{"id":30086,"date":"2008-02-17T15:31:27","date_gmt":"2008-02-17T15:31:27","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/17\/o-verbo-eterno-encarna-na-palavra-humana-o-carisma-profetico\/"},"modified":"2008-02-17T15:31:27","modified_gmt":"2008-02-17T15:31:27","slug":"o-verbo-eterno-encarna-na-palavra-humana-o-carisma-profetico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-verbo-eterno-encarna-na-palavra-humana-o-carisma-profetico\/","title":{"rendered":"<i>O Verbo eterno encarna na palavra humana: o carisma prof\u00e9tico<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Catequese do Cardeal-Patriarca no 2\u00ba Domingo da Quaresma <!--more--> 1. O sil\u00eancio que se abateu entre o homem e Deus, devido ao pecado, s\u00f3 pode ser quebrado pelo pr\u00f3prio Deus, revelando-Se, comunicando a homens escolhidos, por meios extraordin\u00e1rios, a Sua Palavra de amor. A revela\u00e7\u00e3o da Sua Palavra n\u00e3o se sobrep\u00f5e ao homem, \u00e9 feita por meios humanos, valorizando aqueles dinamismos que, no homem, ainda guardam abertura \u00e0 Palavra do Senhor. A revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para o homem, \u00e9 feita com o homem, empenhando a sua intelig\u00eancia, o seu cora\u00e7\u00e3o, a sua ac\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria, a sua capacidade relacional na recep\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus. Como diz Santo Agostinho, \u201cDeus fala-nos por meio de homens e \u00e0 maneira humana porque, falando-nos assim, Ele procura-nos\u201d[1]. \u00c9 o dinamismo da Encarna\u00e7\u00e3o que se inaugura e foi o caminho escolhido por Deus para restabelecer o di\u00e1logo e a intimidade com os homens. Este dinamismo vai ter a sua plenitude em Jesus Cristo, o Verbo encarnado, a Palavra eterna de Deus feita homem. N\u2019Ele Deus adquire a possibilidade de falar abertamente aos homens em linguagem humana.  A todos aqueles que Deus escolheu para comunicar, de modo extraordin\u00e1rio, a Sua Palavra, e revelar os segredos do Seu cora\u00e7\u00e3o, chamamos profetas, sendo Cristo o Profeta por excel\u00eancia. Nesta Catequese apresentaremos as caracter\u00edsticas principais do carisma prof\u00e9tico, caminho escolhido por Deus para que, ainda hoje, possamos escutar a Sua Palavra, reconhecer o Seu amor, e entrar na Sua intimidade.     Prioridade da revela\u00e7\u00e3o pessoal de Deus  2. Tudo tem in\u00edcio na disposi\u00e7\u00e3o de Deus de Se revelar, isto \u00e9, de abrir o Seu cora\u00e7\u00e3o e manifestar aos homens a Sua intimidade, o Seu amor por eles e o Seu des\u00edgnio de salva\u00e7\u00e3o, como diz o Conc\u00edlio, de \u201cse dirigir aos homens no seu imenso amor, como a amigos\u201d[2]. Esta revela\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 pr\u00e9via a qualquer palavra humana, escrita ou falada, a que chamamos a Palavra de Deus, e \u00e9 a experi\u00eancia a alcan\u00e7ar atrav\u00e9s dessa palavra humana. A Palavra de Deus, escrita ou falada, s\u00f3 produz todo o seu efeito quando p\u00f5e aqueles que a acolhem em contacto com a intimidade de Deus.  Deus faz esta revela\u00e7\u00e3o a pessoas escolhidas, algumas desde o seio materno: \u201cantes de te ter formado no seio materno, Eu te conheci, consagrei-te antes de teres sa\u00eddo do seio materno\u201d (Jer. 1,5). S\u00e3o v\u00e1rios os modos como Deus se lhes revela, mas todos eles t\u00eam a certeza clara de que Deus lhes falou e os enviou, que a Sua Palavra os invadiu e tomou posse das suas vidas, violentando mesmo a sua exist\u00eancia natural. Amos confessa: \u201cEu era pastor e cultivava sic\u00f3moros; foi Deus que me arrancou ao meu rebanho e me disse: vai profetizar ao meu Povo Israel\u201d (Am. 7,15). E Jeremias, na dureza da miss\u00e3o que Deus lhe entregou, exclama: \u201cTu seduziste-me, Yahw\u00e9, e eu deixei-me seduzir; Tu dominaste-me, foste o mais forte\u201d (Jer. 20,7). Para todos eles esta revela\u00e7\u00e3o de Deus marca o destino das suas vidas; eles passam a viver segundo as exig\u00eancias da vontade e do plano de Deus para Israel seu Povo. Os profetas sentem, por vezes, a sua miss\u00e3o como uma viol\u00eancia de Deus.  