{"id":29652,"date":"2008-01-29T11:27:51","date_gmt":"2008-01-29T11:27:51","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/01\/29\/quaresma-na-clausura\/"},"modified":"2008-01-29T11:27:51","modified_gmt":"2008-01-29T11:27:51","slug":"quaresma-na-clausura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/quaresma-na-clausura\/","title":{"rendered":"Quaresma na clausura"},"content":{"rendered":"<p>Ir. Maria Albertina Monteiro de Azevedo fala da caminhada na espiritualidade da Quaresma no \u00abdeserto do seu claustro\u00bb na Vila das Aves <!--more--> A Quaresma, introduzindo-nos no mist\u00e9rio pascal, coloca-nos num tempo favor\u00e1vel de Miseric\u00f3rdia. \u201c\u00c9 agora o tempo favor\u00e1vel, \u00e9 agora o dia da salva\u00e7\u00e3o\u201d (2 Cor 6,2) A liturgia quaresmal est\u00e1 escrita com os sentimentos e a linguagem da miseric\u00f3rdia e toda a espiritualidade quaresmal assenta em duas vertentes: a Miseric\u00f3rdia como atributo fundamental e relevante de Deus; e, motivada pela miseric\u00f3rdia, a convers\u00e3o, como atitude asc\u00e9tica fundamental do homem que, sensibilizado pelo amor misericordioso de Deus, deseja corresponder-lhe. Miseric\u00f3rdia e convers\u00e3o s\u00e3o duas realidades convergentes e consequentes: a miseric\u00f3rdia apela, motiva \u00e0 convers\u00e3o e esta \u00e9 consequ\u00eancia daquela. Elas exprimem, na B\u00edblia, um tipo fundamental de encontro de Deus com o homem e do homem com Deus.  A Quaresma pretende preparar esse encontro. Ao ritmo da liturgia, acompanhamos o povo de Israel na travessia pelo deserto de olhar fito no Sinai, onde o encontro em alian\u00e7a conduz a uma nova mentalidade pautada pela Lei. V\u00f3s sereis o meu povo, Eu serei o vosso Deus. Sabemos que, em linguagem b\u00edblica, o deserto \u00e9, antes de mais, uma realidade interior da f\u00e9, uma atitude espiritual do crente; o lugar da solid\u00e3o das coisas do mundo para se tornar o lugar da intimidade e do encontro do homem com o seu Deus. (1) Esta nova mentalidade ou metanoia \u00e9 apontada como actividade espec\u00edfica do tempo da Quaresma. Diremos que, para um crist\u00e3o, o tempo da Quaresma ser\u00e1 um interiorizar, um reavivar, em deserto, o sentido da sua F\u00e9 no Mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o, que ir\u00e1 celebrar na P\u00e1scoa. Nessa caminhada se ir\u00e1 realizando a metanoia, entendida como liberta\u00e7\u00e3o interior daquilo que impede a ades\u00e3o pessoal aos crit\u00e9rios evang\u00e9licos. E, neste sentido, apraz-nos recordar a mais antiga acep\u00e7\u00e3o do termo P\u00e1scoa como \u201cpassagem das pastagens secas do Inverno ao pasto verdejante da Primavera\u201d. A Quaresma ser\u00e1, para o crist\u00e3o, o despertar do Inverno melanc\u00f3lico de uma f\u00e9 rotineira para a alegria primaveril de uma consci\u00eancia desperta \u00e0 F\u00e9 celebrada e vivida no Mist\u00e9rio Pascal.  Tamb\u00e9m Jesus se retirou ao deserto antes de iniciar a vida p\u00fablica. \u201cOs quarenta dias das tenta\u00e7\u00f5es de Jesus no deserto representam toda a sua vida, desde o Baptismo at\u00e9 \u00e0 morte \u2013 terra prometida de encontro com o Pai\u201d. (2) O deserto aparece, assim, como elemento essencial para que se realize o encontro: consigo, com Deus e com os outros. Os subs\u00eddios que a Igreja apresenta, como a medita\u00e7\u00e3o da Palavra, a penit\u00eancia, o jejum, a confiss\u00e3o, inserem-se nesta caminhada para o encontro.  Se, para os israelitas, a pessoa de Mois\u00e9s era guia na caminhada, o Novo Mois\u00e9s, Jesus, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 guia mas o pr\u00f3prio Caminho e a Vida Nova que buscamos e Ele mesmo oferece. Este caminhar com os olhos fitos em Jesus, autor da nossa f\u00e9, constitui o \u00e2mago da espiritualidade franciscana e clareana. O n\u00facleo das exorta\u00e7\u00f5es de Clara aparece, lapidar, na 2\u00aa Carta a In\u00eas de Praga: Abra\u00e7a a Cristo Pobre. Contempla-O desprezado por teu amor e segue-O tornando-te desprez\u00edvel por Ele neste mundo. Contempla, nobre Rainha, o teu Esposo. Sendo o mais belo dos filhos dos homens transformou-se, para tua salva\u00e7\u00e3o, no mais desprez\u00edvel dos