{"id":294728,"date":"2023-08-08T12:11:15","date_gmt":"2023-08-08T11:11:15","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=294728"},"modified":"2023-08-09T12:13:14","modified_gmt":"2023-08-09T11:13:14","slug":"vesperas-com-os-bispos-os-sacerdotes-os-diaconos-os-consagrados-as-consagradas-os-seminaristas-e-os-agentes-da-pastoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/vesperas-com-os-bispos-os-sacerdotes-os-diaconos-os-consagrados-as-consagradas-os-seminaristas-e-os-agentes-da-pastoral\/","title":{"rendered":"V\u00e9speras com os Bispos, os Sacerdotes, os Di\u00e1conos, os Consagrados, as Consagradas, os Seminaristas e os Agentes da Pastoral"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_293089\" aria-describedby=\"caption-attachment-293089\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/20230802_vesperas_papa_jeronimos_joao_lopes_cardoso_0010.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-293089 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/20230802_vesperas_papa_jeronimos_joao_lopes_cardoso_0010.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1279\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/20230802_vesperas_papa_jeronimos_joao_lopes_cardoso_0010.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/20230802_vesperas_papa_jeronimos_joao_lopes_cardoso_0010-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/20230802_vesperas_papa_jeronimos_joao_lopes_cardoso_0010-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/20230802_vesperas_papa_jeronimos_joao_lopes_cardoso_0010-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/20230802_vesperas_papa_jeronimos_joao_lopes_cardoso_0010-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/20230802_vesperas_papa_jeronimos_joao_lopes_cardoso_0010-1536x1023.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-293089\" class=\"wp-caption-text\">Foto: JMJ203\/Jo\u00e3o Lopes Cardoso<\/figcaption><\/figure>\n<p>Prezados Irm\u00e3os Bispos,<\/p>\n<p>Amados sacerdotes, di\u00e1conos, consagradas, consagrados, seminaristas,<\/p>\n<p>Queridos agentes pastorais, irm\u00e3os e irm\u00e3s, boa tarde!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estou feliz por me encontrar no meio de v\u00f3s n\u00e3o s\u00f3 para viver, juntamente com muitos jovens, a Jornada Mundial da Juventude, mas tamb\u00e9m para partilhar o vosso caminho eclesial com as suas canseiras e esperan\u00e7as. Agrade\u00e7o a D. Jos\u00e9 Ornelas as palavras que me dirigiu; desejo rezar convosco, para \u2013 como disse \u2013 nos tornarmos, junto com os jovens, ousados em abra\u00e7ar \u00abo sonho de Deus e encontrar caminhos para uma participa\u00e7\u00e3o alegre, generosa e transformadora a bem da Igreja e da humanidade\u00bb. N\u00e3o se trata duma piada; \u00e9 um programa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mergulhei na beleza do vosso pa\u00eds, terra de passagem entre o passado e o futuro, local de antigas tradi\u00e7\u00f5es e de grandes mudan\u00e7as, embelezado por vales vi\u00e7osos, praias douradas debru\u00e7adas sobre o imenso e fascinante oceano, que banha Portugal. Tudo isto me sugere o ambiente da voca\u00e7\u00e3o dos primeiros disc\u00edpulos, que Jesus chamou nas margens do Mar da Galileia. Quero deter-me sobre esta chamada, que p\u00f5e em evid\u00eancia o que acab\u00e1mos de ouvir na Lectio brevis das V\u00e9speras: o Senhor salvou-nos, chamou-nos n\u00e3o em aten\u00e7\u00e3o \u00e0s nossas obras, mas segundo a sua gra\u00e7a (cf. 2 Tm 1, 9). O mesmo aconteceu na vida dos primeiros disc\u00edpulos, quando