{"id":29926,"date":"2008-02-10T23:31:17","date_gmt":"2008-02-10T23:31:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/10\/catequese-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-1-o-domingo-da-quaresma\/"},"modified":"2008-02-10T23:31:17","modified_gmt":"2008-02-10T23:31:17","slug":"catequese-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-1-o-domingo-da-quaresma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/catequese-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-1-o-domingo-da-quaresma\/","title":{"rendered":"Catequese do Cardeal-Patriarca de Lisboa no 1.\u00ba Domingo da Quaresma"},"content":{"rendered":"<p><i>O Verbo eterno e o sil\u00eancio de Deus <!--more--> 1. O Santo Padre Bento XVI convocou o S\u00ednodo dos Bispos e prop\u00f4s-lhe como tema aprofundar o mist\u00e9rio da Palavra de Deus na vida e na miss\u00e3o da Igreja. As catequeses desta Quaresma situam-se nesse \u00e2mbito: elas representam o meu contributo pessoal para essa medita\u00e7\u00e3o de aprofundamento na Igreja de Lisboa.  A express\u00e3o \u201cPalavra de Deus\u201d, no seu uso corrente corre o risco de se banalizar. Refere-se, quase exclusivamente, ao texto escrito da Sagrada Escritura, rezada na ora\u00e7\u00e3o oficial da Igreja, proclamada na Liturgia, lida pessoalmente e em grupo. E todos conhecemos os limites deste uso da Sagrada Escritura. A express\u00e3o raramente se refere \u00e0 Palavra da Igreja, \u00e0 riqueza da Tradi\u00e7\u00e3o, \u00e0 mensagem dos acontecimentos da nossa vida; e raramente, com aquela express\u00e3o, nos referimos \u00e0 Palavra eterna de Deus, ao que Deus, na densidade do Seu mist\u00e9rio, pensa, quer, deseja para n\u00f3s, tem para nos dizer. E no entanto esse \u00e9 o sentido primeiro e decisivo da express\u00e3o \u201cPalavra de Deus\u201d. Todas as outras concretiza\u00e7\u00f5es pertencem j\u00e1 ao mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, em que Deus exprime, para n\u00f3s, a Sua Palavra eterna em linguagem humana. E esta s\u00f3 ser\u00e1, para n\u00f3s, Palavra de Deus, se nos fizer escutar o Senhor, se nos fizer tocar no cora\u00e7\u00e3o de Deus e entrar na Sua intimidade. S\u00f3 ent\u00e3o a Palavra de Deus \u00e9 criadora e redentora, transforma a nossa vida e nos leva a viv\u00ea-la em Deus, com Deus, partilhando da Sua verdade e do Seu amor.  Na situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da humanidade n\u00f3s s\u00f3 chegamos \u00e0 no\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia desta Palavra eterna de Deus, desta mensagem do cora\u00e7\u00e3o de Deus atrav\u00e9s da Encarna\u00e7\u00e3o, da revela\u00e7\u00e3o, que \u00e9 abertura do cora\u00e7\u00e3o de Deus em linguagem humana. Jesus Cristo \u00e9 a plenitude dessa humaniza\u00e7\u00e3o do Verbo eterno, dessa revela\u00e7\u00e3o \u00edntima de Deus. S\u00e3o Jo\u00e3o exprime este itiner\u00e1rio de Deus para Se revelar ao homem: \u201cA Deus nunca ningu\u00e9m O viu; o Filho \u00fanico, que est\u00e1 no seio do Pai, deu-no-l\u2019O a conhecer\u201d (Jo. 1,18). E Jesus Cristo \u00e9 a plenitude de um processo expresso na palavra prof\u00e9tica, na ac\u00e7\u00e3o de Deus em favor do Seu Povo, na Sua manifesta\u00e7\u00e3o \u00edntima ao cora\u00e7\u00e3o dos crentes. S\u00f3 atrav\u00e9s de Jesus Cristo e de toda