mortais. Morreu na Cruz no meio dos maiores sofrimentos, golpeado e vezes sem conta a\u00e7oitado em todo o corpo. Olha, medita, contempla e que o teu cora\u00e7\u00e3o se inflame na sua imita\u00e7\u00e3o. (3) No deserto do seu claustro, Clara aprendera a fixar o Rosto do Cristo de S. Dami\u00e3o que dera ser \u00e0 Ordem Franciscana e, contemplando-O, chegara ao para\u00edso do Encontro. \u00c9 esse caminho que ela aponta, com a autoridade que lhe confere a experi\u00eancia de longos anos que a converteram numa mulher livre, realizada nas suas grandes aspira\u00e7\u00f5es. Olha, medita, contempla: Clara oferece-nos a chave da caminhada no deserto da Quaresma. A Revela\u00e7\u00e3o do verdadeiro Rosto de Jesus, o deixar-se cativar por Ele, ser\u00e1 o meio de chegar \u00e0 metanoia, na alegria da liberdade interior.  Os grandes casos de convers\u00e3o como Francisco de Assis atestam-no eloquentemente. O fulcro, o centro de toda a vida espiritual de Francisco, foi, at\u00e9 ao fim da vida, a contempla\u00e7\u00e3o do Senhor Jesus crucificado, at\u00e9 se configurar interior e exteriormente com Ele. A este prop\u00f3sito In\u00e1cio de Larra\u00f1aga afirma com propriedade: Faz-me impress\u00e3o a frequ\u00eancia e a seguran\u00e7a com que se afirma hoje que Francisco chegou a Deus atrav\u00e9s do homem, atrav\u00e9s dos pobres. Est\u00e3o em moda esses conceitos, mas nada h\u00e1 de mais contr\u00e1rio ao processo hist\u00f3rico da vida de S. Francisco e \u00e0s suas pr\u00f3prias palavras. No seu Testamento, recorda Francisco: \u2018O Senhor levou-me para o meio dos leprosos e usei de miseric\u00f3rdia para com eles\u2019. Ou seja, primeiro encontrou o Senhor, e foi o Senhor que o levou pela m\u00e3o at\u00e9 aos leprosos, e n\u00e3o o contr\u00e1rio\u2026 (4)  Se o mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o introduz na consci\u00eancia da fraternidade universal \u201cao encarnar Cristo une-se, de certo modo, a todo o ser humano\u201d, (5)  o mist\u00e9rio da Reden\u00e7\u00e3o faz-nos curvar de respeito perante toda a humana criatura assim redimida pelo Senhor, com o Seu pr\u00f3prio Sangue. A contempla\u00e7\u00e3o do amor infinito do Senhor Jesus irmana, nivela culturas e posi\u00e7\u00f5es sociais. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 judeu nem grego&#8230; (Gl 3,28) \u00e9 por isso que, a contempla\u00e7\u00e3o silenciosa dentro dum Mosteiro, longe de isolar ou afastar do mundo, aproxima, num sentido muito profundo, das pessoas e suas realidades, concretizando-se numa comunh\u00e3o real com as necessidades apresentadas. A partir de Cristo, sob a perspectiva do seu Amor infinito, tudo adquire nova forma e nova cor. Valorizar sob o olhar de Cristo na Cruz cada situa\u00e7\u00e3o de dor ou fraqueza; apreciar toda a realidade humana desde o Monte calv\u00e1rio, associa-nos ao sentir do mesmo Cristo, aos seus sentimentos de miseric\u00f3rdia. A contempla\u00e7\u00e3o amorosa do Senhor assim entregue por amor, que na Cruz pede perd\u00e3o para os que o matam \u2013 Pai, perdoa-lhes porque n\u00e3o sabem o que fazem \u2013 enche de como\u00e7\u00e3o quem d\u2019Ele se aproxima e incute, por si, horror ao mal, mais que os improp\u00e9rios da Semana Santa.  S. Leonardo de Porto Maur\u00edcio assegura que a devo\u00e7\u00e3o da Via-Sacra \u00e9 um ant\u00eddoto contra grandes males, uma das melhores formas de reacender o fogo do Esp\u00edrito. Trata-se do mesmo m\u00e9todo, contempla\u00e7\u00e3o dos sofrimentos do Senhor, cerne da espiritualidade da Quaresma, como motor da metanoia, que far\u00e1 desta caminhada um estribilho gozoso \u2013 Cristo amou-me e entregou-se por mim \u2013 a ser cantado ardentemente no ALELUIA pascal.  <i>Ir. M\u00aa Albertina Monteiro de Azevedo, OSC, Mosteiro de Vila das Aves<\/i> NOTAS:  1 S\u00edmbolos na B\u00edblia,  Herculano Alves, Ed. Difusora B\u00edblica, 2001, p.120  2 Ibidem, p.122  3 Fontes Franciscanas II, Editorial Francis-cana,  Braga, 1996  4 O Irm\u00e3o de Assis 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o,  Edi\u00e7\u00f5es paulistas 1991,  p\u00e1g. 40.   5 GS 22<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ir. 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