{"id":29650,"date":"2008-01-29T11:19:24","date_gmt":"2008-01-29T11:19:24","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/01\/29\/tolentino-mendonca-do-deserto-ao-perfume-da-vida\/"},"modified":"2008-01-29T11:19:24","modified_gmt":"2008-01-29T11:19:24","slug":"tolentino-mendonca-do-deserto-ao-perfume-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/tolentino-mendonca-do-deserto-ao-perfume-da-vida\/","title":{"rendered":"Tolentino Mendon\u00e7a: Do deserto ao perfume da vida"},"content":{"rendered":"<p>Escritas e sons do sil\u00eancio numa conversa rumo \u00e0 Quaresma <!--more--> Traduz por palavras as experi\u00eancias da pessoa humana. Poeta e biblista, Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a faz a descoberta da P\u00e1scoa, pelo sil\u00eancio.  <i>Ag\u00eancia ECCLESIA (AE) \u2013 Atrav\u00e9s do sil\u00eancio fazemos um caminho no deserto para encontrar o o\u00e1sis pascal? Pe. Tolentino Mendon\u00e7a (TM) \u2013<\/i> \u00c9 curioso olhar para o significado da palavra deserto. Em hebraico, deserto diz-se \u00abmidbar\u00bb. Pode significar \u201clugar solit\u00e1rio\u201d, mas tamb\u00e9m \u201ceu falo\u201d. O deserto, ao mesmo tempo, \u00e9 o lugar do sil\u00eancio e \u00e9 o lugar de uma palavra que esse sil\u00eancio guarda. Com a aproxima\u00e7\u00e3o da Quaresma, a Igreja \u00e9 chamada a uma experi\u00eancia de  deserto. \u00c9 uma experi\u00eancia penitencial, de convers\u00e3o e de revis\u00e3o de vida. Nesse despojamento experimentado e volunt\u00e1rio, a Igreja deve redescobrir a palavra que, em sil\u00eancio, incessantemente \u00e9 dita por Deus.   <i>AE \u2013 Ent\u00e3o este sil\u00eancio quaresmal prepara a alegria pascal? TM \u2013<\/i> O Profeta Oseias diz: eu vou levar-te ao deserto para falar-te ao cora\u00e7\u00e3o. Esta passagem pelo deserto implica levar muito a s\u00e9rio a condi\u00e7\u00e3o humana. O efeito da f\u00e9, em n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tico. \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o. Os crist\u00e3os est\u00e3o em constru\u00e7\u00e3o. A Igreja est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o. O tempo quaresmal diz-nos que estamos em obra, estamos num fazer-se e num tornar-se. Para que tal se concretize precisamos de re-orientar e converter a nossa vida.  Na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, a imagem do deserto est\u00e1 muito ligada \u00e0 itiner\u00e2ncia. Aqueles quarenta anos que o povo caminhou&#8230; Vamos ao deserto n\u00e3o para nos instalarmo-nos nele, mas para fazermos dele um caminho para essa novidade pascal. Para a grande alegria do Cristo, Homem Novo. <i>AE \u2013 \u00c9 um \u00abSei que estou em viagem na palavra que se move\u00bb como disse o poeta Daniel Faria? TM \u2013<\/i> Os crist\u00e3os est\u00e3o no caminho. No entanto, \u00e9 preciso estimular a nossa vida instalada e a pr\u00f3pria Igreja instalada. A Quaresma \u00e9 um tempo de grande estimula\u00e7\u00e3o para a itiner\u00e2ncia. N\u00e3o nos podemos esquecer que Jesus diz-nos: \u201cBem aventurados os sedentos\u201d. H\u00e1 uma sede e fome que \u00e9 necess\u00e1rio re-aprender&#8230; Quem tem sede \u00e9 que ser\u00e1 saciado. <i>AE \u2013 Este tempo lit\u00fargico \u00e9 o oceano do sil\u00eancio. TM \u2013<\/i> \u00c9 uma grande viagem pelas ondas do