a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o temos acesso ao cora\u00e7\u00e3o de Deus. Mas uma vez que o tivermos, somos convidados a mergulhar, pela f\u00e9 e pelo amor, nessa insond\u00e1vel Palavra eterna de Deus, a \u00fanica que nos salva e nos conduz \u00e0 plenitude da vida. A afirma\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o fala-nos do sil\u00eancio de Deus, do segredo do Seu mist\u00e9rio, mas tamb\u00e9m da possibilidade de quebrar esse sil\u00eancio e desvendar esse segredo, entrando em di\u00e1logo com Deus, em Jesus Cristo. Ele revela-nos Deus, ou melhor, Deus revela-Se-nos n\u2019Ele. E revelar significa abrir o cora\u00e7\u00e3o, comunicar uma intimidade que s\u00f3 o pr\u00f3prio pode partilhar. Mesmo entre n\u00f3s, humanos, ningu\u00e9m pode for\u00e7ar a intimidade do nosso cora\u00e7\u00e3o. S\u00f3 o pr\u00f3prio a pode revelar, em plena liberdade, sabendo que abrir o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 dar a outrem entrada no mais \u00edntimo da nossa vida.     O Verbo eterno na vida \u00edntima de Deus  2. Palavra sugere comunica\u00e7\u00e3o entre pessoas. Na sua plenitude de sentido, significa comunica\u00e7\u00e3o total entre pessoas que se amam e partilham tudo, n\u00e3o t\u00eam segredos umas para as outras. Ao termos tomado consci\u00eancia, em Jesus Cristo, que Deus \u00e9 uma comunidade de Pessoas, em perfeita comunh\u00e3o de vida e de amor, podemos intuir que entre essas Pessoas h\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o, h\u00e1 palavra. Santo Agostinho, que se lan\u00e7ou nessa aventura de, a partir da releva\u00e7\u00e3o e da f\u00e9, perscrutar a intimidade de Deus Trindade Sant\u00edssima, fala-nos de uma revela\u00e7\u00e3o cont\u00ednua entre as Pessoas divinas. Deus Pai diz-Se cont\u00ednua e totalmente no Filho; este acolhe esse dizer-se de Deus com amor, no amor que entra na rela\u00e7\u00e3o como Pessoa, o Esp\u00edrito Santo. Por isso o Filho Se identifica totalmente com a Palavra, Ele \u00e9 o Verbo. S\u00f3 em Jesus Cristo n\u00f3s podemos escutar o Pai e s\u00f3 o faremos plenamente com amor e no amor, no Esp\u00edrito.  A Encarna\u00e7\u00e3o, que \u00e9 caminho de revela\u00e7\u00e3o e que tem a sua plenitude em Jesus Cristo, o Verbo de Deus feito homem, significa que esse di\u00e1logo intra-divino, pode alargar-se \u00e0s criaturas. \u201cCom Agostinho (\u2026) podemos dizer: porque dentro de Deus h\u00e1 uma palavra que \u00e9 express\u00e3o total da divindade, \u00e9 poss\u00edvel uma ac\u00e7\u00e3o eterna que seja o reflexo parcial e multiplicado da divindade\u201d[1]. Este di\u00e1logo das Pessoas divinas alargado para fora de Deus, exprime-se, antes de mais, na Cria\u00e7\u00e3o. Deus cria para alargar essa experi\u00eancia de di\u00e1logo e de comunh\u00e3o. Mais, a Cria\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto desse di\u00e1logo intra-divino o que a torna, toda ela, uma express\u00e3o desse dizer-se eterno e silencioso de Deus. A rela\u00e7\u00e3o entre o Verbo eterno e a Cria\u00e7\u00e3o \u00e9 claramente expressa nos caminhos humanos da revela\u00e7\u00e3o. Do Verbo eterno, encarnado em Jesus Cristo, diz S\u00e3o Jo\u00e3o: \u201cNo in\u00edcio Ele estava com Deus, tudo foi feito por Ele e sem Ele nada existiu\u201d (Jo. 1,2-3). E S\u00e3o Paulo, falando da primazia de Jesus Cristo, diz: \u201cEle \u00e9 a imagem do Deus invis\u00edvel, primog\u00e9nito de toda a criatura, porque n\u2019Ele foram criadas todas as coisas, nos c\u00e9us e na terra, vis\u00edveis e invis\u00edveis\u201d (Col. 1,15-16). Trata-se da plena identifica\u00e7\u00e3o, em Jesus Cristo, da Palavra criadora, protagonista da cria\u00e7\u00e3o do c\u00e9u e da terra (cf. Gen. 1,1ss).  