{"id":301283,"date":"2023-10-22T09:31:07","date_gmt":"2023-10-22T08:31:07","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=301283"},"modified":"2023-10-19T18:20:19","modified_gmt":"2023-10-19T17:20:19","slug":"nao-podemos-ter-um-salario-minimo-em-que-todo-ele-e-para-pagar-a-habitacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nao-podemos-ter-um-salario-minimo-em-que-todo-ele-e-para-pagar-a-habitacao\/","title":{"rendered":"\u00abN\u00e3o podemos ter um sal\u00e1rio m\u00ednimo em que todo ele \u00e9 para pagar a habita\u00e7\u00e3o\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Depois de uma semana em que foi publicado em Di\u00e1rio da Rep\u00fablica o Plano Nacional de Combate \u00e0 Pobreza, e em que se assinalou o Dia Internacional para a Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, Elizabeth Santos, do Observat\u00f3rio Nacional de Luta Contra a Pobreza da Rede Europeia Anti-Pobreza<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_301285\" aria-describedby=\"caption-attachment-301285\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103434.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-301285 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103434.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1440\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103434.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103434-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103434-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103434-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103434-1536x1152.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-301285\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Paulo Teixeira\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A estrat\u00e9gia de combate \u00e0 pobreza inclui um conjunto superior a 270 medidas e a sua coordenadora j\u00e1 garantiu numa entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a que se trata de um processo din\u00e2mico, podendo o governo ser obrigado a adotar outras a\u00e7\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o previstas no plano agora apresentado. Pergunto-lhe, numa primeira an\u00e1lise, encontra desde j\u00e1 a necessidade de se atualizar o plano?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1, de facto, algumas medidas que correm o risco de j\u00e1 n\u00e3o serem atuais. Uma delas \u00e9, por exemplo, o acordo que foi feito para o aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo. Esse acordo \u00e9 importante, \u00e9 importante garantirmos uma negocia\u00e7\u00e3o e um acordo que permita, ao longo do tempo, aumentar o valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional. Mas, tendo em conta o aumento do custo de vida, da infla\u00e7\u00e3o, dos juros, aquilo que \u00e9 o encargo com a habita\u00e7\u00e3o, por exemplo, pensarmos em 900 euros em 2026, ser\u00e1, com certeza, muito pouco para melhorar, de facto, a qualidade de vida das pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quanto mais deveria ser? <\/em><\/p>\n<p>Deveria ser muito mais. Isso depende tamb\u00e9m, obviamente, de como aumentar o pre\u00e7o das habita\u00e7\u00f5es. Neste momento, j\u00e1 encontramos a T1 a 900 euros.\u00a0N\u00f3s n\u00e3o podemos ter um sal\u00e1rio m\u00ednimo em que todo ele \u00e9 para pagar a habita\u00e7\u00e3o, porque isso \u00e9 inconceb\u00edvel.<\/p>\n<p>Por isso, tem de haver aqui um equil\u00edbrio entre as pol\u00edticas para a habita\u00e7\u00e3o, para conseguir garantir pre\u00e7os que correspondam aos sal\u00e1rios que existem em Portugal,\u00a0juntamente com perceber como evolui a infla\u00e7\u00e3o e os juros, para perceber como \u00e9 que temos de aumentar o sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Agora, tem de ser uma aten\u00e7\u00e3o a ter.\u00a0 N\u00e3o podemos ficar satisfeitos com o valor de 900 euros para 2026.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos ent\u00e3o desde j\u00e1 ao tema da habita\u00e7\u00e3o.\u00a0Sabemos que para muitas pessoas se tornou um aut\u00eantico flagelo na sociedade portuguesa, em particular para os mais vulner\u00e1veis.