{"id":29630,"date":"2008-01-28T11:56:29","date_gmt":"2008-01-28T11:56:29","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/01\/28\/marques-de-pombal-quis-dividir-o-algarve-em-duas-dioceses\/"},"modified":"2008-01-28T11:56:29","modified_gmt":"2008-01-28T11:56:29","slug":"marques-de-pombal-quis-dividir-o-algarve-em-duas-dioceses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/marques-de-pombal-quis-dividir-o-algarve-em-duas-dioceses\/","title":{"rendered":"Marqu\u00eas de Pombal quis dividir o Algarve em duas dioceses"},"content":{"rendered":"<p>Em 1773, Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 de Carvalho e Melo, mais conhecido como Marqu\u00eas de Pombal, secret\u00e1rio de Estado do Reino (primeiro-ministro) do rei D. Jos\u00e9 I, quis criar no Algarve um centro urbano com caracter\u00edsticas especiais, urban\u00edsticas e econ\u00f3micas. Neste projecto inclu\u00eda-se a pretens\u00e3o de dividir a regi\u00e3o \u2013 o Reino do Algarve em duas dioceses, cujos territ\u00f3rios corresponderiam ao Sotavento e Barlavento, com sede, respectivamente, em Faro e Portim\u00e3o.  N\u00e3o fora a morte do rei e a sua aprova\u00e7\u00e3o desta diocese pela Santa S\u00e9 poderia ter sido uma realidade no Algarve, territ\u00f3rio onde a presen\u00e7a de um Bispo vem desde o final do s\u00e9culo III. O padre Joaquim Nunes, licenciado em Hist\u00f3ria, explica que \u201ca ideia do Marqu\u00eas de Pombal surge no contexto da sua pol\u00edtica iluminista de desenvolvimento econ\u00f3mico-social e, no \u00e2mbito de um projecto de desenvolvimento para o Algarve, ordenado segundo a vis\u00e3o da \u00e9poca e centrado no desenvolvimento das pescas, das actividades mercantis e do aproveitamento dos produtos da terra\u201d. Esta pol\u00edtica vai-se afirmando sobretudo depois do terramoto e, perante a necessidade de garantir a reconstru\u00e7\u00e3o de uma das zonas do Pa\u00eds que, juntamente com Lisboa, foi mais afectada pelo terramoto. Aproveitou a oportunidade para fomentar o desenvolvimento das pescas e o progresso econ\u00f3mico do Algarve. \u201cApesar de ter a categoria de reino desde a reconquista, com o rei D. Afonso III, o Algarve era uma zona relativamente marginal ao resto do Pa\u00eds, muito embora fosse uma regi\u00e3o com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias e que na \u00e9poca se tinha manifestado sobretudo quer no per\u00edodo dos Descobrimentos, quer nos s\u00e9culos subsequentes\u201d, sublinha o sacerdote, acrescentando que, \u201cneste contexto, a primeira op\u00e7\u00e3o do Marqu\u00eas de Pombal para centro urbano do Algarve vai para a cidade de Portim\u00e3o, ent\u00e3o Vila Nova de Portim\u00e3o, que ele projecta elevar a cidade, refazendo-a tamb\u00e9m do ponto de vista urban\u00edstico e econ\u00f3mico\u201d. No enquadramento desta pol\u00edtica iluminista e na necessidade de a impor \u00e0s estruturas eclesi\u00e1sticas, o Marqu\u00eas projectou de dividir o Algarve em duas dioceses: uma que abrangeria toda a zona oriental e que continuaria com sede em Faro e uma outra na parte ocidental e que teria Portim\u00e3o como cidade episcopal. \u201cEsse projecto vai afirmar-se, quer no sentido do desenvolvimento econ\u00f3mico centrado em Portim\u00e3o, quer no sentido da divis\u00e3o da diocese\u201d, confirma o sacerdote, explicando que, \u201cno que respeita \u00e0 divis\u00e3o da diocese, o Marqu\u00eas de Pombal defronta-se com a pessoa do ent\u00e3o Bispo do Algarve, D. Frei Louren\u00e7o de Santa Maria\u201d.  D. Frei Louren\u00e7o de Santa Maria \u00e9 um homem que se afasta do modelo de Bispo que o Marqu\u00eas tinha como ideal: um Bispo iluminista que fosse partid\u00e1rio das ideias ligadas ao Regalismo, sendo que por Regalismo entende-se, de forma alargada, uma vis\u00e3o da Igreja em que esta \u00e9 determinada pelo interesse do pr\u00f3prio Estado e em que o Estado se imp\u00f5e como autoridade de refer\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria Igreja. Esta posi\u00e7\u00e3o implicaria a constitui\u00e7\u00e3o de uma Igreja de caracter\u00edsticas nacionais, afastada de Roma e de uma no\u00e7\u00e3o de Igreja universal fundada sobre o minist\u00e9rio de Pedro. Ora, o Bispo do Algarve n\u00e3o se identifica com este modelo. \u201cD. Frei Louren\u00e7o de Santa Maria, franciscano, d\u00e1 uma aten\u00e7\u00e3o muito grande ao cuidado pastoral e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do clero, tudo isto motivado pela procura de uma vida crist\u00e3 mais aut\u00eantica, de acordo com correntes que, a partir do Convento do Varatojo, se tinham propagado no sentido de uma vida eclesial mais austera, evang\u00e9lica e preocupada com a ac\u00e7\u00e3o pastoral junto das popula\u00e7\u00f5es em ordem ao seu crescimento espiritual\u201d, refere o padre Joaquim Nunes, explicando que este modo de ser \u00e9 contr\u00e1rio ao projecto pol\u00edtico do Marqu\u00eas de Pombal para a Igreja.  