sil\u00eancio&#8230; Como etapa provis\u00f3ria, a Quaresma n\u00e3o \u00e9 um lugar, mas tempo de prepara\u00e7\u00e3o. O definitivo \u00e9 a P\u00e1scoa&#8230; A Quaresma \u00e9 instrumental, mas \u00e9 uma viagem necess\u00e1ria porque necessitamos de desprendermo-nos das amarras, dos bloqueios e dos comodismos. S\u00f3 assim, conseguimos o cora\u00e7\u00e3o novo que a P\u00e1scoa celebra. <i>AE \u2013 O sil\u00eancio oblitera os ru\u00eddos e bloqueios da sociedade? TM \u2013<\/i> Ele \u00e9 necess\u00e1rio para fugirmos ao nosso pr\u00f3prio ru\u00eddo. O grande ru\u00eddo n\u00e3o est\u00e1 na cidade, mas aquele que n\u00f3s transportamos&#8230; \u00c9 resson\u00e2ncia confusa que as coisas deixam dentro de n\u00f3s. A P\u00e1scoa \u00e9 um tempo de discernimento. \u00c9 um tempo para treinar os sentidos. Com a P\u00e1scoa sentimos o perfume da vida. Escutamos a Palavra, como se fosse a primeira vez&#8230; Saboreamos o sentido profundo.  <b>A Quaresma \u00e9 uma vit\u00f3ria sobre o ru\u00eddo<\/b> <i>AE \u2013 O lado anest\u00e9sico do quotidiano deixa-nos tocar nessas profundezas? TM &#8211; <\/i> A Quaresma \u00e9 uma vit\u00f3ria sobre o ru\u00eddo que possibilita a Palavra in\u00e9dita: a mensagem sobre o sepulcro vazio. <i>AE \u2013 O sil\u00eancio sente-se? TM \u2013<\/i> Ele sente-se porque n\u00e3o \u00e9 apenas aus\u00eancia do ru\u00eddo. Ele n\u00e3o se define pela negativa, mas pela positiva. O sil\u00eancio \u00e9 o lugar da comunica\u00e7\u00e3o. <i>AE \u2013 \u00c9 contempla\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o? TM \u2013<\/i> Basta observarmos os mon\u00e1sticos. O sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 a priva\u00e7\u00e3o da palavra, mas um caminho alternativo de intensa comunica\u00e7\u00e3o e escuta. O sil\u00eancio \u00e9 um lugar&#8230; <i>AE \u2013 Que ajuda na convers\u00e3o. TM \u2013<\/i> \u00c9 verdade. O sil\u00eancio \u00e9 muito exigente. Se o mundo &#8211; \u00e0 nossa volta e dentro de n\u00f3s &#8211; \u00e9 t\u00e3o ruidoso \u00e9 porque isso \u00e9 muito mais c\u00f3modo. \u00c9 mais f\u00e1cil aguentar a palavra e o rumor do tempo do que se confrontar com o sil\u00eancio. Este tem uma verdade nua e sem v\u00e9us. O confronto com o sil\u00eancio obriga a uma convers\u00e3o. Obriga-nos a uma transforma\u00e7\u00e3o que d\u00f3i.  <i>AE \u2013 \u00c9 a matriz evang\u00e9lica. TM \u2013<\/i> Profundamente evang\u00e9lica. Jesus \u2013 na forma de rezar e na prepara\u00e7\u00e3o das grandes decis\u00f5es \u2013 procurava o sil\u00eancio. Procurou o n\u00edvel de comunica\u00e7\u00e3o mais profunda com o Pai. <i>AE \u2013 Os evangelhos s\u00e3o fruto do sil\u00eancio? TM \u2013<\/i> Os evangelhos s\u00e3o uma po\u00e9tica do sil\u00eancio. Eles resultam de uma contempla\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio de Jesus Cristo.  <i>AE \u2013 Que evangelista absorveu melhor a novidade silenciosa? TM &#8211;<\/i>  \u00c9 dif\u00edcil dizer porque s\u00e3o quatro vozes distintas. De certa forma, s\u00e3o incompar\u00e1veis.  