{"id":29497,"date":"2008-01-22T10:24:17","date_gmt":"2008-01-22T10:24:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/01\/22\/vieira-a-grandeza-de-um-imperador\/"},"modified":"2008-01-22T10:24:17","modified_gmt":"2008-01-22T10:24:17","slug":"vieira-a-grandeza-de-um-imperador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/vieira-a-grandeza-de-um-imperador\/","title":{"rendered":"Vieira: a grandeza de um Imperador"},"content":{"rendered":"<p>A l\u00edngua portuguesa tornou-se mais d\u00factil e pl\u00e1stica, e a nossa cultura ganhou dimens\u00f5es de universalidade <!--more--> Foi outro grande dignit\u00e1rio da L\u00edngua Portuguesa, Fernando Pessoa, que apelidou o Padre Ant\u00f3nio Vieira de \u201cImperador da L\u00edngua Portuguesa\u201d, com a dupla autoridade que lhe assistia: a de um dos maiores cultores da nossa l\u00edngua, e a de uma cosmovis\u00e3o multiforme, tanto da condi\u00e7\u00e3o humana, como da cultura portuguesa. Com efeito, poucos portugueses se impuseram, nacional e internacionalmente, \u00e0 mem\u00f3ria das na\u00e7\u00f5es, pois n\u00e3o cabem nessa galeria de g\u00e9nios s\u00f3 os grandes navegadores e pol\u00edticos, mas tamb\u00e9m os religiosos, os homens de Letras, das Ci\u00eancias, e das Artes. E Vieira \u00e9 um deles, nos dois grandes cen\u00e1rios que definem os cl\u00e1ssicos: o da vida, e o da mem\u00f3ria que deles se conserva. Dotado de um temperamento aguerrido, apaixonado, apesar de sa\u00fade fr\u00e1gil, p\u00f4s todas as suas for\u00e7as ao servi\u00e7o da f\u00e9 e do duplo imp\u00e9rio que queria construir: o da Realeza, e o da F\u00e9 Cat\u00f3lica-Quinta Monarquia da Hist\u00f3ria do Mundo! Por isso concitou n\u00e3o poucos inimigos, desde os colonos esclavagistas, a pregadores de outras Ordens, a pol\u00edticos, \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o desistia de o perseguir, chegando a process\u00e1-lo, met\u00ea-lo na pris\u00e3o, e at\u00e9 o proibir de pregar. A tudo resistiu o intr\u00e9pido jesu\u00edta, que foi mission\u00e1rio, diplomata e pol\u00edtico ao servi\u00e7o da Na\u00e7\u00e3o restaurada, pregador eminente, cultor da l\u00edngua e da cultura portuguesas, nos seus mais altos n\u00edveis. Como mission\u00e1rio, foi-o, primeiro na Bahia, dedicando-se especialmente a defender os escravos dos excessos dos senhores, a combater a pr\u00f3pria ideia da escraviza\u00e7\u00e3o. Depois, no Maranh\u00e3o, sendo aqui o combate mais radical, pois ao contr\u00e1rio do que sucedia com os negros que, em grande parte j\u00e1 vinham escravos de \u00c1frica, n\u00e3o era essa a situa\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, importando obstar, a todo o custo, que lhes fosse criado o mesmo estatuto. Por isso conheceu o \u00f3dio e as persegui\u00e7\u00f5es dos colonos, que atentaram contra a sua vida e o expulsaram do Maranh\u00e3o. Como diplomata e pol\u00edtico fez-se embaixador para defender a restaura\u00e7\u00e3o portuguesa e D. Jo\u00e3o IV, de 1642 a 1652, junto das cortes de Fran\u00e7a, Holanda, It\u00e1lia, especialmente em Roma. N\u00e3o foi alheio \u00e0 diplomacia da guerra, do com\u00e9rcio, das alian\u00e7as, advogando o regresso a Portugal dos judeus expulsos, emitindo pareceres, viajando incansavelmente. Vivia sobriamente, recusando honrarias e miss\u00f5es dispens\u00e1veis, como o ser embaixador em Haia ou aceitar a mitra episcopal