{"id":29866,"date":"2008-02-07T11:16:42","date_gmt":"2008-02-07T11:16:42","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/07\/mensagem-do-arcebispo-de-braga-para-a-quaresma-2008\/"},"modified":"2008-02-07T11:16:42","modified_gmt":"2008-02-07T11:16:42","slug":"mensagem-do-arcebispo-de-braga-para-a-quaresma-2008","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-do-arcebispo-de-braga-para-a-quaresma-2008\/","title":{"rendered":"Mensagem do Arcebispo de Braga para a Quaresma 2008"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Quaresma &#8211; o dar-se como compromisso&#8221;  <!--more--> Nunca a vida foi t\u00e3o apressada como nos tempos actuais. Todos mergulhamos num sem n\u00famero de ocupa\u00e7\u00f5es e obriga\u00e7\u00f5es e quando nos parece ter um pouco de tempo livre, \u201cinventamos\u201d coisas para realizar.  \u00c9 neste ambiente que acontece a Quaresma. Podemos permitir que ela passe despercebida ou assuma um trajecto a percorrer, como crist\u00e3os e como fam\u00edlias. Gostaria de deixar uma palavra a toda a comunidade arquidiocesana. Se ela for acolhida, louvo ao Senhor; se ficar no esquecimento, cumpri o dever de sentinela da messe do Senhor a apontar caminhos de renova\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a.  O Programa Arquidiocesano \u2013 \u201cFam\u00edlia, dom e compromisso\u201d \u2013 leva-me, espontaneamente, a escolher um texto evang\u00e9lico extra\u00eddo da liturgia do terceiro domingo da Quaresma. Pode parecer conhecido; sendo ouvido com o cora\u00e7\u00e3o, provocar\u00e1 novidade de vida nas pessoas, nas fam\u00edlias e nas comunidades.  Refiro-me ao encontro de Cristo com a Samaritana (Jo. 4, 5-42), evidenciando alguns aspectos.   1. Jesus senta-se \u00e0 beira do po\u00e7o  Este gesto pode sublinhar a necessidade de escolher alguns lugares ou espa\u00e7os para parar. Os cansa\u00e7os, perplexidades, d\u00favidas, interroga\u00e7\u00f5es, \u2026 necessitam de momentos de serenidade para readquirir o equil\u00edbrio fundamental e prosseguir a caminhada.  2. Jesus DESCE AO N\u00cdVEL DA Samaritana  Jesus solicita \u00e0 mulher Samaritana, sabendo que os judeus n\u00e3o se entendiam nem falavam com os Samaritanos, \u00e1gua para beber. Nesta atitude podemos descortinar a exig\u00eancia do di\u00e1logo e da comunh\u00e3o \u00edntima a prop\u00f3sito das necessidades essenciais. O ego\u00edsmo e o individualismo fecham-nos, iludindo-nos no discernimento das melhores op\u00e7\u00f5es. A dimens\u00e3o comunit\u00e1ria, a n\u00edvel da fam\u00edlia, da comunidade, das amizades aut\u00eanticas \u00e9 constitutiva da vida humana e nunca pode ser desconsiderada.  O que acontece no di\u00e1logo natural e espont\u00e2neo a prop\u00f3sito das quest\u00f5es que inquietam e incomodam, deve ser transportado para um ambiente sacramental realizado na celebra\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia, individual e n\u00e3o colectiva, do sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o. Sabemos que, infelizmente, vai perdendo lugar na vida dos crist\u00e3os. As causas s\u00e3o variadas e deveriam ser examinadas a n\u00edvel de consci\u00eancia pessoal, por parte dos ministros e dos fi\u00e9is. Penso, por\u00e9m, que a superficialidade com que o Sacramento \u00e9 encarado pode explicar muitas coisas. A interioriza\u00e7\u00e3o faz descortinar as verdadeiras causas das op\u00e7\u00f5es, repetidas inadvertidamente e justificadas pela adapta\u00e7\u00e3o ao ambiente, e aponta caminhos de renova\u00e7\u00e3o pessoal que se ir\u00e3o repercutir na fam\u00edlia e na comunidade.  