No entanto, S. Jo\u00e3o tem um ritmo de escrita e uma forma de contar Jesus que nos endere\u00e7a, continuamente, para o mist\u00e9rio e para o seu sil\u00eancio. O Evangelho de Marcos tamb\u00e9m est\u00e1 muito atento \u00e0s din\u00e2micas do sil\u00eancio que \u00e9 revela\u00e7\u00e3o. \u00c9 conveniente lembrar a hist\u00f3ria rab\u00ednica que diz: \u201cNo fim dos tempos \u2013 quando o Messias voltar -, Ele n\u00e3o vai apenas explicar o sentido das palavras escritas mas explicar\u00e1, tamb\u00e9m, o sil\u00eancio dos espa\u00e7os em branco que existem entre as palavras\u201d. Todos os evangelhos t\u00eam espa\u00e7os em branco&#8230; <i>AE \u2013  A degusta\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio \u00e9 a Ressurrei\u00e7\u00e3o? TM \u2013<\/i> S\u00f3 quem degusta o sil\u00eancio \u2013 decantado pelo mist\u00e9rio pascal \u2013 pode verdadeiramente ressuscitar. O atordoamento do ritmo que se vive leva-nos a um grande afastamento. Por isso, a Quaresma \u00e9 um reencontro marcado com o sil\u00eancio e com a luz que brilha com esse sil\u00eancio. <i>AE \u2013 \u00c9 um rastilho que provoca um fogo pascal. TM \u2013<\/i> Sem o itiner\u00e1rio quaresmal a P\u00e1scoa \u00e9 apenas um rito, uma mem\u00f3ria. Os crist\u00e3os s\u00e3o chamados a sentirem nas suas pr\u00f3prias vidas esse tr\u00e2nsito inesperado, mas que Jesus possibilita, da morte para a vida. <i>AE \u2013 Que come\u00e7a com o p\u00f3 de Quarta-Feira de Cinzas. TM \u2013<\/i> Esse austero sinal que abre o itiner\u00e1rio quaresmal \u00e9 extremamente importante. Obriga-nos a relativizarmo-nos a n\u00f3s mesmos e coloca-nos em rela\u00e7\u00e3o com um projecto maior que o nosso. Obriga-nos a cal\u00e7armos as sand\u00e1lias dos peregrinos e tomarmos o cora\u00e7\u00e3o dos sedentos. As cinzas convidam-nos a um grande sil\u00eancio interior. <i>AE \u2013 Depois desse per\u00edodo escuro encontra-se a primeira nascente. TM \u2013<\/i> O mapa dado pelas cinzas conduz-nos \u00e0 fonte pura. <i>AE \u2013 Os per\u00edodos de sil\u00eancio na Eucaristia tamb\u00e9m s\u00e3o momentos de di\u00e1logo com essa fonte pura? TM \u2013<\/i> A Eucaristia salva e transfigura o pr\u00f3prio mundo. Mesmo celebrada entre quatro paredes apertadas, a Eucaristia \u00e9 a exala\u00e7\u00e3o desse imenso sil\u00eancio.  <b> O habitat do sil\u00eancio nas Palavras de Jesus<\/b> <i>AE \u2013 Quando Jesus diz: \u00abPai, perdoa-lhes, porque n\u00e3o sabem o que fazem\u00bb (Lc 23, 34), estas palavras nascem desse sil\u00eancio dialogante? TM \u2013<\/i> A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 algo de constante na vida de Jesus. Ele \u00e9 um orante. O Evangelho de Lucas privilegia esse tra\u00e7o da vida de Jesus. Mostra-nos, por diversas vezes, Jesus a orar. Para orar, o sil\u00eancio \u00e9 o habitat&#8230; \u00c9 o meio vital. Lucas apresenta-nos, muitas vezes, no sil\u00eancio em di\u00e1logo com o Pai. <i>AE \u2013 Apesar desse di\u00e1logo orante, Jesus diz em Mateus 28, 46 \u00abMeu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? TM \u2013<\/i> \u00c9 interessante a forma como um exegeta franc\u00eas contempor\u00e2neo defende que se traduza essa frase. Est\u00e1 relacionada com o modo como a tradu\u00e7\u00e3o grega dos Setenta traduz o Salmo que Jesus reza na cruz. Ele prop\u00f5e que se traduza: \u00abMeu Deus, Meu Deus, a que me abandonaste\u00bb. N\u00e3o \u00e9 apenas a interroga\u00e7\u00e3o de um destino que Jesus n\u00e3o entende, mas \u00e9 tamb\u00e9m a explicita\u00e7\u00e3o de um mist\u00e9rio, de um destino, que engloba tudo aquilo que Jesus \u00e9 e todo o projecto de Deus para a nossa salva\u00e7\u00e3o. <i>AE \u2013 \u00abTenho Sede!