{"id":29860,"date":"2008-02-07T09:40:16","date_gmt":"2008-02-07T09:40:16","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/07\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-de-quarta-feira-de-cinzas\/"},"modified":"2008-02-07T09:40:16","modified_gmt":"2008-02-07T09:40:16","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-de-quarta-feira-de-cinzas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-de-quarta-feira-de-cinzas\/","title":{"rendered":"Homilia do Cardeal-Patriarca de Lisboa na Missa de Quarta-Feira de Cinzas"},"content":{"rendered":"<p>A Beleza da Convers\u00e3o <!--more--> 1. Com esta celebra\u00e7\u00e3o na S\u00e9 Catedral a Igreja de Lisboa inicia a Quaresma, tempo de intensa prepara\u00e7\u00e3o da celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa neste ano da gra\u00e7a de 2008. A P\u00e1scoa \u00e9 o acontecimento decisivo da nossa f\u00e9, manifesta\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do amor misericordioso de Deus por n\u00f3s, garantia decisiva da nossa salva\u00e7\u00e3o. Celebrar a P\u00e1scoa \u00e9 reencontrar-se com a nossa identidade crist\u00e3, com a exig\u00eancia libertadora do seguimento de Jesus Cristo, com a consola\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a que nela encontramos, com a alegria da caridade, de nos sentirmos amados e de amarmos, porque Deus nos amou, com a ousadia do testemunho, dessa experi\u00eancia libertadora, no meio da cidade dos homens. Se queremos celebrar bem a P\u00e1scoa, n\u00e3o percamos tempo, ponhamo-nos a caminho, como Povo do Senhor e deixemos que Ele nos converta o cora\u00e7\u00e3o. Para vos atrair para esta caminhada, que quero percorrer convosco, decidi meditar sobre a beleza da convers\u00e3o. Esta significa, na realidade, uma experi\u00eancia de rara beleza e densidade; \u00e9 a surpresa da descoberta da verdadeira vida, como se nascesse de novo.  2. A convers\u00e3o n\u00e3o \u00e9, primariamente, uma correc\u00e7\u00e3o moral; esta acontecer\u00e1 naturalmente como express\u00e3o de um amor reencontrado. A convers\u00e3o \u00e9 a abertura do cora\u00e7\u00e3o a um amor esquecido, atrai\u00e7oado. Trata-se de recuperar uma fidelidade de amor, sup\u00f5e uma experi\u00eancia feita de ser amado e de amar: a convers\u00e3o \u00e9, necessariamente, uma mudan\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o. O seu contexto primordial \u00e9 o amor de Deus pelo Seu Povo, mist\u00e9rio de predilec\u00e7\u00e3o e de Alian\u00e7a. Por isso a Palavra do profeta, que \u00e9 a mensagem de Deus atrav\u00e9s dele, \u00e9: \u201cConvertei-vos a Mim de todo o cora\u00e7\u00e3o\u201d; \u201cConvertei-vos ao Senhor vosso Deus\u201d. \u201cN\u00f3s vos pedimos, em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus\u201d, escreve Paulo aos Cor\u00edntios. Foi o apelo de Jo\u00e3o Paulo II no in\u00edcio do seu Pontificado: Abri, de par em par, as portas do vosso cora\u00e7\u00e3o a Cristo! Mesmo humanamente, a beleza de um amor reencontrado \u00e9 mais intensa que a do primeiro amor. Situemos este desafio na vida concreta dos crist\u00e3os: quantos momentos intensos com Cristo, de intimidade experimentada, de fidelidade jurada, de projectos de vida assumidos, no Baptismo, na Confirma\u00e7\u00e3o, na Eucaristia, a que fomos depois infi\u00e9is, como se os tiv\u00e9ssemos esquecido. Quantos sentiram o apelo \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, experimentaram a do\u00e7ura da intimidade, viveram a rela\u00e7\u00e3o com Deus como uma experi\u00eancia de amor e depois n\u00e3o alimentaram essa intimidade, n\u00e3o foram fi\u00e9is a esse chamamento. Quantos experimentaram a alegria do amor fraterno e depois se foram tornando indiferentes, demasiadamente ocupados consigo mesmos. Outros viveram momentos de entusiasmo pela evangeliza\u00e7\u00e3o, manifestaram disponibilidade de partir para onde o Senhor os enviasse, e depois foram ficando, desanimados com os resultados ou incapazes de manter toda a vida a chama de um momento. Foram chamamentos a que n\u00e3o respondemos com radicalidade, experi\u00eancias de fidelidade e de comunh\u00e3o interrompidas pela nossa fragilidade ou pelo nosso pecado. E se nos situarmos no campo do amor humano, aquele que une as pessoas em projectos comuns de partilha e sustent\u00e1culo m\u00fatuo: promessas de amor eterno apaixonadamente juradas, projectos de servi\u00e7o da comunidade entusiasticamente constru\u00eddos e que morreram pela desist\u00eancia ou infidelidade. Converter-se \u00e9 rasgar o cora\u00e7\u00e3o, purificando-o na dor e tornando-o capaz de desejar regressar ao amor perdido ou atrai\u00e7oado. Os bra\u00e7os abertos de Deus nosso Pai, fonte de todo o verdadeiro amor, mais propenso \u00e0 miseric\u00f3rdia do que ao castigo, porque deseja