{"id":300108,"date":"2023-10-11T09:24:53","date_gmt":"2023-10-11T08:24:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=300108"},"modified":"2023-10-09T12:26:38","modified_gmt":"2023-10-09T11:26:38","slug":"em-procura-de-um-centro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/em-procura-de-um-centro\/","title":{"rendered":"Em procura de um Centro"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>A palavra \u201cperiferia\u201d faz parte do n\u00facleo central do l\u00e9xico do Papa Francisco. E todos sabemos, ou julgamos saber, o que o Sumo Pont\u00edfice pretende dizer quando refere as periferias com tanta insist\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se inspirado no l\u00e9xico papal ou n\u00e3o, mas \u00e9 por a\u00ed que come\u00e7a um livrinho do fil\u00f3sofo espanhol Josep Maria Esquirol, recentemente traduzido para portugu\u00eas. Chama-se \u201c<em>A Pen\u00faltima Bondade<\/em>\u201d e aparece com subt\u00edtulo de \u201c<em>Ensaio sobre a vida humana<\/em>\u201d. \u00ab<em>A nossa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a da \u201cperiferia<\/em>\u201d\u00bb, assim escreve Esquirol logo no in\u00edcio da primeira p\u00e1gina, para acrescentar de seguida: \u00ab<em>Uma periferia muito singular, porque n\u00e3o se encontra definida a partir de nenhum centro. Aqui, na periferia, a g\u00e9nese e a degenera\u00e7\u00e3o, a vida e a morte, o humano e o desumano \u2013 porque s\u00f3 o humano pode ser desumano -, a proximidade e a indiferen\u00e7a<\/em>.\u00bb<\/p>\n<p>Sem entramos na clareza meridiana da mensagem papal sobre as periferias, vamos aceitar a verdade do fil\u00f3sofo Esquirol. \u00c9 que, independentemente das teses defendidas no livro citado com que nem sempre estarei em concord\u00e2ncia, dei por mim \u00e0s voltas com a poss\u00edvel verdade da frase daquele fil\u00f3sofo espanhol: \u00ab<em>A nossa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a de periferia<\/em>\u00bb. Nossa, ou seja, do ser humano. S\u00f3 que nessa periferia existencial multiplicam-se ao infinito as periferias da vida em que nos movemos.<\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 vai o tempo em que a Terra era o centro e o Sol, a circund\u00e1-la, encontrava-se na sua periferia. Era o sistema geoc\u00eantrico que fazia do nosso planeta o centro do universo. Tudo seria perif\u00e9rico, pr\u00f3ximo ou distante, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra. E, na Terra, o centro era o Homem. O geocentrismo andava associado ao antropocentrismo. Tudo era perif\u00e9rico em rela\u00e7\u00e3o ao Homem.<\/p>\n<p>Cop\u00e9rnico, com outros pais da chamada ci\u00eancia moderna, virou o sistema do avesso. Afinal n\u00e3o era o Sol que girava \u00e0 volta da Terra, mas \u00e9 a Terra que anda \u00e0 volta do Sol. E o sistema helioc\u00eantrico imp\u00f4s-se, n\u00e3o sem questi\u00fanculas mais ou menos incompreens\u00edveis para as nossas mentalidades. \u00c9 a chamada \u00abrevolu\u00e7\u00e3o coperniciana\u00bb, express\u00e3o que ainda hoje se utiliza para significar a necessidade ou o imperativo de mudar o paradigma do pensar e do agir.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia deu passos de gigante no s\u00e9culo passado, continua a dar no presente e percorre caminhos dif\u00edceis de entender para o senso comum dos mortais. Mas parece que a descentraliza\u00e7\u00e3o continuou.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou astrof\u00edsico, mas vou lendo com admir\u00e1vel assombro os bons livros de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do nosso mercado livreiro. Afinal o nosso sistema solar faz parte de uma vasta colec\u00e7\u00e3o de astros, chamada Via L\u00e1ctea e pensou-se durante muito tempo que ela englobaria todo o universo. Mas \u2013 demos a palavra a um grande cientista &#8211; \u00abSabemos agora que a Via L\u00e1ctea \u00e9 somente uma das centenas de milhares de milh\u00f5es de gal\u00e1xias que podem ser observadas com os telesc\u00f3pios modernos, e que cada uma dessas gal\u00e1xias cont\u00e9m centenas de milhares de milh\u00f5es de estrelas.\u00bb (Stephen W. Hawking, in A Teoria de Tudo \u2013 Gradiva, 7.\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2021).