Esta rela\u00e7\u00e3o da Cria\u00e7\u00e3o com a Palavra eterna de Deus pertence ainda bastante ao sil\u00eancio de Deus, ao segredo do Seu mist\u00e9rio, mas situa a Cria\u00e7\u00e3o no contexto do di\u00e1logo das Pessoas divinas; o segredo do sentido da Cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 escondido no segredo de Deus. Vamo-lo captando \u00e0 medida que mergulhamos em Jesus Cristo, percebendo como Ele encerra o sentido de todas as coisas. Mas at\u00e9 \u00e0 Sua plena manifesta\u00e7\u00e3o, Jesus Cristo \u00e9, para n\u00f3s, a m\u00e1xima express\u00e3o do sil\u00eancio de Deus: essa \u00e9 a beleza e a exig\u00eancia da nossa f\u00e9, ela pr\u00f3pria express\u00e3o do nosso sil\u00eancio profundo.     3. Foi atrav\u00e9s da revela\u00e7\u00e3o de Deus na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o que cheg\u00e1mos \u00e0 not\u00edcia dessa Palavra eterna de Deus. Podemos captar nessa hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o os atributos com que essa Palavra eterna se nos manifestou.  J\u00e1 vimos que ela \u00e9 criadora e fonte de vida: \u201cEle era a vida de todos os seres\u201d (Jo. 1,4). S\u00f3 vive quem escuta a Palavra, entra nesse dizer-se de Deus Pai, no Seu Filho, Verbo eterno. Na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, todos os acontecimentos que Deus realiza em favor do Seu Povo s\u00e3o atribu\u00eddos \u00e0 Palavra.  \u00c9 luminosa, irradia\u00e7\u00e3o da luz e manifesta\u00e7\u00e3o da verdade. S\u00f3 escutando essa Palavra se capta o sentido da cria\u00e7\u00e3o. Na f\u00e9, essa luz ilumina o nosso cora\u00e7\u00e3o: \u201cE a vida era a luz dos homens e a luz brilhou nas trevas e as trevas n\u00e3o puderam acolh\u00ea-la\u201d (Jo. 1,4-5). Esta incapacidade de acolher a luz \u00e9, como veremos mais \u00e0 frente, uma das manifesta\u00e7\u00f5es, para n\u00f3s, do sil\u00eancio de Deus. Deus fica em sil\u00eancio porque n\u00f3s, nos nossos pecados, n\u00e3o O podemos escutar.  Ela \u00e9 vontade e des\u00edgnio. Deus tem uma vontade, interna \u00e0 comunh\u00e3o divina e acerca dos homens que criou. H\u00e1 um des\u00edgnio de Deus acerca da cria\u00e7\u00e3o e da humanidade. Fugir dele \u00e9 falhar a vida e a exist\u00eancia. Mas este des\u00edgnio \u00e9 um dos grandes segredos de Deus. Vemos que em Jesus Cristo esta vontade eterna de Deus \u00e9 um dos absolutos na Sua fidelidade e na Sua miss\u00e3o.  Mas finalmente essa Palavra \u00e9 amor, \u00e9 Palavra amorosa: \u201cDeus \u00e9 amor\u201d (1Jo.4,8-16), diz S\u00e3o Jo\u00e3o. \u00c9 por isso que o amor verdadeiro, mesmo entre os homens, \u00e9 o caminho para romper o sil\u00eancio de Deus e penetrar no Seu \u00edntimo. Acolher a Palavra significa, para os crist\u00e3os, conduzidos pelo Esp\u00edrito, respeitar os mandamentos do Senhor, que convergem todos para a caridade. E S\u00e3o Jo\u00e3o assegura: \u201cAquele que cumpre os seus mandamentos, permanece em Deus e Deus nele\u201d (1Jo. 3,24). E o Ap\u00f3stolo exorta: \u201cBem-amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor \u00e9 de Deus e aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus\u201d (1Jo. 4,7). Fica, assim, claro que s\u00f3 a caridade vence o sil\u00eancio de Deus, porque permite escutar a sua Palavra.  