que lhe foi proposta. Como pregador, agigantou-se por uma eloqu\u00eancia arrebatadora que conhecia os segredos da l\u00edngua e da eloqu\u00eancia, de s\u00f3lidos fundamentos teol\u00f3gicos, b\u00edblicos e ret\u00f3ricos, abusando, n\u00e3o poucas vezes, do processo encantat\u00f3rio dos malabarismos barrocos, ao manipular os v\u00e1rios sentidos b\u00edblicos, as alegorias, compara\u00e7\u00f5es, met\u00e1foras e os exempla da antiguidade cl\u00e1ssica, multiplicando os silogismos, as ant\u00edteses, os paradoxos, as hip\u00e9rboles, as ap\u00f3strofes, em suma, misturando, estrategicamente, o <i>docere<\/i> com o <i>delectare<\/i>, sobretudo quando um sopro de utopia era usado para arrebatar, ou amedrontar os ouvintes. Tal foi o seu \u00eaxito que se tornou o pregador da capela real, da elite de Roma, sobretudo na Igreja de Santo Ant\u00f3nio, pregador da rainha Cristina da Su\u00e9cia, sendo o seu prest\u00edgio tal que, em Roma, foram ouvir o seu serm\u00e3o do Carnaval de 167319 cardeais. Homem contradit\u00f3rio, tanto se ocupava das mais variadas quest\u00f5es terrenas, das mais elevadas medita\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas, como das mais ousadas utopias do Quinto Imp\u00e9rio, em obras como a Hist\u00f3ria do Futuro e a <i>Clavis Prophetarum<\/i>, dando cr\u00e9dito \u00e0s profecias de Bandarra, \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es escatol\u00f3gicas ligadas \u00e0 passagem dos cometas que afirmava augurarem calamidades p\u00fablicas.  Como express\u00e3o desta multifacetada actividade e pensamento, deixou para a posteridade uma vasta obra escrita de serm\u00f5es e cartas. A todos se dirigiu: aos poderosos, aos mais humildes, repreendendo, amea\u00e7ando, satirizando, tanto em Portugal como no Brasil e em diversos pa\u00edses europeus. Com os seus escritos, a l\u00edngua portuguesa tornou-se mais d\u00factil e pl\u00e1stica, e a nossa cultura, sobretudo na sua express\u00e3o liter\u00e1ria, ganhou dimens\u00f5es de universalidade. E t\u00e3o cuidadoso foi que, no fim da vida, retocou e aprimorou os seus serm\u00f5es, consciente tamb\u00e9m da sua miss\u00e3o de escritor. Serm\u00f5es estes que tamb\u00e9m pela forma se imp\u00f5em, pois se modelaram pelos bons preceitos de C\u00edcero e Quintiliano: depois da <i>captatio benevolentiae<\/i> dos ouvintes no <i>exordium<\/i>, dispunha-os para a mat\u00e9ria do serm\u00e3o, ordenando-o depois segundo as boas regras da <i>inventio<\/i> (escolha da mat\u00e9ria adequada), da <i>dispositio<\/i> (ordena\u00e7\u00e3o de ideias, pensamentos ),da <i>elocutio<\/i> (arte e escolha das palavras), seguindo-se a realiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica, pelo que, em tr\u00eas partes se estrutura, na pr\u00e1tica, essa execu\u00e7\u00e3o: o ex\u00f3rdio, a narra\u00e7\u00e3o-argumenta\u00e7\u00e3o e a perora\u00e7\u00e3o, recapitulando ou refor\u00e7ando as ideias. Dessa riqueza basta lembrar alguns momentos que s\u00e3o refer\u00eancias inesquec\u00edveis: Os serm\u00f5es do Ros\u00e1rio \u00e0s confrarias de escravos, sobre Nossa Senhora Rosa M\u00edstica, do Advento, da Quaresma, de Santo Ant\u00f3nio aos peixes\u2026 Pelo grande impacte obtido, limitamo-nos a alguns exemplos mais emblem\u00e1ticos:  No Serm\u00e3o pelo bom sucesso das armas portuguesas, pregado na Bahia em 1640, usando para Deus o argumento <i>ad