pelo que, no sentido b\u00edblico, eternidade significa \u201c<em>al\u00e9m do horizonte<\/em>\u201d, apontando para algo distante e escondido no tempo e no espa\u00e7o. Deus envolveu de obscuridade o destino para al\u00e9m da morte, pelo que s\u00f3 nos \u00e9 l\u00edcito imaginar como ser\u00e1 a vida do al\u00e9m, ainda que nos seja poss\u00edvel descrever a esperan\u00e7a de uma purifica\u00e7\u00e3o progressiva no mist\u00e9rio do al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400;\">E \u00e9 aqui que surge o Purgat\u00f3rio, que, erroneamente imaginado como um lugar, \u00e9 antes um estado de purifica\u00e7\u00e3o espiritual daqueles que morreram na amizade com Deus, mas n\u00e3o de todo santificados, pelo que, embora seguros da sua salva\u00e7\u00e3o eterna, precisam ainda de sofrer um processo radical de pleno amadurecimento humano, \u201c<em>a fim de obterem a santidade necess\u00e1ria para entrar na alegria do c\u00e9u<\/em>\u201d (<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, n. 1030). O Purgat\u00f3rio \u00e9 essa graciosa possibilidade que Deus concede ao ser humano para recuperar a sua integridade original antes de entrar no estado de felicidade suprema e definitiva que consistir\u00e1 numa comunh\u00e3o plena de vida e de amor com Deus, contemplando-O \u201c<em>face a face<\/em>\u201d (cf. 1 Cor 13,12; Ap 22,4), vendo-O \u201c<em>tal como Ele \u00e9<\/em>\u201d (1 Jo 3,2). O Purgat\u00f3rio \u00e9 um processo doloroso, como todos os processos de matura\u00e7\u00e3o, supera\u00e7\u00e3o e ascens\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 um campo de concentra\u00e7\u00e3o para o cumprimento de penas nem t\u00e3o-pouco um castigo divino para reparar as faltas do passado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ali\u00e1s, o Purgat\u00f3rio \u00e9 pura obra de miseric\u00f3rdia enquanto uma \u00faltima oportunidade que nos \u00e9 concedida. Os sofrimentos que iremos padecer durante o processo de purifica\u00e7\u00e3o final n\u00e3o t\u00eam compara\u00e7\u00e3o com a alegria que iremos experimentar intimamente ao sabermo-nos e sentirmo-nos salvos e quase na posse da plenitude da felicidade celestial. As chamas do fogo purificador do Purgat\u00f3rio s\u00e3o chamas de indiz\u00edvel saudade e amor e n\u00e3o chamas de tormentos insuport\u00e1veis e de torturas c\u00f3smicas. A dor purificadora do Purgat\u00f3rio assemelha-se \u00e0 amargura das l\u00e1grimas que Pedro chorou ap\u00f3s se ter cruzado com o olhar amoroso de Jesus, depois de o ter negado tr\u00eas vezes (cf. Lc 22,61-62). Provavelmente, no momento da morte espera-nos um purgat\u00f3rio como este: \u201c<em>o Senhor olha-nos cheio de amor e n\u00f3s sentimos uma ardente vergonha e um doloroso arrependimento pelo nosso comportamento mau ou \u2018simplesmente\u2019 insens\u00edvel<\/em>\u201d (<em>Youcat<\/em>, n. 159)<em>. <\/em>Neste sentido, o papa Bento XVI identificou o fogo do Purgat\u00f3rio com o pr\u00f3prio Cristo que, com o seu olhar amoroso, queimando-nos, nos transforma e liberta para nos tornar verdadeiramente n\u00f3s mesmos e, por isso mesmo totalmente de Deus (<em>Spe salvi<\/em>, n. 47).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Se o Purgat\u00f3rio \u00e9 um longo processo de purifica\u00e7\u00e3o espiritual e de matura\u00e7\u00e3o pessoal, ent\u00e3o faz todo o sentido e tem muito valor rezarmos pelos nossos irm\u00e3os falecidos. N\u00e3o que n\u00f3s tenhamos poder de eximi-los do seu processo de purifica\u00e7\u00e3o, mas podemos alcan\u00e7ar-lhes gra\u00e7a e oferecer-lhes consola\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da nossa ora\u00e7\u00e3o e penit\u00eancia, das nossas boas obras e, acima de tudo, da celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia. E Deus, que est\u00e1 na eternidade, v\u00ea como presente a nossa ora\u00e7\u00e3o futura ou mesmo passada e pode, portanto, por nossa intercess\u00e3o, autocomunicar-Se amorosamente \u00e0s almas do Purgat\u00f3rio, penetrando-as com o fogo do seu amor purificador e inflamando-as de amor ardente por Ele, apressando o definitivo encontro