Bento XVI recorda-nos que a Palavra n\u00e3o \u00e9 exterior a Deus, antes brota do cora\u00e7\u00e3o de Deus. Porque Deus \u00e9 amor, a Sua Palavra \u00e9 express\u00e3o de amor. \u201cEsta Palavra n\u00e3o \u00e9 algo imposto ao homem de fora; ela \u00e9, na medida em que formos capazes de a receber, revela\u00e7\u00e3o da natureza do pr\u00f3prio Deus e assim explica\u00e7\u00e3o da verdade do nosso ser: \u00e9-nos desvendada a partitura da nossa exist\u00eancia, de modo a podermos l\u00ea-la e traduzi-la na vida. A vontade de Deus deriva do ser de Deus e, consequentemente, introduz-nos na verdade do nosso ser, liberta-nos da auto-destrui\u00e7\u00e3o pela mentira\u201d[2].     A luz e as trevas  4. \u201cDeus \u00e9 a luz e n\u2019Ele n\u00e3o h\u00e1 trevas\u201d (1Jo. 1,5). Isto mostra que as trevas, incapacidade de acolher a Palavra e penetrar na intimidade de Deus \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o do homem, provocada pelo pecado. O mesmo S\u00e3o Jo\u00e3o acrescenta: \u201cA luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram m\u00e1s\u201d (Jo. 3,19). Com a Sua Palavra, Deus tenta penetrar nestas trevas e espalhar a luz que brota do Seu amor. Jesus, a Palavra eterna, diz de Si Mesmo: \u201cEu sou a luz do mundo. Quem me segue (\u2026) ter\u00e1 a luz da vida\u201d (Jo. 8,12).  O sil\u00eancio de Deus, que significa a falta de di\u00e1logo e de conhecimento m\u00fatuo entre Deus e o homem, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica para o homem, motivada pelo pecado que deixou o homem insens\u00edvel \u00e0 Palavra de Deus, incapaz de a escutar e de entrar em comunh\u00e3o com Ele. Este sil\u00eancio que se abateu entre Deus e o homem magoa o cora\u00e7\u00e3o de Deus, porque contradiz a inten\u00e7\u00e3o divina na cria\u00e7\u00e3o: criar o homem \u00e0 Sua Imagem, algu\u00e9m a quem Ele pudesse falar e com quem partilhasse a Sua luz. Com o pecado, um pesado sil\u00eancio em rela\u00e7\u00e3o a Deus se abateu sobre a humanidade. \u00c9 tremenda para o futuro do homem esta realidade do pecado, que gera incapacidade de escutar o Senhor, mesmo quando se l\u00ea materialmente a Sua palavra escrita, se torna indiferen\u00e7a e desconhecimento de Deus e que leva a viver a vida sem Deus, mesmo que se diga que se acredita n\u2019Ele.  Deus n\u00e3o desiste de vencer estas trevas e de quebrar este sil\u00eancio. \u00c9 a sua pedagogia de salva\u00e7\u00e3o, que culmina na encarna\u00e7\u00e3o do Seu Filho, Palavra eterna, e que exige sempre, como ponto de partida, a reden\u00e7\u00e3o do pecado, a vit\u00f3ria sobre o pecado. Ao longo da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, toda a Palavra do Senhor \u00e9 luz que pretende vencer as trevas, Palavra que procura quebrar o sil\u00eancio. Como veremos adiante, este des\u00edgnio amoroso de salva\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 compreendido e aceite pelos homens, mesmo pelo Seu Povo. Um projecto que pretende quebrar o sil\u00eancio e restabelecer o di\u00e1logo, acaba por ser vivido no sil\u00eancio, por parte de Deus que s\u00f3 vencer\u00e1 essa dist\u00e2ncia na \u00faltima manifesta\u00e7\u00e3o da gl\u00f3ria do Verbo encarnado, e pelos homens que, mesmo aderindo a ele, o t\u00eam de viver na obscuridade da f\u00e9.   