{"id":29774,"date":"2008-02-02T10:37:58","date_gmt":"2008-02-02T10:37:58","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/02\/02\/os-justos-vivem-na-mao-de-deus\/"},"modified":"2008-02-02T10:37:58","modified_gmt":"2008-02-02T10:37:58","slug":"os-justos-vivem-na-mao-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-justos-vivem-na-mao-de-deus\/","title":{"rendered":"<i>Os justos vivem na m\u00e3o de Deus<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca de Lisboa na Missa do Centen\u00e1rio do Regic\u00eddio <!--more--> 1. Esta celebra\u00e7\u00e3o \u00e9 um acto religioso. Apesar de se enquadrar na mem\u00f3ria hist\u00f3rica de acontecimentos com intenso significado pol\u00edtico, o que nos re\u00fane aqui \u00e9 a f\u00e9 da Igreja na vida para al\u00e9m da morte e a certeza da nossa comunh\u00e3o com aqueles que j\u00e1 morreram, para louvar com eles o Senhor, se foram admitidos \u00e0 Sua presen\u00e7a ou merecer com as nossas preces a sua \u00faltima purifica\u00e7\u00e3o, se dela ainda precisarem. Mesmo na inevit\u00e1vel considera\u00e7\u00e3o de acontecimentos que marcaram profundamente a nossa hist\u00f3ria, deixar-nos-emos guiar pela Palavra de Deus que, para n\u00f3s crist\u00e3os, \u00e9 a luz a guiar-nos na busca do sentido profundo da hist\u00f3ria. Sempre que rezamos pelos mortos, confrontamo-nos com dois mist\u00e9rios: a inevitabilidade da nossa morte, a que o pr\u00f3prio Cristo se sujeitou, e a Sua ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos, afirma\u00e7\u00e3o perene de outra vida depois da morte, que s\u00f3 Ele experimentou e que s\u00f3 n\u2019Ele a podemos esperar. A afirma\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II, que s\u00f3 em Cristo se esclarece o mist\u00e9rio do homem, se se aplica j\u00e1 na nossa vida terrena, na busca da vida, da liberdade, da verdade e do amor, adquire um sentido radical perante a nossa morte. S\u00f3 na morte e na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo se antev\u00ea, na esperan\u00e7a, o sentido da pr\u00f3pria morte. S\u00e3o Paulo tinha raz\u00e3o quando escrevia aos Cor\u00edntios: \u201cSe Cristo n\u00e3o ressuscitou dos mortos, somos as mais infelizes das criaturas (cf. 1Cor. 15,). A esperan\u00e7a de que a nossa vida encontre, em Cristo ressuscitado, o seu sentido definitivo, era j\u00e1 intu\u00eddo na esperan\u00e7a de Israel, como ouvimos no Livro da Sabedoria: \u201cAs almas dos justos est\u00e3o na m\u00e3o de Deus e nenhum tormento os atingir\u00e1\u201d (Sab. 3,1). A experi\u00eancia da morte \u00e9 a que mais iguala todos os homens. Como dizem os Actos dos Ap\u00f3stolos, \u201cDeus n\u00e3o faz acep\u00e7\u00e3o de pessoas\u201d: tanto morrem os grandes deste mundo, como os pobres e os marginalizados pela sociedade. \u00c9 com a verdade fundamental do seu cora\u00e7\u00e3o que comparecem perante Deus: \u201cem qualquer na\u00e7\u00e3o, aquele que O teme e pratica a justi\u00e7a \u00e9-lhe agrad\u00e1vel\u201d (Act. 10,35). S\u00e3o esses os justos que permanecem na m\u00e3o de Deus. Mas a pergunta que tantas vezes fazem os pr\u00f3prios salmistas, coloca-se-nos inevitavelmente: quem \u00e9 justo diante do Senhor? Poderosos e humildes, todos somos pecadores. Da\u00ed que a primeira concretiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a \u00e9 a confian\u00e7a na miseric\u00f3rdia de Deus, que em Cristo nos perdoa os nossos pecados, como escut\u00e1vamos h\u00e1 pouco: \u201c\u00c9 d\u2019Ele (de Cristo) que todos os Profetas d\u00e3o o seguinte testemunho: quem acredita n\u2019Ele, recebe pelo Seu Nome a remiss\u00e3o dos pecados\u201d (Act. 10,36). Os que confiam no perd\u00e3o dos pecados e se abandonam, na confian\u00e7a, ao amor misericordioso de Deus, s\u00e3o os que O temem e praticam a justi\u00e7a. Este abandono confiante \u00e9 a primeira express\u00e3o da f\u00e9. Na vida do crente, deve acompanh\u00e1-lo e aprofundar-se sempre, mas pode exprimir-se de forma radical no momento do encontro com Deus. Se j\u00e1 n\u00e3o conhecemos o que se passa no