{"id":302351,"date":"2023-10-29T09:43:26","date_gmt":"2023-10-29T09:43:26","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=302351"},"modified":"2023-10-29T09:43:26","modified_gmt":"2023-10-29T09:43:26","slug":"homilia-do-papa-francisco-na-eucaristia-conclusiva-da-primeira-sessao-da-xvi-assembleia-geral-ordinaria-do-sinodo-dos-bispos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-papa-francisco-na-eucaristia-conclusiva-da-primeira-sessao-da-xvi-assembleia-geral-ordinaria-do-sinodo-dos-bispos\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa Francisco na Eucaristia conclusiva da primeira sess\u00e3o da XVI Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>Um doutor da Lei apresenta-se a Jesus, apenas com o pretexto de o p\u00f4r \u00e0 prova. Todavia a sua pergunta \u00e9 importante e sempre atual, surgindo de vez em quando no nosso cora\u00e7\u00e3o e na vida da Igreja: \u00abQual \u00e9 o maior mandamento?\u00bb (Mt 22, 36). Mergulhados no rio vivo da Tradi\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00f3s nos interrogamos: Qual \u00e9 a coisa mais importante? Qual \u00e9 o centro propulsor? Qual \u00e9 a coisa que mais conta, a ponto de ser o princ\u00edpio inspirador de tudo? A resposta de Jesus \u00e9 clara: \u00abAmar\u00e1s ao Senhor, teu Deus, com todo o teu cora\u00e7\u00e3o, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este \u00e9 o maior e o primeiro mandamento. O segundo \u00e9 semelhante: Amar\u00e1s ao teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u00bb (Mt 22, 37-39).<\/p>\n<p>Prezados Cardeais, Bispos e sacerdotes, religiosas e religiosos, irm\u00e3s e irm\u00e3os, ao concluirmos esta parte do caminho que percorremos, \u00e9 importante fixar o \u00abprinc\u00edpio e fundamento\u00bb, do qual uma vez e outra tudo come\u00e7a: amar a Deus com toda a vida e amar o pr\u00f3ximo como a si mesmo. N\u00e3o est\u00e1 nas nossas estrat\u00e9gias, nos c\u00e1lculos humanos, nem nas modas do mundo, mas no amor a Deus e ao pr\u00f3ximo: \u00e9 aqui que est\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o de tudo. Mas como traduzir tal impulso de amor? Proponho-vos dois verbos, dois movimentos do cora\u00e7\u00e3o, sobre os quais quero refletir convosco: adorar e servir. Amar Deus faz-se com a adora\u00e7\u00e3o e com o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>O primeiro verbo: adorar. Amar \u00e9 adorar. A adora\u00e7\u00e3o \u00e9 a primeira resposta que podemos oferecer ao amor gratuito e surpreendente de Deus. O espanto da adora\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial na Igreja, sobretudo neste momento em que perdemos o h\u00e1bito da adora\u00e7\u00e3o. De facto, adorar significa reconhecer na f\u00e9 que s\u00f3 Deus \u00e9 Senhor e que, da ternura do seu amor, dependem as nossas vidas, o caminho da Igreja, as sortes da hist\u00f3ria. Ele \u00e9 o sentido do nosso viver. Ao ador\u00e1-lo, redescobrimo-nos livres. Por isso, na Sagrada Escritura, o amor ao Senhor aparece frequentemente associado \u00e0 luta contra toda a idolatria. Quem adora a Deus rejeita os \u00eddolos, pois, enquanto Deus liberta, os \u00eddolos tornam-nos escravos. Enganam-nos e nunca realizam o que prometem, porque s\u00e3o \u00abobra das m\u00e3os dos homens. A Escritura \u00e9 severa contra a idolatria, porque os \u00eddolos s\u00e3o obra do homem e, por este, manipulados, ao passo que Deus \u00e9 sempre o Vivente, \u00abque n\u00e3o \u00e9 feito como eu o penso, que n\u00e3o depende de quanto eu espero dele e pode, por conseguinte, transtornar as minhas expectativas, precisamente porque est\u00e1 vivo. E a prova de que nem sempre temos a ideia certa de Deus \u00e9 o facto de, \u00e0s vezes, ficarmos dececionados: eu esperava isto, imaginava que Deus Se comportasse assim, mas enganei-me. Deste modo trilhamos de novo o caminho da idolatria, querendo que o Senhor atue segundo a imagem que nos fizemos dele\u00bb (Cardeal Martini, \u2018Os grandes da B\u00edblia. Exerc\u00edcios Espirituais com o Antigo Testamento\u2019, Floren\u00e7a 2022, 826-827). Trata-se dum risco que sempre podemos correr: pensar em \u00abcontrolar Deus\u00bb, encerrar o seu amor nos nossos esquemas, quando, pelo contr\u00e1rio, o seu agir \u00e9 sempre imprevis\u00edvel, vai al\u00e9m, e por isso suscita espanto e exige adora\u00e7\u00e3o. O espanto \u00e9 t\u00e3o importante\u2026<\/p>\n<p>Devemos lutar sempre contra as idolatrias: sejam as mundanas, que muitas vezes derivam da vangl\u00f3ria pessoal, como a \u00e2nsia do sucesso, a autoafirma\u00e7\u00e3o a todo o custo, a gan\u00e2ncia do dinheiro \u2013 o diabo entra pelos bolsos, n\u00e3o o esque\u00e7amos -, o encanto do carreirismo; sejam as disfar\u00e7adas de espiritualidade: a minha espiritualidade, as minhas ideias religiosas, a minha habilidade pastoral&#8230;<\/p>\n<p>Vigiemos para n\u00e3o acontecer colocarmo-nos no centro a n\u00f3s em vez d\u2019Ele. Mas voltamos \u00e0 adora\u00e7\u00e3o, para que esta seja uma atividade central para n\u00f3s, pastores: dediquemos diariamente um tempo \u00e0 intimidade com Jesus, Bom Pastor, diante do sacr\u00e1rio. Adorar. Que a Igreja seja adoradora! Que se adore o Senhor em cada diocese, em cada par\u00f3quia, em cada comunidade! Porque s\u00f3 assim nos voltaremos para Jesus, e n\u00e3o para n\u00f3s mesmos; porque s\u00f3 atrav\u00e9s do sil\u00eancio adorador \u00e9 que a Palavra de Deus habitar\u00e1 as nossas palavras; porque s\u00f3 diante dele seremos purificados, transformados e renovados pelo fogo do seu Esp\u00edrito. Irm\u00e3os e irm\u00e3s, adoremos o Senhor Jesus!