{"id":29821,"date":"2008-02-06T10:46:58","date_gmt":"2008-02-06T10:46:58","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/06\/santo-egidio-e-a-paz-em-mocambique\/"},"modified":"2008-02-06T10:46:58","modified_gmt":"2008-02-06T10:46:58","slug":"santo-egidio-e-a-paz-em-mocambique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/santo-egidio-e-a-paz-em-mocambique\/","title":{"rendered":"Santo Eg\u00eddio e a paz em Mo\u00e7ambique"},"content":{"rendered":"<p>4 de outubro 1992. Domingo. Verdadeiramente a paz \u00e9 ressurrei\u00e7\u00e3o. A guerra \u00e9 morte. A paz \u00e9 vida. Festa de S\u00e3o Francisco, homem de paz. A paz \u00e9 o fim de um pesadelo. \u00c9 um nascimento. Por isso a celebramos. N\u00f3s assistimos \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de recurso \u00e0 guerra para resolver as tens\u00f5es. N\u00e3o. Di\u00e1logo n\u00e3o \u00e9 fraqueza ou fazer pacto com o mal! \u00c9 a \u00fanica via para p\u00f4r verdadeiramente fim \u00e1 viol\u00eancia para n\u00e3o aceitar que cres\u00e7am as infinitas sementes de divis\u00e3o ou se alimentem as intermin\u00e1veis cadeias de viol\u00eancia e de vingan\u00e7a. Para n\u00f3s de Sant&#8217;Egidio a media\u00e7\u00e3o mo\u00e7ambicana foi a prova da for\u00e7a d\u00e9bil dos crentes e dos homens de boa vontade, fruto do facto de n\u00e3o se ter outro interesse sen\u00e3o o da paz, o do di\u00e1logo, o da felicidade dos homens. \u00c9 uma forca que n\u00e3o pode impor e que deve fazer as contas com os enormes interesses e as raz\u00f5es da guerra. Para os crentes esta for\u00e7a vem do imperativo evang\u00e9lico de n\u00e3o ter inimigos. Do sonho de Deus que recolhe as l\u00e1grimas dos homens e n\u00e3o deixa de esperar que as espadas se possam transformar em foices, desarmando as m\u00e3os e os cora\u00e7\u00f5es dos homens. For\u00e7a que une os que cr\u00eaem no valor insubstitu\u00edvel da vida humana. Um segredo do acordo \u00e9 mesmo a sinergia, poderemos dizer a complementaridade. Devemos reflectir como, pelo contr\u00e1rio, se perdem oportunidades de paz mesmo por uma l\u00f3gica perso-nalista de pa\u00edses e organiza\u00e7\u00f5es. O acordo de Roma \u00e9 um dos poucos assinados e respeitados, sem revis\u00f5es. A media\u00e7\u00e3o (governo italiano, Comunidade de Sant&#8217;Egidio e D. Jaime Gon\u00e7alves) era variada na sua composi\u00e7\u00e3o, com actores n\u00e3o em concorr\u00eancia ou com l\u00f3gicas paralelas, mas unidos numa saud\u00e1vel e eficaz complementaridade. Pela Comunidade de Sant&#8217;Egidio n\u00e3o foi f\u00e1cil criar esta sinergia; orientar o apoio de toda a comunidade internacional: a sinergia precisa de humildade e paci\u00eancia.  As partes apressaram-se desde o in\u00edcio a reconhecer-se part\u00edcipes de &#8220;uma mesma fam\u00edlia&#8221;, encontrando, assim, mesmo no nacionalismo, um denominador comum importante, um alfabeto para escrever as regras da futura conviv\u00eancia pac\u00edfica.   <b>Chaves do sucesso<\/b> Porqu\u00ea em Roma? Em Mo\u00e7am-bique existia uma indubit\u00e1vel presen\u00e7a italiana sobretudo no \u00e2mbito da coopera\u00e7\u00e3o. Pol\u00edticos de diversas proveni\u00eancias tinham sempre seguido com interesse Mo\u00e7ambique, ajudando, por exemplo a escolha de Maputo para uma ades\u00e3o pragm\u00e1tica ao Ocidente sem rupturas dolorosas e dif\u00edceis. Estes elementos apesar de serem importantes, n\u00e3o teriam sido suficientes para motivar a escolha de Roma. Pelo contr\u00e1rio: poderiam desencadear na Renamo a suspeita para com um pa\u00eds tido como neutro, como grande parte da comunidade internacional. A escolha de Roma deriva do intenso