{"id":297959,"date":"2023-09-24T09:19:08","date_gmt":"2023-09-24T08:19:08","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=297959"},"modified":"2023-09-24T09:18:46","modified_gmt":"2023-09-24T08:18:46","slug":"migracoes-europa-estamos-apenas-a-prender-as-pessoas-a-uma-situacao-de-sofrimento-isabel-martins-da-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/migracoes-europa-estamos-apenas-a-prender-as-pessoas-a-uma-situacao-de-sofrimento-isabel-martins-da-silva\/","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00f5es\/Europa: \u00abEstamos apenas a prender as pessoas a uma situa\u00e7\u00e3o de sofrimento\u00bb &#8211; Isabel Martins da Silva"},"content":{"rendered":"<p><em>Neste Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, celebrado pela Igreja Cat\u00f3lica, a jurista Isabel Martins da Silva, cofundadora da MEERU (ONGD de apoio \u00e0 integra\u00e7\u00e3o de refugiados), \u00e9 a convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_297744\" aria-describedby=\"caption-attachment-297744\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/isabel_martins_silva_RR-3.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-297744 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/isabel_martins_silva_RR-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1440\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/isabel_martins_silva_RR-3.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/isabel_martins_silva_RR-3-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/isabel_martins_silva_RR-3-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/isabel_martins_silva_RR-3-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/isabel_martins_silva_RR-3-1536x1152.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-297744\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Come\u00e7amos pela chegada de migrantes \u00e0 ilha italiana de Lampedusa e pelas propostas da presidente da Comiss\u00e3o Europeia para enfrentar o problema. No seu plano de a\u00e7\u00e3o, Ursula von der Leyen quer responsabilizar todos os Estados pelo acolhimento. N\u00e3o ser\u00e1 uma utopia, face \u00e0 manifesta falta de solidariedade entre Estados para tentar encontrar solu\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Sim, concordo. N\u00f3s, que trabalhamos nesta \u00e1rea, ouvimos com muita preocupa\u00e7\u00e3o o discurso de h\u00e1 uma semana, em Lampedusa, da presidente da Comiss\u00e3o Europeia. Nos \u00faltimos 10 anos tem-se insistido numa s\u00e9rie de solu\u00e7\u00f5es, muitas vezes ad hoc, que n\u00e3o s\u00e3o vinculativas para os Estados e percebemos que a solidariedade dos Estados europeus tem vindo a tornar-se cada vez menos presente. No contexto da crise migrat\u00f3ria, em 2015 &#8211; tamb\u00e9m \u00e9 um termo discut\u00edvel -, a\u00ed falh\u00e1mos os n\u00fameros. T\u00ednhamos criado uma s\u00e9rie de cotas, para cada Estado responder ao acolhimento de pessoas, e a\u00ed j\u00e1 falhamos. Passados 10 anos, com o cansa\u00e7o da Uni\u00e3o Europeia perante este assunto, creio que ainda ser\u00e1 mais dif\u00edcil encontrar coes\u00e3o na resposta a este desafio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Est\u00e1 pessimista, relativamente ao plano?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o gosto de ser pessimista, quero manter aqui um tom de esperan\u00e7a, mas preocupa-me muito, principalmente porque o plano foi anunciado da forma que foi, ou seja, com um tom securit\u00e1rio, de colocar toda a causa do problema nos contrabandistas que fazem a passagem destas pessoas para a Europa, n\u00e3o no tom que eu acho ser o certo, que \u00e9 o tom humanit\u00e1rio de recordar a dignidade inerente a cada uma destas pessoas, independentemente da sua travessia at\u00e9 \u00e0 Europa e as causas que a levaram a isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa quest\u00e3o, ali\u00e1s, da centralidade do combate aos contrabandistas e traficantes, tamb\u00e9m n\u00e3o deve levantar a preocupa\u00e7\u00e3o de criar rotas seguras, como, ali\u00e1s, insistem as organiza\u00e7\u00f5es de apoio aos refugiados?