{"id":30088,"date":"2008-02-17T15:59:34","date_gmt":"2008-02-17T15:59:34","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/17\/homilia-da-missa-de-tomada-de-posse-do-novo-arcebispo-de-evora\/"},"modified":"2008-02-17T15:59:34","modified_gmt":"2008-02-17T15:59:34","slug":"homilia-da-missa-de-tomada-de-posse-do-novo-arcebispo-de-evora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-da-missa-de-tomada-de-posse-do-novo-arcebispo-de-evora\/","title":{"rendered":"Homilia da Missa de tomada de posse do novo Arcebispo de \u00c9vora"},"content":{"rendered":"<p>1. A Sagrada Escritura afirma que os planos de Deus s\u00e3o insond\u00e1veis e inacess\u00edveis \u00e0 intelig\u00eancia humana. Tenho pensado muitas vezes na verdade dessas palavras, at\u00e9 no que se refere \u00e0 minha pr\u00f3pria vida. E hoje penso nelas mais uma vez. Pois, estava fora dos meus projectos que, passados quase dez anos, voltasse a esta hist\u00f3rica cidade de \u00c9vora como Arcebispo e entrasse na catedral, em cujo solo, duas vezes, me prostrei por terra, em gesto de profunda adora\u00e7\u00e3o e louvor a Deus, que me criou e me chamou ao presbiterado e ao episcopado. Com efeito, aqui fui ungido com o \u00f3leo sagrado e com os dons do Esp\u00edrito Santo. Daqui fui enviado, como bispo, primeiro ao Patriarcado de Lisboa, onde o exerc\u00edcio do meu minist\u00e9rio episcopal teve in\u00edcio e se enriqueceu com profundas viv\u00eancias de comunh\u00e3o eclesial. Depois, \u00e0 querida Diocese de Portalegre-Castelo Branco, onde vivi tempos de intensa e gratificante ac\u00e7\u00e3o pastoral, cuja mem\u00f3ria guardarei para sempre no meu cora\u00e7\u00e3o. \tAgora, por decis\u00e3o do papa Bento XVI, v\u00ednculo de unidade de todo o col\u00e9gio episcopal e sucessor de Pedro, rocha firme sobre a qual Jesus Cristo fundou a sua Igreja, fui de novo chamado, por Deus, para a Arquidiocese de \u00c9vora. Regresso por obedi\u00eancia e em comunh\u00e3o plena com o papa e com o col\u00e9gio episcopal, aqui t\u00e3o bem representado, por bispos de Portugal, de Espanha e de Timor. \tEstimados diocesanos, volto para o meio de v\u00f3s como membro do Povo de Deus e disc\u00edpulo de Jesus Cristo, o Filho de Deus, em Quem acredito e reconhe\u00e7o o \u00fanico Salvador da humanidade, que ressuscitou dos mortos e continua vivo e presente no meio de n\u00f3s. Quero segui-lo sempre, acolher no meu cora\u00e7\u00e3o a Sua Palavra de vida eterna que procurarei por em pr\u00e1tica, mais confiado na gra\u00e7a de Deus (2 Tim 1,9), na ora\u00e7\u00e3o e ajuda de todos v\u00f3s do que nas minhas capacidades. \tVolto como Pastor e Mestre da f\u00e9, carregando sobre os meus fr\u00e1geis ombros a responsabilidade pastoral desta vasta parcela do Povo de Deus, iluminada e guiada, nos tempos passados, pela palavra eloquente e pelo luminoso exemplo de f\u00e9 de uma pl\u00eaiade de s\u00e1bios pastores. O \u00faltimo deles est\u00e1 entre n\u00f3s. \u00c9 D. Maur\u00edlio de Gouveia, por meio do qual recebi o dom do episcopado, que governou esta Igreja Particular, com dinamismo e sabedoria, durante vinte e seis anos, e a quem desejamos sa\u00fade e vida longa, para continuar a servir a Igreja. Os exemplos de virtude dos meus antecessores entusiasmam-me e despertam em mim o desejo de seguir os seus passos de pastores zelosos e santos. Praza a Deus que o meu entusiasmo inicial n\u00e3o esmore\u00e7a, antes se acrescente.  \t2. Como muito bem nos adverte a Igreja, nossa M\u00e3e bondosa e Mestra s\u00e1bia, as expectativas do povo crist\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao bispo s\u00e3o cada vez mais exigentes, porque mais esclarecidas. \tCom efeito, os crist\u00e3os esperam que o bispo, na sua vida e no seu minist\u00e9rio, manifeste a paternidade de Deus, a solicitude, a miseric\u00f3rdia e autoridade de Jesus Cristo e, bem assim, a perene vitalidade do Esp\u00edrito Santo. Numa palavra, que viva em Deus e eleve os esp\u00edritos para Deus. O bispo \u00e9 chamado a identificar-se com Cristo de tal modo que o pensamento de Cristo (1Cor 2,16) lhe penetre totalmente as ideias, os sentimentos e o comportamento. Ele sabe que nada pode fazer sem estar em Cristo, sua \u00fanica e permanente fonte daquela espiritualidade, que se exprime na caridade pastoral, fulcro de unidade interior e origem de novas energias. \tNa Igreja, o bispo \u00e9 chamado a ser princ\u00edpio vis\u00edvel de unidade e comunh\u00e3o, mestre da f\u00e9, santificador e guia espiritual do povo crist\u00e3o. E, enquanto homem de f\u00e9, espera-se que tudo julgue, tudo realize e tudo suporte \u00e0 luz da f\u00e9. Como homem animado pela esperan\u00e7a que n\u00e3o engana (Rom 5,5), espera-se que seja corajoso e firme nas decis\u00f5es. Mas sempre pronto a obedecer \u00e0 vontade de Deus.  \tPara corresponder \u00e0 complexidade do seu minist\u00e9rio, o bispo h\u00e1-de ser humanamente equilibrado, intelectualmente bem formado, pastoralmente din\u00e2mico e, acima de tudo, h\u00e1-de esfor\u00e7ar-se por viver em santidade, fazendo da verdade revelada o centro e crit\u00e9rio primeiro de toda a sua ac\u00e7\u00e3o pastoral, ciente de que ele \u00e9 o princ\u00edpio vis\u00edvel e fundamento da unidade diocesana, permanecendo aberto \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de todos os membros do povo crist\u00e3o, com respeito pelas compet\u00eancias de cada um. \tNa sua actividade de governo, o bispo n\u00e3o poder\u00e1 esquecer que a salva\u00e7\u00e3o das almas \u00e9 a lei suprema da Igreja e o exerc\u00edcio do poder se deve traduzir numa aut\u00eantica diaconia, exercida com paternal bondade e fraterna amizade, a exemplo de Jesus Cristo.  \t3. Pelo que fica dito e por muito mais que haveria a dizer, podemos compreender como a miss\u00e3o do bispo \u00e9, ao mesmo tempo, sublime e exigente. T\u00e3o sublime que nunca a chegaremos a compreender em plenitude. De exig\u00eancias t\u00e3o elevadas que nunca ser\u00e1 poss\u00edvel satisfaz\u00ea-las. Sendo assim e humanamente falando, pareceria insensatez aceitar tal miss\u00e3o. Por\u00e9m, \u00e0 luz da f\u00e9 tudo adquire um novo sentido.  \tComo ouvimos na primeira leitura da missa, Abr\u00e3o deixou a sua terra e a sua fam\u00edlia e partiu. N\u00e3o sabia onde seria essa outra terra que Deus lhe iria mostrar. S\u00f3 sabia uma coisa e essa lhe bastou: Deus que o chamou iria conduzi-lo por bom caminho. Por isso, colocando a sua esperan\u00e7a em Deus, partiu. Tamb\u00e9m Mois\u00e9s, depois de ter ouvido a voz de Deus que o chamava de uma sar\u00e7a ardente, decidiu lan\u00e7ar-se na aventura de libertar o povo de Israel da escravid\u00e3o. N\u00e3o dispunha de meios capazes de convencer o Fara\u00f3 do Egipto. Mas Deus fez prod\u00edgios e o povo foi liberto. Do mesmo modo, os Ap\u00f3stolos acreditaram na palavra de Jesus Cristo ressuscitado e partiram pelo mundo a pregar a boa nova do Evangelho. A gra\u00e7a de Deus cooperava com eles e a Igreja expandiu-se. E, quando as dificuldades pessoais ou a falta de recursos para enfrentar as situa\u00e7\u00f5es convidavam ao des\u00e2nimo, todos ganhavam novo vigor, meditando no que fora dito a S. Paulo: basta-te a minha gra\u00e7a, porque a for\u00e7a manifesta-se na fraqueza (\u201cCor 12,9). Por isso, o pr\u00f3prio S. Paulo, que fizera essa experi\u00eancia maravilhosa, n\u00e3o hesitou em recomendar a Tim\u00f3teo, como ouvimos h\u00e1 pouco: sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na for\u00e7a de Deus (2 Tim 1,8). Na verdade, sem essa for\u00e7a interior, n\u00e3o seria poss\u00edvel responder ao chamamento de Deus. Mas quando se encara a vida \u00e0 luz da f\u00e9, o que humanamente parecia imposs\u00edvel torna-se realidade. Os fracos avan\u00e7am apoiados na for\u00e7a de Deus, que nos salvou e nos chamou, n\u00e3o em virtude das nossas obras mas por dom da sua gra\u00e7a.  \t\u00c9 esta, meus irm\u00e3os, a verdadeira raz\u00e3o por que eu hoje estou aqui, a tomar posse como Arcebispo de \u00c9vora, nesta catedral, onde tantas vezes participei nos of\u00edcios divinos e a minha f\u00e9 se consolidou pelo sacramento da Ordem. Entrego a minha fraqueza nas m\u00e3os de Deus, confiado que Ele a transformar\u00e1 em for\u00e7a e, tocando-me com a Sua m\u00e3o poderosa, tal como Cristo fez aos tr\u00eas Ap\u00f3stolos que presenciaram a transfigura\u00e7\u00e3o, me levantar\u00e1 e me ajudar\u00e1 a segui-lo no caminho da cruz, para que possa tamb\u00e9m ter parte com Ele na gl\u00f3ria da Ressurrei\u00e7\u00e3o.  \t4. Mas h\u00e1 outra raz\u00e3o importante. \u00c8 que eu n\u00e3o estou sozinho no exerc\u00edcio do meu minist\u00e9rio. Sei que posso contar com numerosos colaboradores, que actuam colegial ou individualmente, aos quais muito estimo e dos quais muito espero. \tEm primeiro lugar, penso nos presb\u00edteros, meus principais e insubstitu\u00edveis colaboradores. Como pai, irm\u00e3o e amigo, a todos, e particularmente aos que se encontram em dificuldades, quero dedicar uma especial aten\u00e7\u00e3o e afecto, bem como ao Semin\u00e1rio, primeira entre todas as institui\u00e7\u00f5es diocesanas, onde se formam os novos sacerdotes. Em seguida, os di\u00e1conos permanentes, cujo minist\u00e9rio est\u00e1 imbu\u00eddo pelo sentido do servi\u00e7o, para a edifica\u00e7\u00e3o da Igreja, na qual eles dar\u00e3o corpo a uma nova \u00e9poca de espiritualidade evangelizadora.  \tSeguem-se os membros dos Institutos de Vida Consagrada e todos os homens e mulheres que dedicam as suas vidas ao servi\u00e7o do Evangelho, nesta parcela do Povo de Deus. Eles constituem um precioso dom divino, que enriquece a Diocese com nova energia mission\u00e1ria e evangelizadora e potencia o apostolado com a for\u00e7a oculta da ora\u00e7\u00e3o e penit\u00eancia das comunidades de vida contemplativa. \tLugar de especial relevo merecem os numerosos leigos e leigas, de diferentes condi\u00e7\u00f5es e idades, comprometidos com o an\u00fancio da mensagem crist\u00e3, que se esfor\u00e7am e generosamente trabalham na reconstitui\u00e7\u00e3o da fractura entre cultura e Evangelho, na promo\u00e7\u00e3o de uma justa ordem social, na dignifica\u00e7\u00e3o da actividade pol\u00edtica, na defesa dos princ\u00edpios \u00e9ticos fundamentais e irrenunci\u00e1veis, na defesa da liberdade da Igreja e na colabora\u00e7\u00e3o directa com os pastores, na liturgia, na pastoral e noutros sectores da vida da Igreja. Por serem em maior n\u00famero e cada vez mais empenhados na vida das comunidades crist\u00e3s, coloco neles uma particular esperan\u00e7a.  \t5. Eis-me aqui, meus irm\u00e3os. Venho para o meio de v\u00f3s, ciente do muito que esperais de mim, do muito que h\u00e1 a fazer nesta querida Arquidiocese e confiante na ajuda de Deus e na vossa efectiva colabora\u00e7\u00e3o. Somos membros da Igreja que \u00e9 mist\u00e9rio de amor, comunh\u00e3o de f\u00e9 e de vontades, povo de peregrinos a caminho da p\u00e1tria definitiva, constru\u00e7\u00e3o s\u00f3lida assente na rocha que \u00e9 Cristo, casa de fam\u00edlia com os olhos postos em Nazar\u00e9. A\u00ed nos encontramos com Maria, primeira disc\u00edpula de Jesus Cristo, modelo de escuta, de ora\u00e7\u00e3o, de obla\u00e7\u00e3o e de obedi\u00eancia \u00e0 vontade de Deus. Maria que \u00e9 m\u00e3e e mestra, a quem esta Diocese tanto venera. A ela nos entregamos confiadamente, dela esperamos protec\u00e7\u00e3o e aux\u00edlio. M\u00e3e e Rainha nossa, rogai por n\u00f3s. \u00c1men.  <i>+Jos\u00e9, Arcebispo de \u00c9vora  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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