\u00bb (Jo 19, 28). \u00c9 uma exclama\u00e7\u00e3o que deriva desse mist\u00e9rio silencioso? TM \u2013<\/i> S\u00f3 quem bebe da fonte do sil\u00eancio ganha essa sede. \u00c9 uma sede do desejo e da entrega completa nas m\u00e3os do Pai. \u00c9 uma das frases mais extraordin\u00e1rias de Jesus. <i>AE \u2013 Por isso diz \u00abPai, nas tuas m\u00e3os entrego o meu esp\u00edrito (Lc 23, 46)\u00bb e \u00abTudo est\u00e1 consumado (Jo 19, 30)\u00bb TM \u2013<\/i> Esse sentido de completude da vida sup\u00f5e que o sil\u00eancio que n\u00f3s somos mergulha no oceano do sil\u00eancio do mist\u00e9rio de Deus. Essa \u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o. O sil\u00eancio no sil\u00eancio. Como diz um poeta chin\u00eas: \u00abO branco no branco\u00bb <i>AE \u2013 Depois desse \u00abbranco no branco\u00bb e da escada quaresmal aparece a vit\u00f3ria? TM \u2013<\/i> H\u00e1 uma vit\u00f3ria e uma Boa Nova. H\u00e1 uma palavra in\u00e9dita e original. H\u00e1 a maior surpresa. Devido a isto, os crist\u00e3os s\u00e3o povo da manh\u00e3 e do primeiro amanhecer. Celebramos o primeiro dia porque essa surpresa \u00e9 o referencial que desloca o mundo. N\u00f3s organizamos o mundo a partir do primeiro dia da semana. Somos o povo do in\u00edcio. <i>AE \u2013 E acordamos \u00abCom as narinas a sangrar um perfume (Daniel Faria)\u00bb TM \u2013<\/i> Gosto da imagem do perfume porque \u00e9 o s\u00edmbolo da intensidade invis\u00edvel. Na hist\u00f3ria, os crist\u00e3os sentem que o invis\u00edvel est\u00e1 presente e se inscreve no provis\u00f3rio do tempo numa forma definitiva. <i>AE \u2013 Existem profiss\u00f5es do sil\u00eancio? TM \u2013<\/i> As profiss\u00f5es ligadas \u00e0 natureza s\u00e3o as menos mec\u00e2nicas. S\u00e3o aquelas que se ligam ainda a uma lentid\u00e3o. O sil\u00eancio \u00e9 uma coisa lenta.  <b>A grande tenta\u00e7\u00e3o dos poetas \u00e9 o sil\u00eancio<\/b> <i>AE \u2013 Poesia e sil\u00eancio s\u00e3o dois conceitos interligados? TM \u2013<\/i> A poesia \u00e9 uma forma de escuta e de aten\u00e7\u00e3o. O sil\u00eancio \u00e9 a metodologia de todos os poemas que se escrevem. A grande tenta\u00e7\u00e3o dos poetas \u00e9 o sil\u00eancio. A poesia exige uma vida tentada pelo sil\u00eancio. \u00c9 uma forma de comunh\u00e3o. A poesia n\u00e3o quer suprir o sil\u00eancio nem explic\u00e1-lo. <i>AE \u2013 Ent\u00e3o o sil\u00eancio \u00e9 o embri\u00e3o da poesia&#8230; TM \u2013<\/i> \u00c9 embri\u00e3o e o porto \u00faltimo. \u00c9 a meta de todos os versos que se escreveram. <i>AE \u2013 Em estado po\u00e9tico voa-se na interioridade das palavras. TM \u2013<\/i> Na poesia tenta-se \u2013 como se fosse a travessia das \u00e1guas \u2013 atravessar sem ferir o mar. Para que no sossego das \u00e1guas possamos ver o fundo, mas nem sempre isso \u00e9 poss\u00edvel. <i>AE \u2013 Sendo duma localidade mar\u00edtima (Machico \u2013 Ilha da Madeira), atravessa esse mar sem lhe tocar quando escreve poemas? TM \u2013<\/i> A rela\u00e7\u00e3o com o mar, e esse mundo que est\u00e1 ainda pr\u00f3ximo duma linguagem original \u2013 antigas profiss\u00f5es, a liga\u00e7\u00e3o \u00e0 terra e ao mar e a tradi\u00e7\u00e3o oral -, suscita-me uma certa gram\u00e1tica do olhar. <i>AE \u2013 Depois dessa gram\u00e1tica do olhar nasce o azul po\u00e9tico? TM \u2013<\/i> A poesia nem sempre \u00e9 azul. \u00c0s vezes \u00e9 escura e cerrada. A poesia n\u00e3o \u00e9 um saber nem uma \u00e1urea. N\u00e3o \u00e9 um esplendor. Muitas vezes \u00e9 uma noite escura. No entanto, a contempla\u00e7\u00e3o do mundo pede-nos uma procura.   <b>O sil\u00eancio n\u00e3o tem cor<\/b> <i>AE \u2013 O sil\u00eancio dessa contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 crom\u00e1tico?  TM \u2013<\/i> O sil\u00eancio n\u00e3o tem cor. N\u00f3s \u00e9 que precisamos dessas cores. O sil\u00eancio \u00e9 a vida nua&#8230; \u00c9 a verdade. No entanto, precisamos da linguagem simb\u00f3lica para viajarmos at\u00e9 \u00e0 verdade. <i>AE \u2013 Um fil\u00f3sofo disse: \u00abO poeta \u00e9 o g\u00e9nio da recorda\u00e7\u00e3o\u00bb. Podemos afirmar tamb\u00e9m que o poeta \u00e9 o g\u00e9nio da palavra nascida do sil\u00eancio?  TM \u2013<\/i> O poeta sabe que precisa de ouvir o sil\u00eancio. <i>AE \u2013 O misticismo \u00e9 fruto do sil\u00eancio? TM \u2013<\/i> A m\u00edstica \u00e9 uma experi\u00eancia radical de sil\u00eancio. Uma das etimologias da palavra m\u00edstico quer dizer fechado, estar trancado. A experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9 uma experi\u00eancia de concentra\u00e7\u00e3o. <i>AE &#8211; Eug\u00e9nio de Andrade, Sophia Mello Breyner, Camilo Pessanha, Daniel Faria, Agostinho da Cruz e S. Jo\u00e3o da Cruz, poetas que ouviram o sil\u00eancio e deram-lhe voz. Destes, qual \u00e9 o verdadeiro poeta do sil\u00eancio? TM \u2013<\/i> Para mim o maior poeta e aquele que mais leio \u00e9 S. Jo\u00e3o da Cruz. <i>AE \u2013 Miguel Torga percorria os trilhos do Ger\u00eas e da sua terra natal para absorver melhor o sil\u00eancio da natureza. TM \u2013<\/i> N\u00f3s sentimos muito esse apelo: um regresso \u00e0 natureza. A vida artificial e do ar condicionado \u00e9 uma vida anti-espiritual. A vida do esp\u00edrito \u00e9 uma vida lenta e exige uma digest\u00e3o. Ela exige o reencontro com os caminhos, com os baldios e com o mar aberto. <i>AE \u2013 Herberto H\u00e9lder via esse mar aberto constantemente? TM \u2013<\/i> \u00c9 um poeta de uma dimens\u00e3o extraordin\u00e1ria. Herberto \u00e9 um grande art\u00edfice do sil\u00eancio na poesia portuguesa contempor\u00e2nea.  <b>Cada um de n\u00f3s tem a sua serra<\/b> <i>AE \u2013 Sebasti\u00e3o da Gama e Agostinho da Cruz descobriram esse valor na Serra da Arr\u00e1bida. Esta \u00e9 a serra m\u00e3e para saborear a pausa silenciosa da vida? TM \u2013<\/i> Na tradi\u00e7\u00e3o portuguesa, a Serra da Arr\u00e1bida \u00e9 um lugar muito especial. Nesta serra encontramos t\u00f3picos da geografia do sil\u00eancio. Cada um de n\u00f3s tem a sua serra onde encontrar\u00e1 o sil\u00eancio matricial. <i>AE \u2013 Tamb\u00e9m tem uma serra? TM \u2013<\/i> Nas montanhas da Madeira ou junto ao mar, de qualquer lugar do mundo. A\u00ed encontro uma certa qualidade de sil\u00eancio que me toca. <i>AE \u2013 O mar \u00e9 ruidoso&#8230; TM \u2013<\/i> O sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 uma aus\u00eancia. \u00c9 a presen\u00e7a plena, inteira e intacta do mundo. <i>AE \u2013 Depois nasce a obra? TM \u2013<\/i> N\u00e3o nasce a obra. Nascemos n\u00f3s. Mais importante do que a obra, mais importante do que o fazer \u00e9 o ser. Nascemos&#8230; Estamos em nascimento, em dores de parto.   <b>Pintar o sil\u00eancio<\/b> <i>AE \u2013 Os pintores conseguem pintar o sil\u00eancio? TM \u2013<\/i> Muitos pintaram-no. Fontana pintava o sil\u00eancio fazendo rasg\u00f5es no cromatismo da pintura. Outro artista pintava o sil\u00eancio em grandes telas monocromaticamente (apenas com uma cor). Piero della Francesca pintava o sil\u00eancio atrav\u00e9s de personagens inesquec\u00edveis. A forma como pintava o tempo dos personagens. O sil\u00eancio n\u00e3o se fixa.  <i>AE \u2013 N\u00e3o se fixa, mas conduz o pincel do pintor? TM \u2013<\/i> O sil\u00eancio \u00e9 o fio secreto que conduz todas as procuras de sentido. Podem ser art\u00edsticas, intelectuais, pastorais ou orantes. No fundo, a verdade \u00e9 s\u00f3 uma. A verdade de um grande pintor \u00e9 a mesma de um mestre da f\u00e9. \u00c9 a verdade do grande mist\u00e9rio que nos coloca perante o sil\u00eancio de Deus. <i>AE \u2013 H\u00e1 uma prepara\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para encontrar este fio misterioso?  TM \u2013<\/i> Na Quaresma, a Igreja recorda tr\u00eas caminhos: Jejum (relativiza\u00e7\u00e3o das reivindica\u00e7\u00f5es do nosso eu ); ora\u00e7\u00e3o (escuta radical) e esmola (caridade). Muitos encontram o sil\u00eancio nesta forma porque n\u00f3s n\u00e3o somos o centro do mundo. <i>AE \u2013 Depois deste caminho nasce a obra. TM \u2013<\/i> O caminho quaresmal conduz-nos de facto a essa possibilidade da dan\u00e7a. Da dan\u00e7a dos eleitos. \u00c9 essa alegria que vemos na c\u00e9lebre pintura de Frei Ang\u00e9lico, \u00abA Roda dos Eleitos\u00bb. Os anjos m\u00fasicos e os eleitos com vestes maravilhosas celebram a alegria do Ressuscitado.  <b>Bach falou com Deus<\/b> <i>AE \u2013 A m\u00fasica ouve-se em sil\u00eancio ou transmite o sil\u00eancio? TM \u2013<\/i> A m\u00fasica \u00e9 uma po\u00e9tica do sil\u00eancio porque reconduz o nosso cora\u00e7\u00e3o e a nossa aten\u00e7\u00e3o a um ponto nuclear. <i>AE \u2013 Numa orquestra existe o instrumento musical do sil\u00eancio? TM \u2013<\/i> O instrumento do sil\u00eancio \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o. <i>AE \u2013 No entanto, a harmonia sinf\u00f3nica de alguns instrumentos musicais faz-nos entrar no mist\u00e9rio silencioso. Ouve-se o sil\u00eancio&#8230; TM \u2013<\/i> H\u00e1 compositores muito interessados em trabalhar esse sil\u00eancio. S\u00f3 assim aparece a revela\u00e7\u00e3o. <i>AE \u2013 Qual o grande compositor que deu voz ao sil\u00eancio? TM \u2013<\/i> H\u00e1 um cineasta russo que afirma que Bach foi o \u00faltimo artista que falou com Deus. N\u00e3o sei se foi o \u00faltimo, mas Bach falou com Deus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escritas e sons do sil\u00eancio numa conversa rumo \u00e0 Quaresma<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[168,169,187,267,275,91],"class_list":["post-29650","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-de-angra","tag-diocese-do-porto","tag-natal","tag-pascoa","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29650","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29650"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29650\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}