{"id":299126,"date":"2023-10-01T09:30:38","date_gmt":"2023-10-01T08:30:38","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=299126"},"modified":"2023-09-30T23:24:44","modified_gmt":"2023-09-30T22:24:44","slug":"entrevista-temos-mais-quantidade-de-tempo-para-viver-e-bom-mas-nao-basta-maria-joao-valente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entrevista-temos-mais-quantidade-de-tempo-para-viver-e-bom-mas-nao-basta-maria-joao-valente\/","title":{"rendered":"Entrevista: \u00abTemos mais quantidade de tempo para viver. \u00c9 bom, mas n\u00e3o basta\u00bb &#8211; Maria Jo\u00e3o Valente"},"content":{"rendered":"<p><em>No dia 1 de outubro, o Dia Internacional das Pessoas Idosas por decis\u00e3o da ONU, a dem\u00f3grafa e professora universit\u00e1ria\u00a0 analisa o contexto do envelhecimento em Portugal, afirma que a maioria est\u00e1 dependente de transfer\u00eancias sociais e defende maior educa\u00e7\u00e3o e relacionamento entre gera\u00e7\u00f5es<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_299127\" aria-describedby=\"caption-attachment-299127\" style=\"width: 770px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/MJValenteRosa.webp\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-299127 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/MJValenteRosa.webp\" alt=\"\" width=\"770\" height=\"433\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/MJValenteRosa.webp 770w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/MJValenteRosa-400x225.webp 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/MJValenteRosa-768x432.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-299127\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Lusa<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Paulo Rocha (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que a sociedade e os governos olham para os nossos idosos?<\/em><em>\u00a0<\/em><em>\u00a0Este pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 para velhos?<\/em><em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Bem,\u00a0eu diria que este pa\u00eds,\u00a0\u00a0apesar de tudo,\u00a0\u00a0est\u00e1 hoje bem melhor do que estava no passado.\u00a0A pobreza extrema,\u00a0a falta de condi\u00e7\u00f5es de higiene e de sa\u00fade,\u00a0os comportamentos e estilos de vida\u00a0matavam muito precocemente.\u00a0\u00a0E eram muitas as pessoas que n\u00e3o tinham qualquer chance de chegar \u00e0s idades mais altas.\u00a0Isto \u00e9 muito importante lembrar.\u00a0Portanto,\u00a0hoje, para algu\u00e9m,\u00a0envelhecer \u00e9 melhor do que envelhecer no passado.<\/p>\n<p>E o panorama hoje em Portugal tamb\u00e9m \u00e9 muito diferente.\u00a0Existem muito mais pessoas nas idades superiores do que existiam no passado.\u00a0Lembro apenas que nas \u00faltimas cinco d\u00e9cadas, passaram a existir mais de cerca de 1,6 milh\u00e3o de pessoas com 65 ou mais anos.\u00a0\u00a0E que,\u00a0em 1970,\u00a0este grupo de 65 ou mais anos representava 10% da popula\u00e7\u00e3o e hoje j\u00e1 representa 23%. Ou seja,\u00a0cerca de 1 em cada 4 residentes em Portugal tem 65 ou mais anos.\u00a0Mas,\u00a0e aqui a grande quest\u00e3o, a raz\u00e3o para isto ter acontecido n\u00e3o foi um por acaso.