Mas Deus recompensa-os, estabelecendo com eles uma grande intimidade, experi\u00eancia que \u00e9 explicitamente referida em rela\u00e7\u00e3o a Mois\u00e9s, o grande profeta: \u201cYahw\u00e9 conversava com Mois\u00e9s face a face, como um homem conversa com um amigo\u201d (Ex. 33,11). E o Livro dos N\u00fameros acentua o modo diferente como Deus trata com Mois\u00e9s e os outros profetas: \u201cSe h\u00e1 entre v\u00f3s um profeta, \u00e9 em vis\u00f5es que Eu Me revelo a ele, \u00e9 em sonhos que lhe falo. N\u00e3o \u00e9 assim com o meu servo Mois\u00e9s, ele habita na minha casa, falo-lhe boca a boca, na clareza e n\u00e3o por enigmas e ele v\u00ea a gl\u00f3ria de Yahw\u00e9\u201d (Num. 12,6-8).  Mas a total intimidade do homem com Deus n\u00e3o era ainda poss\u00edvel a Mois\u00e9s, pois, no des\u00edgnio de Deus, ela estava reservada a Jesus Cristo e ser\u00e1 a manifesta\u00e7\u00e3o da Sua gl\u00f3ria. Quando Mois\u00e9s pede a Deus que o deixe ver a Sua gl\u00f3ria, Deus diz-lhe que isso ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Ele s\u00f3 a poder\u00e1 contemplar parcialmente, na sombra de Deus e protegido pela Sua pr\u00f3pria m\u00e3o (cf. Ex. 33,18-23).  Deus anuncia a Mois\u00e9s um profeta futuro que viver\u00e1 completamente esta intimidade com Deus: \u201cSuscitarei para eles, do meio dos seus irm\u00e3os, um profeta semelhante a ti, porei as minhas palavras na sua boca e ele dir-lhes-\u00e1 tudo o que Eu lhes ordenar. Se um homem n\u00e3o escutar as minhas palavras que este profeta pronunciar em Meu nome, Eu pr\u00f3prio pedirei contas a esse homem\u201d (Deut. 18,18-19).  E para o Evangelista S\u00e3o Jo\u00e3o, Jesus \u00e9 este profeta anunciado e prometido: Ele \u00e9 o novo Mois\u00e9s. A seguir ao milagre da multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es, a multid\u00e3o exclama: \u201cEle \u00e9 verdadeiramente o Profeta que deve vir ao mundo\u201d (Jo. 6,14). Jesus, n\u00e3o s\u00f3 tem uma intimidade maior com Deus do que o pr\u00f3prio Mois\u00e9s, mas anuncia o verdadeiro p\u00e3o da vida, p\u00e3o do C\u00e9u que alimenta mais definitivamente que o man\u00e1 do deserto[3]. A intimidade de Jesus, Verbo encarnado, com Deus \u00e9 total. S\u00e3o Jo\u00e3o n\u00e3o se cansa de afirmar que a Palavra humana de Jesus brota de Deus, escutou-a na intimidade com o Pai. \u201cEle diz as palavras de Deus\u201d (Jo. 3,34); diz \u201co que o Pai Lhe ensinou\u201d (Jo. 8,28); Jesus fala-nos a n\u00f3s o que o Pai Lhe falou a Ele (cf. Jo. 12,50). O mist\u00e9rio prof\u00e9tico de Mois\u00e9s e de Jesus \u00e9 da mesma natureza. A diferen\u00e7a entre eles \u00e9 que, em Jesus, a intimidade com Deus \u00e9 total, Ele pode verdadeiramente contemplar a gl\u00f3ria de Deus; por isso as Suas palavras s\u00e3o esp\u00edrito e vida (cf. Jo. 6,63).     