e cont\u00ednuo trabalho de rela\u00e7\u00f5es e de confian\u00e7a desenvolvido pela Comunidade de Sant&#8217;Egidio, primeiramente com a FRELIMO (na d\u00e9cada de 80 atrav\u00e9s de m\u00faltiplas iniciativas de solidariedade &#8211; assim como os dois navios com milhares de toneladas de ajudas para as v\u00edtimas da seca &#8211; e de valoriza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds tais como a investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para doar aos Arquivos mo\u00e7am-bicanos as fontes existentes nas congrega\u00e7\u00f5es religiosas ou as exposi\u00e7\u00f5es em It\u00e1lia para dar a conhecer a arte do Pa\u00eds e n\u00e3o apenas os seus problemas) e seguidamente com a RENAMO. A Comunidade trabalhou em estreita colabora\u00e7\u00e3o com as Igrejas, apoiando e recolhendo o trabalho feito por estas para come\u00e7ar o di\u00e1logo.  Quando, secretamente, \u00e9 bom recorda-lo, as duas delega\u00e7\u00f5es se encontram em Sant&#8217;Egidio em Julho de 1990, dando assim in\u00edcio \u00e0 media\u00e7\u00e3o verdadeira, elas falaram de &#8220;divina coincid\u00eancia&#8221;: Com efeito, seja o Governo, com uma miss\u00e3o autorizada pelo Presidente Chissano em Mar\u00e7o de 1990, seja a Renamo, em Junho do mesmo ano, tinham pedido para realizar o primeiro encontro directo mesmo em Sant&#8217;Egidio.  O texto do Acordo de Paz \u00e9 um complexo, um conjunto de mecanismos e garantias, fruto de discuss\u00f5es as vezes extenuantes, &#8220;passo a passo&#8221;, sobretudo os aspectos da discuss\u00e3o. Os negociadores quiseram deixar pouqu\u00edssimas ambiguidades no texto, mesmo para evitar o risco de interpreta\u00e7\u00f5es divergentes e garantir-se uma aplica\u00e7\u00e3o do acordo ao abrigo de poss\u00edveis e perigosas discuss\u00f5es.  O m\u00e9todo era claro, extremamente flex\u00edvel ao mesmo tempo, escolhido mesmo pelo Governo e pela Renamo: encontros directos; nenhum contacto entre eles fora destes; eventuais reuni\u00f5es informais s\u00f3 na presen\u00e7a da facilita\u00e7\u00e3o; nenhum contacto com a imprensa; identifica\u00e7\u00e3o de uma agenda e solu\u00e7\u00f5es dos diversos pontos um por vez.  A chave de todo o Acordo est\u00e1, na minha opini\u00e3o, no Pre\u00e2mbulo. Era necess\u00e1rio conjugar a preocupa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima do Governo sobre a continuidade das institui\u00e7\u00f5es com a aspira\u00e7\u00e3o da RENAMO de criar novas regras comuns, nas quais confiar, sentidas como o fruto da sua luta. No Pre\u00e2mbulo o Governo comprometia-se a suspender de facto todas as leis que eventualmente estivessem em contradi\u00e7\u00e3o com o que fosse acordado em Roma; por seu lado, a RENAMO aceitaria o quadro institucional do pa\u00eds logo que fosse assinado o Acordo de Paz. Para se chegar a isto foram necess\u00e1rios mais de 12 meses. O m\u00e9todo do di\u00e1logo e da reconcilia\u00e7\u00e3o tem de se refor\u00e7ar a todos os n\u00edveis: n\u00e3o afirmar a sua convic\u00e7\u00e3o sem ter em conta o outro; n\u00e3o impo-la; procuramos sempre, como m\u00e9todo, o que une.  <i>Pe. Matteo Zuppi Comunidade de Santo Eg\u00eddio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>4 de outubro 1992. Domingo. Verdadeiramente a paz \u00e9 ressurrei\u00e7\u00e3o. A guerra \u00e9 morte. A paz \u00e9 vida. Festa de S\u00e3o Francisco, homem de paz. A paz \u00e9 o fim de um pesadelo. \u00c9 um nascimento. Por isso a celebramos. N\u00f3s assistimos \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de recurso \u00e0 guerra para resolver as tens\u00f5es. N\u00e3o. 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