mais \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o de cada homem, ainda sabemos menos do que se passa na morte, o momento decisivo do encontro com Deus. S\u00f3 Ele o conhece, no Seu justo ju\u00edzo. S\u00f3 Ele sabe quem s\u00e3o os justos que desejaram e aceitaram repousar para todo o sempre no cora\u00e7\u00e3o de Deus. A nossa ora\u00e7\u00e3o pelos mortos \u00e9 express\u00e3o desse abandono confiante ao segredo de Deus.  2. H\u00e1 100 anos, a morte do Rei e do Pr\u00edncipe herdeiro foi um acto de viol\u00eancia, de viol\u00eancia pol\u00edtica. A viol\u00eancia continua a ser, no mundo de hoje, um dos principais males da humanidade. De certo modo, ela est\u00e1 ligada \u00e0 experi\u00eancia da pr\u00f3pria morte, como ouv\u00edamos no Livro da Sabedoria: \u201cA sua sa\u00edda deste mundo foi considerada uma desgra\u00e7a e a sua partida do meio de n\u00f3s um aniquilamento\u201d (Sab. 3). O pr\u00f3prio Cristo morreu de forma violenta, porque Se quis identificar com todo o drama humano. Mas na Sua doutrina, ao pregar o Reino de Deus, lan\u00e7ou o maior desafio jamais feito a um mundo violento, que acaba sempre por justificar a pr\u00f3pria viol\u00eancia: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam.   O erradicar da viol\u00eancia ser\u00e1 a maior vit\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o e a primeira manifesta\u00e7\u00e3o da conviv\u00eancia democr\u00e1tica, baseada no respeito pela pessoa humana e suas leg\u00edtimas diferen\u00e7as. As celebra\u00e7\u00f5es centen\u00e1rias dos acontecimentos que, h\u00e1 um s\u00e9culo, marcaram o destino da nossa Na\u00e7\u00e3o, come\u00e7am necessariamente, hoje: o Regic\u00eddio foi acontecimento decisivo na revolu\u00e7\u00e3o que levou \u00e0 mudan\u00e7a do regime pol\u00edtico. N\u00e3o foi, infelizmente, o \u00faltimo acto de viol\u00eancia. Durante todo o primeiro quartel do S\u00e9culo XX esta foi caminho justificado para impor ideias e pol\u00edticas: foram suas v\u00edtimas homens pol\u00edticos, pessoas e associa\u00e7\u00f5es; foi sua v\u00edtima, como sabemos, a pr\u00f3pria Igreja, na persegui\u00e7\u00e3o das pessoas, sobretudo de sacerdotes, na destrui\u00e7\u00e3o de estruturas e institui\u00e7\u00f5es, na espolia\u00e7\u00e3o injusta de bens essenciais para o exerc\u00edcio da miss\u00e3o da Igreja. Oxal\u00e1 as celebra\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3ximos anos sejam marcadas por uma den\u00fancia da viol\u00eancia, que deve ser rejeitada e combatida por todos, em todas as frentes. A Igreja e os crist\u00e3os querem estar na primeira linha desse combate, perdoando as viol\u00eancias sofridas e dando testemunho de conviv\u00eancia, no amor, com todos, mesmo aqueles que n\u00e3o se identificam connosco. S\u00f3 a conviv\u00eancia tolerante e fraterna nos levar\u00e1 a uma sociedade justa, humanizada, democr\u00e1tica. Cat\u00f3licos e n\u00e3o cat\u00f3licos, que ningu\u00e9m ressuscite fantasmas antigos, porque cem anos significaram um caminho andado, e a celebra\u00e7\u00e3o das grandes efem\u00e9rides hist\u00f3ricas s\u00f3 tem sentido se celebram o presente e se abrem a um futuro novo. Saibamos exorcizar todas as formas de viol\u00eancia, remindo pecados passados, de que a pr\u00f3pria Igreja n\u00e3o foi isenta, contribuindo apaixonadamente para uma sociedade mais fraterna. Os que j\u00e1 morreram j\u00e1 foram purificados pela pr\u00f3pria morte, e confiemos que eles repousam no seio de Deus.   Igreja de S\u00e3o Vicente de Fora, 1 de Fevereiro de 2008 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca de Lisboa na Missa do Centen\u00e1rio do Regic\u00eddio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[144],"class_list":["post-29774","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-concilio-vaticano-ii"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29774","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29774"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29774\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}