A palavra dos profetas \u00e9 inspirada pelo Esp\u00edrito Santo  3. Deus revela a Sua Palavra aos profetas, porque quer falar ao Seu Povo. Envia-os a anunciar ao Povo essa mensagem com as suas palavras humanas. Para que o Povo O possa escutar, Deus tem de lhe dirigir a Sua Palavra atrav\u00e9s da palavra humana dos profetas. Para que esta seja a express\u00e3o fiel da Palavra eterna de Deus, Deus revela-Se-lhes misteriosamente e assiste-os com o Seu Esp\u00edrito para que digam com palavras humanas aquilo que Deus \u00e9 e quer, o que lhes revelou. S\u00f3 a partir dessa intimidade misteriosa o profeta pode falar em nome de Deus[4]. A fidelidade e perfeita correspond\u00eancia da palavra prof\u00e9tica \u00e0 Palavra revelada, ou seja, ao que Deus verdadeiramente quer dizer ao Seu Povo, \u00e9 inspirada e garantida pelo Esp\u00edrito Santo. Assim a palavra dos profetas e dos ap\u00f3stolos \u00e9 verdadeiramente Palavra de Deus; aqueles que a pronunciaram e proclamaram acabam por acreditar nela e por alimentar, a partir dela, a pr\u00f3pria intimidade com Deus. \u00c9 por isso que ela \u00e9 irrevog\u00e1vel e definitiva: o profeta n\u00e3o a pode mudar como um homem muda de opini\u00e3o; tamb\u00e9m n\u00e3o o podem fazer aqueles que, ao ouvi-la ou l\u00ea-la, a queiram interpretar \u00e0 sua maneira. Ela tem, para toda a eternidade, o selo de Deus. A \u00fanica coisa que \u00e9 leg\u00edtimo fazer, atrav\u00e9s da interpreta\u00e7\u00e3o humana, \u00e9 perceber melhor o que Deus verdadeiramente disse, atrav\u00e9s dos profetas, dos ap\u00f3stolos e dos evangelistas.     4. A palavra inspirada, que reconhecemos justamente como Palavra de Deus, tem o dinamismo do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o: Deus a exprimir-Se, torna-Se presente aos homens atrav\u00e9s da realidade humana. Tem a estrutura de um sacramento, realidade humana atrav\u00e9s da qual Deus revela e realiza no cora\u00e7\u00e3o do homem o Seu des\u00edgnio de amor. O efeito pr\u00f3prio em quem a acolhe na f\u00e9, \u00e9 levar a pessoa ao contacto com a intimidade de Deus, porque o que Deus quer, atrav\u00e9s desta pedagogia de salva\u00e7\u00e3o, \u00e9 falar ao cora\u00e7\u00e3o do homem, como um amigo fala a um amigo. \u00c9 certo que a Palavra de Deus, lida ou escutada, nem sempre realiza esse efeito sacramental de mergulhar o homem na intimidade de Deus. E isso acontece devido \u00e0s resist\u00eancias humanas \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o de Deus, devido fundamentalmente aos nossos pecados e \u00e0 influ\u00eancia do pecado em n\u00f3s. A escuta da Palavra de Deus sup\u00f5e uma atitude confiante de abandono e um processo de purifica\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o.     A Palavra de Deus escutada na Igreja  5. O destinat\u00e1rio da palavra de Deus \u00e9 o Seu Povo. Mesmo naquela rela\u00e7\u00e3o pessoal aos seus profetas de que fal\u00e1mos atr\u00e1s, a inten\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 falar ao Seu Povo, a quem os envia a proclamar o que lhes disse e lhes revelou. O Povo de Deus, que hoje \u00e9 a Igreja, \u00e9 o verdadeiro sujeito da Palavra revelada: o seu destinat\u00e1rio, a garantia da sua justa interpreta\u00e7\u00e3o, o crit\u00e9rio da identifica\u00e7\u00e3o daquelas palavras humanas que podem ser acolhidas como Palavra de Deus.  A aventura da Palavra de Deus acompanha, a par e passo, a aventura do Povo de Deus, desde a revela\u00e7\u00e3o a Abra\u00e3o at\u00e9 \u00e0 parusia. O autor da Carta aos Hebreus exprime bem esta aventura da Palavra, expressa na hist\u00f3ria atrav\u00e9s da encarna\u00e7\u00e3o das realidades divinas: \u201cDepois de ter, muitas vezes e de muitas formas, falado outrora aos Pais, pelos profetas, Deus, nestes dias que s\u00e3o os \u00faltimos, falou-nos pelo Filho que estabeleceu herdeiro de todas as coisas, por Quem tamb\u00e9m fez os s\u00e9culos\u201d (Heb. 1,1-2).  Consideremos rapidamente os cap\u00edtulos aqui indicados desta epopeia da Palavra.  