{"id":300604,"date":"2023-10-15T09:30:18","date_gmt":"2023-10-15T08:30:18","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=300604"},"modified":"2023-10-13T12:48:17","modified_gmt":"2023-10-13T11:48:17","slug":"igreja-portugal-todos-os-dias-recebemos-pedidos-por-causa-das-dificuldades-das-familias-presidente-da-caritas-de-coimbra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-portugal-todos-os-dias-recebemos-pedidos-por-causa-das-dificuldades-das-familias-presidente-da-caritas-de-coimbra\/","title":{"rendered":"Igreja\/Portugal: \u00abTodos os dias recebemos pedidos por causa das dificuldades das fam\u00edlias\u00bb &#8211; Presidente da C\u00e1ritas de Coimbra"},"content":{"rendered":"<p><em>Na semana em que o Governo entregou o Or\u00e7amento do Estado no Parlamento e em v\u00e9speras do Dia Internacional para a Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza, Manuel Antunes \u00e9 convidado da Ag\u00eancia ECCLESIA e da R\u00e1dio Renascen\u00e7a<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_223795\" aria-describedby=\"caption-attachment-223795\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/manuel-antunes-caritas-coimbra.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-223795 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/manuel-antunes-caritas-coimbra.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/manuel-antunes-caritas-coimbra.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/manuel-antunes-caritas-coimbra-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/manuel-antunes-caritas-coimbra-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/manuel-antunes-caritas-coimbra-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/manuel-antunes-caritas-coimbra-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/manuel-antunes-caritas-coimbra-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/manuel-antunes-caritas-coimbra-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/manuel-antunes-caritas-coimbra-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-223795\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/LFS<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Ao apresentar o documento, o Ministro das Finan\u00e7as, Fernando Medina, disse que o Or\u00e7amento protege o futuro. Do que j\u00e1 conhecemos do documento, est\u00e1-se de alguma forma a esquecer o presente de grande dificuldade?<\/em><\/p>\n<p>Como compreendem, eu n\u00e3o tenho um conhecimento global e pormenorizado do Or\u00e7amento para 2024\u00a0apresentado na Assembleia da Rep\u00fablica. Nem sequer segui na \u00edntegra a apresenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica que depois foi feita pelo Ministro das Finan\u00e7as, doutor Medina. E, portanto, tenho d\u00favidas sobre muitas coisas. N\u00e3o me parece que o Or\u00e7amento d\u00ea uma resposta\u00a0cabal aos problemas que as IPSS em geral e a Caritas de Coimbra em particular t\u00eam no presente. Houve recentemente uma atualiza\u00e7\u00e3o das comparticipa\u00e7\u00f5es da Seguran\u00e7a Social e isso naturalmente melhorou muito o Or\u00e7amento, mas n\u00e3o chegou para cobrir o atraso que tem\u00a0sido registado nos \u00faltimos anos. H\u00e1 muito tempo que n\u00e3o eram atualizadas as comparticipa\u00e7\u00f5es da Seguran\u00e7a Social e, portanto, todas as institui\u00e7\u00f5es deste tipo est\u00e3o a ter grandes dificuldades, algumas at\u00e9 de sobreviv\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 o nosso caso ainda; mas vamos ver o que \u00e9 que nos traz o futuro.<\/p>\n<p><em>A realidade social de Coimbra n\u00e3o \u00e9 muito distante da do resto do pa\u00eds. Acentuam-se dificuldades de uma infla\u00e7\u00e3o, que teima em manter-se sem que os ordenados cres\u00e7am ao ritmo que certamente muitos desejariam. Por onde passam\u00a0especificamente nesta altura os pedidos de ajuda a Caritas?