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 preciso ir mais longe na busca de solu\u00e7\u00f5es para estas pessoas? <\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma. N\u00f3s estamos perante um contexto em que o problema da habita\u00e7\u00e3o est\u00e1 a influenciar e a afetar todas as pessoas. Mas temos, por exemplo, a taxa de sobrecarga, se olharmos para a taxa de sobrecarga do custo de habita\u00e7\u00e3o, \u00e9 5% o valor. Parece ser muito pouco, n\u00e3o \u00e9? Mas temos que pensar que em Portugal, mais de 70% das pessoas vivem em casa pr\u00f3pria. E mais de 40% vivem em casa pr\u00f3pria sem custos com habita\u00e7\u00e3o. J\u00e1 est\u00e1 pago o cr\u00e9dito. Por isso, quando analisamos essa taxa, tem impacto perceber qual a quantidade de pessoas que n\u00e3o t\u00eam custos com habita\u00e7\u00e3o. Quando olhamos depois para grupos espec\u00edficos, essa taxa de sobrecarga aumenta claramente. Pensando, por exemplo, nas fam\u00edlias monoparentais, ela passa para 14%.<\/p>\n<p>Se pensarmos nas fam\u00edlias compostas apenas por um indiv\u00edduo, ela passa para 10%.<\/p>\n<p>Por isso, h\u00e1 grupos que est\u00e3o a viver com uma intensidade muito maior o aumento da habita\u00e7\u00e3o, e as pessoas abaixo do n\u00edvel de pobreza est\u00e3o; o que faz com que entrem ou sejam remetidas para habita\u00e7\u00f5es com piores condi\u00e7\u00f5es de vida, com humidade, com outros problemas que vai ter impacto e problemas de sa\u00fade, por exemplo.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias com filhos, \u00e9 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o as fam\u00edlias que t\u00eam maior risco de pobreza, mas que depois vivem todas essas situa\u00e7\u00f5es.\u00a0S\u00e3o as que t\u00eam maior atrasos no pagamento de rendas, no pagamento de \u00e1gua, luz, servi\u00e7os, taxa de sobrecarga. H\u00e1 um conjunto de outros indicadores em que essas fam\u00edlias vivenciam situa\u00e7\u00f5es muito mais prec\u00e1rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o, n\u00e3o estamos a saber resolver bem esta quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o. E, inclusive, temos uma pol\u00eamica \u00e0 volta das medidas definidas pelo governo, que tamb\u00e9m, provavelmente, em nada ajuda na procura de solu\u00e7\u00f5es eficazes e duradouras para este problema? <\/em><\/p>\n<p>Sim, n\u00f3s precisamos, em Portugal precisamos caminhar para consensos, consensos a n\u00edvel do combate \u00e0 pobreza e da solu\u00e7\u00e3o dos problemas.<\/p>\n<p>N\u00f3s ainda n\u00e3o temos a capacidade de perceber a quest\u00e3o da pobreza como um problema de todos e de toda a sociedade. \u00c9 uma mudan\u00e7a de mentalidade que tem de mudar. N\u00f3s temos de compreender que, quando falamos em pobreza, n\u00e3o \u00e9 um problema dos pobres, \u00e9 um problema da sociedade.<\/p>\n<p>A causa n\u00e3o est\u00e1 nos pobres, est\u00e1 no funcionamento da sociedade e tem de ser resolvido por todas as pessoas.\u00a0 Tem de haver um envolvimento de todos. Seja em quest\u00f5es espec\u00edficas como habita\u00e7\u00e3o, seja na quest\u00e3o da pobreza; temos de criar consensos e temos de ser capazes de trabalhar solu\u00e7\u00f5es que v\u00e3o \u00e0s causas da pobreza e que n\u00e3o se limitem a trabalhar os sintomas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu pergunto-lhe se essa necessidade de consensos passa tamb\u00e9m por identificar e criar medidas estruturais e estruturantes que possam ajudar a superar a tend\u00eancia\u00a0que temos visto de promover pol\u00edticas avulsas no combate \u00e0 pobreza? <\/em><\/p>\n<p>Sim, exatamente. A necessidade de uma estrat\u00e9gia vem da\u00ed. Vem da necessidade de pensarmos<\/p>\n<p>aquilo que pretendemos no combate \u00e0 pobreza a m\u00e9dio e a longo prazo\u00a0e pensarmos que medidas podem ajudar a atingir isso.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a import\u00e2ncia de termos uma estrat\u00e9gia, mesmo que depois tenha de ser atualizada. Porque uma estrat\u00e9gia \u00e9 uma estrat\u00e9gia, um plano \u00e9 um plano, n\u00e3o \u00e9? Tem de mudar, consoante evolui a sociedade,\u00a0consoante evoluem os contextos.