{"id":29961,"date":"2008-02-12T11:18:43","date_gmt":"2008-02-12T11:18:43","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/12\/renuncia-quaresmal-que-nao-chega-a-quem-precisa\/"},"modified":"2008-02-12T11:18:43","modified_gmt":"2008-02-12T11:18:43","slug":"renuncia-quaresmal-que-nao-chega-a-quem-precisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/renuncia-quaresmal-que-nao-chega-a-quem-precisa\/","title":{"rendered":"Ren\u00fancia quaresmal que n\u00e3o chega a quem precisa"},"content":{"rendered":"<p><i>Beneficiar quem n\u00e3o tem que comer, quem se viu privado de casa por alguma trag\u00e9dia natural, quem n\u00e3o tem emprego&#8230; <!--more--> Recordo uma conversa com o saudoso padre Armindo Duarte, ent\u00e3o p\u00e1roco do Campo Grande (Lisboa), h\u00e1 j\u00e1 uns quantos anos: dizia ele que a ren\u00fancia quaresmal n\u00e3o devia ficar em casa. Isso seria o mesmo que ajudar apenas a fam\u00edlia. E acrescentava que a Quaresma deveria ser, &#8220;antes de mais, um tempo de profunda revis\u00e3o de vida e de ren\u00fancia a tudo o que pode centrar o homem em si pr\u00f3prio e n\u00e3o em Deus&#8221;. Percebo, ao lembrar estas palavras, que falta uma intensa pedagogia da ren\u00fancia e da partilha fraterna. \u00c9 verdade que, colocados perante emerg\u00eancias graves (terramotos, inunda\u00e7\u00f5es,\u2026), os crist\u00e3os respondem com generosidade. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que essas situa\u00e7\u00f5es t\u00eam respostas generosas de toda a sociedade civil. Os crist\u00e3os n\u00e3o fazem mais que os outros, poder\u00edamos ent\u00e3o dizer. Onde os crist\u00e3os se devem distinguir dos outros \u00e9 no esp\u00edrito que aprendemos nos Actos dos Ap\u00f3stolos: &#8220;Eram ass\u00edduos ao ensino dos Ap\u00f3stolos, \u00e0 uni\u00e3o fraterna, \u00e0 frac\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e \u00e0s ora\u00e7\u00f5es. (\u2026) Todos os crentes viviam unidos e possu\u00edam tudo em comum&#8221; (2, 42; 44).  N\u00e3o se trata de fazer igual, mas de recriar, para os tempos de hoje, o mesmo esp\u00edrito. Ora, \u00e9 a\u00ed, na pedagogia e recria\u00e7\u00e3o da partilha, que as comunidades crist\u00e3s est\u00e3o a falhar. Que consci\u00eancia social temos dos pobres \u00e0 nossa volta, das milhares de fam\u00edlias que n\u00e3o t\u00eam o dinheiro suficiente para comer e satisfazer as suas necessidades b\u00e1sicas? Dizem os n\u00fameros que, em Portugal, s\u00e3o ainda vinte por cento da popula\u00e7\u00e3o: em cada cinco pessoas \u00e0 nossa volta, h\u00e1 quatro que vivem bem demais, porque uma vive mal demais. Claro que existe a ren\u00fancia quaresmal. Mas, desde h\u00e1 v\u00e1rios anos, sinto que esta iniciativa, t\u00e3o genu\u00edna e interpeladora na sua origem, est\u00e1 abastardada. Ela come\u00e7ou por ser um modo de nos mobilizarmos para apoiar outros, mais necessitados, renunciando a algum sup\u00e9rfluo do que era nosso. Hoje, ela \u00e9 uma forma tranquila de descansarmos a consci\u00eancia com mais um gesto sem consequ\u00eancias: no final da Quaresma, coloca-se uma ou duas notas no respectivo envelope que a par\u00f3quia forneceu, entrega-se e a vida continua.  H\u00e1 outro problema, colectivo: a maior parte dos destinos dados ao dinheiro recolhido na ren\u00fancia quaresmal (neste, como em outros anos) tem sido para a constru\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios e infra-estruturas eclesiais.  Sei que muitos deles s\u00e3o fora de Portugal, tal como de novo sucede este ano. Em v\u00e1rios casos, os beneficiados s\u00e3o os crist\u00e3os e as igrejas dos pa\u00edses lus\u00f3fonos, aos quais nos ligam la\u00e7os de hist\u00f3ria e fraternidade. Admita-se, portanto, que a ren\u00fancia quaresmal sai de casa, para utilizar a express\u00e3o do padre Armindo. Sai, sai de casa. Mas \u00e9, ainda, a nossa fam\u00edlia alargada que dela beneficia.  Serve a Quaresma, ainda, para alguma coisa? Interpela-nos o aut\u00eantico sentido da P\u00e1scoa? O que defendo, ent\u00e3o? Que um verdadeiro esp\u00edrito de partilha concretizado atrav\u00e9s da ren\u00fancia quaresmal deve beneficiar quem n\u00e3o tem que comer, quem se viu privado de casa por alguma trag\u00e9dia natural, quem n\u00e3o tem emprego. Deve optar, antes, por apoiar o que possam ser projectos de desenvolvimento que beneficiem as pessoas e n\u00e3o apenas infra-estruturas. H\u00e1 milh\u00f5es de pessoas no mundo sem nada, \u00e0 espera de poder beneficiar do progresso de que n\u00f3s j\u00e1 beneficiamos. Milh\u00f5es de pessoas que desejam, apenas, construir a sua vida. Enquanto n\u00f3s optamos por ajudar a construir paredes.  <i>Ant\u00f3nio Marujo, Jornalista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beneficiar quem n\u00e3o tem que comer, quem se viu privado de casa por alguma trag\u00e9dia natural, quem n\u00e3o tem emprego&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[206,275,91],"class_list":["post-29961","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-familia","tag-pascoa","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29961","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29961"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29961\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}