Jesus, ao passar, \u00abviu dois barcos que se encontravam junto do lago. Os pescadores tinham descido deles e lavavam as redes\u00bb (Lc 5, 2). Ent\u00e3o Jesus subiu para o barco de Sim\u00e3o e, depois de ter falado \u00e0s multid\u00f5es, mudou a vida daqueles pescadores, convidando-os a fazerem-se ao largo e lan\u00e7arem as redes. Salta aos olhos o contraste: por um lado, os pescadores descem do barco para lavar as redes, ou seja, limp\u00e1-las, guard\u00e1-las e voltar para casa e, por outro, Jesus sobe para o barco e convida a lan\u00e7ar novamente as redes para a pesca. Sobressaem as diferen\u00e7as: os disc\u00edpulos descem, Jesus sobe; os primeiros querem guardar as redes, o Mestre quer que saiam de novo para o mar a fim de pescar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, temos os pescadores que descem do barco para lavar as redes. Esta \u00e9 a cena que se apresenta aos olhos de Jesus, e Ele para ali mesmo. Pouco antes quisera come\u00e7ar a sua prega\u00e7\u00e3o na sinagoga de Nazar\u00e9, mas os seus conterr\u00e2neos expulsaram-No da cidade e tentaram at\u00e9 mat\u00e1-Lo (cf. Lc 4, 28-30). Ent\u00e3o Jesus sai do lugar sagrado e come\u00e7a a pregar a Palavra no meio da gente, pelas estradas onde labutam dia a dia as mulheres e os homens do seu tempo. Cristo est\u00e1 interessado em fazer sentir a proximidade de Deus, precisamente nos lugares e situa\u00e7\u00f5es onde as pessoas vivem, lutam, esperam, \u00e0s vezes colecionando nas suas m\u00e3os fracassos e insucessos, precisamente como aqueles pescadores que n\u00e3o tinham pescado nada durante a noite. Jesus olha com ternura para Sim\u00e3o e seus companheiros que, cansados e angustiados, lavam as suas redes, realizando um gesto repetitivo, autom\u00e1tico, mas tamb\u00e9m cansado e resignado: n\u00e3o havia mais nada a fazer sen\u00e3o voltar para casa de m\u00e3os vazias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c0s vezes podemos sentir um cansa\u00e7o semelhante no nosso caminho eclesial. Cansa\u00e7o. Algu\u00e9m dizia: \u00abtemo o cansa\u00e7o dos bons\u00bb. Cansa\u00e7o sentido quando nos parece que nada mais temos nas m\u00e3os al\u00e9m das redes vazias. Trata-se dum sentimento bastante difundido nos pa\u00edses de antiga tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, atravessados por muitas mudan\u00e7as sociais e culturais e cada vez mais marcados pelo secularismo, pela indiferen\u00e7a para com Deus, por um progressivo afastamento da pr\u00e1tica da f\u00e9. O perigo aqui \u00e9 que entre o mundanismo. Ali\u00e1s, isto v\u00ea-se, com frequ\u00eancia, acentuado pela desilus\u00e3o ou a avers\u00e3o que alguns nutrem face \u00e0 Igreja, devido \u00e0s vezes ao nosso mau testemunho e aos esc\u00e2ndalos que desfiguraram o seu rosto e que nos chamam a uma purifica\u00e7\u00e3o humilde, constante, partindo do grito de sofrimento das v\u00edtimas que sempre se devem acolher e escutar. O risco, por\u00e9m, quando nos sentimos desanimados (cada um de v\u00f3s pense em que momento sentiu o des\u00e2nimo), o risco \u00e9 descer do barco, acabando presos nas redes da resigna\u00e7\u00e3o e do pessimismo. Ao contr\u00e1rio, confiemos que Jesus continua a tomar pela m\u00e3o e a levantar a sua Esposa amada. Levemos ao Senhor as nossas canseiras e as nossas l\u00e1grimas, para poder enfrentar as situa\u00e7\u00f5es pastorais e espirituais, dialogando entre n\u00f3s com abertura de cora\u00e7\u00e3o para experimentar novos caminhos a seguir. Quando estamos desanimados, mais ou menos conscientemente \u00abaposentamo-nos\u00bb, \u00abaposentamo-nos\u00bb do zelo apost\u00f3lico, perdemo-lo pouco a pouco e tornamo-nos \u00abfuncion\u00e1rios do sagrado\u00bb. \u00c9 muito triste quando uma pessoa que consagrou a sua vida a Deus se torna \u00abfuncion\u00e1rio\u00bb, mero administrador das coisas. \u00c9 muito triste.