Muitas vezes: \u00e9 a persist\u00eancia de Deus que n\u00e3o desiste da realiza\u00e7\u00e3o do Seu des\u00edgnio, apesar da resist\u00eancia dos homens. Esta persist\u00eancia de Deus fundamenta uma justa esperan\u00e7a na salva\u00e7\u00e3o da humanidade a que pertencemos.  E de muitos modos. Para Se fazer ouvir, Deus multiplicou as suas express\u00f5es. Para al\u00e9m de continuar a falar pessoalmente ao cora\u00e7\u00e3o de cada homem, realizou maravilhas no meio do Seu Povo, revelou-Se aos Profetas e estes tanto falaram como escreveram. Todas estas express\u00f5es constituem o patrim\u00f3nio adquirido pelo Povo de Deus e todo ele tem a qualidade de Palavra de Deus, que n\u00e3o se limita \u00e0 palavra escrita. Lemos no Conc\u00edlio: \u201cA economia da revela\u00e7\u00e3o compreende acontecimentos e palavras intimamente unidos entre si, de modo que as obras, realizadas por Deus na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, atestam e corroboram a doutrina e o sentido indicados pelas palavras, enquanto as palavras publicam as obras e esclarecem o mist\u00e9rio que elas encerram\u201d[5].  Somos chamados a n\u00e3o reduzir as maneiras como Deus nos fala s\u00f3 \u00e0 Palavra escrita da Escritura. A aten\u00e7\u00e3o \u00e0s outras express\u00f5es da Palavra de Deus, as ac\u00e7\u00f5es de Deus, nas pessoas, na Igreja e na hist\u00f3ria, a palavras comunicada oralmente, sobretudo no ensinamento da Igreja, ajudam-nos a acolher a palavra escrita como Palavra de Deus.  Nestes dias que s\u00e3o os \u00faltimos: temos a sorte de viver no tempo de Jesus Cristo, Palavra completa e definitiva de Deus. Temos ao nosso alcance todos os meios para escutar plenamente o Senhor. Tamb\u00e9m, como Palavra eterna encarnada, Ele manifesta-Se como o caminho para o Pai, para o cora\u00e7\u00e3o de Deus.     6. Destinat\u00e1ria primeira da Palavra de Deus, a Igreja \u00e9 a garante da sua autenticidade. S\u00f3 nela a tr\u00edplice dimens\u00e3o da Palavra, o agir de Deus, a palavra escrita e a palavra viva testemunhada e transmitida na Tradi\u00e7\u00e3o, fazem a unidade da \u00fanica Palavra de Deus. A palavra escrita, acolhida e interpretada por cada um, corre o risco de toldar a for\u00e7a da Palavra de Deus com os sentidos humanos que cada um lhe d\u00e1. S\u00f3 em Igreja, atrav\u00e9s do Magist\u00e9rio Apost\u00f3lico, a autenticidade da mensagem divina \u00e9 garantida. A Igreja, povo crente, tem a garantia do Esp\u00edrito de n\u00e3o se desviar dessa mensagem divina, transmitida atrav\u00e9s da Palavra revelada. O Conc\u00edlio afirma: \u201cO Povo Santo de Deus participa tamb\u00e9m da fun\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica de Cristo: difunde o seu testemunho vivo, antes de mais, pela vida de f\u00e9 e de caridade, e oferece a Deus um sacrif\u00edcio de louvor, fruto de l\u00e1bios que celebram o Seu Nome. O conjunto dos fi\u00e9is, tendo a un\u00e7\u00e3o que vem do Santo, n\u00e3o pode enganar-se na f\u00e9\u201d[6]. A fidelidade a Jesus Cristo, Palavra de Deus encarnada, exprime-se tamb\u00e9m nesta humilde fidelidade \u00e0 Igreja, aceitando a sua interpreta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica e decisiva de toda a palavra revelada. Esta humildade na fidelidade, garante o efeito sacramental da palavra revelada e inspirada: p\u00f4r-nos em sintonia com o cora\u00e7\u00e3o de Deus.  Esta dimens\u00e3o eclesial e comunit\u00e1ria da Palavra revelada \u00e9 t\u00e3o importante, que lhe d\u00e1 um dinamismo fundamental: toda a palavra est\u00e1 orientada para ser proclamada e lida em assembleia. O povo crente \u00e9 o contexto apropriado para a escuta da Palavra. Mesmo quando a lemos pessoalmente, devemos sentir-nos, nesse momento, membros do povo crente e receb\u00ea-la como a Igreja a recebe, para bem e enriquecimento da pr\u00f3pria Igreja. \u00c9 o labirinto da nossa individualidade, com os nossos pensamentos e sentimentos, que nos afasta, por vezes, da fecundidade sacramental da Palavra.   