{"id":297735,"date":"2023-09-20T14:06:10","date_gmt":"2023-09-20T13:06:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=297735"},"modified":"2023-09-20T14:06:10","modified_gmt":"2023-09-20T13:06:10","slug":"nao-e-bom-que-o-homem-e-a-mulher-estejam-sos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nao-e-bom-que-o-homem-e-a-mulher-estejam-sos\/","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 bom que o homem e a mulher estejam s\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-268285 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>No passado domingo, D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, como enviado especial do Papa Francisco, presidiu \u00e0 Missa da coroa\u00e7\u00e3o da imagem de Nossa Senhora da Soledade da Bas\u00edlica de Mafra. Na homilia que proferiu, alertou: &#8220;Hoje morre-se de solid\u00e3o e a solid\u00e3o n\u00e3o se cura com comprimidos. Somos a medicina uns dos outros. O drama da solid\u00e3o responsabiliza-nos a perguntar que tipo de sociedade queremos ser. Queremos ser consequentes com a afirma\u00e7\u00e3o de que cada vida tem valor? Estamos dispostos a lutar uns pelos outros, n\u00e3o s\u00f3 quando \u00e9 f\u00e1cil, mas tamb\u00e9m quando \u00e9 \u00e1rduo e demorado?&#8221;. E lan\u00e7ou o desafio: &#8220;Precisamos de um sobressalto, de um despertar, de um romper decidido com os automatismos que nos enclausuram nas nossas zonas de conforto. Precisamos de romper com a indiferen\u00e7a. Associemo-nos \u00e0 paix\u00e3o de Cristo e n\u00e3o \u00e0 nossa vaidade, \u00e0 nossa indecisa confus\u00e3o, ao nosso ego\u00edsmo, mesmo que se, por vezes, mascarado de milit\u00e2ncia caritativa&#8221;.<\/p>\n<p>Todos os tempos t\u00eam as suas contradi\u00e7\u00f5es. Os nossos n\u00e3o fogem \u00e0 regra, e algumas s\u00e3o mesmo impens\u00e1veis. Uma delas \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o\/desinforma\u00e7\u00e3o. Vivemos na era \u00e1urea da informa\u00e7\u00e3o, nunca se teve tanta informa\u00e7\u00e3o ao nosso dispor, de forma r\u00e1pida e instant\u00e2nea, tanto saber e conhecimento \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, mas, ao mesmo tempo, vemos perdurar a desinforma\u00e7\u00e3o e persistir a ignor\u00e2ncia. Primeiro porque informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa conhecimento, n\u00e3o se faz o trabalho laborioso e maturado de se fazer a s\u00edntese e filtrar o que \u00e9 verdadeiro conhecimento e verdade e o que n\u00e3o \u00e9. Depois porque a verdade sempre esteve sujeita \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es dos interesses e dos poderes e continua a reinar a manipula\u00e7\u00e3o de se construir a verdade que d\u00e1 jeito e que v\u00e1 de encontro \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es do momento.<\/p>\n<p>Outra contradi\u00e7\u00e3o, que se mostra aguda e insuper\u00e1vel atualmente, \u00e9 a exist\u00eancia de incr\u00edveis e abundantes meios de comunica\u00e7\u00e3o e o crescimento da solid\u00e3o entre as pessoas. A pandemia veio agravar a situa\u00e7\u00e3o, mas a solid\u00e3o j\u00e1 estava em crescendo antes da pandemia. Nos mais velhos j\u00e1 \u00e9 h\u00e1 muito constatada, um pouco em todos os aglomerados humanos, aldeias, vilas e cidades. A interioridade, onde vivo, despida de gente, poder\u00e1 vir a ter (ou j\u00e1 tem) preocupantes \u00edndices de solid\u00e3o. Em alguns pa\u00edses \u00e9 mesmo alarmante, como \u00e9 o caso do Jap\u00e3o, pa\u00eds com grande n\u00famero de velhos, onde muitos se veem obrigados a cometer pequenos delitos, como furtos, para poderem ter companhia na pris\u00e3o e passar melhor o tempo. Mas tamb\u00e9m segundo nos \u00e9 dado a ler, o mais surpreendente \u00e9 a solid\u00e3o a crescer entre os jovens, e muito por culpa do consumo excessivo e viciante das redes sociais. Estas t\u00eam graves efeitos psicol\u00f3gicos, como sentir desvaloriza\u00e7\u00e3o, invisibilidade, mediocridade, exclus\u00e3o, face \u00e0 popularidade, ao sucesso e maior divers\u00e3o dos outros. Poder\u00e3o ser estas franjas da sociedade, que se sentem um pouco perdidas, isoladas, \u00e0 margem da prosperidade e do sucesso social, que manifestam op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas surpreendentes nas elei\u00e7\u00f5es. O grande fomento econ\u00f3mico e tecnol\u00f3gico, que se verificou nos \u00faltimos anos, promoveu a cultura individualista, o desinteresse pelos outros, a fal\u00eancia do esp\u00edrito de comunidade, a superlativa