\u00a0Ou seja,\u00a0esta evolu\u00e7\u00e3o,\u00a0que se saudou pelo aumento de pessoas nas idades superiores,\u00a0chamadas vulgarmente de velhos, aconteceu em resultado da diminui\u00e7\u00e3o da mortalidade.\u00a0E a diminui\u00e7\u00e3o da mortalidade \u00e9 muito fruto do desenvolvimento social.\u00a0Ou seja, hoje vivemos muito mais anos em m\u00e9dia do que no passado.\u00a0\u00c0 nascen\u00e7a temos a esperan\u00e7a de vida de 81\u00a0anos,\u00a0mais cerca de 14 anos do que era em 1970.\u00a0\u00a0E, aos 65 anos, a esperan\u00e7a de vida \u00e9 de cerca de 20 anos.\u00a0Ainda temos mais 20 anos pela frente,\u00a0quando chegamos aos 65.\u00a0Isto \u00e9 mais 6 anos que em 1970.\u00a0Portanto,\u00a0diria que vivemos em m\u00e9dia mais tempo e que temos mais quantidade de tempo para viver. \u00c9 bom, mas n\u00e3o basta.\u00a0\u00a0Ou seja,\u00a0muitos desses anos\u00a0nas idades superiores s\u00e3o vividos sem qualidade,\u00a0com problemas de sa\u00fade muito especial no caso das mulheres e em Portugal.\u00a0Ali\u00e1s,\u00a0Portugal,\u00a0no quadro da Uni\u00e3o Europeia,\u00a0\u00e9 um dos pa\u00edses com maior propor\u00e7\u00e3o de tempo de vida ap\u00f3s os 65 anos\u00a0sentido com incapacidades.\u00a0Isto \u00e9,\u00a0n\u00f3s temos mais tempo para viver,\u00a0mas muito desse tempo \u00e9 vivido com\u00a0problemas de sa\u00fade.\u00a0\u00a0N\u00e3o tem que ser assim,\u00a0mas est\u00e1 a s\u00ea-lo e, por isso,\u00a0quantidade e qualidade de anos de vida n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f3nimos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas isso quer dizer\u00a0que o cuidado que se tem com as pessoas<\/em><em>\u00a0<\/em><em>mais idosas n\u00e3o \u00e9 aquele que a sociedade deveria ter?<\/em><em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 vamos aos cuidados&#8230;\u00a0Mas eu gostaria ainda de notar que a qualidade de vida tem muito a ver\u00a0ou est\u00e1 muito relacionada com a escolaridade.\u00a0 Envelhecer bem,\u00a0envelhecer com qualidade,\u00a0a escolaridade \u00e9 aqui uma dimens\u00e3o importante para isso.\u00a0N\u00e3o s\u00f3 pelos maiores rendimentos que est\u00e3o associados, que fazem tamb\u00e9m aumentar a nossa capacidade de acesso a recursos,\u00a0designadamente de sa\u00fade,\u00a0como tamb\u00e9m pela maior consci\u00eancia e ado\u00e7\u00e3o de comportamentos e estilos de vida\u00a0menos nefastos para a sa\u00fade.\u00a0\u00a0Portanto, diria para j\u00e1 que estudar e ter estudos faz bem \u00e0 sa\u00fade e aumenta as hip\u00f3teses de envelhecer de forma mais\u00a0saud\u00e1vel e ativa.<\/p>\n<p>E, por isso,\u00a0uma das partes que pode ajudar a compreender este nosso envelhecer mal em Portugal ou menos bem do que em outros pa\u00edses,\u00a0tem a ver com a baix\u00edssima escolaridade das pessoas nas idades superiores.\u00a0Metade das pessoas com 65 ou mais anos tem no m\u00e1ximo o primeiro ciclo de escolaridade,\u00a0ou seja,\u00a0a antiga 4\u00aa classe.\u00a0\u00a0Portanto,\u00a0apesar de j\u00e1 vivermos muitos anos em m\u00e9dia, h\u00e1 aqui um aspeto\u00a0que \u00e9 muito importante a ter em conta.