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Todas as organiza\u00e7\u00f5es no terreno dizem que o controlo do contrabando \u00e9 necess\u00e1rio. Obviamente. O problema \u00e9 que se n\u00e3o for de forma integrada com outras solu\u00e7\u00f5es, na verdade estamos apenas a prender as pessoas a uma situa\u00e7\u00e3o de sofrimento. Temos de, paralelamente, criar vias humanit\u00e1rias, legais, seguras de chegada \u00e0 Europa, mas nos \u00faltimos anos temos vindo a ver que n\u00e3o tem acontecido ou acontece de forma muito reduzida. Por isso sim, controlarmos o contrabando e o tr\u00e1fico de pessoas, mas ao mesmo tempo, e de forma legal, sem atirar poeira para os olhos \u2013 que \u00e9 o que temos feito nos \u00faltimos anos &#8211; conseguir efetivamente fazer com que estas pessoas possam aceder ao direito de asilo e procurarem prote\u00e7\u00e3o num pa\u00eds seguro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ainda relativamente \u00e0 quest\u00e3o da solidariedade, na verdade, o problema n\u00e3o atinge os 27 da mesma forma. Isso ajuda a compreender, de alguma forma, porque \u00e9 que a solidariedade entre eles \u00e9 um princ\u00edpio avulso ou pouco consistente?<\/em><\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o est\u00e1 muito dentro dos n\u00fameros e est\u00e1 a ouvir agora, a maioria destas pessoas, porque a geografia assim o dita, chega a pa\u00edses de fronteira, principalmente nos \u00faltimos anos, \u00e0 Espanha, atrav\u00e9s das Ilhas Can\u00e1rias, It\u00e1lia, Gr\u00e9cia, Chipre, Malta e h\u00e1 uma grande concentra\u00e7\u00e3o de pessoas nestas ilhas, nestes pa\u00edses de fronteira. O sistema europeu &#8211; e por isso \u00e9 que \u00e9 ou pode ser um erro, falarmos de uma crise migrat\u00f3ria, n\u00f3s que trabalhamos no terreno preferimos falar de uma crise na resposta europeia a este desafio -, o sistema de asilo at\u00e9 aos dias de hoje, faz com que estas pessoas tenham de estar concentradas nestes pa\u00edses, por aquilo que \u00e9 o Regulamento de Dublin. Ou seja, as pessoas t\u00eam de pedir prote\u00e7\u00e3o nos s\u00edtios onde chegam e por isso s\u00e3o de alguma forma concentradas nestes pa\u00edses. Aquilo que n\u00e3o temos conseguido, nos \u00faltimos anos, \u00e9 fazer com que haja programas estruturados e que fa\u00e7am com que estas pessoas sejam recolocadas destes pa\u00edses de fronteira para outros pa\u00edses, como \u00e9 o caso de Portugal, Fran\u00e7a, Alemanha, por a\u00ed fora\u2026<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o \u00e9 que as pessoas sejam n\u00fameros, mas vamos lembrar alguns. Desde 2014, estima-se que tenham morrido mais de 17 mil pessoas s\u00f3 no Mediterr\u00e2neo ocidental. Tal talvez por isso \u00e9 que o Papa diga que o Mediterr\u00e2neo e o Norte de \u00c1frica s\u00e3o cemit\u00e9rios de migrantes. Falta aqui uma aposta mais consistente na tentativa de encontrar solu\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m a montante, ou seja, nos pa\u00edses de origem desses fluxos migrat\u00f3rios?<\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 agosto deste ano, os n\u00fameros eram mais de 2 mil pessoas mortas Mediterr\u00e2neo e acho que \u00e9 importante, muito importante, relembrarmos estes n\u00fameros porque nos \u00faltimos dez anos, de alguma forma, nos t\u00eam dito que temos conseguido resolver o problema. Na verdade, se formos aprofundar um bocado a quest\u00e3o, percebemos que, aliada \u00e0s pol\u00edticas antimigrat\u00f3rias que se praticaram na Gr\u00e9cia, em It\u00e1lia, os n\u00fameros de chegadas diminu\u00edram, mas os n\u00fameros de mortes mantiveram-se altos, ou seja, significa que as pessoas continuaram a arriscar as passagens, mas existia menos prote\u00e7\u00e3o no mar e as viagens tornaram-se mais arriscadas.