<br \/>\n<\/em>A Caritas diocesana de Coimbra tem 126 servi\u00e7os diferentes espalhados por todo o territ\u00f3rio do Distrito de Coimbra e ainda mais nove concelhos de outros cinco distritos, perifericamente,\u00a0e, portanto, cobre praticamente todas as \u00e1reas sociais. Mas n\u00f3s notamos que \u00e9 na \u00e1rea de apoio na rua, que n\u00f3s temos cada vez mais procura de pessoas que est\u00e3o no fim da linha, que n\u00e3o conseguem cobrir as suas\u00a0despesas e outras que n\u00e3o conseguem mesmo comprar o p\u00e3o que precisam para sobreviver no dia a dia. Ent\u00e3o, estes pedidos, que n\u00e3o eram bem o nosso ADN, est\u00e3o a aumentar subitamente e n\u00f3s estamos a fazer o poss\u00edvel no sentido de conseguir corresponder\u00a0\u00e0s necessidades que a popula\u00e7\u00e3o vai apresentando, mas os pedidos, para al\u00e9m disto, est\u00e3o a ser muito mais intensos do que eram at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo.<\/p>\n<p><em>As dificuldades no acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o uma das prioridades?<br \/>\n<\/em>N\u00f3s temos um CAS, que \u00e9 um centro de apoio social, que ajuda as fam\u00edlias que t\u00eam dificuldades e que recorrem agora com grande frequ\u00eancia, para pedir ajuda naquele momento de crise e uma delas \u00e9 exatamente a ajuda no pagamento de rendas que as pessoas j\u00e1 deixaram de poder fazer, mas n\u00f3s a\u00ed temos fundos muito limitados,\u00a0e, portanto, podemos fazer uma ajuda que \u00e9 tempor\u00e1ria e moment\u00e2nea. N\u00e3o temos muito mais do que isso.\u00a0Este \u00e9 um dos setores em que as necessidades est\u00e3o a aumentar claramente.<\/p>\n<p><em>Coimbra \u00e9 um grande centro estudantil. Os alunos tamb\u00e9m sofrem com os problemas do alojamento? T\u00eam chegado pedidos nesta \u00e1rea?<br \/>\n<\/em>\u00c9 uma pergunta muito oportuna porque a respons\u00e1vel por este centro do CAS acabou de me enviar\u00a0tamb\u00e9m um pedido para apoio a dois estudantes que est\u00e3o nessas condi\u00e7\u00f5es. Para eles poderem concorrer a bolsas e tudo, eles t\u00eam que dar provas de que n\u00e3o t\u00eam d\u00edvidas e, portanto, recorrem a n\u00f3s. N\u00f3s estamos a fazer isso\u00a0de certo modo em apoio tamb\u00e9m ao sistema da pr\u00f3pria universidade, o Sazu, no sentido de apoiarmos at\u00e9 onde pudermos. Mas muitas vezes as d\u00edvidas s\u00e3o para al\u00e9m daqueles\u00a0valores que n\u00f3s podemos comparticipar. Com outras associa\u00e7\u00f5es e com outras institui\u00e7\u00f5es do mesmo g\u00e9nero vamos tentando fazer esse apoio, mas depois subsistem as d\u00favidas se esse apoio\u00a0que damos agora \u00e9 suficiente porque dar p\u00e3o hoje n\u00e3o significa matar a fome para amanh\u00e3, n\u00e3o \u00e9? E nesse aspeto tamb\u00e9m temos algumas dificuldades, mas fazemos aquilo que podemos. Neste momento, os dois pedidos, um \u00e9 para uma d\u00edvida de alojamento no valor de 395,21\u20ac e outro de\u00a0794,50\u20ac. Chegou-me mesmo agora o pedido de aprova\u00e7\u00e3o. Naturalmente vou dar a aprova\u00e7\u00e3o. O fundo solid\u00e1rio da universidade tamb\u00e9m vai nesse aspeto ajudar a comparticipar connosco\u00a0nessas despesas.<\/p>\n<p><em>Os \u00faltimos anos t\u00eam sido particularmente dif\u00edceis. Em 2020, em plena pandemia, foram muitos os relatos do momento di\u00e1rio de pedidos de ajuda. Aquilo que eu lhe pergunto e do que vamos percebendo \u00e9 se nesta altura as solicita\u00e7\u00f5es est\u00e3o ao mesmo n\u00edvel?<br \/>\n<\/em>At\u00e9 est\u00e3o a aumentar em rela\u00e7\u00e3o ao que era anteriormente, como \u00e9 evidente. Houve servi\u00e7os sociais em que houve claramente uma quebra com a pandemia, mas neste momento estamos quase l\u00e1, no n\u00famero de utentes que t\u00ednhamos anteriormente.\u00a0A Caritas diocesana de Coimbra atende mais ou menos 15 mil pessoas por ano.<\/p>\n<p><em>E os n\u00fameros t\u00eam sido mais ou menos id\u00eanticos desde a pandemia?