\u00a0\u00a0E \u00e9 claro que isto tem implica\u00e7\u00f5es na necessidade de cuidados,\u00a0como colocou a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o nas idades superiores,\u00a0de facto, \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o particularmente vulner\u00e1vel e,\u00a0\u00a0embora muitas vezes n\u00f3s tamb\u00e9m sejamos tentados a considerar os mais velhos\u00a0como um grupo homog\u00e9neo em que todos s\u00e3o iguais,\u00a0n\u00f3s n\u00e3o somos todos iguais quando chegamos a uma determinada faixa et\u00e1ria.\u00a0No entanto,\u00a0eu diria que o grupo,\u00a0de uma maneira geral, dos mais velhos,\u00a0\u00a0\u00e9 um grupo particularmente fr\u00e1gil,\u00a0quer em termos financeiros,\u00a0e isto \u00e9 muito importante ter em conta.\u00a0Em 2021,\u00a0quase 90% das pessoas com 65 ou mais anos seria pobre se n\u00e3o tivesse\u00a0transfer\u00eancias sociais.\u00a0Ou seja,\u00a0\u00a0ap\u00f3s as transfer\u00eancias sociais,\u00a0\u00a0que grande parte s\u00e3o as reformas e as pens\u00f5es,\u00a0este valor passa para 17%. A\u00a0esmagadora maioria da popula\u00e7\u00e3o mais velha seria pobre se n\u00e3o recebesse pens\u00f5es.\u00a0Isto coloca a popula\u00e7\u00e3o numa depend\u00eancia e numa vulnerabilidade financeira muito grande em rela\u00e7\u00e3o aos outros.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso que nos torna mais fr\u00e1geis.\u00a0Embora envelhecer n\u00e3o seja uma doen\u00e7a porque\u00a0sen\u00e3o n\u00f3s estar\u00edamos doentes desde que somos concebidos,\u00a0tamb\u00e9m acontece que o avan\u00e7ar na idade faz aumentar a preval\u00eancia de certas patologias,\u00a0nomeadamente,\u00a0doen\u00e7as cr\u00f3nicas e degenerativas.<\/p>\n<p>E o cuidado n\u00e3o se prende s\u00f3 com os cuidados de sa\u00fade.\u00a0\u00a0\u00c9 uma abrang\u00eancia maior nesse relacionamento com os idosos e que implica o cuidado.<\/p>\n<p>Claro, a sa\u00fade \u00e9 um\u00a0aspeto important\u00edssimo, mas tamb\u00e9m existem outras situa\u00e7\u00f5es igualmente importantes.\u00a0Tamb\u00e9m vimos a quest\u00e3o financeira e realmente a popula\u00e7\u00e3o idosa \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o onde prevalecem situa\u00e7\u00f5es de enorme pobreza.\u00a0E, para al\u00e9m disso, tamb\u00e9m temos\u00a0situa\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 solid\u00e3o e muitas vezes ao isolamento social,\u00a0que tornam\u00a0tamb\u00e9m este grupo particularmente fr\u00e1gil.<\/p>\n<p>Diria eu, para concluir, que no fundo chegar \u00e0s idades avan\u00e7adas poderia ser entendido como um enorme privil\u00e9gio.\u00a0Mas, de facto,\u00a0vivermos em idades avan\u00e7adas nem sempre nos traz grandes vantagens.\u00a0Isto porque o avan\u00e7ar na idade \u00e9 muitas vezes acompanhado de processos de fragiliza\u00e7\u00e3o individual e social\u00a0e que necessitam de prote\u00e7\u00f5es e de cuidados especial\u00edssimos de v\u00e1rios tipos. Esses grupos ficam muito afetados quando esses cuidados n\u00e3o existem ou n\u00e3o chegam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falou precisamente da quest\u00e3o da sa\u00fade.<\/em><em>\u00a0<\/em><em>\u00a0O acesso \u00e0 sa\u00fade \u00e9 tamb\u00e9m um grande problema em Portugal e uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica,<\/em><em>\u00a0<\/em><em>sobretudo junto da popula\u00e7\u00e3o mais idosa como sublinhou h\u00e1 instantes.