{"id":29500,"date":"2008-01-22T10:48:01","date_gmt":"2008-01-22T10:48:01","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/01\/22\/a-arte-de-interpretar-para-persuadir\/"},"modified":"2008-01-22T10:48:01","modified_gmt":"2008-01-22T10:48:01","slug":"a-arte-de-interpretar-para-persuadir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-arte-de-interpretar-para-persuadir\/","title":{"rendered":"A arte de interpretar para persuadir"},"content":{"rendered":"<p>A ret\u00f3rica utilizada com mestria pelo pregador jesu\u00edta quis servir, acima de tudo, o sentido pleno dos textos e da vida <!--more--> Nas muitas artes que o Pe. Ant\u00f3nio Vieira praticou, deparamos sempre com a presen\u00e7a de um <i>modus operandi<\/i> que consiste em interpretar para persuadir. Ocupe-se ele de prega\u00e7\u00e3o, de profetismo, de hist\u00f3ria, de apolog\u00e9tica, e veremos, em todos esses casos, que os textos, acontecimentos, coisas e pessoas a\u00ed abordados encerram mais valor e sentido do que o imediato valor e sentido que parece decorrer da respectiva realidade emp\u00edrica.  Assim acontece porque existem como entidades pregnantes, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quais n\u00e3o h\u00e1, nem pode haver, uma compreens\u00e3o un\u00edvoca, definitiva e exclusiva. A fixidez e perman\u00eancia de tais entidades, ao permitir que as tomemos como referentes, tamb\u00e9m nos habilita a mant\u00ea-las dispon\u00edveis para m\u00faltiplas dimens\u00f5es de valor e de sentido de que s\u00e3o portadoras. Ora, o acto de delimitar nessa dimens\u00e3o significativa plural o maior n\u00famero poss\u00edvel de constituintes sem\u00e2nticos \u00e9 tarefa que compete \u00e0 arte da interpreta\u00e7\u00e3o. E Vieira soube ser sempre um int\u00e9rprete diligente. O modo de interpretar por ele seguido obedece a regras e crit\u00e9rios muito antigos, compendiados outrora pelo dominicano Agostinho de D\u00e1cia (s\u00e9c. XIII), em d\u00edstico que refere os quatro sentidos da exegese medieval, nestes termos: \u201cA letra ensina os feitos, o que cr\u00eas a alegoria, \/ A moral o que deves fazer, para onde te inclinas a anagogia.\u201d1  Ficamos, pois, a saber que a Palavra de Deus, tal como est\u00e1 impressa nos livros do Velho e do Novo Testamento, al\u00e9m do sentido literal, disp\u00f5e igualmente dos sentidos aleg\u00f3rico, moral ou tropol\u00f3gico, anag\u00f3gico ou m\u00edstico.  Esta maneira de ler os textos sagrados apresenta, em Vieira, algumas aplica\u00e7\u00f5es surpreendentes. O que, desde os Padres da Igreja, foi sendo elaborado como m\u00e9todo de interpreta\u00e7\u00e3o b\u00edblica serve ao pregador jesu\u00edta para ler e interpretar os elementos da pr\u00f3pria natureza e os acontecimentos da hist\u00f3ria. Al\u00e9m disso, junta \u00e0 Revela\u00e7\u00e3o feita por Deus e guardada nos Livros Sagrados o ensino e interpela\u00e7\u00e3o que o mesmo Deus, na sua Provid\u00eancia, vai transmitindo aos homens, atrav\u00e9s de acontecimentos da mais variada esp\u00e9cie. Baseado nestes princ\u00edpios, Vieira tanto estende o procedimento interpretativo dos quatro sentidos \u00e0s coisas da natureza e \u00e0s perip\u00e9cias da hist\u00f3ria profana, elevadas ambas ao estatuto de textos, como envolve na din\u00e2mica da economia da salva\u00e7\u00e3o realidades do mundo natural e social que dela parecem distantes. Este alargamento do campo da interpreta\u00e7\u00e3o obedece a um prop\u00f3sito claro e imperativo: persuadir ouvintes e leitores das consequ\u00eancias pr\u00e1ticas da f\u00e9.  \u00c9 preciso n\u00e3o perder de vista que Vieira se assume permanentemente como quem est\u00e1 em miss\u00e3o. Esta miss\u00e3o, mesmo nos epis\u00f3dios em que parece andar demasiado imiscu\u00edda em neg\u00f3cios humanos, subordina-se sempre ao des\u00edgnio supremo de quem sabe, como Vieira, que a sua voca\u00e7\u00e3o \u00e9 servir a realiza\u00e7\u00e3o do Reino de Deus. Compreende-se assim que a ret\u00f3rica tenha sido instrumento, nunca um fim, usado com inexced\u00edvel per\u00edcia, tendo em vista argumentar, aduzir provas, persuadir. Contempor\u00e2neo de Descartes (1596-1660) e de Baltasar Graci\u00e1n (1584-1658), deles se distingue profundamente quanto ao m\u00e9todo e quanto \u00e0 arte de argumentar. Ao crit\u00e9rio da evid\u00eancia racional e dos ju\u00edzos nele fundados, prefere Vieira as certezas da f\u00e9 e da esperan\u00e7a a cuja luz interpreta os acontecimentos passados e presentes e neles descobre o sentido de coisas futuras, deste modo consagrando a hist\u00f3ria como verdadeiro <i>sacramentum futuri<\/i> (sinal sagrado do futuro). Embora compartilhe com Graci\u00e1n os processos do discurso engenhoso, dele diverge quanto \u00e0 finalidade para a qual os utiliza. Mais do que exerc\u00edcio de est\u00e9tica, a subtileza dos conceitos e a sua organiza\u00e7\u00e3o discursiva pretende inculcar verdades e lev\u00e1-las \u00e0 pr\u00e1tica na vida dos indiv\u00edduos e dos povos. Se os conceitos s\u00e3o em Graci\u00e1n palavras belas que deleitam, em Vieira s\u00e3o, antes de mais, palavras que ensinam, transformam e querem operar a convers\u00e3o. Critica com desassombro, no serm\u00e3o da Sexag\u00e9sima (1655), o estilo culto e as agudezas a que se entregavam v\u00e1rios pregadores do seu tempo que mais lhe pareciam actores de com\u00e9dia ou de farsa do que semeadores da palavra de Deus. Tenta, por outro lado, tra\u00e7ar as linhas mestras de uma arte de pregar em que as Escrituras n\u00e3o devem andar mal interpretadas nem Deus ser tra\u00eddo por aqueles mesmos que se apresentam e falam em seu nome.  Digamos que a ret\u00f3rica utilizada com mestria pelo pregador jesu\u00edta quis servir, acima de tudo, o sentido pleno dos textos e da vida. Soube promov\u00ea-lo na dupla acep\u00e7\u00e3o que o sentido tem, isto \u00e9, como manifesta\u00e7\u00e3o de inteligibilidade e como factor de orienta\u00e7\u00e3o e direc\u00e7\u00e3o. Como manifesta\u00e7\u00e3o de inteligibilidade, os textos, ao serem lidos e relidos, revelam-se manancial inesgot\u00e1vel de saber e de verdade; como factor de orienta\u00e7\u00e3o e direc\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria e a exist\u00eancia humana adquirem o rumo que as faz alinhar pela esperan\u00e7a na consuma\u00e7\u00e3o final do Reino de Cristo. <i>Lu\u00eds Machado de Abreu (Universidade de Aveiro) <i>(1) \u201cLittera gesta docet, quid credas allegoria, \/ Moralis quid agas, quo tendas anagogia.\u201d Cit. por Henri de Lubac, Ex\u00e9g\u00e8se M\u00e9di\u00e9vale Les quatre sens de l\u2019\u00c9criture. I. Paris, Aubier, 1959, p. 23 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ret\u00f3rica utilizada com mestria pelo pregador jesu\u00edta quis servir, acima de tudo, o sentido pleno dos textos e da vida<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[168,170,191],"class_list":["post-29500","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-de-aveiro","tag-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29500","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29500"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29500\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29500"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29500"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29500"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}