<\/em><br \/>\nEst\u00e3o a atingir agora esses valores. Estamos a falar daquelas coisas de rotina, como os lares, como as creches, como os centros de dia, que perderam muitos utentes durante a pandemia e que agora est\u00e3o praticamente\u00a0aos n\u00edveis anteriores, aos n\u00edveis de 2019. Mas o que acontece \u00e9 que t\u00eam aumentado os pedidos de outras \u00e1reas, sobretudo deste apoio social ocasional de que est\u00e1vamos a falar anteriormente, e que agora s\u00e3o muito mais do que eram antes da pandemia. Portanto, no final a sobrecarga financeira para as institui\u00e7\u00f5es \u00e9 muito maior do que era antes.<\/p>\n<p><em>Ou seja, poderemos estar perante a imin\u00eancia de uma tempestade perfeita com a manuten\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o descida das taxas de juros e agora mais um conflito com efeitos\u00a0imediatos ao n\u00edvel, por exemplo, do pre\u00e7o do petr\u00f3leo, que \u00e9 o conflito mais recente no M\u00e9dio Oriente. Afinal, o pior poder\u00e1 ainda estar para vir?<br \/>\n<\/em>O pior poder\u00e1 estar para vir. Eu vou dizer-lhe, pela primeira vez nos 75 anos de hist\u00f3ria desta institui\u00e7\u00e3o, n\u00f3s\u00a0tivemos em 2022 um saldo negativo or\u00e7amental no valor de cerca de 800 mil euros. No total das despesas, o saldo foi negativo em cerca de 800 mil euros. Para o or\u00e7amento deste ano de 2023, n\u00f3s j\u00e1 estim\u00e1mos um saldo negativo tamb\u00e9m de cerca de 600 mil euros. Estamos a falar quase de 1 milh\u00e3o e meio de euros de d\u00e9ficit para a institui\u00e7\u00e3o. Neste momento, n\u00f3s temos preocupa\u00e7\u00f5es com o futuro, mas n\u00e3o temos preocupa\u00e7\u00f5es\u00a0atuais em rela\u00e7\u00e3o a isso, porque neste momento podemos suportar. Porque o or\u00e7amento da institui\u00e7\u00e3o \u00e9 de 24 milh\u00f5es de euros anuais. Portanto, esta C\u00e1ritas Diocesana de Coimbra, \u00e9 de longe a maior C\u00e1ritas portuguesa, e provavelmente at\u00e9 o nosso or\u00e7amento excede o somat\u00f3rio das outras todas. \u00c9, nesse aspeto, uma grande institui\u00e7\u00e3o. Ora, e o aumento de despesas, aquilo que eu chamo de infla\u00e7\u00e3o, para 2022, 2023 da C\u00e1ritas Diocesana andou a\u00ed pelos 17%. Isso tem muito a ver com o custo das energias, mas tamb\u00e9m com os aumentos sucessivos &#8211; o\u00a0que \u00e9 bom &#8211; nos vencimentos. E n\u00f3s n\u00e3o temos, por exemplo, a comparticipa\u00e7\u00e3o das pessoas em termos de mensalidades, por exemplo, nos lares e nas creches e nos jardins de inf\u00e2ncia, n\u00e3o t\u00eam de maneira nenhuma tido o mesmo crescimento. Pelo contr\u00e1rio, todos os dias recebemos pedidos por causa das dificuldades das fam\u00edlias, por causa das quest\u00f5es das rendas das casas e outro tipo de despesas que elas n\u00e3o podem comportar. E as fam\u00edlias pedem uma redu\u00e7\u00e3o do valor das mensalidades.\u00a0Estamos a tentar gerir isso da melhor maneira que pudermos. Acreditamos que se n\u00e3o houver uma interven\u00e7\u00e3o mais musculada do Estado, no sentido de suportar as institui\u00e7\u00f5es &#8211; esta e as outras &#8211; todas correm os mesmos riscos em termos de suporte da seguran\u00e7a\u00a0social. E se nada for feito, naturalmente, estas institui\u00e7\u00f5es v\u00e3o ter cada vez mais dificuldades e n\u00f3s temos conhecimento de algumas que neste momento ou j\u00e1 faliram ou est\u00e3o em processo de fal\u00eancia.<\/p>\n<p><em>No caso, a pergunta \u00e9 evidente, ou seja, a preocupa\u00e7\u00e3o num momento em que aumentam\u00a0os pedidos de ajuda e provavelmente diminui a capacidade de resposta, tem mesmo a ver com a sustentabilidade. Que \u00e1reas espec\u00edficas &#8211; j\u00e1 tem falado de algumas &#8211; \u00e9 que est\u00e3o a criar maior press\u00e3o nesta fase?