<\/em><em>\u00a0<\/em><em>O que \u00e9 que podemos ou devemos esperar do Estado na procura de solu\u00e7\u00f5es para esta franja\u00a0de portugueses mais vulner\u00e1veis?<\/em><em>\u00a0<\/em><em>\u00a0H\u00e1 tamb\u00e9m uma preocupa\u00e7\u00e3o particular com a sa\u00fade mental?<\/em><em>\u00a0<\/em><em>O impacto da solid\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um desafio importante para ser abordado?<\/em><em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias quest\u00f5es que me coloca.\u00a0Mas,\u00a0em primeiro lugar,\u00a0penso que n\u00f3s devemos lembrar-nos que hoje, o presente, \u00e9 muito diferente do passado.\u00a0\u00a0Isto significa que as quest\u00f5es de sa\u00fade e os desafios que se colocam \u00e0 sa\u00fade nos obrigam a\u00a0rever e repensar o sistema tal como foi montado.\u00a0Porque hoje a resposta para problemas epis\u00f3dicos ou agudos em termos de sa\u00fade j\u00e1 n\u00e3o basta.\u00a0Portanto,\u00a0n\u00f3s temos situa\u00e7\u00f5es de multimorbididade,\u00a0que se juntam m\u00faltiplas doen\u00e7as ou problemas em cada uma das pessoas.\u00a0As doen\u00e7as cr\u00f3nicas e degenerativas s\u00e3o cada vez mais importantes.\u00a0A cura para um problema ou uma doen\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente.\u00a0\u00c9 preciso tamb\u00e9m apostarmos muito na preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O perfil das pessoas \u00e9 muito diferente do que era no passado.\u00a0N\u00f3s temos um panorama,\u00a0como eu comecei por dizer, em Portugal comparativamente ao que t\u00ednhamos no passado que \u00e9 muito diferente.\u00a0Isto obriga o Estado, os poderes p\u00fablicos e todos n\u00f3s a repensarmos as respostas que temos de dar perante estas novas realidades e exig\u00eancias.\u00a0\u00a0Por forma a que, de facto, aquilo que\u00a0est\u00e1 reconhecido na Constitui\u00e7\u00e3o, que todos t\u00eam direito \u00e0 prote\u00e7\u00e3o na sa\u00fade,\u00a0seja uma realidade para todos e n\u00e3o mais para uns do que para outros.\u00a0Normalmente\u00a0quando eu falo dos outros,\u00a0s\u00e3o as pessoas mais fr\u00e1geis,\u00a0pertencentes a grupos sociais mais baixos,\u00a0que ficam claramente neste momento\u00a0em enorme desvantagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade.\u00a0Portanto,\u00a0o Estado tem obriga\u00e7\u00e3o de encontrar\u00a0solu\u00e7\u00f5es que n\u00e3o sejam a r\u00e9plica ou mais do mesmo que t\u00ednhamos no passado e que funcionavam bem no passado, mas que j\u00e1 n\u00e3o funcionam bem nem no presente nem em rela\u00e7\u00e3o ao futuro.<\/p>\n<p>Sobre a sa\u00fade mental, \u00e9 claro que h\u00e1 aqui um problema muito grave.\u00a0Muitas das pessoas que v\u00e3o envelhecendo\u00a0v\u00e3o ficando expostas a\u00a0certos estere\u00f3tipos muito negativos e a sua capacidade cognitiva e de mem\u00f3ria muitas vezes diminuem em fun\u00e7\u00e3o disso,\u00a0e a solid\u00e3o fica muitas vezes refor\u00e7ada.\u00a0H\u00e1 aqui uma s\u00e9rie de aspetos que se combinam e que se combinam de uma forma muitas vezes dram\u00e1tica para muitos.