{"id":29958,"date":"2008-02-12T11:05:55","date_gmt":"2008-02-12T11:05:55","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/12\/dialogo-intercultural-um-desafio-inadiavel\/"},"modified":"2008-02-12T11:05:55","modified_gmt":"2008-02-12T11:05:55","slug":"dialogo-intercultural-um-desafio-inadiavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dialogo-intercultural-um-desafio-inadiavel\/","title":{"rendered":"Di\u00e1logo intercultural: um desafio inadi\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Tema da Semana C\u00e1ritas 2008 numa reflex\u00e3o de Roberto Carneiro sobre diversidade e semelhan\u00e7a <!--more--> 2008 \u00e9 o Ano Europeu do Di\u00e1logo Inter-cultural. Nunca, como actualmente, se imp\u00f4s com tamanha prem\u00eancia uma reflex\u00e3o apro-fundada sobre o di\u00e1logo entre culturas, a rela\u00e7\u00e3o entre vizinhos, a gest\u00e3o da diversidade. S\u00e3o v\u00e1rias as raz\u00f5es que conduziram \u00e0 emerg\u00eancia desta nova agenda. Avultam, entre outras, o \u201cachatamento\u201d do mundo (1) , a intensifica\u00e7\u00e3o dos movimentos migrat\u00f3rios (2) , a viol\u00eancia inter\u00e9tnica e a intoler\u00e2ncia entre povos (3) , as puls\u00f5es contradit\u00f3rias de hibrida\u00e7\u00e3o cultural e de identidades predat\u00f3rias (4) . Dito de outro modo, as categorias anal\u00edticas de compreens\u00e3o do mundo da velha ordem industrial s\u00e3o inadequadas \u2013 e manifestamente insuficientes \u2013 para descodificar o mundo da nova ordem p\u00f3s-moderna, individualista, complexa e intercultural. Nas palavras argutas de A. Touraine (5)  assiste-se ao fim da sociedade e ao nascimento do \u201csujeito\u201d \u2013 antes o indiv\u00edduo era produzido pela sociedade, nos seus comportamentos e no seu pensamento; agora, o contr\u00e1rio \u00e9 que \u00e9 verdade. O sujeito \u00e9 o protagonista do novo paradigma, entendido como algu\u00e9m que procura criar-se a si pr\u00f3prio, que se forma na vontade de escapar \u00e0s for\u00e7as, \u00e0s regras, aos poderes que nos impedem de ser n\u00f3s mesmos e na vontade de ser actor da sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Vivenciamos o as-censo do individualismo radical e, em concomit\u00e2ncia, a era da afirma\u00e7\u00e3o da especificidade cultural. O \u201cparadigma social\u201d\u00bb (s\u00e9culos XIX e XX) est\u00e1 em vias de ser subst\u00edtu\u00eddo por um novo \u201cparadigma cultural\u201d (s\u00e9culo XXI). Os direitos culturais constituem o pivot do novo paradigma. Estes n\u00e3o se con-fudem com os direitos pol\u00edticos, posto que se estes \u00faltimos devem ser atribu\u00eddos a todos os cidad\u00e3os, aqueles protegem, por defini\u00e7\u00e3o, popula\u00e7\u00f5es particulares. Emergem novas categorias interpre-tativas cerzidas em torno de tr\u00eas ideias-chave: (i) a decomposi\u00e7\u00e3o da ideia de sociedade ou decl\u00ednio do social, (ii) o avan\u00e7o n\u00e3o control\u00e1vel de for\u00e7as supra-sociais (v.g. guerra e mercado), (iii) o aumento das reivindica\u00e7\u00f5es culturais. Pairam no ar perguntas dif\u00edceis mas, nem por isso, menos pertinentes:  \u00b7 Como levar as culturas a dialogar entre si?  \u00b7 Podem os c\u00f3digos universais (ex. direitos humanos, modelo de governa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, \u00e9tica de sustentabilidade planet\u00e1ria) constituir-se em base duradoura de legitimidade supracultural para impor ordem no mundo?  \u00b7 Ser\u00e1 poss\u00edvel superar o risco maior do pluralismo sem convic\u00e7\u00e3o e do multiculturalismo sem integra\u00e7\u00e3o?  \u00b7 Como construir capital social em sociedades crescente-mente atomizadas e fragment\u00e1rias?  \u00b7 Ser\u00e1 vi\u00e1vel aspirar a uma cidade genuinamente intercultural alicer\u00e7ada na confian\u00e7a e na coopera\u00e7\u00e3o entre diferentes? \u00b7 Afigurar-se-\u00e1 vi\u00e1vel repensar um novo contrato social de cidade que a refunde a partir de uma nova vizinhan\u00e7a local? \u00b7 Ser\u00e3o reabilit\u00e1veis as inst\u00e2ncias b\u00e1sicas \u2013 e tradicionais \u2013 de socializa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria: fam\u00edlia, igrejas, escola? \u00b7 Haver\u00e1 lugar a uma did\u00e1ctica da inter-culturalidade capaz de viabilizar uma aldeia global onde a arte de viver juntos se cultiva em perman\u00eancia?  \u00b7 Far\u00e1 sentido reinventar a aventura comunit\u00e1ria assente em novos pressupostos de inclus\u00e3o e de perten\u00e7a m\u00faltiplas?  \u00b7 Ser\u00e1 vi\u00e1vel desacoplar cidadania e nacionalidade na busca de novos paradi-gmas de gest\u00e3o inteligente dos fluxos migrat\u00f3rios?  \u00b7 Poder\u00e1 a humanidade reabilitar a cultura e o di\u00e1logo intercultural como chave de interpreta\u00e7\u00e3o \u201cespessa\u201d da realidade?  \u00b7 &#8230; A Palavra vivida e o Di\u00e1logo aberto s\u00e3o, como sabemos, as bases para o Ecume-nismo. Como o demonstra a exposi\u00e7\u00e3o mundial de B\u00edblias em Roma, na Biblioteca Dom Bosco da Pontif\u00edcia Universidade Salesiana que atesta o facto extraordin\u00e1rio de que existe uma tradu\u00e7\u00e3o de ao menos um livro completo da B\u00edblia em 2.426 l\u00ednguas, enquanto a B\u00edblia completa foi traduzida em 429 idiomas e o Novo Testamento em 1.144, varrendo as mais diversas civiliza\u00e7\u00f5es. Oxal\u00e1 este convite \u00e0 partilha dial\u00f3gica possa contagiar outros a fazerem desta oportunidade um espa\u00e7o de densifica\u00e7\u00e3o de ideias e um tempo de debate elevado. Hoje, como desde sempre, uma prova do verdadeiro amor evang\u00e9lico est\u00e1 em amar o diferente, em ser pobre do outro, em conpreender que o outro n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a outra metade de mim pr\u00f3prio. E em ter a sabedoria de penetrar na plenitude de um mist\u00e9rio total da condi\u00e7\u00e3o humana: \u00b7 A grande riqueza humana est\u00e1 na diversidade. \u00b7 A grande riqueza humana est\u00e1 na semelhan\u00e7a. <i>Roberto Carneiro, Presidente do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Express\u00e3o Portuguesa\/UCP<\/i>  NOTAS: 1 Friedman, T.L. (2005). O Mundo \u00e9 Plano \u2013 Uma Hist\u00f3ria Breve do S\u00e9culo XXI. Lisboa: Actual Editora. 2 Carneiro, R. (2007). Europa: O Desafio da Diversidade e do Acolhimento. Lisboa: Conselho Econ\u00f3mico e Social (mimeo). 3 Huntington, S.P. (2006). O Choque das Civiliza\u00e7\u00f5es e a Mudan\u00e7a na Ordem Mundial. Lisboa: Gradiva. 4 Carneiro, R. (2001). \u00abChoque de Culturas ou Hibrida\u00e7\u00e3o Cultural\u00bb, in Fundamentos da Educa\u00e7\u00e3o e da Aprendizagem. Vila Nova de Gaia: Funda\u00e7\u00e3o Manuel Le\u00e3o. 5 Touraine, A. (2005). Um Novo Paradigma \u2013 Para compreender o mundo de hoje. Lisboa: Piaget.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tema da Semana C\u00e1ritas 2008 numa reflex\u00e3o de Roberto Carneiro sobre diversidade e semelhan\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[125,189,193,203,206,321],"class_list":["post-29958","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-caritas","tag-direitos-humanos","tag-educacao","tag-europa","tag-familia","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29958","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29958"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29958\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29958"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29958"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29958"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}