<\/em><\/p>\n<p>Basicamente todas as \u00e1reas. Como disse n\u00f3s temos 24 milh\u00f5es de euros de Or\u00e7amento e quase 16 milh\u00f5es v\u00e3o para os nossos funcion\u00e1rios, ou seja 75 por cento do nosso Or\u00e7amento. N\u00f3s temos quase mil\u00a0funcion\u00e1rios, e parte do Or\u00e7amento \u00e9 para a despesa com pessoal.\u00a0\u00a0\u00c9 o caso, por exemplo, do anunciado aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, que \u00e9 o que ganha a maior parte dos nossos funcion\u00e1rios, como \u00e9 o caso dos assistentes, e dos auxiliares. O aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo em 2024 \u00e9 \u00e0 volta de 7,89%. Eu n\u00e3o estou contra\u00a0o aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, porque as pessoas t\u00eam essa necessidade. S\u00f3 estou a dizer que para a institui\u00e7\u00e3o isso \u00e9 um aumento muito superior \u00e0quele que tem havido por parte das comparti\u00e7\u00f5es da seguran\u00e7a social. \u00c9 preciso n\u00e3o esquecer, e que o Estado e o Governo n\u00e3o se esque\u00e7am, de\u00a0que o servi\u00e7o\u00a0que n\u00f3s estamos a fazer \u00e9 um servi\u00e7o que de facto constitucionalmente pertence ao Estado. E, portanto, n\u00f3s precisamos do apoio do Estado nesta institui\u00e7\u00e3o. Mais, o Estado sabe que o dinheiro investido aqui \u00e9 um dinheiro que tem o rendimento total, n\u00e3o h\u00e1 aqui\u00a0coisas paralelas e despesas paralelas que possam indiciar um mau uso dos dinheiros que o Estado possa p\u00f4r \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o destas institui\u00e7\u00f5es. Portanto, houve uma atualiza\u00e7\u00e3o, houve um novo acordo social no princ\u00edpio do m\u00eas\u00a0de setembro e que foi uma atualiza\u00e7\u00e3o significativa dos valores anteriormente propostos, mas ainda n\u00e3o \u00e9 suficiente para cobrir os custos das institui\u00e7\u00f5es e h\u00e1 que fazer uma auditoria para saber exatamente aquilo que \u00e9 preciso fazer no futuro para que estas\u00a0institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o desapare\u00e7am. Porque se desaparecerem ent\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o social do pa\u00eds vai-se complicar tremendamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sugere ent\u00e3o uma maior <\/em><em>comparticipa\u00e7\u00e3o<\/em><em> do Estado, nomeadamente para fazer face a esse aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9, \u00e9 exatamente isso. Volto a dizer, estamos a falar em 8% de aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo e o aumento das comparticipa\u00e7\u00f5es foi em 5%. N\u00e3o sabemos exatamente o que vai acontecer, ainda n\u00e3o est\u00e1 definido para 2024. Pode muito bem ser que eu esteja a falar de cor que o Estado tenha a inten\u00e7\u00e3o de aumentar as comparticipa\u00e7\u00f5es de uma forma que corresponda ao aumento dos custos. \u00a0Estas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o para lucro, n\u00e3o t\u00eam lucro e gastam basicamente todo o dinheiro que recebem. Mas hoje estamos a assinar contratos com a Seguran\u00e7a Social e outras institui\u00e7\u00f5es de solidariedade, pertencentes ao Estado, em que j\u00e1 se espera que as institui\u00e7\u00f5es participem com 20%. O Estado s\u00f3 subsidia 80% e a nossa quest\u00e3o \u00e9: onde \u00e9 que n\u00f3s vamos buscar esses 20%? Temos alguns donativos, temos pessoas que s\u00e3o generosas e que ajudam a ter sentido, mas n\u00e3o temos outra maneira. N\u00f3s n\u00e3o somos a Santa Casa da Miseric\u00f3rdia [de Lisboa], que tem a lotaria para fazer receitas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>V\u00e1rios dos projetos que a C\u00e1ritas desenvolve em Coimbra s\u00e3o dedicados aos cidad\u00e3os mais velhos, particularmente na cidade. A solid\u00e3o \u00e9 outra das grandes preocupa\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9. Na \u00e1rea da terceira idade, n\u00f3s temos as resid\u00eancias, as chamadas ERPIs, resid\u00eancias para pessoas idosas, temos os centros de