\u00a0Por isso, \u00e9 essencial, na minha \u00f3tica, para o combate \u00e0 solid\u00e3o, refor\u00e7ar os la\u00e7os de intera\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Para tal, existe um aspeto que tem que obrigatoriamente ser combatido por todos.\u00a0\u00a0E esse aspeto chama-se o idadismo. Eu n\u00e3o gosto da palavra, mas \u00e9 assim que n\u00f3s a conhecemos.\u00a0\u00a0Ou seja, a discrimina\u00e7\u00e3o da pessoa em fun\u00e7\u00e3o da idade.\u00a0\u00a0Este preconceito \u00e9 terr\u00edvel e cria enormes problemas \u00e0s pessoas que, de um momento para o outro, se veem afastadas do seu quadro social apenas porque t\u00eam ou porque\u00a0atingiram uma determinada idade.\u00a0E as Na\u00e7\u00f5es Unidas realmente reconhecem, num relat\u00f3rio recente de 2021,\u00a0que o preconceito de idade prejudica o nosso bem-estar e a nossa sa\u00fade, incluindo a sa\u00fade mental, e constitui um obst\u00e1culo importante \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas eficazes e \u00e0 tomada de medidas para um envelhecimento saud\u00e1vel.\u00a0Ou seja, n\u00f3s podemos envelhecer de uma forma saud\u00e1vel, mas \u00e9 preciso removermos alguns obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que \u00e9 que aconselharia para\u00a0alterarmos este panorama?<\/em><em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Mais uma vez,\u00a0que n\u00f3s nos repens\u00e1ssemos perante uma sociedade que \u00e9 bem diferente, \u00e9 uma sociedade de vidas longas.\u00a0\u00a0As pessoas t\u00eam hip\u00f3tese, e bem, de viver\u00a0mais tempo.\u00a0Quem n\u00e3o gosta de viver bem, n\u00e3o \u00e9?\u00a0\u00a0Porque n\u00e3o basta s\u00f3 esticarmos anos \u00e0 vida. \u00c9 preciso que este b\u00f3nus, como eu ali\u00e1s dizia num livro recente que\u00a0publiquei, que se chama \u00abUm Tempo Sem Idades\u00bb&#8230; O\u00a0que nos tem acontecido \u00e9 que o b\u00f3nus de anos que temos vindo a ganhar,\u00a0no fundo,\u00a0tem correspondido a mais tempo para ser velho.\u00a0E era muito importante que existisse mais tempo para se viver,\u00a0para se viver em todas as idades.\u00a0Porque falar de envelhecimento n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 falar das pessoas mais velhas,\u00a0\u00e9 falar de todos.\u00a0Todos\u00a0n\u00f3s somos pessoas,\u00a0todos n\u00f3s temos um valor\u00a0no quadro da sociedade.\u00a0\u00a0E n\u00e3o podemos ser colocados \u00e0 margem por r\u00f3tulos v\u00e1rios, desde se somos homens ou mulheres,\u00a0a nossa origem ou a idade que temos.\u00a0Este \u00e9 o primeiro ponto,\u00a0remover esses obst\u00e1culos que criam ou que fragilizam a sociedade e que t\u00eam\u00a0enormes dificuldades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Infelizmente,<\/em><em> por<\/em><em> vezes,<\/em><em> e<\/em><em> com muita mais frequ\u00eancia que o que desejar\u00edamos,<\/em><em>\u00a0<\/em><em>chegam not\u00edcias de maus-tratos a idosos.<\/em><em>\u00a0<\/em><em>\u00a0E s\u00e3o tamb\u00e9m frequentes os relatos de lares de idosos sem condi\u00e7\u00f5es.<\/em><em>\u00a0<\/em><em>Neste nosso pa\u00eds,<\/em><em>\u00a0<\/em><em>o quarto mais envelhecido do mundo,<\/em><em> colocaria<\/em><em> a quest\u00e3o do abandono entre os principais problemas<\/em><em>\u00a0<\/em><em>dos idosos?