<\/p>\n<p>Voltando aqui \u00e0 mensagem deste dia e do Papa Francisco, que nos relembra que o programa, este fen\u00f3meno \u00e9 muito complexo: n\u00e3o podemos nunca olhar s\u00f3 para as chegadas, nem s\u00f3 para as travessias, nem s\u00f3 para os pontos de partida dessas pessoas. Temos de olhar para isto como um desafio complexo, no seu todo. Focarmo-nos, mais uma vez, na quest\u00e3o dos contrabandistas \u00e9 ignorar, primeiro, que estas pessoas t\u00eam a sua pr\u00f3pria vontade e a sua capacidade de decis\u00e3o. No limite, as pessoas decidem partir, independentemente da influ\u00eancia que estes contrabandistas t\u00eam no seu processo de vida.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, concentrarmo-nos nisto \u00e9 esquecermos todas as causas de viol\u00eancia, persegui\u00e7\u00e3o, pobreza, mis\u00e9ria que estas pessoas vivem nos pa\u00edses antes de chegarem a pa\u00edses como a Tun\u00edsia, Egito, L\u00edbia\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Precisamente a Tun\u00edsia&#8230; A solu\u00e7\u00e3o pode passar pelo pagamento de avultados montantes a pa\u00edses os que referiu, para fazer estancar ou conter este fluxo migrat\u00f3rio?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que n\u00e3o. Ou poderia ser poderia ser uma op\u00e7\u00e3o, se fossem pa\u00edses com quem a Uni\u00e3o Europeia pudesse negociar, confi\u00e1veis, mas e aquilo que temos visto \u00e9 que n\u00e3o s\u00e3o. A Tun\u00edsia, nos \u00faltimos tempos, desde que o presidente Ka\u00efs Sa\u00efed chegou de forma imposta ao Governo por um golpe de Estado\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fala-se de um presidente racista\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Aquilo que temos visto, n\u00e3o estamos a supor, se formos ler aquilo que o presidente tem dito, \u00e9 que \u00e9 preciso contrariar supostamente esta invas\u00e3o negra, porque a Tun\u00edsia est\u00e1-se a transformar num Estado negro e n\u00e3o num Estado \u00e1rabe. Tem havido mesmo discurso contra as pessoas africanas e, no m\u00eas em que foi feito o acordo de que falamos, entre a Uni\u00e3o Europeia e a e a Tun\u00edsia, h\u00e1 registo &#8211; v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias t\u00eam provado isso &#8211; de que cerca de 600 pessoas foram colocadas por autoridades tunisinas na fronteira com a L\u00edbia, \u00e0 for\u00e7a, no deserto, completamente desamparadas. Claro que estas pessoas se sujeitam a redes de contrabando, quando est\u00e3o no meio do deserto e s\u00e3o as \u00fanicas solu\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o se compreende, ent\u00e3o, um acordo destes? <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, compreende-se este acordo como uma forma de desresponsabiliza\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia e de externaliza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o de fronteiras, entregando a um problema, que tamb\u00e9m \u00e9 nosso, a uma s\u00e9rie de parceiros que, a nosso ver violam direitos humanos e p\u00f5em em causa a prote\u00e7\u00e3o dos direitos das pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos olhar agora um bocadinho mais para a sua rela\u00e7\u00e3o pessoal com estas quest\u00f5es e come\u00e7o por lhe perguntar, como \u00e9 que surgiu esta organiza\u00e7\u00e3o MEERU | Abrir Caminho? <\/em><\/p>\n<p>Eu estou, de alguma, forma ligada ao acolhimento de pessoas refugiadas desde 2016, porque foi acolhida na minha par\u00f3quia de Santiago de Carape\u00e7os (Arquidiocese de Braga) uma fam\u00edlia s\u00edria, no contexto das grandes chegadas p\u00f3s-primavera \u00e1rabe.<\/p>\n<p>Desde a\u00ed, por uma s\u00e9rie de cruzamentos com outras pessoas que estavam ligadas \u00e0 plataforma de apoio aos refugiados, que surgiu neste contexto, fiz miss\u00e3o em Lesbos e em Atenas, no contexto urbano, tamb\u00e9m de acolhimento de pessoas refugiadas.