<\/p>\n<p>Mas insisto: termos esta perspetiva do que queremos enquanto sociedade \u00e9 importante. E esta estrat\u00e9gia traz-nos metas claras e mais do que isso traz-nos o envolvimento de todos os minist\u00e9rios.<\/p>\n<p>Por exemplo \u00e9 uma das quest\u00f5es que \u00e9 patente no plano de a\u00e7\u00e3o. Temos a\u00e7\u00f5es definidas por todos os minist\u00e9rios. \u00c9 claro que alguns com envolvimento muito maior do que outros, mas est\u00e3o ali.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a de mentalidade que temos de come\u00e7ar a fazer no combate \u00e0 pobreza. Temos tamb\u00e9m dentro desse plano de a\u00e7\u00e3o, por exemplo, a necessidade de ouvir as pessoas em situa\u00e7\u00f5es de pobreza.\u00a0 Isso tamb\u00e9m \u00e9 uma mudan\u00e7a de mentalidade no combate \u00e0 pobreza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sejam sujeitos tamb\u00e9m das a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9? \u00a0<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. N\u00e3o serem apenas os benefici\u00e1rios, os alvos das a\u00e7\u00f5es, mas terem uma voz<\/p>\n<p>e poderem ajudar a avaliar o impacto que essas medidas est\u00e3o a ter na vida deles e ajudar a pensar que medidas s\u00e3o necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E pode ter tamb\u00e9m um impacto positivo na ajuda da resolu\u00e7\u00e3o do problema, as pessoas que podem ajudar estarem pr\u00f3ximas? Entre as medidas da estrat\u00e9gia est\u00e1 a possibilidade <\/em><em>de haver um gestor local para o problema de cada pessoa\u2026.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim. H\u00e1 esta preocupa\u00e7\u00e3o de trazer para o terreno\u00a0n\u00e3o s\u00f3 nessa medida, mas numa outra que \u00e9 promover estrat\u00e9gias locais a n\u00edvel municipal de combate \u00e0 pobreza.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 importante. Territorializar porque os territ\u00f3rios s\u00e3o diferentes, t\u00eam necessidades diferentes. E nesse caso desses gestores, tanto quanto foi dito at\u00e9 agora, tanto quanto se sabe at\u00e9 ao momento, tem esta perspetiva de interven\u00e7\u00e3o integrada; de olhar para a fam\u00edlia e ver todas as necessidades<\/p>\n<p>em vez dessas fam\u00edlias terem de percorrer os labirintos da prote\u00e7\u00e3o social<\/p>\n<p>que s\u00e3o dif\u00edceis de percorrer, que s\u00e3o muito burocr\u00e1ticos, e nem sempre se conhece todas as medidas. Ter algu\u00e9m que ajude e facilite neste processo \u00e9 importante. Obviamente que como em tudo, o diabo est\u00e1 nos detalhes.\u00a0Temos de ver como \u00e9 que vai ser implementado. Primeiro com que recursos. Porque n\u00f3s j\u00e1 tivemos essa experi\u00eancia no rendimento social de inser\u00e7\u00e3o, e no rendimento m\u00ednimo garantido, sobretudo. Essa ideia de ter algu\u00e9m que acompanhe a fam\u00edlia\u00a0e que ajuda a articular com um conjunto de outros servi\u00e7os, de outros atores do territ\u00f3rio, mas t\u00ednhamos r\u00e1cios de fam\u00edlia por t\u00e9cnico muito elevados que impossibilita qualquer tipo de acompanhamento.<\/p>\n<p>Se acontecer o mesmo, a medida vai fracassar, por isso, esta \u00e9 uma medida importante.<\/p>\n<p>Depois tamb\u00e9m \u00e9 importante garantir que as pessoas possam avaliar, possam perceber e fazer uma avalia\u00e7\u00e3o. \u00c9 um projeto piloto, e \u00e9 importante que essa avalia\u00e7\u00e3o tenha a voz das pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ser\u00e1 feita uma monitoriza\u00e7\u00e3o anual?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Espero que sim. Pelo menos \u00e9 um projeto piloto, e o objetivo dos projetos pilotos \u00e9<\/p>\n<p>esse. Depois h\u00e1 um outro risco que acho que tamb\u00e9m \u00e9 importante falar com essa territorializa\u00e7\u00e3o que tem muitos aspetos positivos. Tamb\u00e9m \u00e9 importante blindar, de alguma forma, as medidas para evitar que ideologias que possam existir nos territ\u00f3rios influenciem o acesso ou n\u00e3o acesso<\/p>\n<p>ou o melhor ou o pior acesso. Sabemos que est\u00e1 a crescer o populismo, sabemos que h\u00e1 uma perspetiva, uma leitura da pobreza muito espec\u00edfica em alguns desses partidos e por isso \u00e9 importante garantir que, independentemente de quem est\u00e1 \u00e0 frente desses munic\u00edpios, todas as pessoas tenham acesso de qualidade a esse tipo de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_301288\" aria-describedby=\"caption-attachment-301288\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103546.