3. \u201cSE CONHECESSES O DOM DE DEUS\u2026\u201d  A paragem, sinal de sil\u00eancio interior, aliada \u00e0 partilha da vida no intuito de discernir caminhos de convers\u00e3o, conduz-me \u00e0 ideia central do Programa Pastoral que, recordo, apresenta o objectivo de nos tornarmos uma aut\u00eantica fam\u00edlia diocesana trabalhando para fazer com que as fam\u00edlias cres\u00e7am como \u201cdom\u201d e \u201ccompromisso\u201d. Daqui parto para a afirma\u00e7\u00e3o de Cristo \u00e0 Samaritana: \u201cSe conhecesses o dom de Deus e quem \u00e9 Aquele que te diz: \u201cD\u00e1-Me de beber\u201d, tu \u00e9 que Lhe pedirias e Ele te daria \u00e1gua viva\u201d (Jo 4, 10).  Nesta resposta encontramos o convite para querer conhecer \u201co dom de Deus\u201d e \u201cAquele\u201d que pede de beber. Duas realidades que se identificam e que exigem um trabalho de \u201creconhecimento\u201d do mesmo \u201cdom\u201d atrav\u00e9s de compromissos bem delineados.  S\u00e3o variados os caminhos que permitem este novo conhecimento e reconhecimento. Por muito esfor\u00e7o que fa\u00e7amos, estaremos sempre a sublinhar a import\u00e2ncia de realidades j\u00e1 conhecidas a que deveremos dar sentido novo.  Eis algumas sugest\u00f5es:  3.1. Conhecer o dom da interioridade  Criar ambiente de interioridade e espa\u00e7os de deserto para um estar a s\u00f3s com Aquele que quer dar de beber. A dispers\u00e3o empurra-nos para muitas actividades. Urge saborear a interioridade para nos tornarmos adoradores verdadeiros, em esp\u00edrito e verdade, que adoram Aquele que conhecem. Ele quer dar-se a conhecer e o grande dom desperdi\u00e7ado est\u00e1 aqui. O mundo moderno pode ter muitas fomes e sedes. A sede fundamental \u00e9 de realidades sobrenaturais de horizontes infinitos. Acolhendo a \u201c\u00e1gua\u201d que Ele nos quer dar, adquirimos a certeza de ser \u201cnascente\u201d que sacia aqueles com os quais contactamos.  \u2022 Reconhecer na Ora\u00e7\u00e3o e Palavra  O reconhecer este dom exprime-se em momentos, na vida pessoal e familiar, de ora\u00e7\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o a partir dum di\u00e1logo espont\u00e2neo com Deus sobre as vicissitudes da vida ou acolhendo, em leitura serena e tranquila, a sabedoria que a Palavra de Deus d\u00e1 \u00e1 nossa mente, ao nosso falar e ao nosso agir. Na verdade, o dom da Palavra \u00e9 tesouro a ser saboreado e assimilado nos contornos que encerram.  3.2. Conhecer a vida Trinit\u00e1ria  O \u201cdom de Deus\u201d \u00e9, estruturalmente, a vida comunit\u00e1ria da Sant\u00edssima Trindade. H\u00e1 modelos de exist\u00eancia e de fam\u00edlia que invadem as nossas mentalidades e as nossas casas. N\u00e3o contentar-se com o vulgar e o mais comum mas tentar ir para al\u00e9m do imediato \u00e9 mergulhar na comunh\u00e3o trinit\u00e1ria de tr\u00eas pessoas que testemunham a unidade na diversidade.  \u2022 Reconhecer na comunh\u00e3o relacional  Reconhecer o dom trinit\u00e1rio deve passar para o exerc\u00edcio permanente de comunh\u00e3o onde a individualidade de cada um integra as diferen\u00e7as que, por muito que queiramos, nunca se destroem. Elas n\u00e3o s\u00e3o concorrentes da felicidade pessoal mas o ambiente \u00fanico gerador da verdadeira alegria. A \u00edndole relacional \u00e9 um campo de iniciativas e apostas que nos colocam permanentemente perante desafios novos. A fam\u00edlia, o emprego, as comunidades s\u00e3o o terreno onde \u00e9 poss\u00edvel demonstrar o reconhecimento da d\u00e1diva do amor trinit\u00e1rio.  3.3. Conhecer a diferen\u00e7a crist\u00e3  Conhecer o dom de