<\/em><em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Bem,\u00a0eu penso\u00a0que,\u00a0por um lado,\u00a0os maus-tratos n\u00e3o t\u00eam apenas a ver, infelizmente,\u00a0com os idosos.\u00a0S\u00e3o tamb\u00e9m um problema relativo aos idosos, mas n\u00e3o s\u00e3o unicamente os idosos.\u00a0N\u00f3s tamb\u00e9m sabemos que existem maus-tratos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as.\u00a0Normalmente s\u00e3o os grupos mais fr\u00e1geis que s\u00e3o o alvo deste tipo de situa\u00e7\u00e3o.\u00a0Por outro lado,\u00a0diria que n\u00e3o \u00e9 por sermos um dos pa\u00edses mais envelhecidos do mundo que este problema dos maus-tratos se torna um problema grave.\u00a0E mesmo que f\u00f4ssemos o pa\u00eds mais envelhecido do mundo,\u00a0este problema do abandono de pessoas \u00e9 um problema grav\u00edssimo, sempre do ponto de vista social.\u00a0\u00a0E exige respostas\u00a0estruturadas e n\u00e3o avulsas de defesa e de seguran\u00e7a dos mais vulner\u00e1veis e que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia.\u00a0E essa,\u00a0diria eu,\u00a0\u00e9 uma das grandes miss\u00f5es do nosso Estado Social,\u00a0miss\u00e3o essa que nem sempre tem sido, como disse,\u00a0concretizada da melhor forma.\u00a0Portanto,\u00a0\u00e9 aqui que n\u00f3s devemos tamb\u00e9m colocar a nossa\u00a0maior aten\u00e7\u00e3o: ao abandono e a tudo que \u00e9 consequ\u00eancia desse\u00a0mesmo abandono, e olhando, em particular,\u00a0para os grupos mais fr\u00e1geis,\u00a0\u00a0mais vulner\u00e1veis,\u00a0quer do ponto de vista social,\u00a0quer do ponto de vista f\u00edsico,\u00a0\u00a0quer do ponto de vista financeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Papa Francisco defende uma maior intera\u00e7\u00e3o entre gera\u00e7\u00f5es.<\/em><em>\u00a0<\/em><em>Estamos a perder aos poucos essa importante liga\u00e7\u00e3o entre, por exemplo, av\u00f3s e netos?<\/em><em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso notar que hoje,\u00a0felizmente,\u00a0as hip\u00f3teses que os netos t\u00eam para conhecer\u00a0os seus av\u00f3s com vida,\u00a0av\u00f3s, bisav\u00f3s,\u00a0etc. s\u00e3o imensamente maiores do que no passado.\u00a0Isso \u00e9 muito bom!\u00a0Ali\u00e1s,\u00a0desde 2010,\u00a0em Portugal existem mais pessoas com 80 ou mais anos do que pessoas com menos de 5 anos,\u00a0ou seja,\u00a0existem cada vez mais av\u00f3s por crian\u00e7a.\u00a0\u00a0Portanto,\u00a0com vida,\u00a0as hip\u00f3teses s\u00e3o v\u00e1rias.\u00a0\u00a0No entanto,\u00a0o que acontece \u00e9 que,\u00a0com a rapidez da mudan\u00e7a,\u00a0muitas vezes as\u00a0dist\u00e2ncias geracionais v\u00e3o-se acentuando.\u00a0A\u00a0come\u00e7ar pelas diferentes linguagens,\u00a0que s\u00e3o usadas entre gera\u00e7\u00f5es, pelas diferentes redes de intera\u00e7\u00e3o social que se t\u00eam,\u00a0pelos diferentes espa\u00e7os p\u00fablicos em que as pessoas se movem e frequentam.\u00a0D\u00e1 por vez a sensa\u00e7\u00e3o de que,\u00a0apesar de termos muito mais gera\u00e7\u00f5es em presen\u00e7a do que existiam no passado, temos v\u00e1rios mundos a rodarem em\u00a0simult\u00e2neo.