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De facto, logo que os ap\u00f3stolos descem para lavar as ferramentas usadas, Jesus sobe para o barco e depois convida a lan\u00e7ar de novo as redes. No momento do des\u00e2nimo, momento da \u00abaposenta\u00e7\u00e3o\u00bb, deixemos Jesus subir novamente para o barco, com o entusiasmo da primeira vez, aquele entusiasmo que deve ser revivido, reconquistado, reeditado. Ele vem procurar-nos nas nossas solid\u00f5es, nas nossas crises, para nos ajudar a recome\u00e7ar. A espiritualidade do recome\u00e7o. N\u00e3o tenhais medo. A vida \u00e9 assim: cair e recome\u00e7ar, aborrecer-se e recobrar a alegria. Aceitar esta m\u00e3o que nos d\u00e1 Jesus. Hoje continua a passar pelas margens da exist\u00eancia para despertar a esperan\u00e7a e dizer, tamb\u00e9m a n\u00f3s, como a Sim\u00e3o e aos outros: \u00abFaz-te ao largo; e v\u00f3s lan\u00e7ai as redes para a pesca\u00bb (Lc 5, 4). E quando se perde o entusiasmo, assaltam-nos mil justifica\u00e7\u00f5es para n\u00e3o lan\u00e7armos as redes, mas sobretudo apodera-se de n\u00f3s uma resigna\u00e7\u00e3o amarga, que \u00e9 como um verme que corr\u00f3i a alma. Irm\u00e3os e irm\u00e3s, vivemos certamente um tempo dif\u00edcil \u2013 bem o sabemos! \u2013, mas a interpela\u00e7\u00e3o que o Senhor dirige hoje \u00e0 Igreja \u00e9 esta: \u00abQueres descer do barco e afundar na desilus\u00e3o, ou fazer-Me subir permitindo que seja mais uma vez a novidade da minha Palavra a tomar na m\u00e3o o leme? Digo a ti sacerdote, consagrado, consagrada, bispo: Queres apenas conservar o passado que ficou para tr\u00e1s ou lan\u00e7ar de novo e com entusiasmo as redes para a pesca?\u00bb. Eis o que nos pede o Senhor: despertar a \u00e2nsia pelo Evangelho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m se acostuma, se sente aborrecido e a miss\u00e3o torna-se uma esp\u00e9cie de \u00abemprego\u00bb, \u00e9 hora de dar lugar a esta segunda chamada de Jesus, que sempre nos chama de novo. Chama-nos para nos fazer caminhar, chama-nos para nos refazer. N\u00e3o tenhais medo desta segunda chamada de Jesus. N\u00e3o se trata duma ilus\u00e3o, mas \u00e9 Ele mesmo que volta a bater \u00e0 porta. E podemos dizer que esta \u00e9 a \u00e2nsia \u00abboa\u00bb quando nos deixamos seduzir pela segunda chamada de Jesus. \u00c9 a \u00e2nsia \u00abboa\u00bb que vos comunica, a v\u00f3s portugueses, a imensid\u00e3o do oceano: fazer-se ao largo, n\u00e3o para conquistar o mundo, nem para ir \u00e0 pesca do bacalhau, mas para alegrar o mundo com a consola\u00e7\u00e3o e a alegria do Evangelho. Sob este ponto de vista, podemos ler as palavras dum vosso grande mission\u00e1rio, o Padre Ant\u00f3nio Vieira, chamado \u00abPaia\u00e7u \u2013 pai grande\u00bb. Segundo ele, para nascer, Deus ter-vos-ia dado uma pequena terra, mas, ao fazer-vos debru\u00e7ar sobre o oceano, deu-vos o mundo inteiro para morrer: \u00abPara nascer, pequena terra; para morrer, toda a terra: para nascer, Portugal; para morrer, o mundo\u00bb (A. Vieira, \u201cSerm\u00e3o de Santo Ant\u00f3nio\u201d, Roma 1670, \u00a7 IV, in:\u00a0 Homilias, vol. III, tomo VII, Porto 1959, p. 69). Somos chamados a lan\u00e7ar de novo as redes e a abra\u00e7ar o mundo com a esperan\u00e7a