<\/p>\n<p>Prestou bem aten\u00e7\u00e3o o leitor? S\u00e3o centenas de milhares de milh\u00f5es de gal\u00e1xias cada uma com centenas de milhares de milh\u00f5es de estrelas que podem ser observadas com telesc\u00f3pios modernos! Quem poder\u00e1 imaginar tal? Naturalmente imp\u00f5e-se a pergunta: onde se encontra o centro de um Universo assim? E, no meio desta imensidade de imensidades de astros, onde fica o antropocentrismo do nosso orgulho humano? Numa esp\u00e9cie de anarquia astral cada ponto do Universo parece poder ser visto simultaneamente como centro e periferia. Tal como o ser humano.<\/p>\n<p>Mas o Homem n\u00e3o ter\u00e1 aprendido a li\u00e7\u00e3o e continuou na Terra a pensar-se como centro exclusivo. Dono e senhor da sua pretensa centralidade, toda a periferia estaria ao seu servi\u00e7o. E foi explorando a Terra sem medida nem lei como se os recursos do nosso planeta fossem tamb\u00e9m sem medida.<\/p>\n<p>Entrado no comboio do crescimento cego movido pela alta tecnologia que a ci\u00eancia colocou ao seu dispor, nem sempre o Homem, nos pretensos centros civilizacionais e de decis\u00e3o por ele institu\u00eddos, tem a coragem de ver para decidir e agir em conformidade.<\/p>\n<p>Hoje este centro humano, se quer continuar a ser centro, tem de recentrar-se e entrar em comunh\u00e3o e cuidado com as periferias onde sempre, afinal, se encontrou, mas sem tomar bem consci\u00eancia de que essas periferias constitu\u00edam a casa que importava cuidar. Imp\u00f5e-se, pois, substituir o tradicional antropocentrismo por um \u00abantropocentrismo situado\u00bb que reconhe\u00e7a que a vida humana n\u00e3o pode ser compreendida nem sustentada sem as outras criaturas com as quais o Homem se encontra indissoluvelmente unido.<\/p>\n<p>A par de periferias topol\u00f3gicas do macro espa\u00e7o f\u00edsico do Universo, foi o Homem criando as periferias geogr\u00e1ficas da geopol\u00edtica e, com elas, as \u00abperiferias ecol\u00f3gicas\u00bb, no ar, na terra, nos rios e no mar, periferias directamente relacionadas com as periferias pol\u00edticas, econ\u00f3micas e sociais, manifestas em periferias de migrantes que fogem \u00e0 guerra ou procuram matar a fome e construir uma vida com dignidade. Manifestas tamb\u00e9m nos bairros perif\u00e9ricos das grandes metr\u00f3poles ou mesmo em espa\u00e7os e recantos do seu interior citadino, onde seres humanos sem abrigo se recolhem estendidos em cart\u00f5es e envoltos em velhos cobertores. Quem o pode ignorar? Onde estar\u00e1 o centro de tanta gente e onde encontrar as suas periferias. Quando uma sociedade ignora estas periferias ou passa ao lado delas \u00e9 a pr\u00f3pria sociedade que \u00e9 perif\u00e9rica em rela\u00e7\u00e3o a elas. O centro torna-se ent\u00e3o periferia e a periferia torna-se centro.<\/p>\n<p>Periferias da Humanidade global e periferias das comunidades pol\u00edticas &#8211; internacionais, nacionais e locais. Perif\u00e9ricos que somos, neste Universo de mir\u00edades de milh\u00f5es de astros, vamos construindo mir\u00edades de periferias sociais aonde parece ter desaparecido, tantas vezes, o sentido da vida humana, embora muito de dignidade se fale.<\/p>\n<p>Manifestamente, a nossa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a de periferia. Pequenos gr\u00e3os de p\u00f3 que somos neste Universo de milh\u00f5es de milh\u00f5es de estrelas, andamos, de centros para as periferias e de periferias para centros, em busca de uma estrela que seja o Centro das nossas vidas. Um Centro que seja t\u00e3o Centro, t\u00e3o Centro simplesmente, que supere todas as nossas periferias.<\/p>\n<p>Verdadeiramente, a nossa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a de periferia, mas de periferia que procura o seu centro. E Ele j\u00e1 l\u00e1 est\u00e1.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":271042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-300108","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/300108","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=300108"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/300108\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=300108"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=300108"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=300108"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}