absurdum<\/i>: \u201cEntregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhe as \u00cdndias, entregai-lhe as Hespanhas (que n\u00e3o s\u00e3o menos perigosas as consequ\u00eancias do Brasil perdido), entregai-lhe quanto temos e possu\u00edmos (como j\u00e1 lhe entregastes tanta parte); ponde em suas m\u00e3os o mundo; e a n\u00f3s, aos portugueses e hespanh\u00f3is, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas s\u00f3 digo e lembro a Vossa Magestade, Senhor, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lan\u00e7aes de V\u00f3s, pode ser que os queirais algum dia, e que os n\u00e3o tenhais\u201d  Do 27\u00baSerm\u00e3o do Ros\u00e1rio, pregado numa confraria de escravos: \u201cNas outras terras, do que aram os homens e do que fiam e tecem as mulheres, se fazem os com\u00e9rcios: naquela, o que geram os pais e o que criam a seus peitos as m\u00e3es, \u00e9 o que se vende e se compra. Oh trato deshumano, em que a mercancia s\u00e3o homens! Oh mercancia diab\u00f3lica, em que os interesses se tiram das almas alheias(\u2026) Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos despidos e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo \u00e0 fome; os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferros; os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os como Deuses.\u201d E que dizer de s\u00e1tiras humor\u00edsticas como no Serm\u00e3o de Quaresma pregado como censura aos habitantes do Maranh\u00e3o pelas falsidades a que recorreram. Imagina o pregador que, quando o diabo, condenado, caiu do c\u00e9u, feito em bocados, \u201cestes peda\u00e7os se espalharam em diversas prov\u00edncias da Europa, onde ficaram os v\u00edcios que nelas reinam. Dizem que a cabe\u00e7a do diabo caiu em Espanha, e que por isso somos fumosos, altivos e com arrog\u00e2ncia graves (\u2026) o peito caiu em It\u00e1lia (\u2026)o ventre caiu na Alemanha (\u2026) os p\u00e9s ca\u00edram em Fran\u00e7a (\u2026) os bra\u00e7os, com as m\u00e3os e unhas crescidas, um caiu em Holanda e outro em Argel (\u2026) E suposto que \u00e0 Hespanha lhe coube a cabe\u00e7a, cuido eu que a parte dela que nos toca ao nosso Portugal, \u00e9 a l\u00edngua (\u2026)E se as Letras deste abeced\u00e1rio se repartissem pelos estados de Portugal; que letra caberia ao nosso Maranh\u00e3o? N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, que o M Maranh\u00e3o, M murmurar, M motejar, M malsinar, M maldizer, M mexericar, e, sobre tudo M, mentir\u201d. N\u00e3o acabar\u00edamos se quis\u00e9ssemos inventariar verdadeiras j\u00f3ias lapidadas como as descri\u00e7\u00f5es-defini\u00e7\u00f5es da guerra ,do estatu\u00e1rio, do polvo, do \u201cnon\u201d\u2026 <i>Fernando Crist\u00f3v\u00e3o, Universidade Cl\u00e1ssica de Lisboa <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A l\u00edngua portuguesa tornou-se mais d\u00factil e pl\u00e1stica, e a nossa cultura ganhou dimens\u00f5es de universalidade<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[100,101,122,203,261,91],"class_list":["post-29497","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-advento","tag-africa","tag-brasil","tag-europa","tag-missoes","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29497","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29497"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29497\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}