<\/p>\n<p>Apos estas experi\u00eancias, fazia sentido perceber o que faltava fazer em Portugal, que respostas ainda n\u00e3o existiam. Rapidamente percebemos que n\u00e3o basta acolher, \u00e9 preciso perceber a forma como o estamos a fazer.<\/p>\n<p>A MEERU surge com o objetivo de tornar o acolhimento focado nas rela\u00e7\u00f5es e fazer com que, nas comunidades portuguesas que acolhem pessoas refugiadas e migrantes, no futuro n\u00e3o surjam tens\u00f5es por causa de quest\u00f5es culturais, por causa de quest\u00f5es religiosas. Focamo-nos em promover rela\u00e7\u00f5es significativas, rela\u00e7\u00f5es profundas de amizade entre quem acolhe e entre quem \u00e9 acolhido, de forma que, um dia, nem se perceba esta dicotomia acolhedor-acolhido.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Quantas fam\u00edlias \u00e9 que ajudam atualmente?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Neste momento, temos mais ou menos 130 pessoas na nossa comunidade, o que significa 32 fam\u00edlias que acompanhamos em fases diferentes, ao longo dos \u00faltimos quatro anos. Tamb\u00e9m com um universo mais ou menos de 100 a 120 volunt\u00e1rios, porque o que n\u00f3s fazemos \u00e9 ir a comunidades portuguesas no norte litoral e encontrar pessoas locais a quem chamamos volunt\u00e1rios. Na verdade, s\u00e3o amigos que formam equipas de proximidade, que cujo objetivo n\u00e3o \u00e9 arranjar emprego, ou arranjar casa; ou seja, o objetivo n\u00e3o \u00e9 dar resposta \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es imediatas, pois a essas j\u00e1 h\u00e1 quem as fa\u00e7a.<\/p>\n<p>O que as nossas equipas t\u00eam como miss\u00e3o \u00e9 criar uma rela\u00e7\u00e3o horizontal, que n\u00e3o seja s\u00f3 de assist\u00eancia, mas numa rela\u00e7\u00e3o de amizade com estas pessoas que possa criar coes\u00e3o, e ao mesmo tempo, criar aqui n\u00e3o apenas uma rela\u00e7\u00e3o de v\u00edtima e de pessoa que ajuda, mas aqui uma rela\u00e7\u00e3o horizontal de amizade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E tem-se promovido de alguma forma a fixa\u00e7\u00e3o?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um desafio ainda. Das 32 fam\u00edlias com que trabalhamos, nos \u00faltimos anos, perto de 10 abandonaram o pa\u00eds. Isto porque continua a ser um desafio muito grande, fazer com que estas pessoas ao final do programa de acolhimento que, para quem n\u00e3o conhece &#8211; neste momento s\u00e3o 18 meses com fundos europeus que apoiam o acolhimento &#8211; \u00e9 muito dif\u00edcil no final de 18 meses fazer aquilo que na teoria se espera. Que \u00e9 que essas pessoas sejam aut\u00f4nomas, consigam aceder mercado da habita\u00e7\u00e3o. E aquilo que temos vindo a perceber \u00e9 que a maior causa que leva a que essas pessoas partam para o centro da Europa \u00e9 efetivamente n\u00e3o conseguirem pagar rendas &#8211; alt\u00edssimas rendas que tamb\u00e9m o s\u00e3o para os portugueses. N\u00e3o conseguirem arrendar tamb\u00e9m porque ainda h\u00e1 alguma resist\u00eancia a arrendar a pessoas migrantes, que ainda est\u00e3o com um, com alguma instabilidade financeira. Eu tenho alguma esperan\u00e7a e tem sido positivo o nosso caminho, mas ainda assim h\u00e1 muitos desafios que levam a que n\u00e3o seja uma solu\u00e7\u00e3o duradoira duradoura e que o percurso migrat\u00f3rio ainda continue muito desafiador no centro de Europa, e em particular de Portugal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Qual \u00e9 a origem da maioria das fam\u00edlias que acompanham?