{"id":301360,"date":"2023-10-20T10:38:13","date_gmt":"2023-10-20T09:38:13","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=301360"},"modified":"2023-10-20T10:38:53","modified_gmt":"2023-10-20T09:38:53","slug":"cibercultura-da-conectividade-a-contactividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cibercultura-da-conectividade-a-contactividade\/","title":{"rendered":"CIBERCULTURA &#8211; Da conectividade \u00e0 \u201ccontactividade\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Quem se conecta digitalmente, isola-se. Um paradoxo cibercultural que faz confus\u00e3o a muitas pessoas. Quando nos conectamos <em>online<\/em> estamos sempre diante de um ecr\u00e3 que serve de mediador entre n\u00f3s e a informa\u00e7\u00e3o processada no computador ou servidor. Ainda que seja uma video-chamada, a conex\u00e3o n\u00e3o garante a interac\u00e7\u00e3o plena com o outro, tal como acontece no <em>contacto<\/em>. Por isso, a <em>conectividade<\/em> \u00e9 diferente do neologismo (palavra nova) <em>\u201ccontactividade\u201d<\/em>.<\/p>\n<figure>\n<p><figure id=\"attachment_301362\" aria-describedby=\"caption-attachment-301362\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/contactividade_ToaHeftiba.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-301362 size-large\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/contactividade_ToaHeftiba-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/contactividade_ToaHeftiba-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/contactividade_ToaHeftiba-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/contactividade_ToaHeftiba-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/contactividade_ToaHeftiba-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/contactividade_ToaHeftiba.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-301362\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Toa Heftiba em Unsplash<\/figcaption><\/figure><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<p>No pequeno romance \u201cA M\u00e1quina P\u00e1ra\u201d, E.M. Forster idealiza um mundo em que as pessoas relacionam-se atrav\u00e9s da media\u00e7\u00e3o dos ecr\u00e3s. Kuno quer falar com a sua m\u00e3e e pede para se encontrar com ela. A m\u00e3e n\u00e3o entende a raz\u00e3o porque o ecr\u00e3 permite a Kuno que fale com ela e at\u00e9 veja a sua &#8220;imagem&#8221;. Mas ele diz \u2014<\/p>\n<blockquote><p>\u2014 J\u00e1 lhe liguei antes, m\u00e3e, mas estava sempre ocupada ou isolada. Tenho uma coisa importante para lhe dizer.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9, querido? Despacha-te. Porque \u00e9 que n\u00e3o o disseste por correio pneum\u00e1tico?<\/p>\n<p>\u2014 Porque prefiro diz\u00ea-lo pessoalmente. Quero&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim?<\/p>\n<p>\u2014 Quero que me venha visitar.<\/p><\/blockquote>\n<p>Kuno quer o <em>contacto<\/em>.<\/p>\n<p>Podemos descrever o sabor de um fruto que nunca comemos, mas s\u00f3 fazendo a experi\u00eancia de o comer ser\u00e1 poss\u00edvel realmente saber a que saboreia. Esta \u00e9 uma experi\u00eancia simples de estar numa <em>\u201dzona de contacto\u201d.<\/em> As \u201czonas de contacto\u201d s\u00e3o fundamentais para a experi\u00eancia da <em>contactividade<\/em>. Na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Laudate Deum<\/em> (LD), o Papa Francisco refere que<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00abDeus uniu-nos a todas as suas criaturas. Contudo o paradigma tecnocr\u00e1tico pode isolar-nos daquilo que nos rodeia e engana-nos fazendo esquecer que o mundo inteiro \u00e9 uma \u201czona de contacto\u201d.<\/em> (LD 66)<\/p><\/blockquote>\n<p>O Papa Francisco inspira-se em Donna Haraway, professora de Hist\u00f3ria da Consci\u00eancia que define uma \u201czona de contacto\u201d como \u2014 <em>\u00absujeitos constitu\u00eddos nas, e pelas suas rela\u00e7\u00f5es uns com os outros (\u2026) Trata-se das rela\u00e7\u00f5es (\u2026) em termos de co-presen\u00e7a, interac\u00e7\u00e3o, entendimentos e pr\u00e1ticas interligadas, muitas vezes dentro de rela\u00e7\u00f5es de poder radicalmente assim\u00e9tricas.