do Evangelho. N\u00e3o \u00e9 momento de parar, n\u00e3o \u00e9 momento de desistir, n\u00e3o \u00e9 momento de atracar o barco \u00e0 margem nem de olhar para tr\u00e1s; n\u00e3o temos de escapar deste tempo, s\u00f3 porque nos mete medo, para nos refugiarmos em formas e estilos do passado. N\u00e3o! Este \u00e9 o tempo da gra\u00e7a que o Senhor nos concede para nos aventurarmos no mar da evangeliza\u00e7\u00e3o e da miss\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas, para o conseguir, precisamos tamb\u00e9m de fazer op\u00e7\u00f5es. Quero indicar tr\u00eas op\u00f5es, inspiradas no Evangelho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A primeira op\u00e7\u00e3o: fazer-se ao largo. Cultivai a magnanimidade. N\u00e3o sejais pusil\u00e2nimes! Fazei-vos ao largo, para lan\u00e7ar novamente as redes ao mar, \u00e9 preciso sair da margem das desilus\u00f5es e do imobilismo, afastar-se daquela tristeza melosa e daquele cinismo ir\u00f3nico que muitas vezes nos assaltam \u00e0 vista das dificuldades. Tristeza melosa, cinismo ir\u00f3nico: examinemos a consci\u00eancia sobre isto. Recuperar o entusiasmo, mas numa segunda edi\u00e7\u00e3o desse entusiasmo, o entusiasmo j\u00e1 maduro, o entusiasmo que se segue ao fracasso ou ao t\u00e9dio. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil recuperar o entusiasmo adulto. Temos de o fazer para passar do derrotismo \u00e0 f\u00e9, como Sim\u00e3o que, apesar de ter trabalhado em v\u00e3o toda a noite, conclui: \u00abPorque Tu o dizes, lan\u00e7arei as redes\u00bb (Lc 5, 5). Mas, para nos fiarmos dia a dia no Senhor e na sua Palavra, n\u00e3o bastam palavras, \u00e9 necess\u00e1ria muita ora\u00e7\u00e3o. Gostaria de fazer aqui uma pergunta, mas cada qual responde no seu \u00edntimo: Como rezo eu? Como um papagaio, bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1, ou adormentando-me diante do Sacr\u00e1rio, porque n\u00e3o sei como falar com o Senhor? Rezo? Como rezo? Apenas na adora\u00e7\u00e3o, s\u00f3 diante do Senhor, \u00e9 que recuperamos o gosto e a paix\u00e3o pela evangeliza\u00e7\u00e3o. E, curiosamente, perdemos a ora\u00e7\u00e3o de adora\u00e7\u00e3o; e todos, sacerdotes, bispos, consagradas, consagrados t\u00eam de a recuperar: recuperar aquele permanecer em sil\u00eancio diante do Senhor. A Madre Teresa, envolvida em tantas coisas da vida, nunca deixou a adora\u00e7\u00e3o, mesmo nos momentos em que a sua f\u00e9 vacilava questionando-se se tudo aquilo era verdade ou n\u00e3o. Momento de escurid\u00e3o, que tamb\u00e9m teve Teresinha do Menino Jesus. Ent\u00e3o, na ora\u00e7\u00e3o, vencemos a tenta\u00e7\u00e3o de continuar com uma \u00abpastoral nost\u00e1lgica feita de lamenta\u00e7\u00f5es\u00bb. Num convento havia uma freira (isto aconteceu!) que se lamentava de tudo, e n\u00e3o sei qual era o nome dela, mas as irm\u00e3s mudaram-lhe o nome chamando-a a \u00abIrm\u00e3 Lam\u00farias\u00bb. Quantas vezes transformamos em lam\u00farias as nossas impot\u00eancias, as nossas desilus\u00f5es! E, deixando estas lam\u00farias, ganhemos de novo for\u00e7as para nos fazermos ao largo, sem ideologias nem mundanismos. Aquele mundanismo espiritual que se insinua em n\u00f3s e do qual nasce o clericalismo. Clericalismo n\u00e3o s\u00f3 dos padres: os leigos clericalizados s\u00e3o piores do que os padres. Esse clericalismo que nos arru\u00edna. E, como dizia um grande mestre espiritual, esse mundanismo espiritual \u2014 provocado pelo clericalismo \u2014 \u00e9 um dos males mais graves que podem acontecer \u00e0 Igreja. Procuremos