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Isso \u00e9 bonito na nossa comunidade, porque n\u00f3s quando fundamos a MEERU percebemos que n\u00e3o \u00edamos limitar o nosso trabalho aquelas categorias que normalmente nos simplificam a realidade, ou seja, n\u00e3o \u00edamos trabalhar nem s\u00f3 pessoa com pessoas refugiadas, nem s\u00f3 com pessoas migrantes ou com pessoas em situa\u00e7\u00e3o regular ou irregular. Aquilo que n\u00f3s definimos foi que iriamos trabalhar com pessoas migrantes, independentemente do seu estatuto jur\u00eddico, do momento de chegada a Portugal. Isto leva-nos a ter na nossa comunidade pessoas iraquianas, pessoas s\u00edrias, pessoas dos camar\u00f5es, pessoas indianas, pessoas do Bangladesh, pessoas do Congo, ou seja, assim, uma comunidade muito diversa. Tamb\u00e9m religiosamente diversa o que \u00e9 interessante.<\/p>\n<p>Isto tamb\u00e9m nos ajuda a perceber que independentemente do ponto de partida, do que levou as pessoas a partir; seja para virem trabalhar ou por terem fugido por causa de uma guerra ou persegui\u00e7\u00e3o, chegando a Portugal, a necessidade de rela\u00e7\u00e3o e a necessidade de integra\u00e7\u00e3o exatamente a mesma.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Eu fa\u00e7o uma pergunta que tem a ver com a origem de alguns desses migrantes. <\/em><em>Quais s\u00e3o as principais de integra\u00e7\u00e3o \u00e9 que conseguem identificar?<\/em><\/p>\n<p>Existe sempre a quest\u00e3o da l\u00edngua. Principalmente quando falamos por exemplo das fam\u00edlias \u00e1rabes. Os adultos muitas vezes s\u00f3 tiveram alfabetiza\u00e7\u00e3o no alfabeto \u00e1rabe o que dificulta muito depois a aprendizagem da l\u00edngua portuguesa. Temos tamb\u00e9m muitas dificuldades no reconhecimento de uma s\u00e9rie de compet\u00eancias que as pessoas j\u00e1 tinham, quer profissionais, quer acad\u00e9micas.<\/p>\n<p>E depois eu diria que a quest\u00e3o da fixa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da habita\u00e7\u00e3o \u00e9 aquilo que tem de alguma forma causado mais instabilidade nos processos de integra\u00e7\u00e3o em Portugal. Isto porque durante um per\u00edodo de 18 meses as pessoas t\u00eam habita\u00e7\u00e3o garantida e depois de um momento para o outro esperamos que as pessoas consigam ser aut\u00f3nomas. Isso tem sido o maior desafio. E depois tamb\u00e9m, na perspetiva de quem acolhe fazer com que volunt\u00e1rios e entidades de acolhimento entendam que o objetivo \u00e9 a horizontalidade. E fazer com que estas pessoas passem do estatuto de v\u00edtimas ao estatuto protagonistas da sua pr\u00f3pria vida. E muitas vezes para quem ajuda \u00e9 muito dif\u00edcil promovermos esta transforma\u00e7\u00e3o de mentalidade. Ou seja, n\u00e3o sermos sempre as pessoas que prestam assist\u00eancia e podermos passar a ser amigos e companheiros de caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Durante a Jornada Mundial da Juventude, acompanhou alguns migrantes e refugiados em Lisboa. Como \u00e9 que foi essa experi\u00eancia, Isabel?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Durante a jornada a MEERU teve alguma participa\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o do Centro Internacional para o Di\u00e1logo promovemos uma s\u00e9rie de encontros onde estiveram pessoas migrantes. Atrav\u00e9s de um jogo que visava promover o di\u00e1logo profundo entre pessoas de diferentes religi\u00f5es, pessoas de diferentes culturas. Basicamente \u00e9 estar com um jogo de tabuleiro e atrav\u00e9s disso fazer com que as pessoas interajam de forma de forma igual.<\/p>\n<p>Depois tivemos tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o a\u00ed diferente, e a\u00ed foi a MEERU que foi apresentar o seu trabalho na iniciativa Economia de Francisco &#8211; uma iniciativa promovida pelo Papa Francisco desde 2019 &#8211; e na Jornada Mundial da Juventude, na Universidade Cat\u00f3lica estivemos presentes a apresentar o nosso trabalho como uma forma de contribuir para esta nova forma de organizar o mundo. A economia inspirada em S\u00e3o Francisco de Assis como forma de promover o desenvolvimento integral de cada pessoa.