{"id":301357,"date":"2023-10-20T10:34:13","date_gmt":"2023-10-20T09:34:13","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=301357"},"modified":"2023-10-20T10:34:13","modified_gmt":"2023-10-20T09:34:13","slug":"fara-sentido-o-celibato-ainda-ser-obrigatorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fara-sentido-o-celibato-ainda-ser-obrigatorio\/","title":{"rendered":"Far\u00e1 sentido o celibato ainda ser obrigat\u00f3rio?"},"content":{"rendered":"<div><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/em><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>A sexualidade \u00e9 um dos maiores e belos dons com que Deus agraciou a pessoa humana. Sexualidade que tamb\u00e9m compreende a genitalidade, o ato sexual f\u00edsico em si, mas n\u00e3o se reduz a esta. Diga-se desde j\u00e1, portanto, que o sexo \u00e9 bom e \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para a pessoa humana e para a esp\u00e9cie humana. \u00c9 uma das mais belas d\u00e1divas de Deus \u00e0 pessoa humana, como j\u00e1 afirmou o Papa Francisco. \u201cDeus viu tudo que tinha feito e era tudo muito bom\u201d. Mas como tudo na vida, \u00e9 preciso ordenar e educar a sexualidade, viv\u00ea-la de forma verdadeiramente humana e livre.<\/p>\n<p>Na sociedade em que vivemos, encontramos duas posi\u00e7\u00f5es antag\u00f3nicas e distorcidas sobre a sexualidade, com profundas ra\u00edzes hist\u00f3ricas: por um lado, ainda vemos perdurar uma vis\u00e3o negativa e amaldi\u00e7oada da sexualidade, porque tudo o que est\u00e1 no corpo e vem do corpo \u00e9 mau. Ainda s\u00e3o resqu\u00edcios, por exemplo, do Manique\u00edsmo e do Jansenismo na hist\u00f3ria da Igreja, do dualismo como olhavam a vida e o ser humano: se existe o bem e o mal, o esp\u00edrito \u00e9 bom, o corpo \u00e9 mau. A sexualidade \u00e9 assim uma dimens\u00e3o pecaminosa, infeliz e vergonhosa do ser humano, a ser suportada, mas escondida e desprezada. At\u00e9 se chegou a acreditar que o pecado original seria o ato sexual. Esta n\u00e3o \u00e9 a vis\u00e3o crist\u00e3 da sexualidade e \u00e9 at\u00e9 ofensiva contra Deus. Mas esta vis\u00e3o da sexualidade prevaleceu durante s\u00e9culos, at\u00e9 d\u00e9cadas atr\u00e1s, e a Igreja n\u00e3o est\u00e1 isenta de culpas por se ter lan\u00e7ado uma certa suspei\u00e7\u00e3o e maldi\u00e7\u00e3o sobre a sexualidade humana. O monge Javier Melloni afirmava, aqui h\u00e1 uns tempos, no Expresso: \u201cA sexualidade \u00e9 uma das energias da vida, \u00e9 por onde nos vem a vida, mas tem tanta for\u00e7a que n\u00e3o sabemos o que fazer. Ao tem\u00ea-la, reprimimo-la, e ao reprimirmo-nos torna-se uma obsess\u00e3o.\u201d Por outro lado, temos uma vis\u00e3o oposta: o corpo e todos os seus desejos s\u00e3o bons, todos os prazeres corp\u00f3reos s\u00e3o bons, por isso n\u00e3o deve haver nenhum entrave nem nenhum limite \u00e0 sua satisfa\u00e7\u00e3o, um pouco na linha de correntes hist\u00f3ricas como o Hedonismo e o Epicurismo. Foi esta vis\u00e3o que se imp\u00f4s nas nossas sociedades ocidentais ultimamente, impulsionada pela revolu\u00e7\u00e3o sexual dos anos sessenta, em que se exigiu liberdade total para a sexualidade. Tudo pelo prazer, nada contra o prazer. Este modo de ver a sexualidade (mais concretamente a genitalidade) tem levado a grande desumaniza\u00e7\u00e3o e escraviza\u00e7\u00e3o sexual, e a formas ca\u00f3ticas e perturbantes de se viver a sexualidade.<\/p>\n<p>Pergunto-me se n\u00e3o exager\u00e1mos na liberdade sexual e se n\u00e3o temos de a repensar. Temos um \u201cproblema sexual\u201d nas sociedades atuais. Pedofilia, ass\u00e9dio, viola\u00e7\u00f5es, visualiza\u00e7\u00e3o de pornografia a n\u00edveis nunca vistos. A fam\u00edlia passa por grande instabilidade, com grande repercuss\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es entre os seus membros, na educa\u00e7\u00e3o dos filhos e na sociedade. A ditadura do prazer tem promovido a imaturidade e dilu\u00eddo o casamento e a capacidade de entrega e compromisso, fundamental nas rela\u00e7\u00f5es humanas. O consumo de pornografia est\u00e1 a atingir n\u00edveis nunca vistos, com uma grande legi\u00e3o de dependentes ao seu servi\u00e7o. Segundo relatos m\u00e9dicos, todos os dias, jovens entram pelos consult\u00f3rios com impot\u00eancia sexual e manifestam incapacidade de viver um namoro saud\u00e1vel. A masculinidade come\u00e7a a manifestar sintomas de crise. Todos os dias podemos constatar como estamos perante uma sociedade viciada em erotismo e sexo, coadjuvada por um bom n\u00famero de drogas que foram desenvolvidas para a alta performance sexual, mas que nos permite concluir que estamos perante uma escravatura ou uma sujei\u00e7\u00e3o exagerada \u00e0 sexualidade, limitadora da liberdade humana e de uma vida sexual s\u00e3. E n\u00e3o esquecendo o grande n\u00famero de mulheres for\u00e7adas a alimentar esta voracidade sexual.