superar estas dificuldades sem ideologias nem mundanismos, animados por um \u00fanico desejo: que chegue a todos o Evangelho. Neste caminho, n\u00e3o vos faltam exemplos! E, dado que nos encontramos no meio dos jovens, apraz-me recordar um jovem lisboeta, S\u00e3o Jo\u00e3o de Brito: era um jovem daqui que h\u00e1 s\u00e9culos, no meio de muitas dificuldades, foi para a \u00cdndia e l\u00e1 n\u00e3o desdenhava falar e vestir-se \u00e0 maneira das pessoas locais contanto que lhes pudesse anunciar Jesus. Tamb\u00e9m n\u00f3s somos chamados a mergulhar as nossas redes no tempo em que vivemos, a dialogar com todos, a tornar compreens\u00edvel o Evangelho, mesmo que para isso tenhamos de correr o risco dalguma tempestade. Como os jovens que aqui v\u00eam de todo o mundo para desafiar as ondas gigantes, fa\u00e7amo-nos ao largo tamb\u00e9m n\u00f3s sem medo. Sim! N\u00e3o temamos enfrentar o mar alto, porque no meio da tempestade e dos ventos contr\u00e1rios, Jesus vem ao nosso encontro e diz: \u00abCoragem, sou Eu, n\u00e3o temais!\u00bb (Mt 14, 27). Quantas vezes j\u00e1 tivemos esta experi\u00eancia? Cada qual se interpele dentro de si mesmo. E se n\u00e3o a tivemos \u00e9 porque algo falhou durante a tempestade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como segunda op\u00e7\u00e3o, levar juntos por diante a pastoral, todos juntos. No texto, Jesus confia a Pedro a tarefa de fazer-se ao largo, mas depois fala no plural, dizendo \u00abe v\u00f3s lan\u00e7ai as redes\u00bb (Lc 5, 4): Pedro guia o barco, mas todos est\u00e3o no barco e todos s\u00e3o chamados a fazer descer as redes. Todos. E, quando apanham uma grande quantidade de peixes, n\u00e3o pensam que conseguiriam arranjar-se sozinhos, nem gerem a d\u00e1diva como posse e propriedade privada, mas \u00abfizeram sinal \u2013 diz o Evangelho \u2013 aos companheiros que estavam no outro barco, para que os viessem ajudar\u00bb (Lc 5, 7). E assim encheram de peixe, n\u00e3o um, mas dois barcos: um significa solid\u00e3o, fechamento, pretens\u00e3o de autossufici\u00eancia; dois significa rela\u00e7\u00e3o. A Igreja \u00e9 sinodal, \u00e9 comunh\u00e3o, ajuda m\u00fatua, caminho comum. E a isto tende o S\u00ednodo em curso, que ter\u00e1 o seu primeiro per\u00edodo de assembleia geral no pr\u00f3ximo m\u00eas de outubro. Na barca da Igreja, deve haver lugar para todos: todos os batizados s\u00e3o chamados a subir para ela e lan\u00e7ar as redes, empenhando-se pessoalmente no an\u00fancio do Evangelho. E n\u00e3o vos esque\u00e7ais desta palavra: todos, todos, todos. Quando tenho de falar sobre o modo como abrir perspetivas apost\u00f3licas, toca-me muito aquela passagem do Evangelho em que os convidados se recusam a ir \u00e0 festa de n\u00fapcias do filho quando j\u00e1 est\u00e1 tudo preparado. Que diz ent\u00e3o o senhor, o senhor que preparou a festa? \u00abSaiam pelas periferias e tragam todos, todos, todos, todos: s\u00e3os, doentes, crian\u00e7as e adultos, bons e pecadores. Todos\u00bb. Que a Igreja n\u00e3o seja uma alf\u00e2ndega para selecionar quem entra e quem n\u00e3o entra. Todos, cada um com a sua vida \u00e0s costas, com os seus pecados, assim como \u00e9 diante de Deus, como \u00e9 diante da vida&#8230; Todos. Todos. N\u00e3o levantemos alf\u00e2ndegas na Igreja. Todos. E \u00e9 um grande desafio, especialmente em contextos onde os sacerdotes e os consagrados est\u00e3o cansados porque, enquanto as necessidades pastorais v\u00e3o aumentando sempre mais, eles s\u00e3o cada vez menos. Mas podemos olhar para esta situa\u00e7\u00e3o como uma