\u00a0Muitas vezes temos uma vis\u00e3o s\u00f3 acad\u00e9mica e a ideia \u00e9 fazer com que todas as pessoas possam atingir o seu maior potencial e a melhor vers\u00e3o de si pr\u00f3prias. E acreditamos o nosso projeto \u00e9 uma forma de contribuirmos para isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s j\u00e1 estamos a caminhar para o final dessa conversa. Eu queria regressar a Mensagem do Papa para este Dia Mundial do Migrante e refugiado que se assinala nas comunidades cat\u00f3licas. O Papa diz que o &#8220;migrante \u00e9 Cristo que bate \u00e0 nossa porta&#8221;, e defende \u201cos migrantes fogem por causa da pobreza, do medo, do desespero. Diz mesmo que &#8220;para fazer da migra\u00e7\u00e3o uma escolha verdadeiramente livre \u00e9 preciso um esfor\u00e7o pelo respeito dos direitos fundamentais e pelo acesso ao desenvolvimento humano integral. A figura de Francisco tem sido fundamental para promover a compreens\u00e3o e o acolhimento de quem deixa a sua terra?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Sem d\u00favida. Para mim que tenho feito um caminho dentro de uma comunidade crist\u00e3 e de uma par\u00f3quia, voltando ao ano que vos disse 2016, e dando-vos o meu exemplo pessoal foi profundamente transformador ouvir o Francisco, por exemplo, na JMJ em Crac\u00f3via pois foi nesse ano que conheci esta fam\u00edlia S\u00edria, t\u00ea-lo como exemplo e como farol. Ele relembra-nos de forma permanente que estas pessoas s\u00e3o prioridade na nossa a\u00e7\u00e3o pastoral. E \u00e9 muito significativo que a primeira visita apost\u00f3lica do Papa Francisco tenha sido a Lampedusa em 2013. E ainda noutros contextos verificamos a sua intens\u00e3o de estar sempre e visitar os \u00faltimos entre os \u00faltimos. Recentemente estive em Lampedusa, tive essa essa oportunidade, essa b\u00ean\u00e7\u00e3o de poder estar na ilha de Lampedusa e ter percebido o impacto que a visita do Papa Francisco teve no povo lampedusano. 10 anos passados, quando vemos o facto de na semana passada os habitantes de Lampedusa terem conseguido estar solid\u00e1rios apesar do cansa\u00e7o, apesar de repente terem na ilha mais pessoas migrantes do que do que locais e mesmo assim conseguirem fechar os restaurantes para poder servir as pessoas&#8230; claro que h\u00e1 aqui a pr\u00f3pria vontade das pessoas, mas eu acredito que a inspira\u00e7\u00e3o de uma Francisco para aquelas pessoas \u00e9 permanentemente uma fonte de resili\u00eancia e de persist\u00eancia. Por isso, o Papa Francisco tem sido para quem trabalha nesta \u00e1rea uma fonte de energia e ajuda-nos a perceber que, apesar das dificuldades, apesar de os n\u00fameros continuarem a ser assustadores, de podermos n\u00e3o ver aqui respostas ainda no nosso tempo de vida para este fen\u00f3meno, h\u00e1 que manter a esperan\u00e7a e permanecermos enquanto sentinelas.<\/p>\n<p>Temos que resistir ao pessimismo. Ouvi com alguma preocupa\u00e7\u00e3o o que se passou no fim de semana passado, mas ainda assim e muito inspirado pelo Francisco manter aqui uma vis\u00e3o de esperan\u00e7a para aquilo que que vivemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, celebrado pela Igreja Cat\u00f3lica, a jurista Isabel Martins da Silva, cofundadora da MEERU (ONGD de apoio \u00e0 integra\u00e7\u00e3o de refugiados), \u00e9 a convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":297743,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[258,291],"class_list":["post-297959","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-migracoes","tag-refugiados"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/297959","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=297959"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/297959\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/297743"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=297959"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=297959"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=297959"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}