Na Homilia do passado Natal, afirmei que o ate\u00edsmo e a indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a Deus constituem o maior drama da humanidade.   Esta afirma\u00e7\u00e3o provocou v\u00e1rias reac\u00e7\u00f5es, quase sempre respeitosas, de quem aceitou debater quest\u00e3o t\u00e3o delicada, t\u00e3o generalizada no mundo de hoje e que \u00e9 atitude pessoal de pessoas concretas, que respeitamos. Este debate \u00e9 sadio e convidou-me a explicitar o sentido da minha afirma\u00e7\u00e3o.  Antes de mais \u00e9 preciso ter em conta que ela exprime a atitude de um crente, para quem Deus, um Deus vivo, \u00e9 a fonte decisiva do sentido da exist\u00eancia, a luz que, atrav\u00e9s da Sua Palavra, aponta caminhos, \u00e9 a for\u00e7a que nos torna capazes do que humanamente nos parece imposs\u00edvel, e a promessa de uma vida em plenitude que esperamos alcan\u00e7ar. Verdadeiramente quem acredita no Deus vivo e vive com Ele, n\u00e3o sabe imaginar a vida sem Deus, como certamente um descrente n\u00e3o pode imaginar o que \u00e9 viver com Deus. O caminho \u00e9 o debate sincero e respeitador das experi\u00eancias de cada um. Na perspectiva de um crente, o ate\u00edsmo generalizado, de modo particular o ate\u00edsmo pr\u00e1tico daqueles que, respirando o ambiente cultural que os rodeia, vivem como se Deus n\u00e3o existisse, \u00e9 um problema central da humanidade, que influencia o sentido da vida e a maneira de a viver. O crente \u00e9 continuamente interpelado pela Palavra viva do Deus vivo, perenemente pronunciada em Jesus Cristo. N\u00e3o poder escutar a Palavra de Deus \u00e9 privar-se da luz que pode iluminar toda a nossa vida e ficar limitado \u00e0 luz que brota do homem, tantas vezes distorcida pelos contextos culturais e hist\u00f3ricos.  A este problema eu chamei um \u201cdrama\u201d. Confesso estar influenciado pela linguagem teol\u00f3gica, marcada pela cultura cl\u00e1ssica. A\u00ed o \u201cdrama\u201d significa a exist\u00eancia humana, na sua busca do bem, da luz e da verdade, busca que sup\u00f5e uma luta e a coragem para vencer as for\u00e7as do mal, enquadrando o pr\u00f3prio sofrimento. A \u201ctrag\u00e9dia\u201d \u00e9, na cultura cl\u00e1ssica, a forma liter\u00e1ria que melhor enquadra este \u201cdrama\u201d. Um grande te\u00f3logo do nosso tempo, Urs Von Balthasar, partiu deste conceito cl\u00e1ssico de \u201cdrama\u201d para apresentar o mist\u00e9rio da reden\u00e7\u00e3o. Neste sentido a exist\u00eancia humana \u00e9 um \u201cdrama\u201d e Deus entra nesse \u201cdrama\u201d, quer O neguemos, quer nos abramos \u00e0 Sua luz. E a morte de Jesus Cristo, para reden\u00e7\u00e3o da humanidade, adensou esse \u201cdrama\u201d e apontou-lhe a sa\u00edda da esperan\u00e7a.     5. N\u00e3o temos not\u00edcia do que ter\u00e1 sido a exist\u00eancia do homem antes do pecado. Mas \u00e9 clara a convic\u00e7\u00e3o da Escritura de que o homem foi criado para a intimidade com Deus e para poder escutar a Sua Palavra. Isto significa que este sil\u00eancio que se instalou nas rela\u00e7\u00f5es do homem