ocasi\u00e3o para, com fraterno entusiasmo e s\u00e3 criatividade pastoral, envolver os leigos. Assim as redes dos primeiros disc\u00edpulos tornam-se uma imagem da Igreja, que \u00e9 uma \u00abrede de rela\u00e7\u00f5es\u00bb humanas, espirituais e pastorais. Se n\u00e3o houver di\u00e1logo, se n\u00e3o houver corresponsabilidade, se n\u00e3o houver participa\u00e7\u00e3o, a Igreja envelhece. Permiti que o exprima assim: nunca um Bispo sem o pr\u00f3prio presbit\u00e9rio e o Povo de Deus; nunca um padre sem os seus irm\u00e3os sacerdotes; e todos juntos \u2013 sacerdotes, religiosas, religiosos e fi\u00e9is leigos \u2013 como Igreja, nunca sem os outros, nunca sem o mundo (sem mundanismo \u2013 isso sim! \u2013, mas n\u00e3o sem o mundo). Na Igreja, ajudamo-nos, apoiamo-nos reciprocamente e somos chamados a difundir, tamb\u00e9m fora dela, um clima de fraternidade construtiva. Ali\u00e1s, como escreve S\u00e3o Pedro, n\u00f3s somos as pedras vivas usadas para a constru\u00e7\u00e3o dum edif\u00edcio espiritual (cf. 1 Ped 2, 5). E poderia acrescentar numa linguagem que vos \u00e9 familiar: v\u00f3s, fi\u00e9is portugueses, formais uma \u00abcal\u00e7ada\u00bb, sois os ladrilhos preciosos que comp\u00f5em um tal pavimento acolhedor e brilhante que o Evangelho h\u00e1 de pisar; e n\u00e3o pode faltar uma pedrinha sequer, sen\u00e3o imediatamente se d\u00e1 conta. Tal \u00e9 a Igreja que, com a ajuda de Deus, somos chamados a construir!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enfim a terceira op\u00e7\u00e3o: tornar-se pescadores de homens. N\u00e3o tenhais medo. Isto n\u00e3o \u00e9 fazer proselitismo, \u00e9 anunciar o Evangelho que nos desafia. Nesta imagem t\u00e3o bela de Jesus \u2013 ser pescadores de homens \u2013, Jesus confia aos disc\u00edpulos a miss\u00e3o de se fazerem ao largo no mar do mundo. Muitas vezes, na Sagrada Escritura, o mar simboliza o lugar do mal e das for\u00e7as adversas que os homens n\u00e3o conseguem dominar. Por isso pescar as pessoas e tir\u00e1-las para fora da \u00e1gua significa ajud\u00e1-las a voltar a subir de onde afundaram, salv\u00e1-las do mal que amea\u00e7a afog\u00e1-las, ressuscit\u00e1-las de todas as formas de morte. Isto, por\u00e9m, sem proselitismo, mas com amor. E um dos sinais de alguns movimentos eclesiais que v\u00e3o por caminho errado \u00e9 o proselitismo. Quando um movimento eclesial ou uma diocese, ou um bispo, ou um p\u00e1roco, ou uma freira, ou um leigo faz proselitismo, isso n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3o; crist\u00e3o \u00e9 convidar, acolher, ajudar, mas sem proselitismo. Com efeito, o Evangelho \u00e9 um an\u00fancio de vida no mar da morte, de liberdade nas voragens da escravid\u00e3o, de luz no abismo das trevas. Como afirma Santo Ambr\u00f3sio, \u00abos instrumentos da pesca apost\u00f3lica s\u00e3o como as redes: de facto, as redes n\u00e3o fazem morrer quem fica preso nelas, mas conserva-o em vida, arrasta-o dos abismos para a luz\u00bb (Exp. Luc. IV, 68-79). N\u00e3o faltam trevas na sociedade atual, inclusive aqui em Portugal&#8230; por toda a parte! Fica-se com a sensa\u00e7\u00e3o de que tenha diminu\u00eddo o entusiasmo, a coragem de sonhar, a for\u00e7a para enfrentar os desafios, a confian\u00e7a no futuro; entretanto, vamos navegando nas incertezas, na precariedade sobretudo econ\u00f3mica, na pobreza de amizade social, na falta de esperan\u00e7a. A n\u00f3s, como Igreja, cabe a tarefa de nos fazermos ao largo nas \u00e1guas deste mar, lan\u00e7ando a rede do Evangelho, sem apontar, sem acusar