Deus \u00e9 deixar-se moldar por Ele. O divino vai penetrando para possuir, provocando uma identidade que nos diferencia de muitos outros estilos de vida. Deus n\u00e3o \u00e9 um concorrente com a vida humana, mas deve permear tudo o que a caracteriza numa plurifacetada express\u00e3o de comportamentos. Sublinha-se muito a diversidade oriunda da liberdade de consci\u00eancia. S\u00f3 que, nem sempre, conseguimos expressar a identidade de algo que tendo ra\u00edzes interiores se manifesta, talvez silenciosamente, no quotidiano complexo e dif\u00edcil.  \u2022 Reconhecer na ousadia da fidelidade  Da\u00ed que o compromisso, como reconhecimento, encontra a sua express\u00e3o mais eloquente no testemunho. O cristianismo nunca se pode reduzir a mera interioridade. Parte do invis\u00edvel mas deve tornar-se vis\u00edvel atrav\u00e9s de comportamentos que n\u00e3o necessitam de estat\u00edsticas para serem consideradas normais. Somos vocacionados para a universalidade mas teremos de ter a coragem de testemunhar fidelidade aos princ\u00edpios que o dom de Deus encerra. Nada mais premente que esta fidelidade \u00e0 pessoa de Cristo e aos princ\u00edpios e valores evang\u00e9licos, com car\u00e1cter de testemunho corajoso e p\u00fablico, na sociedade da \u201cfeira\u201d que prop\u00f5e \u201cprodutos\u201d enganadores. Como tantos outros poderemos \u201cbeber\u201d das \u00e1guas que quotidianamente nos oferecem. Importa ousar a coragem de beber da \u201c\u00e1gua que Eu lhe der\u201d \u201cpara nunca mais ter sede\u201d. Por isso, o testemunho emerge, como exig\u00eancia a viver na vida pessoal e familiar, e significa \u201crenunciar\u201d sendo diferente em todos os lugares, p\u00fablicos ou privados, para que a Igreja a\u00ed esteja presente. N\u00e3o desconsideramos as ren\u00fancias, abstin\u00eancias, jejuns prescritos. Existem outras com mais actualidade e rigor. Com elas pode nascer uma personalidade nova que, mesmo n\u00e3o sendo reconhecido por todos, elevar\u00e1 o mundo e apontar\u00e1 caminhos de esperan\u00e7a.  3.4. Conhecer o dom na criatividade do amor  Conhecer o dom de Deus significa, ainda, acolher uma semente. Na verdade, onde est\u00e1 Deus a\u00ed est\u00e1 a criatividade dum mundo de fraternidade nascido da consci\u00eancia dum Pai comum que congrega a humanidade numa aut\u00eantica fam\u00edlia. O \u201cdom de Deus\u201d n\u00e3o \u00e9 meu. \u00c9 um \u201cdom\u201d oferecido a todos atrav\u00e9s duma dignidade comum a defender e promover. Com ele recebemos o dinamismo duma vida que pretende saciar a sede de todos.  \u2022 Reconhecer a Partilha como fonte de \u00e1gua viva  Reconhecer o dom como semente exige que a partilha se torne experi\u00eancia para poder ir ao encontro dos mais necessitados e dotar a Igreja das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias de modo a que se torne capaz de oferecer a \u00e1gua viva de Cristo \u00e0 humanidade. Aqui situamos a ren\u00fancia quaresmal ou contributo Penitencial. Acolhemos o \u201cdom\u201d e renunciamos e partilhamos.  O Santo Padre, na mensagem para esta Quaresma, opta por concentrar-se nesta sugest\u00e3o \u201cque representa uma forma concreta de socorrer quem se encontra em necessidade e, ao mesmo tempo, uma pr\u00e1tica asc\u00e9tica para se libertar da afei\u00e7\u00e3o aos bens terrenos\u201d. A\u00ed recorda-nos que n\u00e3o somos \u201cpropriet\u00e1rios mas administradores dos bens que possu\u00edmos\u201d e interpela-nos a dar com alegria e para gl\u00f3ria de Deus com gestos de doa\u00e7\u00e3o escondidos e sem vangl\u00f3ria para nos sentirmos