com Ele na gl\u00f3ria do C\u00e9u. A nossa ora\u00e7\u00e3o pelos defuntos pode n\u00e3o s\u00f3 ajud\u00e1-los a eles no seu caminho de purifica\u00e7\u00e3o espiritual, mas tamb\u00e9m tornar mais eficaz a sua intercess\u00e3o em nosso favor (cf. <em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, n. 958) para vivermos a nossa peregrina\u00e7\u00e3o terrena como um tempo de gra\u00e7a e miseric\u00f3rdia que Deus nos oferece para realizar a nossa voca\u00e7\u00e3o \u00e0 santidade e para decidir atempadamente, com seriedade e responsabilidade, o nosso destino \u00faltimo. A possibilidade de rezar pelos defuntos numa atitude de intercess\u00e3o solid\u00e1ria e suplicante compromete-nos a viver a nossa esperan\u00e7a na salva\u00e7\u00e3o dos outros numa atitude proativa de amor e miseric\u00f3rdia. Nesta perspetiva misericordiosa, Santo Estanislau Papczy\u0144ski (1631-1701), Fundador dos Marianos da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, considerava a solidariedade espiritual em favor dos fi\u00e9is defuntos como \u201c<em>a mais elevada manifesta\u00e7\u00e3o de amor<\/em>\u201d (<em>Templum Dei Mysticum<\/em>, Cap. XXI [193]), pelo que vivenciava a devo\u00e7\u00e3o \u00e0s almas do Purgat\u00f3rio n\u00e3o como uma mera pr\u00e1tica piedosa, mas como um aut\u00eantico apostolado da miseric\u00f3rdia, oferecendo por elas as diversas prova\u00e7\u00f5es da sua vida pessoal a par das suas ora\u00e7\u00f5es e mortifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nesta linha de pensamento, o Papa Francisco exorta-nos tamb\u00e9m a valorizar a s\u00faplica de intercess\u00e3o pelos defuntos na medida em que a intercess\u00e3o ilumina as recorda\u00e7\u00f5es do passado, tranquiliza o cora\u00e7\u00e3o no momento presente e ajuda-nos a continuar a lutar com esperan\u00e7a no futuro (Cf. <em>Gaudete et exsultate<\/em>, n. 154). A vida humana \u00e9 como uma viagem no mar da hist\u00f3ria, com altos e baixos, com n\u00e9voas e tempestades, uma viagem na qual devemos perscrutar as estrelas que nos indicam a rota. Os nossos entes queridos que souberam viver a vida com retid\u00e3o s\u00e3o como que estrelas de esperan\u00e7a na nossa vida. Jesus Cristo \u00e9 o Sol Nascente que se ergue sobre todas as trevas da nossa hist\u00f3ria humana, mas para chegar at\u00e9 Ele, durante a nossa travessia pela noite escura precisamos de astros luminosos, de pessoas que d\u00e3o luz recebida da luz d\u2019Ele. E quem mais do que a Virgem Maria, M\u00e3e da gra\u00e7a e da miseric\u00f3rdia, poderia ser para n\u00f3s sinal luminoso de consola\u00e7\u00e3o e de esperan\u00e7a, Ela que pelo seu \u00absim\u00bb abriu ao pr\u00f3prio Deus a porta do nosso mundo, agora, pela sua poderosa intercess\u00e3o, resplandece na eternidade como Porta do C\u00e9u e como Estrela do Mar, socorrendo os vivos e os defuntos, que procuram levantar-se do abismo da culpa (cf. Ant\u00edfona mariana <em>Alma Redemptoris Mater<\/em>). <em>Santa Maria, M\u00e3e de Deus, rogai por n\u00f3s, pecadores, agora e na hora da nossa morte. \u00c1men.<\/em><\/p>\n<p><em>Padre Jo\u00e3o Carlos Rodrigues<\/em><br \/>\n<em>Congrega\u00e7\u00e3o dos Padres Marianos da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Jo\u00e3o Carlos Rodrigues Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda Congrega\u00e7\u00e3o dos Padres Marianos da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":302609,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[173,660,659],"class_list":["post-302608","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-diocese-de-braganca-miranda","tag-fieis-defuntos","tag-todos-os-santos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/302608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=302608"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/302608\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/302609"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=302608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=302608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=302608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}