<\/p>\n<p>Ambas as vis\u00f5es s\u00e3o excessivas, est\u00e3o deformadas e s\u00e3o incorretas, e n\u00e3o s\u00e3o crist\u00e3s. Qual \u00e9 ent\u00e3o o caminho que a Igreja prop\u00f5e para uma reta, saud\u00e1vel e humana forma de se viver a sexualidade? A virtude da castidade. Esta passa em primeiro lugar nem por demonizar o sexo, mas tamb\u00e9m por n\u00e3o ador\u00e1-lo e fazer do prazer sexual o fim \u00faltimo do sexo, instrumentalizando-se o outro ou outra. Viver a castidade \u00e9 viver o desejo sexual de forma controlada, com modera\u00e7\u00e3o e equil\u00edbrio, colocando-se a sexualidade ao servi\u00e7o da vida e do amor. N\u00e3o \u00e9 uma virtude negativa, nem desmancha prazeres, mas \u00e9 humanizadora e libertadora. N\u00e3o defendo a regress\u00e3o aos tempos do conservadorismo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o me parece que seja bom uma sexualidade descontrolada, libidinosa, deseducada, sem valores, fonte de escravid\u00e3o e desumanidade, como se v\u00ea viver nos tempos atuais. E j\u00e1 \u00e9 tempo de a Igreja apresentar uma nova proposta de moral sexual, de a olhar de forma descomplexada e positiva, no que ela tem de prazer, belo e amoroso, e n\u00e3o lhe atribuir uma maldi\u00e7\u00e3o e toda a esp\u00e9cie de pecado, reprimida com proibi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Atualmente, o saber e o discurso das ci\u00eancias humanas e ci\u00eancias m\u00e9dicas \u00e9 claro:\u00a0 a sexualidade \u00e9 importante para a sa\u00fade psicol\u00f3gica, ps\u00edquica, f\u00edsica e espiritual da pessoa humana. O exerc\u00edcio da sexualidade traz in\u00fameros benef\u00edcios para o equil\u00edbrio e o bem-estar integral do ser humano. A sexualidade \u00e9 uma das dimens\u00f5es importantes da pessoa humana, com grande import\u00e2ncia na realiza\u00e7\u00e3o da sua humanidade. Da\u00ed que seja da mais elementar import\u00e2ncia que se lance o debate sobre o celibato obrigat\u00f3rio dentro da Igreja. O S\u00ednodo que decorre em Roma, pelos vistos, vai abordar o assunto e \u00e9 bom que o fa\u00e7a sem medos ou complexos, enfrentando a realidade e servindo-se da verdade que sabe.<\/p>\n<p>O celibato n\u00e3o se reduz \u00e0 sexualidade, bem o sabemos. A sua raz\u00e3o de ser \u00e9 mais profunda, mas tamb\u00e9m n\u00e3o apaga a sexualidade. Como disse em tempo D. Jos\u00e9 Policarpo, num simp\u00f3sio em F\u00e1tima: \u201cNa mentalidade contempor\u00e2nea, n\u00e3o \u00e9 tanto o celibato que choca, mas a contin\u00eancia no celibato\u201d. Choca o facto de a igreja desvalorizar a sexualidade e achar que se pode prescindir facilmente dela, quando as ci\u00eancias m\u00e9dicas e a pr\u00f3pria experi\u00eancia humana nos dizem que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Escritura n\u00e3o temos nenhum texto que possa servir de fundamento \u00e0 regra do celibato e Jesus n\u00e3o o exigiu, nem deixou indica\u00e7\u00f5es para a sua pr\u00e1tica dentro da Igreja. Segundo alguns estudiosos, j\u00e1 existiria na era apost\u00f3lica a liga\u00e7\u00e3o sacerd\u00f3cio e celibato, mas com dif\u00edcil observ\u00e2ncia em alguns per\u00edodos da hist\u00f3ria da Igreja. A regra ter\u00e1 ganho forma mais s\u00f3lida pelo s\u00e9culo XII, pelas muitas raz\u00f5es que podemos averiguar, e foi plenamente consagrada com o Conc\u00edlio de Trento e o nascimento dos semin\u00e1rios, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>O celibato \u00e9 um grande dom \u00e0 Igreja, ter homens e mulheres totalmente consagrados a Deus e \u00e0 Igreja \u00e9 uma riqueza eclesial, mas ter\u00e1 mais raz\u00e3o de ser se for uma escolha pessoal e uma voca\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Estar\u00e3o todos os ministros ordenados vocacionados para o celibato? E n\u00e3o haver\u00e1 crist\u00e3os casados vocacionados para o sacerd\u00f3cio? Deixar as pessoas escolher a vida celibat\u00e1ria seria muito mais humano, porque de certeza que h\u00e1 ministros ordenados que gostariam de conciliar o sacerd\u00f3cio e a vida familiar. \u00c9 assim t\u00e3o anticrist\u00e3o e t\u00e3o antievang\u00e9lico? \u00c9 tempo de a Igreja se questionar a si mesma se far\u00e1 sentido continuar a exigir o celibato aos seus ministros ordenados, ou se prefere continuar a manter uma regra, que aos olhos das ci\u00eancias e da contemporaneidade \u00e9 considerada retr\u00f3grada e contranatura. Se a Igreja tanto quer e defende a vida em abund\u00e2ncia para todas as pessoas, conv\u00e9m lembrar que a sexualidade tamb\u00e9m faz parte da vida em abund\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-301357","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/301357","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=301357"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/301357\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=301357"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=301357"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=301357"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}