ningu\u00e9m, mas levando \u00e0s pessoas do nosso tempo uma proposta de vida, a de Jesus: levar o acolhimento do Evangelho, convidar para a festa uma sociedade multicultural; levar a proximidade do Pai \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de precariedade, de pobreza, que crescem sobretudo entre os jovens; levar o amor de Cristo onde \u00e9 fr\u00e1gil a fam\u00edlia e se encontram feridas as rela\u00e7\u00f5es; transmitir a alegria do Esp\u00edrito onde reinam o des\u00e2nimo e o fatalismo. Assim se exprime um escritor vosso: \u00abPara se chegar ao infinito, e julgo que se pode l\u00e1 chegar, \u00e9 preciso termos um porto, um s\u00f3, firme, e partir dali para Indefinido\u00bb (F. Pessoa, Livro do Desassossego, Lisboa 1998, 247). Queremos sonhar a Igreja Portuguesa como um \u00abporto seguro\u00bb para quem enfrenta as travessias, os naufr\u00e1gios e as tempestades da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, digo a todos, leigos, religiosos, religiosas, sacerdotes, bispos, a todos, a todos: n\u00e3o tenhais medo, lan\u00e7ai as redes. N\u00e3o vivais acusando \u00abisto \u00e9 pecado, isso a\u00ed n\u00e3o \u00e9 pecado\u00bb. Vinde todos\u2026 depois falamos. Mas, primeiro, sintam o convite de Jesus, depois vir\u00e1 o arrependimento e enfim a proximidade de Jesus. Por favor, n\u00e3o transformem a Igreja numa alf\u00e2ndega: aqui entram os justos, os que est\u00e3o em ordem, os que est\u00e3o bem casados\u2026 todos os outros l\u00e1 fora. N\u00e3o. A Igreja n\u00e3o \u00e9 isto. Justos e pecadores, bons e maus, todos, todos, todos. Ser\u00e1 depois o Senhor a ajudar-nos a resolver este assunto. Mas todos. De cora\u00e7\u00e3o vos agrade\u00e7o, irm\u00e3os e irm\u00e3s, a aten\u00e7\u00e3o prestada, apesar de aqui ou ali vos ter aborrecido; agrade\u00e7o-vos tudo o que fazeis, o exemplo, sobretudo o exemplo sem alarde, e a const\u00e2ncia: esse levantar-se todos os dias para come\u00e7ar de novo ou para continuar o que se come\u00e7ou. Como costumais dizer: Muito obrigado\u2026 pelo que fazeis! E confio-vos a Nossa Senhora de F\u00e1tima, \u00e0 guarda do Anjo de Portugal e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o dos vossos grandes Santos e, aqui em Lisboa, de modo especial a Santo Ant\u00f3nio (vo-lo roubam os de P\u00e1dua), ap\u00f3stolo incans\u00e1vel, pregador inspirado, disc\u00edpulo do Evangelho atento aos males da sociedade e cheio de compaix\u00e3o pelos pobres. Que Santo Ant\u00f3nio interceda por v\u00f3s e vos d\u00ea a alegria duma nova pesca milagrosa. Depois contais-me, sim? E, por favor, n\u00e3o vos esque\u00e7ais de rezar por mim. Obrigado!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mosteiro dos Jer\u00f3nimos, Lisboa<\/p>\n<p>Quarta-feira, 2 de agosto de 2023<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":293089,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"default","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[558,274],"class_list":["post-294728","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-jmj-lisboa-2023","tag-papa-francisco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/294728","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=294728"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/294728\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/293089"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=294728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=294728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=294728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}