mais do que n\u00f3s, o nosso reencontro com Ele, \u00e9 a fonte de uma alegria indescrit\u00edvel. Realmente, converter-se \u00e9 regressar ao amor perdido, \u00e9 sempre e em todas as circunst\u00e2ncias, converter-se ao Senhor nosso Deus.  3. A convers\u00e3o enquanto regresso confiante ao amor de Deus, faz-nos sentir que Ele, na Sua miseric\u00f3rdia, n\u00e3o s\u00f3 desiste do castigo merecido pelos nossos pecados, mas transforma estes em for\u00e7a, de certo modo, em gra\u00e7a, dando realismo \u00e0quela verdade que aprendemos no catecismo: \u201cDeus \u00e9 um Ser perfeit\u00edssimo\u2026 que sabe tirar o bem at\u00e9 do mal\u201d. \u00c9 o sentido da misteriosa afirma\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo Paulo: \u201cA Cristo, que n\u00e3o conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de n\u00f3s, para que em Cristo nos torn\u00e1ssemos justi\u00e7a de Deus\u201d. Cristo faz-Se pecado e identifica-Se com o nosso pecado, no acto mesmo em que o redime, na intensidade do Seu amor. Cristo, que n\u00e3o conheceu o pecado, s\u00f3 se pode identificar com o pecado se este se transformar em gra\u00e7a, em for\u00e7a de amor e justi\u00e7a de Deus. Na nossa convers\u00e3o, os nossos pecados n\u00e3o s\u00e3o apenas esquecidos, s\u00e3o transformados. Podem, at\u00e9, nem ser esquecidos, porque ser\u00e3o lembrados como experi\u00eancia de caridade, na humildade. Recordar os nossos pecados \u00e9 tomar consci\u00eancia da miseric\u00f3rdia, \u00e9 sentir mais profundamente a gratuidade do amor de Deus. Transformados em gra\u00e7a, fazem-nos abandonar numa confian\u00e7a renovada e sem limites, percebendo que nenhuma fraqueza ser\u00e1 obst\u00e1culo ao amor, se soubermos que o \u00fanico amor que redime e transforma \u00e9 o amor de Deus. Essa foi a intui\u00e7\u00e3o de Lutero ao afirmar: \u201cpeca fortiter, crede fortius\u201d \u2013 se pecares muito, acredita ainda mais \u2013 afirma\u00e7\u00e3o enfraquecida por n\u00e3o ter percebido que o pecado tem de ser convertido em gra\u00e7a, n\u00e3o nos bastando que Deus Se esque\u00e7a dele, e que para essa transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o basta a intensidade humana da nossa f\u00e9, mas \u00e9 precisa a ac\u00e7\u00e3o recriadora de Deus atrav\u00e9s do poder sacramental da Igreja.  4. A beleza da convers\u00e3o exprime-se, tamb\u00e9m, na sua simplicidade e discri\u00e7\u00e3o. \u201cRasgai o vosso cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o as vossas vestes\u201d. \u00c9 o ensinamento de Jesus, no Evangelho de S\u00e3o Mateus. O sil\u00eancio da verdade e da autenticidade. S\u00f3 interessa ser e n\u00e3o parecer. A convers\u00e3o n\u00e3o \u00e9 espect\u00e1culo, \u00e9 momento de intimidade. Ela s\u00f3 deve tornar-se not\u00f3ria aos outros, atrav\u00e9s dos frutos de um cora\u00e7\u00e3o renovado. Isto sugere que a convers\u00e3o \u00e9 um momento de forte intimidade com Deus. \u201cO Teu Pai, que v\u00ea o que est\u00e1 oculto, te dar\u00e1 a recompensa\u201d. E \u00e9 da intensidade desta intimidade que brota a sua beleza. Esta verdade do sil\u00eancio com Deus deve exprimir-se tamb\u00e9m na nossa vida p\u00fablica, na comunidade, na miss\u00e3o que desempenhamos, nos projectos que protagonizamos, nos meios que propomos para servir a Igreja. S\u00f3 n\u00e3o cairemos na auto-procura e auto-afirma\u00e7\u00e3o, se for muito forte a rela\u00e7\u00e3o com Deus, o \u00fanico que queremos servir. Neste aspecto h\u00e1 na nossa Igreja tanta ocasi\u00e3o de convers\u00e3o.  5. E se fosse poss\u00edvel viver a Quaresma como um tempo de busca de verdade e de autenticidade para todos os homens e mulheres rectos, com um desejo aut\u00eantico de servir, mas que n\u00e3o s\u00e3o capazes de ser coerentes com os seus prop\u00f3sitos e fi\u00e9is aos compromissos que assumiram? H\u00e1 muito ego\u00edsmo a vencer, muita superficialidade a colmatar, muita vaidade a corrigir. Mas o primeiro campo da convers\u00e3o \u00e9 o regresso ao amor amado, \u00e0 fidelidade interrompida, ao ideal desiludido. Venham todos connosco, fa\u00e7amos em conjunto um caminho de regresso \u00e1 liberdade e, quem sabe, talvez nesse regresso encontremos a ternura de Deus. \u00c9 que a P\u00e1scoa, sendo celebrada pela Igreja, \u00e9 sempre uma festa de toda a humanidade.  S\u00e9 Patriarcal, 6 de Fevereiro de 2008 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Beleza da Convers\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[237,275,91],"class_list":["post-29860","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-joao-paulo-ii","tag-pascoa","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29860"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29860\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}