pr\u00f3ximos dos outros e de Deus. Nesta experi\u00eancia de doa\u00e7\u00e3o estamos a oferecer um an\u00fancio e testemunho de Cristo uma vez que peregrinamos em sintonia com o estilo que S. Paulo sintetiza afirmando: \u201cCristo fez-se pobre por n\u00f3s\u201d (2 Cor. 8, 9). Este \u201cestilo\u201d convida \u00e0 convers\u00e3o e adverte que se \u00e9 fundamental \u201cdar\u201d, \u00e9 imperioso \u201cdar-se\u201d. \u201cNa sua escola, podemos aprender a fazer da nossa vida um dom total: imitando-O conseguimos tornar-nos dispon\u00edveis para dar n\u00e3o tanto algo do que possu\u00edmos, mas darmo-nos a n\u00f3s pr\u00f3prios\u2026 Quando se oferece gratuitamente a si mesmo, o crist\u00e3o testemunha que n\u00e3o \u00e9 a riqueza material que dita as leis da exist\u00eancia, mas o amor\u201d.  4. Compromisso de Ren\u00fancia e Contributo Penitencial  Nesta perspectiva recordo as finalidades do nosso Contributo Penitencial:  4.1. Finalidades habituais  \u2013 Para o Fundo de Solidariedade com o qual a Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa responde \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o formuladas de todo o mundo;  \u2013 Para a constru\u00e7\u00e3o de Igrejas e espa\u00e7os de evangeliza\u00e7\u00e3o nas comunidades da nossa Arquidiocese com menos possibilidades.  4.2. Finalidades especificas da Quaresma 2008  Para este ano, e depois de ouvido o Conselho Presbiteral, determino que reverta, dum modo particular, para duas grandes causas: uma de dimens\u00e3o diocesana e outra como express\u00e3o mission\u00e1ria.  \u2013 O Centro Universit\u00e1rio, a edificar no Campus da Universidade do Minho, manifesta a aposta da Igreja Arquidiocesana no di\u00e1logo com a cultura, como pastoral a promover e a incentivar.  \u2013 A Igreja e a Resid\u00eancia Paroquial de Bolama, Diocese de Bafat\u00e1, na Guin\u00e9-Bissau, evoca uma presen\u00e7a portuguesa que continua a sentir-se e que deve crescer.  5. Conclus\u00e3o  Regresso ao texto que me acompanhou nesta mensagem. O convite de Cristo a conhecer o \u201cdom\u201d de Deus foi acolhido pela samaritana e muitos outros Lhe pediram que ficasse com eles. Ele ficou dois dias e eles quiseram \u201cficar com Ele\u201d. O resultado foi que acreditaram n\u00e3o s\u00f3 por causa da Palavra dita. Chegaram a uma experi\u00eancia pessoal \u201cN\u00f3s pr\u00f3prios ouvimos e sabemos que Ele \u00e9 realmente o Salvador do mundo\u201d (Jo 4, 42).   Como Arquidiocese quisemos concentrar-nos na realidade das nossas fam\u00edlias. Conhecemos o dramatismo de muitas situa\u00e7\u00f5es, consciencializamo-nos da exist\u00eancia de formas alternativas ao modelo crist\u00e3o, interiorizamos a for\u00e7a de propostas eivadas dum laicismo impressionante, vimos a vida amea\u00e7ada em todas as idades e desconsiderada na indignidade de muitas exist\u00eancias, advertimos a degrada\u00e7\u00e3o do amor na superficialidade de experi\u00eancias sexuais dentro e fora do matrim\u00f3nio, observamos as infidelidades e a pouca estabilidade de muitas situa\u00e7\u00f5es\u2026 Com tudo isto n\u00e3o cruzamos os bra\u00e7os. Pretendemos, atrav\u00e9s de propostas duma nova pastoral familiar a estruturar no final da caminhada, continuar a ser esperan\u00e7a para o mundo na op\u00e7\u00e3o \u00fanica de que Ele \u00e9 realmente o Salvador. A mudan\u00e7a cultural responsabiliza-nos. S\u00f3 o empenho e compromisso de todos permitir\u00e1 que a P\u00e1scoa aconte\u00e7a quotidianamente.  Quarta-feira de Cinzas, 06.02.2008   <i>\u2020 Jorge Ortiga, A. 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