valoriza\u00e7\u00e3o e consagra\u00e7\u00e3o da frui\u00e7\u00e3o e satisfa\u00e7\u00e3o pessoal em detrimento do servi\u00e7o e da intera\u00e7\u00e3o com os outros. Nasceu todo um novo mundo de solid\u00e3o for\u00e7ada, que \u00e9 um mundo triste e desumano. \u00c9 urgente que se recupere a verdadeira aten\u00e7\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o pelos outros, o interesse e dedica\u00e7\u00e3o a todos, se desenvolvam e criem redes de aproxima\u00e7\u00e3o, acompanhamento e intera\u00e7\u00e3o com todos, se promova mais inclus\u00e3o e vida comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9 espantoso, salvo seja, como em pleno s\u00e9culo vinte e um a solid\u00e3o est\u00e1 a ser decretada como epidemia. Com tanto avan\u00e7o cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, com tanto conhecimento que temos da natureza humana e em todas as \u00e1reas do saber, com tanto progresso que se verificou nos \u00faltimos s\u00e9culos, com tantos meios que temos ao dispor e tanta divers\u00e3o, com tanto saber na \u00e1rea da empatia e educa\u00e7\u00e3o, no entanto, estamos a constatar que estamos a ficar cada vez mais s\u00f3s. Muitas pessoas relatam que se est\u00e3o a sentir cada vez mais sozinhas.<\/p>\n<p>Todas as pessoas na vida t\u00eam momentos de solid\u00e3o. \u00c9 inevit\u00e1vel. H\u00e1 a boa solid\u00e3o, que os criadores e artistas reclamam para se dedicarem \u00e0s suas atividades e artes, aquilo a que Leonardo da Vinci chamava a solid\u00e3o criadora, o retirar-se do ru\u00eddo e do conv\u00edvio dos outros para refletir, pensar, pintar, escrever, rezar, entre tantas outras atividades. E h\u00e1 momentos em que precisamos da solid\u00e3o e do sil\u00eancio para gerir a vida, com os seus desafios, apelos, tempestades, decis\u00f5es, voragens e intensidades. Esta solid\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria e n\u00e3o \u00e9 penosa, ajuda-nos a sintetizar, encaixar e a equilibrar a vida. Segundo os Evangelhos, Jesus Cristo tamb\u00e9m recorria \u00e0 solid\u00e3o para rezar, a sua vida tinha momentos de atendimento \u00e0s multid\u00f5es, mas tamb\u00e9m de retiro e encontro com Deus Pai. Refiro-me, certamente, \u00e0 m\u00e1 solid\u00e3o, aquela em que o ser humano se sente muito s\u00f3 e desligado dos outros, at\u00e9 perdido e desencontrado com os outros, abandonado por tudo e por todos. Nestes casos, que s\u00e3o muitos, h\u00e1 uma solid\u00e3o geradora de sofrimento, em que estar vivo tem pouca gra\u00e7a e pouco sentido, e \u00e9 uma experi\u00eancia angustiante e inquietante.<\/p>\n<p>Numa abordagem mais filos\u00f3fica, alguns estudiosos referem que as sociedades contempor\u00e2neas criaram as condi\u00e7\u00f5es perfeitas para esta solid\u00e3o negativa: o surgimento das grandes cidades, onde se concentra a maior parte das pessoas e onde grassam o anonimato, a indiferen\u00e7a e a desumaniza\u00e7\u00e3o; a excessiva industrializa\u00e7\u00e3o; no campo cultural e civilizacional, a proclama\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio do individuo e consequente individualismo, o abandono da religi\u00e3o, o viver sem Deus e abertura ao sagrado e \u00e0 transcend\u00eancia. O homem tudo tem feito para estar cada vez mais s\u00f3 e viver cada vez mais s\u00f3. Assim sendo, em parte se compreende o consumismo em que vivemos: preencher uma carestia que nos habita, a aus\u00eancia de companhia, aten\u00e7\u00e3o e afeto de que \u00e9 feita a moldura da nossa vida.<\/p>\n<p>Por todo o lado, vemos e ouvimos idosos, jovens, adolescentes, crian\u00e7as, at\u00e9 pessoas que vivem imersas em empresas e redes, e que coabitam multid\u00f5es, a expressarem que se sentem muito s\u00f3s e vivem num grande desconforto existencial. At\u00e9 Deus est\u00e1 a ficar cada vez mais s\u00f3 neste mundo, como escreve um padre escritor cat\u00f3lico num dos seus livros, um Deus que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 procurado, que cada vez significa menos e importa cada vez menos na vida das pessoas, um Deus que est\u00e1 no sacr\u00e1rio, mas tem cada vez menos crentes que lhe fa\u00e7am companhia e que o queiram adorar.<\/p>\n<p>\u00c9 mais um desafio que se coloca \u00e0 Igreja e suas comunidades: sair ao encontro desta solid\u00e3o e ser presen\u00e7a junto daqueles que se sentem abandonados, desligados de tudo e de todos, e de muitos que n\u00e3o importam a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila 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