{"id":295115,"date":"2023-08-16T09:28:23","date_gmt":"2023-08-16T08:28:23","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=295115"},"modified":"2023-08-15T16:32:25","modified_gmt":"2023-08-15T15:32:25","slug":"o-que-move-toda-esta-gente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-que-move-toda-esta-gente\/","title":{"rendered":"O que move toda esta gente?"},"content":{"rendered":"<p><em>Artur Veloso Vieira, Diocese do Porto<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/artur-veloso-vieira-porto.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-295116 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/artur-veloso-vieira-porto-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/artur-veloso-vieira-porto-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/artur-veloso-vieira-porto-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/artur-veloso-vieira-porto-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/artur-veloso-vieira-porto-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/artur-veloso-vieira-porto.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Esta cidade est\u00e1 habituada a multid\u00f5es e a grandes celebra\u00e7\u00f5es. Todos os anos, os Santos Populares e a Passagem de Ano. Mais frequentemente, as vit\u00f3rias do Benfica e do Sporting, as noites de Champions. Os grandes concertos no Campo Pequeno, no Coliseu dos Recreios e na Altice Arena. O Rock in Rio e a WebSummit. A Maratona e a Meia Maratona.<\/p>\n<p>Mas agora \u00e9 diferente. Vem gente de todo o mundo \u2014 contam-se mais de 180 pa\u00edses. Est\u00e3o em todo o lado: do Terreiro do Pa\u00e7o ao Marqu\u00eas, do Parque das Na\u00e7\u00f5es a Bel\u00e9m. Em todos os concelhos da \u00c1rea Metropolitana. \u00c9 imposs\u00edvel andar em Lisboa sem os ver, com as suas bandeiras nacionais, regionais, locais, paroquiais, de movimentos e congrega\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E, afinal, o que move toda esta gente? Parece incompreens\u00edvel \u2014 tomaram todos os transportes para c\u00e1 chegar, n\u00e3o parecem ter dormido muito e n\u00e3o pode dizer-se que sejam a multid\u00e3o mais limpa que esta cidade j\u00e1 viu. Afinal, est\u00e3o a pernoitar em pavilh\u00f5es, escolas, edif\u00edcios sem uso. Em qualquer peda\u00e7o de ch\u00e3o. Os que podem tomam um banho r\u00e1pido em balne\u00e1rios, com \u00e1gua fria, e, logo que se aprontam, retomam o caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 esta\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima. Alguns foram acolhidos em fam\u00edlias que decidiram abrir as portas a desconhecidos e receb\u00ea-los como sangue do seu sangue.<\/p>\n<p>E l\u00e1 v\u00eam eles para a cidade \u2014 uns de barco, outros de comboio, outros de autocarro. V\u00ea-se que t\u00eam pressa de chegar a algum lado.<\/p>\n<p>Num dia, sobem a Avenida da Liberdade em dire\u00e7\u00e3o ao Marqu\u00eas. Dezenas de na\u00e7\u00f5es, lado a lado, cada uma com o seu c\u00e2ntico. H\u00e1 uma certa alegria no ar, diferente da de qualquer outro evento ou celebra\u00e7\u00e3o. Ao chegarem ao topo da Avenida, n\u00e3o descansam e sobem ao Parque Eduardo VII. E quem os espera, afinal? Um cardeal septuagen\u00e1rio, o primeiro a sonhar com este encontro, que tem para lhes oferecer uma missa e algumas palavras ditas na sua voz pequenina. Lembra-os que a vida n\u00e3o \u00e9 para ser vivida em frente ao ecr\u00e3. Ningu\u00e9m fica indiferente \u00e0 mensagem.<\/p>\n<p>Noutro dia, regressam ao mesmo s\u00edtio, agora para verem um anci\u00e3o ainda mais velho, nascido num bairro de Buenos Aires. Parece fisicamente debilitado, mas as suas palavras ecoam naquela multid\u00e3o e conseguem reanim\u00e1-la. Quer uma igreja para todos, todos, todos.<\/p>\n<p>A multid\u00e3o n\u00e3o cessa o seu movimento nos dias seguintes. V\u00e3o a Bel\u00e9m ouvir padres, frades e freiras falar de voca\u00e7\u00f5es, de op\u00e7\u00f5es radicais. E ouvem com interesse. Na Cidade Universit\u00e1ria h\u00e1 um torneio desportivo, mas ningu\u00e9m quer saber quem vence. Parece que esta multid\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 interessada em estar junta. Em viver lado a lado.<\/p>\n<p>O anci\u00e3o de branco convoca-os uma outra vez para assistirem a uma devo\u00e7\u00e3o muito antiga (antiquada?): a Via Sacra. Mas, afinal, as 14 esta\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais actuais que nunca, e os testemunhos dados lembram que esse caminho continua a ser percorrido hoje. A multid\u00e3o n\u00e3o esmorece e sai revitalizada.<\/p>\n<p>Chega o fim-de-semana e a cidade come\u00e7a a ficar mais vazia. Est\u00e3o todos a ir em dire\u00e7\u00e3o ao rio. Quem sabe, cansaram-se. Afinal, toda a gente dizia que a Igreja est\u00e1 morta, apenas os mais velhos est\u00e3o interessados na sua mensagem e esta Jornada est\u00e1 muito mal organizada, \u00e9 um fiasco \u00e0 espera de acontecer. A multid\u00e3o deve ter-se fartado e vai embora.<\/p>\n<p>Descem a caminho da Gare do Oriente, provavelmente para tomarem o seu transporte de regresso a casa. Por\u00e9m, l\u00e1 chegados, n\u00e3o param. Seguem pela marginal, onde antes havia um aterro sanit\u00e1rio. Afinal, os c\u00e2nticos n\u00e3o cessaram, as bandeiras continuam erguidas e a pressa est\u00e1 ainda mais presente.<\/p>\n<p>Chegam ao parque do rio Tranc\u00e3o e instalam-se. As quadr\u00edculas enormes do terreno s\u00e3o, agora, pequenas. A foz do Tejo refresca este mar de gente, sob o calor de Agosto. Quando o sol se p\u00f5e, volta o anci\u00e3o de branco. Os c\u00e2nticos sobem de tom e o entusiasmo \u00e9 contagiante. Fala-lhes das ra\u00edzes da alegria, de quem caminhou com cada um deles at\u00e9 aqui, de quem os fez peregrinos.<\/p>\n<p>De um momento para o outro, todos ajoelham. O milh\u00e3o e meio de vozes a falar e a cantar torna-se sil\u00eancio absoluto. Chamam-lhe adora\u00e7\u00e3o. Todos olham para o mesmo lugar.\u00a0 N\u00e3o est\u00e3o calados por medo ou porque os mandaram calar, n\u00e3o est\u00e3o calados por n\u00e3o saberem o que dizer ou por terem vergonha de falar e dizer a coisa errada. Na realidade, est\u00e3o em sil\u00eancio mas n\u00e3o est\u00e3o calados, s\u00f3 que a conversa \u00e9 interior. A pressa cessou.\u00a0 Chegaram, finalmente, aonde eram esperados. Agora percebe-se: \u00e9 isto que move toda esta gente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artur Veloso Vieira, Diocese do Porto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":295116,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-295115","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=295115"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295115\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/295116"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=295115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=295115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=295115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}