Da\u00ed que, no ano de 1773, o Marqu\u00eas tenha chamado D. Frei Louren\u00e7o de Santa Maria a Lisboa e o tenha colocado perante a necessidade de renunciar ao bispado com a promessa de uma outra sede episcopal: a diocese de Aveiro. \u201cO Marqu\u00eas queria uma Igreja em que a obedi\u00eancia ao Estado e \u00e0 sua pol\u00edtica fosse efectiva\u201d, observa o sacerdote, adiantando que o Prelado renunciou, mas deixou-se escudar na decis\u00e3o que Santa S\u00e9 daria relativamente ao assunto. O Marqu\u00eas de Pombal ao propor \u00e0 Santa S\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o da diocese de Portim\u00e3o, prop\u00f5e tamb\u00e9m nomes para o novo Bispo de Faro e para o novo Bispo de Portim\u00e3o, ali\u00e1s conforme a pr\u00e1tica da \u00e9poca. Estes, eram cl\u00e9rigos conotados com a pol\u00edtica e vis\u00e3o pombalina de Igreja.  Ambos confiam numa boa solu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o pela Santa S\u00e9. \u201cO Marqu\u00eas de Pombal confiava na boa vontade de Roma e com o valimento do N\u00fancio Apost\u00f3lico em Lisboa, at\u00e9 porque estamos num per\u00edodo favor\u00e1vel depois da retoma das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Roma\u201d e \u201co Bispo esperaria que houvesse uma considera\u00e7\u00e3o positiva acerca do seu assunto\u201d, elucida o padre Joaquim Nunes. Assim que foi obtida a ren\u00fancia de D. Frei Louren\u00e7o de Santa Maria, imediatamente o Marqu\u00eas mandou que o ent\u00e3o Bispo do Algarve substitu\u00edsse o vig\u00e1rio geral, que deixara a governar o bispado na sua aus\u00eancia. Foi obrigado a nomear o nome que o Marqu\u00eas lhe indicou: Tom\u00e1s Ant\u00f3nio Moreira de Souto e Sampaio, da ent\u00e3o diocese de Penafiel, homem d\u00f3cil aos princ\u00edpios e pol\u00edtica pombalinos. \u201cEsta nomea\u00e7\u00e3o sob a press\u00e3o e indica\u00e7\u00e3o directa do Marqu\u00eas de Pombal e as medidas logo tomadas pelo novo vig\u00e1rio geral, em provis\u00e3o que data imediatamente ap\u00f3s a sua chegada ao Algarve, concretiza e explicita, de imperativa, uma s\u00e9rie de indica\u00e7\u00f5es ao clero diocesano para o formar nos princ\u00edpios regalistas, obrigando os p\u00e1rocos a um exame que desse prova da sua ades\u00e3o, ou pelo menos do conhecimento daquela \u201ccartilha\u201d. Neste contexto apresenta um rol de livros que tinham de possuir e estudar, os quais constituem o cerne do reposit\u00f3rio de toda a doutrina regalista\u201d, salienta o padre Joaquim Nunes, evidenciando a exist\u00eancia de um \u201cprograma de afirma\u00e7\u00e3o naquela linha de orienta\u00e7\u00e3o\u201d do Marqu\u00eas de Pombal relativamente \u00e0 Igreja e \u00e0 diocese do Algarve Havendo uma insist\u00eancia em Roma para que o assunto fosse atendido e despachado praticamente at\u00e9 \u00e0s v\u00e9speras da morte do rei D. Jos\u00e9, \u00e9 precisamente a sua morte, em Fevereiro de 1777, que p\u00f5e fim a esta quest\u00e3o.  O primeiro resultado \u00e9 o regresso de D. Frei Louren\u00e7o de Santa Maria \u00e0 diocese do Algarve e a recondu\u00e7\u00e3o do vig\u00e1rio geral, afastado pelas imposi\u00e7\u00f5es do Marqu\u00eas. \u201cN\u00e3o fora a morte de D. Jos\u00e9 I e \u00e9 poss\u00edvel que as press\u00f5es que iam sendo exercidas junto da Santa S\u00e9 dessem resultado, at\u00e9 porque o N\u00fancio Apost\u00f3lico da altura era relativamente favor\u00e1vel ao Marqu\u00eas de Pombal\u201d, reconhece o padre Joaquim Nunes. Este acontecimento ajuda a perceber porque Portim\u00e3o foi elevada a cidade somente em 1924. Embora a intromiss\u00e3o por parte do Estado nos assuntos da esfera eclesial n\u00e3o fosse estranha para a \u00e9poca, o sacerdote explica que \u201ca orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que o Marqu\u00eas de Pombal seguiu n\u00e3o era consonante com a eclesiologia da \u00e9poca\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1773, Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 de Carvalho e Melo, mais conhecido como Marqu\u00eas de Pombal, secret\u00e1rio de Estado do Reino (primeiro-ministro) do rei D. Jos\u00e9 I, quis criar no Algarve um centro urbano com caracter\u00edsticas especiais, urban\u00edsticas e econ\u00f3micas. 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