Ali\u00e1s, como diz Bento XVI, a Sagrada Escritura \u00e9 mais do que literatura. A sua unidade salv\u00edfica caldeou-se na Igreja. Ou\u00e7amo-lo: \u201cOs diversos livros da Sagrada Escritura \u2013 tal como esta no seu conjunto \u2013 n\u00e3o s\u00e3o simples literatura. A Escritura cresce no e a partir do sujeito vivo que \u00e9 o Povo de Deus em caminho, e vive nele. Poder-se-ia dizer que os livros da Escritura remetem para tr\u00eas sujeitos que interagem uns com os outros. Primeiro, h\u00e1 o autor individual ou o grupo de autores, a quem devemos um livro da Escritura. No entanto estes autores n\u00e3o s\u00e3o escritores aut\u00f3nomos no sentido moderno do termo, mas pertencem ao sujeito comum \u00abpovo de Deus\u00bb: a partir dele falam e a ele se dirigem, de tal modo que o povo \u00e9 o verdadeiro e mais profundo \u00abautor\u00bb das Escrituras. Mais: este povo n\u00e3o se v\u00ea auto-suficiente, mas sabe que \u00e9 conduzido e interpelado pelo pr\u00f3prio Deus, que no fundo fala atrav\u00e9s dos homens e da sua humanidade.  A rela\u00e7\u00e3o com o sujeito \u00abpovo de Deus\u00bb \u00e9 vital para a Escritura. Por um lado, este livro \u2013 a Escritura \u2013 \u00e9 o crit\u00e9rio que vem de Deus e a for\u00e7a que indica a estrada ao povo, mas, por outro, a Escritura vive s\u00f3 neste povo, que na Escritura se transcende a si mesmo e assim \u2013 na profundeza definitiva em virtude da Palavra feita carne \u2013 se torna precisamente povo de Deus. O povo de Deus \u2013 a Igreja \u2013 \u00e9 o sujeito vivo da Escritura; nele as palavras da B\u00edblia s\u00e3o uma presen\u00e7a permanente[7].     7. Voltaremos, noutro Domingo, a esta rela\u00e7\u00e3o da Palavra da Escritura com a Igreja viva e a vida da Igreja, sobretudo quando reza e celebra. Fixemos hoje, como conclus\u00e3o a reter no cora\u00e7\u00e3o, que a Palavra revelada \u00e9 a Palavra humana com que Deus nos transmite, para O ouvirmos, a intimidade do Seu mist\u00e9rio. Ela \u00e9 para n\u00f3s um meio para escutarmos o Senhor; consegui-lo-emos plenamente, se nos unirmos vitalmente a Cristo, a aut\u00eantica Palavra de Deus encarnada.  S\u00e9 Patriarcal, 16 de Fevereiro de 2008  <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i>  &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;   [1] Cf. Alonso SCHOKEL e J. Sicre Diaz, in I Profeti, pg. 16  [2] Dei Verbum, n\u00ba 2  [3] Cf. Bento XVI, Jesus de Nazar\u00e9, pg. 332 e ss  [4] Cf. Ibidem, pg. 333  [5] Dei Verbum, n\u00ba 2  [6] Lumen Gentium, n\u00ba 12; cf. Dei Verbum, n\u00ba 7  [7] Bento XVI, Jesus de Nazar\u00e9, pp. 21-22 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Catequese do Cardeal-Patriarca no 2\u00ba Domingo da Quaresma<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,295,127,168,191,285,91],"class_list":["post-30086","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-biblia","tag-catequese","tag-diocese-da-guarda","tag-economia","tag-patrimonio","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30086","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30086"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30086\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30086"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30086"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30086"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}