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-301288\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103546-347x260.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103546-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103546-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103546-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103546-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231019_103546.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-301288\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Paulo Teixeira\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entre as medidas anunciadas, as que se direcionam para o apoio \u00e0 inf\u00e2ncia s\u00e3o aquelas que podem ser mais eficazes na tentativa de quebrar o ciclo da pobreza?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 um enfoque importante em quebrar o ciclo da pobreza e um enfoque importante no combate \u00e0 pobreza infantil. H\u00e1, por exemplo, o aumento do abono, h\u00e1 o aumento da garantia para a inf\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 dito que aumento \u00e9 esse&#8230; Tamb\u00e9m uma perspetiva de interven\u00e7\u00e3o mais integrada. Veremos como \u00e9 implementado. Como disse, a forma como \u00e9 implementada influencia muito os resultados que vamos ter.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu gostaria de fazer aqui uma pergunta que tem a ver com outra popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel, que \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o que se encontra em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo. Anunciam-se datas para a solu\u00e7\u00e3o definitiva do problema, mas a realidade mostra que essa popula\u00e7\u00e3o tem aumentado. A pergunta que se imp\u00f5e fazer \u00e9 onde \u00e9 que estamos a falhar?<\/em><\/p>\n<p>Estamos a falhar a priori. Estamos a falhar na capacidade de proteger as pessoas, no caso da habita\u00e7\u00e3o &#8211; a falta de habita\u00e7\u00e3o e o pre\u00e7o da habita\u00e7\u00e3o est\u00e3o a ter aqui um impacto importante nas situa\u00e7\u00f5es e nas novas situa\u00e7\u00f5es de sem-abrigo. Vemos cada vez mais pessoas que est\u00e3o inseridas no mercado de trabalho e que, mesmo assim, acabam por viver em carros ou em situa\u00e7\u00f5es muito prec\u00e1rias e por isso esta dimens\u00e3o n\u00e3o pode ser separada. Depois a n\u00edvel da prote\u00e7\u00e3o social, n\u00f3s temos uma prote\u00e7\u00e3o social que tem um impacto muito pequeno no combate \u00e0 pobreza. Por exemplo, se pensarmos nas presta\u00e7\u00f5es de desemprego, de sa\u00fade, exclus\u00e3o social, fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Elas perpetuam esse ciclo de pobreza? <\/em><\/p>\n<p>Quando olhamos para a taxa de pobreza, elas diminu\u00edram em 24% a taxa de pobreza, mas a n\u00edvel da m\u00e9dia europeia diminu\u00edram em 36%. Portugal \u00e9 dos pa\u00edses que menos impacto tem as presta\u00e7\u00f5es sociais na preven\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de pobreza. Isso porqu\u00ea? Porque a maior parte dessas presta\u00e7\u00f5es s\u00e3o valores muito baixos. O RSI est\u00e1 muito distante do limiar de pobreza. Todas essas medidas, a maior parte delas, est\u00e3o distantes. Mesmo a n\u00edvel, por exemplo, do desemprego. N\u00f3s temos mais de 50% dos desempregados que recebem subs\u00eddio de desemprego a receber valores inferiores a 500 euros, quando o limiar de pobreza \u00e9 de 551 euros. Por isso, as medidas, a prote\u00e7\u00e3o social ainda est\u00e1 a falhar na capacidade de prevenir situa\u00e7\u00f5es de precariedade e quando juntamos a isso o aumento do custo de vida e toda a crise da habita\u00e7\u00e3o, temos aqui um contexto explosivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estamos perante um cen\u00e1rio de aumento das taxas de juros, aumentos de valores praticados, por exemplo no arrendamento por causa da press\u00e3o