\u00a0Uns povoados por mais velhos e outros povoados por mais novos.\u00a0\u00a0Mas o mundo \u00e9 s\u00f3 um.\u00a0E nada disto, na minha perspetiva, faz sentido vivermos em mundos paralelos em nome da coes\u00e3o e da harmonia social.\u00a0E por isso \u00e9 muito importante fomentar a intera\u00e7\u00e3o entre diferentes gera\u00e7\u00f5es.\u00a0E como \u00e9 que isto se faz?\u00a0\u00a0H\u00e1 v\u00e1rias formas.\u00a0Mas eu diria que, por exemplo,\u00a0era essencial apoiar projetos\u00a0p\u00fablicos ou privados que promovessem a partilha,\u00a0as rela\u00e7\u00f5es inter-geracionais, atrav\u00e9s de partilha de espa\u00e7os e de saberes,\u00a0\u00a0que fossem transversais. Espa\u00e7os,\u00a0por exemplo,\u00a0escolas.\u00a0Por que raz\u00e3o?\u00a0As escolas deveriam ser frequentadas por v\u00e1rias idades e por todas as idades.\u00a0E aprender nas escolas,\u00a0independentemente das idades que temos,\u00a0saberes que interessam a todos.\u00a0Por exemplo,\u00a0saberes\u00a0e compet\u00eancias ligadas \u00e0 literacia financeira, \u00e0 literacia digital,\u00a0\u00a0s\u00e3o saberes que interessam a todos. Porque n\u00e3o encontrarmos espa\u00e7os importantes de partilha,\u00a0em que todas as gera\u00e7\u00f5es possam estar presentes? Talvez fosse assim um caminho para aproximarmos as gera\u00e7\u00f5es e para reduzirmos estas fissuras que se v\u00e3o\u00a0notando\u00a0em virtude de n\u00f3s nos envolvermos em mundos muitas vezes paralelos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ser\u00e1 necess\u00e1rio,<\/em><em> at\u00e9<\/em><em> na linha do que dizia,<\/em><em>\u00a0<\/em><em>\u00a0o maior\u00a0protagonismo aos mais velhos,<\/em><em>\u00a0<\/em><em>\u00a0rejeitando a ideia de descarte<\/em><em>\u00a0<\/em><em>que o Papa Francisco tanto tem denunciado?<\/em><em>\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Descartar, como disse h\u00e1 pouco,\u00a0as pessoas com base na idade,\u00a0pois na realidade a idade descrimina nesta sociedade, \u00e9 mau.\u00a0\u00c9 mau,\u00a0\u00e9 redutor,\u00a0por um lado, pois as pessoas, como n\u00f3s sabemos,\u00a0n\u00e3o s\u00e3o todas iguais e cada um de n\u00f3s \u00e9 muito mais do que a\u00a0idade que tem.\u00a0Nunca \u00e9 demais lembrar algumas das implica\u00e7\u00f5es que a discrimina\u00e7\u00e3o,\u00a0com base na idade, tem,\u00a0nomeadamente,\u00a0representa um desperd\u00edcio de capital humano incr\u00edvel.\u00a0\u00a0As pessoas,\u00a0a partir de certa idade,\u00a0s\u00e3o postas \u00e0 margem,\u00a0independentemente dos seus saberes e daquilo que ainda podem dar \u00e0 sociedade e contribuir para a sociedade.\u00a0H\u00e1 um desperd\u00edcio enorme de capital humano.\u00a0Tamb\u00e9m o facto de descartarmos as pessoas em fun\u00e7\u00e3o\u00a0da idade contribui tamb\u00e9m muito para um aumento,\u00a0como vimos h\u00e1 pouco,\u00a0das despesas com a sa\u00fade,\u00a0pelos efeitos que esta discrimina\u00e7\u00e3o pode ter na v\u00edtima,\u00a0ou seja,\u00a0naquela pessoa que \u00e9 discriminada.\u00a0Tamb\u00e9m esta discrimina\u00e7\u00e3o agrava riscos de fragilidade social,\u00a0de pobreza e acentua claramente a exclus\u00e3o social dos mais velhos.\u00a0Ou seja,\u00a0nada disto faz sentido.