<\/p>\n<p>O segundo verbo: servir. Amar \u00e9 servir. No mandamento maior, Cristo liga Deus e o pr\u00f3ximo, para que n\u00e3o apare\u00e7am jamais separados. N\u00e3o existe uma experi\u00eancia religiosa aut\u00eantica que seja surda ao grito do mundo. Uma verdadeira experi\u00eancia religiosa. Talvez tenhamos de verdade muitas e belas ideias para reformar a Igreja, mas lembremo-nos: adorar a Deus e amar os irm\u00e3os com o seu amor, esta \u00e9 a grande e perene reforma. Ser Igreja adoradora e Igreja do servi\u00e7o, que lava os p\u00e9s \u00e0 humanidade ferida, acompanha o caminho dos fr\u00e1geis, dos d\u00e9beis e dos descartados, sai com ternura ao encontro dos mais pobres. Assim ouvimos Deus orden\u00e1-lo na primeira Leitura.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os e irm\u00e3s, penso naqueles que s\u00e3o v\u00edtimas das atrocidades da guerra; nas tribula\u00e7\u00f5es dos migrantes, no sofrimento escondido de quem se encontra sozinho e em condi\u00e7\u00f5es de pobreza; em quem \u00e9 esmagado pelos fardos da vida; em quem j\u00e1 n\u00e3o tem l\u00e1grimas, em quem n\u00e3o tem voz. E penso nas vezes sem conta em que, por tr\u00e1s de lindas palavras e eloquentes promessas, se favorecem formas de explora\u00e7\u00e3o, ou ent\u00e3o nada se faz para as evitar. \u00c9 um pecado grave explorar os mais fr\u00e1geis, pecado grave que corr\u00f3i a fraternidade e destr\u00f3i a sociedade. N\u00f3s, disc\u00edpulos de Jesus, queremos levar ao mundo outro fermento, o do Evangelho: Deus no primeiro lugar e, juntamente com Ele, os seus preferidos.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a Igreja que somos chamados a sonhar: uma Igreja serva de todos, serva dos \u00faltimos. Uma Igreja que acolhe, serve, ama, sem nunca exigir antes um atestado de \u00abboa conduta\u00bb, as acolhe, serve, ama, perdoa. Uma Igreja com as portas abertas, que seja porto de miseric\u00f3rdia. Como disse S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo: \u00abO homem misericordioso \u00e9 um porto para os necessitados: o porto acolhe e liberta do perigo todos os n\u00e1ufragos; sejam eles malfeitores, bons ou o que quer que sejam (&#8230;), o porto abriga-os dentro da sua enseada. Assim tamb\u00e9m tu, quando vires por terra um homem que sofreu o naufr\u00e1gio da pobreza, n\u00e3o julgues, n\u00e3o pe\u00e7as contas da sua conduta, mas livra-o da desgra\u00e7a\u00bb (Discursos sobre o pobre L\u00e1zaro, II, 5).<\/p>\n<p>Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, assim se conclui a Assembleia Sinodal. Nesta \u00abconversa\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito\u00bb, pudemos experimentar a terna presen\u00e7a do Senhor e descobrir a beleza da fraternidade. Ouvimo-nos reciprocamente e sobretudo, na rica variedade das nossas hist\u00f3rias e sensibilidades, pusemo-nos \u00e0 escuta do Esp\u00edrito. Hoje n\u00e3o vemos o fruto completo deste processo, mas podemos com clarivid\u00eancia olhar o horizonte que se abre diante de n\u00f3s: o Senhor guiar-nos-\u00e1 e ajudar-nos-\u00e1 a ser Igreja mais sinodal e mission\u00e1ria, que adora a Deus e serve as mulheres e os homens do nosso tempo, saindo para levar a todos a alegria consoladora do Evangelho.<\/p>\n<p>Irm\u00e3s e irm\u00e3os, por tudo isto que fizestes no S\u00ednodo e continuais a fazer vos digo obrigado! Obrigado pelo caminho que fizemos juntos, pela escuta e pelo di\u00e1logo. E, a par do agradecimento, gostaria de formular um voto a todos n\u00f3s: o voto de que possamos crescer na adora\u00e7\u00e3o a Deus e no servi\u00e7o do pr\u00f3ximo. Adorar e servir. Que o Senhor nos acompanhe. Em frente, com alegria!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":302343,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[311],"class_list":["post-302351","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-sinodo-dos-bispos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/302351","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=302351"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/302351\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/302343"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=302351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=302351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=302351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}