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>A \u201ccontactividade\u201d desenvolve-se nas \u201czonas de contacto\u201d que implicam a complexidade associada aos relacionamentos, tens\u00f5es criativas e momentos transformativos imposs\u00edveis de viver atrav\u00e9s dos meios digitais. A tecnologia e a natureza entrela\u00e7am-se na \u201ccontactividade\u201d havendo um certo grau de surpresa e emerg\u00eancia daquilo que pode surgir nesses contactos.<\/p>\n<p>A &#8220;contactividade&#8221; acontece de forma tang\u00edvel e f\u00edsica. Enquanto a conectividade \u00e9 cega quanto \u00e0 qualidade dos relacionamentos estabelecidos, na &#8220;contactividade&#8221;, essa qualidade manifesta a import\u00e2ncia das interac\u00e7\u00f5es reais que temos uns com os outros. Ainda recentemente, uma vez mais, num grupo de WhatsApp com uma finalidade, algu\u00e9m relevante para o grupo fez anos e houve uma enxurrada de mensagens a felicitar essa pessoa. De cada vez que isso acontece fico a pensar \u2014 \u00abpor que raz\u00e3o n\u00e3o felicitam \u00e0 pr\u00f3pria pessoa, por mensagem privada, e o fazem no grupo?\u00bb Essa \u00e9 a diferen\u00e7a entre conectividade e &#8220;contactividade&#8221;. Quem privilegia o contacto envia uma mensagem pessoal, quem prefere o isolamento inconsciente da conectividade, envia uma mensagem para o grupo. Pois, n\u00e3o importa a pessoa a quem felicito (e corro o risco de fazer aqui um ju\u00edzo de valor, pelo que me perdoem a ousadia), mas o dar a conhecer aos outros que a felicitei.<\/p>\n<p>Qual o efeito psicol\u00f3gico e sociol\u00f3gico da excessiva conectividade sobre a &#8220;contactividade&#8221;? N\u00e3o pode a conectividade favorecer a &#8220;contactividade&#8221;? N\u00e3o pode a pessoa sozinha que est\u00e1 longe dos seus familiares experimentar uma esp\u00e9cie de &#8220;contacto&#8221; mesmo que seja mediado pelo ecr\u00e3?<\/p>\n<p>Durante a pandemia, muitos de n\u00f3s n\u00e3o tivemos outro rem\u00e9dio sen\u00e3o realizar uma comunh\u00e3o espiritual de Jesus pelas Eucaristias online. No in\u00edcio foi uma experi\u00eancia com alguma profundidade por ser nova, mas depois de algum tempo, o portal do ecr\u00e3 era insuficiente para viver plenamente aquele momento de receber Jesus. Mais do que ser tocado espiritualmente, ou at\u00e9 toc\u00e1-lo fisicamente, ao voltar a pegar em Jesus com as minhas m\u00e3os que recebiam a h\u00f3stia consagrada, a experi\u00eancia era a de Deus que se deixava tocar para me tocar. A mat\u00e9ria transubstanciada havia-se tornado numa &#8220;zona de contacto&#8221; que permitia aprofundar a &#8220;contactividade&#8221; que nos liga ao mundo. Creio que a digitaliza\u00e7\u00e3o da vida humana tem o seu lugar em termos pontuais e profissionais, mas n\u00e3o h\u00e1 nada como a viv\u00eancia de tocar e ser tocado. De entre os muitos convites que a <em>Laudate Deum<\/em> faz, penso que um dos mais subtis seja este apelo a transitar da conectividade \u00e0 <em>contactividade.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter <em>Escritos<\/em> em <a href=\"https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/tinyletter.com\/miguelopanao<\/a><\/p>\n<p>;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-301360","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/301360","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=301360"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/301360\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=301360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=301360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=301360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}