dia, que acompanham as pessoas durante o dia para elas n\u00e3o estarem sozinhas, exatamente para combater a solid\u00e3o, e temos servi\u00e7os de apoio domicili\u00e1rio, para quem n\u00e3o pode sair de casa. Quem estiver em casa, uma pessoa com um casal com 75, 80 anos, 80 e mais anos, e que ainda consiga manter um contacto com os vizinhos, normalmente n\u00e3o tem esse problema. Para a maior parte das pessoas, sobretudo nas \u00e1reas urbanas &#8211; a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais f\u00e1cil nas \u00e1reas rurais &#8211; os centros de dia eram, realmente, uma resposta a esse problema. Simplesmente, com a pandemia, os centros de dia tiveram de fechar, mantivemos algum apoio domicili\u00e1rio. E as pessoas agora est\u00e3o a preferir esse apoio domicili\u00e1rio, de maneira que n\u00f3s temos de reestruturar as equipas, que deixam de ser apenas equipas que iam l\u00e1 entregar as refei\u00e7\u00f5es e fazer uma r\u00e1pida higiene pessoal ou domicili\u00e1ria, para utilizar agora pessoas que possam fazer a anima\u00e7\u00e3o, portanto o apoio para evitar esta sensa\u00e7\u00e3o de isolamento que as pessoas t\u00eam. Estamos realmente a trabalhar nessa \u00e1rea, h\u00e1 aqui uma mudan\u00e7a muito significativa do padr\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sente que a solidariedade se mant\u00e9m, tanto a n\u00edvel dos donativos como no voluntariado? H\u00e1 pessoas que passaram de ajudar a ser ajudadas, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o que temos, de pandemia, guerras e tudo, criou mais dificuldades \u00e0s pessoas, que, portanto, j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam aquilo que podiam dar, mesmo que n\u00e3o necessitem ainda de pedir assist\u00eancia, j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam a mesma folga que tinham anteriormente. E, depois, temos tamb\u00e9m uma coisa que \u00e9 preocupante de um modo geral: a sociedade tornou-se menos solid\u00e1ria, est\u00e1 menos preocupada com o que se passa com o vizinho ou com as outras pessoas, e n\u00f3s notamos isso cada vez mais. Ainda continuamos a receber apoios muito significativos, apoios de dezenas de milhares de euros e \u00e0s vezes heran\u00e7as de mais do que isso, com que a C\u00e1ritas nesse aspeto tem sido beneficiada, mas n\u00e3o \u00e9 suficiente para fazer face a esta altera\u00e7\u00e3o completa e dram\u00e1tica que houve em termos or\u00e7amentais, em termos econ\u00f3micos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Gostar\u00edamos de visitar um pouco a sua experi\u00eancia profissional, para olharmos tamb\u00e9m para os problemas no acesso \u00e0 sa\u00fade. Tem alguns receios nesta \u00e1rea, que consequ\u00eancias \u00e9 que mais teme da atual situa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Se est\u00e1 a falar da sa\u00fade em geral, eu continuo a ser muito cr\u00edtico: acho que o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade \u00e9 um bem inestim\u00e1vel que n\u00f3s n\u00e3o podemos perder, mas estamos rapidamente a trabalhar para a sua destrui\u00e7\u00e3o, ou pelo menos a n\u00e3o trabalhar para a sua progress\u00e3o, que \u00e9 aquilo que necessita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Teme pela sua sobreviv\u00eancia? <\/em><\/p>\n<p>Teme pela sobreviv\u00eancia do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, os pressupostos que existiam h\u00e1 46 anos, quando foi criado o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, s\u00e3o completamente diferentes. A sociedade mudou, as t\u00e9cnicas mudaram, tenho-me mantido muito cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o a isso. J\u00e1 agora, eu queria associar aqui uma preocupa\u00e7\u00e3o grande, que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre os servi\u00e7os sociais, da presta\u00e7\u00e3o de apoio social, e a sa\u00fade. Os nossos idosos, por exemplo, que foram internados