com Deus, para al\u00e9m da profundidade do mist\u00e9rio de Deus que exigiria sempre ao homem o vencer da sua finitude de criatura para conviver com Deus, \u00e9 motivado pelo pecado do homem. Este n\u00e3o perdeu completamente a capacidade de procurar Deus, mas s\u00f3 a Palavra revelada o far\u00e1 vencer os obst\u00e1culos do pecado e p\u00f4-lo em comunh\u00e3o com Deus. O Conc\u00edlio Vaticano II afirma a este respeito: \u201cO Santo Conc\u00edlio reconhece que Deus, princ\u00edpio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da raz\u00e3o humana, a partir das coisas criadas, mas ensina tamb\u00e9m que essas realidades divinas que n\u00e3o s\u00e3o inacess\u00edveis \u00e0 raz\u00e3o humana, podem, nas presentes condi\u00e7\u00f5es do g\u00e9nero humano, ser facilmente conhecidas por todos, com firme certeza e sem nenhuma mistura de erro, atrav\u00e9s da Revela\u00e7\u00e3o\u201d[3]. O ate\u00edsmo e o desconhecimento de Deus n\u00e3o se podem, assim, atribuir apenas \u00e0 falta de f\u00e9 na revela\u00e7\u00e3o sobrenatural; s\u00e3o tamb\u00e9m o resultado de um imperfeito uso da luz natural da raz\u00e3o.     Des\u00edgnio de salva\u00e7\u00e3o, o grande segredo de Deus  6. Quando as trevas do sil\u00eancio entre o homem e Deus se abateram sobre a humanidade devido ao pecado, Deus n\u00e3o abandonou o Seu des\u00edgnio de salva\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o desistiu de falar ao homem. Adaptou a realiza\u00e7\u00e3o desse des\u00edgnio amoroso \u00e0s circunst\u00e2ncias concretas da humanidade. Ele torna-se no acontecer da hist\u00f3ria, um des\u00edgnio de salva\u00e7\u00e3o.   Esta atitude salv\u00edfica de Deus \u00e9 designada, na Sagrada Escritura, por duas palavras: des\u00edgnio e segredo (mist\u00e9rio). Um des\u00edgnio n\u00e3o \u00e9 um programa; \u00e9 antes um desejo amoroso acerca das pessoas que se amam e n\u00e3o se desiste de p\u00f4r em pr\u00e1tica. O \u201cmist\u00e9rio\u201d, \u00e0 letra o \u201csegredo de Deus\u201d, exprime a mesma inten\u00e7\u00e3o amorosa, sublinha a sua dimens\u00e3o de segredo, concretiza\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio de Deus.  Podemos intuir, nos diversos textos b\u00edblicos, a natureza deste \u201csil\u00eancio de Deus\u201d acerca da Sua vontade salv\u00edfica. Mesmo que Deus o quisesse manifestar claramente desde o in\u00edcio, as \u201ctrevas\u201d do homem impedi-lo-iam de captar e compreender. O \u00fanico caminho \u00e9 p\u00f4-lo em ac\u00e7\u00e3o, intervir na vida dos homens, sobretudo do Povo de Israel, com gestos salv\u00edficos que o fa\u00e7am sentir a interven\u00e7\u00e3o amorosa de Deus. O segredo deste des\u00edgnio vai-se desvendando \u00e0 medida que os homens o sentem a realizar-se e confiam no Senhor. Nesse abandono confiante, abre-se, nos seus cora\u00e7\u00f5es, uma primeira possibilidade de escutar a Palavra do Senhor, que come\u00e7a a revelar-lhes o Seu des\u00edgnio, o sentido dos acontecimentos em que este presente e a promessa de que nunca abandonar\u00e1 o Seu Povo. Tra\u00e7a-se, assim, uma primeira regra para a escuta da Palavra de Deus: o homem s\u00f3 ouve a Palavra do Senhor quando fez a experi\u00eancia do Seu amor salv\u00edfico. Ouve-se melhor aquele que sentimos que nos ama e vem ao nosso encontro.  