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s,\u00a0cada um de n\u00f3s,\u00a0cada pessoa tem um imenso valor e n\u00f3s temos de olhar para as pessoas e n\u00e3o nos descartarmos delas,\u00a0seja por que raz\u00e3o for.\u00a0Ali\u00e1s,\u00a0\u00a0\u00e9 estranho que numa sociedade como a nossa, cada vez mais dependente do conhecimento para obter algum dinamismo econ\u00f3mico,\u00a0 \u00e9 o conhecimento que faz a diferen\u00e7a entre o dinamismo econ\u00f3mico das\u00a0cidades. \u00c9 estranho que,\u00a0\u00a0sabendo que o conhecimento \u00e9 um valor que n\u00e3o tem idade,\u00a0\u00a0n\u00e3o \u00e9 por sermos mais velhos ou mais novos,\u00a0que somos mais conhecedores e sabedores.\u00a0 \u00c9\u00a0estranho que, numa sociedade como esta,\u00a0continuemos a pensar que a pessoa mais velha \u00e9 menos interessante para a sociedade que a pessoa mais nova.\u00a0Portanto,\u00a0\u00e9 preciso evitar ou combater esta chamada ditadura da idade.\u00a0E isso \u00e9 um passo\u00a0essencial e tamb\u00e9m repensarmos que a nossa vida, que est\u00e1 organizada de uma forma espartilhada em fases:\u00a0temos uma fase para forma\u00e7\u00e3o,\u00a0uma fase para trabalho e uma fase para descansar ou uma fase de reforma. Tal como n\u00f3s temos, este nosso mapa de vida\u00a0\u00a0j\u00e1 n\u00e3o nos serve para os dias de hoje de vidas longas,\u00a0foi pensado\u00a0 para uma situa\u00e7\u00e3o de vidas\u00a0curtas.\u00a0Portanto,\u00a0o que \u00e9 que n\u00f3s temos aqui como mensagem?\u00a0Temos que nos repensar enquanto sociedade,\u00a0para tirarmos os verdadeiros dividendos de vivermos mais tempo. De outro modo,\u00a0\u00a0viver mais tempo,\u00a0mais quantidade,\u00a0mas se essa quantidade n\u00e3o estiver associada \u00e0 qualidade,\u00a0\u00a0sinceramente, eu acho que estamos aqui a perder muito e grandes oportunidades.\u00a0\u00a0Portanto, dev\u00edamos estar satisfeitos porque temos mais idosos connosco,\u00a0mas \u00e9\u00a0preciso saber que hoje as pessoas mais velhas n\u00e3o s\u00e3o necessariamente bem tratadas pela nossa sociedade e por isso \u00e9 preciso olhar para elas. O\u00a0assunto do envelhecimento e da longevidade&#8230; N\u00f3s come\u00e7amos a envelhecer desde que nascemos,\u00a0portanto,\u00a0 temos de olhar para todos e por isso termos pessoas de v\u00e1rias idades \u00e9\u00a0uma riqueza social enorm\u00edssima e temos mesmo que aproveitar custe o que estar. Mas, para isso, precisamos de mudar a nossa forma de pensar e passarmos a pensar em fun\u00e7\u00e3o da realidade que hoje temos,\u00a0que \u00e9 uma realidade bem diferente da do passado e que nos permite viver mais anos e n\u00e3o continuarmos a pensar em fun\u00e7\u00e3o de uma realidade que t\u00ednhamos no passado e que felizmente essa mesma realidade j\u00e1 n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 1 de outubro, o Dia Internacional das Pessoas Idosas por decis\u00e3o da ONU, a dem\u00f3grafa e professora universit\u00e1ria\u00a0 analisa o contexto do envelhecimento em Portugal, afirma que a maioria est\u00e1 dependente de transfer\u00eancias sociais e defende maior educa\u00e7\u00e3o e relacionamento entre 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