tur\u00edstica e outros motivos. \u00c9 de prever um agravamento da situa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim, a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 a agravar-se. Os dados da pobreza, os dados oficiais, n\u00e3o mostram isso. Porque os dados da pobreza t\u00eam especificidades. Primeiro, olham para o passado, sempre, n\u00e3o conseguem olhar para o presente. N\u00f3s estamos em outubro e os dados que temos neste momento ainda reportam ao inqu\u00e9rito de 2022 e aos rendimentos de 2021. Ou seja, \u00e9 um contexto totalmente distinto daquele que vivemos atualmente. E depois quando olhamos, por exemplo, para a pobreza monet\u00e1ria, este indicador trabalha especificamente o rendimento que recebemos, o rendimento que temos e comparamos com o valor do rendimento da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 aqui visto o que se faz com esse dinheiro. N\u00e3o tem aqui qualquer impacto do aumento do custo de vida. E isso \u00e9 importante, p0rque depois a estrat\u00e9gia e todas as medidas, as pol\u00edticas t\u00eam como metas esses dados oficiais. Por isso, corremos o risco de aproximarmos das metas de combate \u00e0 pobreza, quando na realidade temos uma situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 oposta daquela que os dados nos apresentam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Rede Europeia Anti-Pobreza lan\u00e7ou um vasto conjunto de iniciativas para sensibilizar a sociedade e os pol\u00edticos para a real dimens\u00e3o da realidade da pobreza. Pergunto, h\u00e1 mesmo vontade pol\u00edtica em enfrentar o problema?<\/em><\/p>\n<p>Para ter vontade pol\u00edtica \u00e9 preciso compreender a pobreza n\u00e3o como uma despesa, mas como um investimento. E eu n\u00e3o sei se esta mudan\u00e7a j\u00e1 ocorreu. Se pensarmos, por exemplo, na pandemia, houve um conjunto de medidas que foram feitas para tentar lidar com pessoas que perderam de imediato todo o seu rendimento, mas essas medidas n\u00e3o tiveram qualquer impacto no limiar de pobreza, no n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, porque o valor era de facto muito baixo. N\u00f3s ainda n\u00e3o temos essa capacidade de compreender que uma pessoa que nasce na pobreza e que vive na pobreza tem piores situa\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, que vai recorrer mais vezes \u00e0s urg\u00eancias, que n\u00e3o vai ter uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, isso vai ter impacto depois na forma como faltam ao emprego, na forma como depois t\u00eam de estar em situa\u00e7\u00e3o de desemprego ou cuidar de crian\u00e7as que t\u00eam problemas e incapacidades. Nada disso \u00e9 visto como um impacto da pobreza e nada disso \u00e9 analisado como um investimento. Se conseguirmos olhar de uma outra forma para a pobreza e compreender quais s\u00e3o as causas, a\u00ed para al\u00e9m do empenho, se calhar teremos melhores resultados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essas solu\u00e7\u00f5es est\u00e3o no relat\u00f3rio que recentemente apresentaram, que a rede europeia apresentou?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s apresentamos todos os anos um relat\u00f3rio que faz esta leitura da pobreza, muito com base nos dados oficiais. E o relat\u00f3rio permite-nos ver como est\u00e1 a evoluir, porque de facto ao longo dos anos mantemos mais ou menos os mesmos grupos, sendo os grupos vulner\u00e1veis. Temos alguns grupos que pouco diminu\u00edram o seu risco de pobreza. Se pensarmos, por exemplo, nos desempregados, desde 2015 at\u00e9 agora, a taxa de pobreza, a exclus\u00e3o social deles nunca baixou dos 60%. 60% dos desempregados est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de pobreza e exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E quantos s\u00e3o atualmente os trabalhadores que est\u00e3o tamb\u00e9m no limiar da pobreza ou em pobreza?