aqui num lar, no centro de Coimbra, e que vieram alguns deles de grandes dist\u00e2ncias, perderam o apoio do seu m\u00e9dico de fam\u00edlia, e neste momento o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, os centros de sa\u00fade que est\u00e3o aqui ao nosso lado, recusam-se. N\u00e3o podem, o ministro tem dito que as pessoas internadas, os chamados utentes que temos nas ERPIs, nas resid\u00eancias da terceira idade, t\u00eam o mesmo direito que qualquer outro cidad\u00e3o, se calhar at\u00e9 s\u00e3o mais doentes e precisam de mais cuidados. E neste momento n\u00f3s n\u00e3o temos esse apoio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu pergunto-lhe se aquilo que parece ter ficado claro na pandemia, da necessidade de um di\u00e1logo permanente entre a sa\u00fade e o social, se foi perdendo com o fim da grande crise da Covid?<\/em><\/p>\n<p>Sim, foi, foi-se perdendo muito. Por exemplo, nos cuidados continuados, h\u00e1 um programa, o chamado internamento social, muita gente que est\u00e1 internada nos hospitais, n\u00e3o por raz\u00f5es de doen\u00e7a, mas por raz\u00f5es sociais, porque n\u00e3o tem outro s\u00edtio para onde vir &#8211; as unidades de cuidados continuados a curto, m\u00e9dio e longo prazo foram criadas tamb\u00e9m para dar esse apoio &#8211; tem havido transfer\u00eancias muito significativas de utentes do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade dos hospitais para estas unidades, mas ao fim de seis meses, por exemplo, ficamos completamente fora dos apoios que estavam a ser dados e n\u00e3o podemos p\u00f4r as pessoas na rua porque elas continuam a n\u00e3o ter o apoio familiar, a n\u00e3o ter resid\u00eancias para onde ir.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Pergunto-lhe se, daquilo que estivemos a conversar perante este somat\u00f3rio de problemas, ser\u00e1 de esperar uma voz mais firme da Igreja Cat\u00f3lica, sobretudo na defesa dos mais fr\u00e1geis e dos mais afetados pela crise? <\/em><\/p>\n<p>Eu espero bem que sim, a Igreja Cat\u00f3lica tem os seus pr\u00f3prios problemas, tem tido ultimamente. A C\u00e1ritas, como sabe, \u00e9 ligada \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, at\u00e9 aqui tenha havido uma certa independ\u00eancia destas institui\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria Igreja, aos p\u00e1rocos e bispos, e \u00e9 altura de p\u00e1rocos e bispos tamb\u00e9m olharem para estas institui\u00e7\u00f5es e procurarem contribuir para as mesmas. N\u00e3o que eu tenha, pessoalmente, alguma queixa, mas tem de haver um papel mais ativo. Houve um tempo em que se pensava deixar esta institui\u00e7\u00f5es funcionar de forma independente, porque a Igreja tinha outros problemas para resolver. Mas a Igreja \u00e9 cada vez mais procurada pelas pessoas que t\u00eam dificuldades econ\u00f3micas, sociais, e \u00e9 um papel importante que tem de desempenhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana em que o Governo entregou o Or\u00e7amento do Estado no Parlamento e em v\u00e9speras do Dia Internacional para a Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza, Manuel Antunes \u00e9 convidado da Ag\u00eancia ECCLESIA e da R\u00e1dio Renascen\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":223795,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[125,174],"class_list":["post-300604","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-caritas","tag-diocese-de-coimbra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/300604","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=300604"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/300604\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/223795"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=300604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=300604"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=300604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}