Porque a m\u00e1xima express\u00e3o deste des\u00edgnio salv\u00edfico de Deus \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o do Seu Verbo, que \u00e9 Filho, s\u00f3 em Jesus Cristo esse des\u00edgnio se revela definitivamente. Jesus Cristo, ao redimir a humanidade, \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o do \u201csegredo de Deus\u201d. Leiamos o texto da Carta aos Ef\u00e9sios sobre esta revela\u00e7\u00e3o do segredo de Deus, em Jesus Cristo, na Igreja:     \u201c\u00c0s gera\u00e7\u00f5es e aos homens do passado ele n\u00e3o foi dado a conhecer, como foi agora revelado aos seus santos ap\u00f3stolos e profetas, no Esp\u00edrito: os gentios s\u00e3o co-obreiros, membros do mesmo Corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus, por meio do Evangelho. Desse Evangelho eu me tornei ministro, pelo dom da gra\u00e7a de Deus que me foi concedida pela opera\u00e7\u00e3o do seu poder. A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta gra\u00e7a de anunciar aos gentios a insond\u00e1vel riqueza de Cristo e de p\u00f4r em luz a dispensa\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio oculto desde os s\u00e9culos em Deus, criador de todas as coisas, para dar agora a conhecer aos Principados e \u00e0s Autoridades nas regi\u00f5es celestes, por meio da Igreja, a multiforme sabedoria de Deus, segundo o des\u00edgnio pr\u00e9-estabelecido desde a eternidade e realizado em Cristo Jesus Nosso Senhor\u201d (Efs. 3,5-11).       7. Mas a revela\u00e7\u00e3o definitiva e completa deste segredo, deste des\u00edgnio misterioso de salva\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 a paruzia aquando da manifesta\u00e7\u00e3o definitiva da gl\u00f3ria de Jesus Cristo. Conhecemos desse plano de Deus o essencial em Jesus Cristo e na Igreja, o suficiente para conduzirmos a nossa vida segundo esse plano de Deus. Somos chamados a n\u00e3o planear a realiza\u00e7\u00e3o da nossa vida s\u00f3 com crit\u00e9rios naturais, se beneficiamos da interven\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus em Jesus Cristo. Todo o naturalismo na orienta\u00e7\u00e3o da nossa vida contradiz a revela\u00e7\u00e3o do plano de Deus que j\u00e1 nos foi feita em Jesus Cristo, em Quem podemos escutar completamente a Palavra do Senhor.  S\u00e9 Patriarcal, 10 de Fevereiro de 2008  <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca  &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;   [1] Luis Alonso SCHOKEL, La Palabra inspirada, pg. 20  [2] Bento XVI, Jesus de Nazar\u00e9, pg. 197  [3] Conc\u00edlio Vaticano II, Dei Verbum, n\u00ba 6  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Verbo eterno e o sil\u00eancio de Deus<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,295,127,144,246,267,91,311],"class_list":["post-29926","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-biblia","tag-catequese","tag-concilio-vaticano-ii","tag-liturgia","tag-natal","tag-quaresma","tag-sinodo-dos-bispos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29926","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29926"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29926\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29926"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29926"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29926"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}