<\/em><\/p>\n<p>Esta \u00e9 outra quest\u00e3o, \u00e9 que os desempregados podem ser aqueles que t\u00eam maior risco, mas a maior parte das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza s\u00e3o trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A percentagem \u00e9 de 10%? <\/em><\/p>\n<p>A percentagem \u00e9 de 10%, se pensarmos na pobreza monet\u00e1ria, que \u00e9 uma dimens\u00e3o espec\u00edfica, \u00e9 12% se alargarmos o conceito e pensarmos em pobreza ou exclus\u00e3o social. E se pensarmos na popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de pobreza e pensarmos nos adultos, que obviamente podem estar inseridos no mercado de trabalho, vemos que quase metade desses adultos est\u00e3o inseridos no mercado de trabalho e trabalham o tempo inteiro, n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de trabalhar em part-time e por isso n\u00e3o ter rendimentos espec\u00edficos. Trabalham a tempo inteiro. O que acontece \u00e9 que esse rendimento \u00e9 baixo e n\u00e3o permite ter um filho ou ter um c\u00f4njuge que, por algum motivo, n\u00e3o possa estar a trabalhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um em cada cinco portugueses ou residentes em Portugal correm risco de pobreza atualmente? <\/em><\/p>\n<p>Sim, a taxa de pobreza \u00e9 20%. A verdade \u00e9 que nunca descemos dos 2 milh\u00f5es de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza ou exclus\u00e3o social. Ao longo de todos esses anos de combate \u00e0 pobreza, temos tido muita dificuldade em baixar significativamente este n\u00famero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Est\u00e1vamos h\u00e1 pouco a referir que todos os dados que aqui apresentamos s\u00e3o dados do passado. E estes dados sobre os quais est\u00e1vamos a falar e a trabalhar, n\u00e3o t\u00eam em considera\u00e7\u00e3o ainda plenamente o impacto da guerra na Ucr\u00e2nia, o impacto da infla\u00e7\u00e3o\u00a0e n\u00f3s ainda estamos por determinar quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias do conflito que estalou agora entre Israel e a Palestina. Devemos preparar-nos por um cen\u00e1rio ainda pior do que aquele que estamos a viver?<\/em><\/p>\n<p>O cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 positivo, de facto. Para n\u00e3o terminarmos com um tom negativo, sabemos todos n\u00f3s que o cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 positivo, mas eu acho que o mais importante e a mensagem que deixava aqui \u00e9 a necessidade de pensarmos todos que somos respons\u00e1veis por este combate \u00e0 pobreza. Este envolvimento de todos, da comunica\u00e7\u00e3o social, dos empres\u00e1rios, dos professores, dos m\u00e9dicos, de toda a sociedade no combate \u00e0 pobreza \u00e9 aquilo que pode de facto criar mudan\u00e7a. E para isso \u00e9 importante maior conhecimento sobre o que \u00e9 a pobreza, porque ainda h\u00e1 muitos mitos, ainda h\u00e1 muitos preconceitos, ainda h\u00e1 muita tend\u00eancia de culpabilizar as pessoas pela situa\u00e7\u00e3o que vivem sem compreender que obst\u00e1culos essas pessoas t\u00eam nos seus processos de vida, sem compreender quais s\u00e3o as causas, como \u00e9 que \u00e9 dif\u00edcil para algumas pessoas entrarem no mercado de trabalho \u00e0s vezes simplesmente porque t\u00eam 55 anos e est\u00e3o desempregados. Coisas que a pessoa n\u00e3o pode alterar, a sua idade. Por isso, h\u00e1 v\u00e1rias causas que s\u00e3o estruturais e temos de olhar todos, como respons\u00e1veis pelo combate \u00e0 pobreza, para conseguirmos aqui alguma mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de uma semana em que foi publicado em Di\u00e1rio da Rep\u00fablica o Plano Nacional de Combate \u00e0 Pobreza, e em que se assinalou o Dia Internacional para a Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, Elizabeth Santos, do Observat\u00f3rio Nacional de Luta Contra a Pobreza da Rede Europeia Anti-Pobreza<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":301285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-301283","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/301283","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=301283"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/301283\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/301285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=301283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=301283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=301283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}